Em meio a eleições, incertezas tributárias, aumento de custos e preços elevados, as usinas de açúcar e etanol anunciaram aquisições, fizeram investimentos e navegaram em um contexto que mistura otimismo com o futuro e cautela com o presente. Sem dúvida, o ano de 2022 deixará uma marca muito própria na história de diversas companhias.
Todo esse contexto foi trazido à tona na edição de 9 de dezembro da newsletter NC+, enviada com exclusividade aos assinantes. Agora, este texto é compartilhado com todos os leitores do portal, como uma demonstração de carinho por aqueles que nos acompanharam ao longo do ano.
Além disso, a partir de amanhã, 21, a equipe do NovaCana entrará em recesso de fim de ano – com retorno marcado para 9 de janeiro de 2023.
Aproveite esse período para rememorar alguns dos momentos mais marcantes do ano por meio desta retrospectiva e, também, na nossa página especial de fim de ano.
O ano começou levantando vários temas que permaneceriam relevantes ao longo de 2022. Em janeiro, logo depois da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustível (ANP) comemorar o cumprimento de 96,8% da meta do RenovaBio, a reguladora também precisou começar a entender o que estava levando a uma alta nos preços dos CBios, a despeito dos estoques de passagem elevados.
Outra movimentação que se desenhava era a interferência do governo no preço dos combustíveis. Os estados argumentavam que a alta não era derivada do ICMS e chegaram até mesmo a anunciar o fim do congelamento do imposto, embora tenham eventualmente recuado. Por sua vez, o governo de Jair Bolsonaro estudava alternativas para zerar os tributos federais sobre os combustíveis, gerando novos atritos com os governadores ao incluir o ICMS na proposta.
Além disso, a questão da venda direta de etanol – que parecia ter se encerrado em 2021 – voltava à tona, com Bolsonaro barrando a participação das cooperativas e gerando incertezas jurídicas.
Mas o ano também começou com um movimento pouco visto: o anúncio do fim da recuperação judicial do grupo Moreno, sem a necessidade de liquidação dos ativos. Poucos dias depois, o grupo Diné obteve a aprovação de seu plano de recuperação.
Além disso, a Pedra Agroindustrial celebrou a compra de sua primeira unidade fora de São Paulo, a usina Cedro, que segue em construção. Já a São Fernando – que eventualmente também seria comprada pelo grupo – tinha um novo leilão agendado e, posteriormente, adiado.
Além, disso, em plena entressafra, o setor sucroenergético tentava entender os impactos do clima para a próxima temporada. A União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica) descartava um início precoce da colheita da colheita 2022/23 e já havia quem falasse em atraso. Para completar, especialistas apontavam tanto o aumento dos gastos com adubação quanto a necessidade de moer mais para diluir as despesas.
Em fevereiro, a busca por soluções políticas para a alta no preço dos combustíveis se intensificou e duas Propostas de Emenda à Constituição (PECs) foram apresentadas. A primeira é derivada da proposta de Bolsonaro e visava zerar impostos, enquanto a segunda previa uma série de auxílios e foi apelidada de “PEC Kamikaze”. Ao mesmo tempo, negociações levavam para frente um projeto de lei de mudanças no ICMS, que ainda encontrava resistência.
Com isso, o setor sucroenergético começou a ficar mais atento quanto ao impacto somado das adversidades climáticas e das mudanças nos impostos sobre combustíveis – o BTG Pactual calculou que a pressão poderia levar a uma queda de 7,5% no valor do etanol nas usinas. O sentimento de incerteza levou a CerradinhoBio a desistir de abrir capital na bolsa de valores.
Para completar, os primeiros números referentes à venda direta de etanol não trouxeram os efeitos desejados. Contudo, os resultados não eram considerados amostras reais do potencial desta modalidade, já que muitas empresas ainda aguardavam os ajustes das regras tributárias, realizado apenas em meados do mês.
De qualquer modo, 21 consultorias ouvidas pelo NovaCana enxergavam uma safra de recuperação. Outros levantamentos apontavam também para queda global nos preços do açúcar e alta nacional no valor dos combustíveis, puxada pelos créditos do RenovaBio.
Mas o cenário estava prestes a mudar com a invasão da Rússia à Ucrânia. Em um primeiro momento, os preços dos grãos dispararam e já se falava em alta nos fertilizantes. O conflito ainda adicionou pressão sobre o mercado de combustíveis.
A guerra, a aproximação das eleições e problemas de abastecimento levaram as atenções para a política de preços da Petrobras em março, inclusive com tentativa de interferência direta por parte de Jair Bolsonaro. Seguindo a tendência de diversos países que buscavam soluções para a alta nos combustíveis, o Brasil aprovou a mudança no ICMS que estava em negociação. O valor fixo por litro, no entanto, foi “driblado” pelos governadores.
Do lado das sucroenergéticas, as empresas começavam a sentir os efeitos do conflito no leste europeu, até mesmo com projeção de impactos nos fluxos de caixa. As usinas se preparavam para reduzir o uso de fertilizantes e as perspectivas para a produção de etanol caíram, o que refletiu no mercado global de açúcarmercado global de açúcar.
Outra movimentação política que afetou o setor foi o fim do imposto de importação sobre açúcar e etanol, que gerou repercussão especialmente entre as usinas que processam milho. Além disso, o governo começou a desenhar um mecanismo de hedge para os CBios visando previsibilidade de preços.
Ao mesmo tempo, novos investimentos continuaram a ser anunciados. Segundo levantamento do NovaCana com base em dados da ANP, 23 usinas estavam em construção e 50 em processo de ampliação.
O mês ainda foi marcado por um novo leilão da São Fernando, que decretou a Pedra Agroindustrial como vencedora – a usina, contudo, não voltará a operar, já que seus equipamentos serão destinados à unidade Cedro. Já a USJ teve seu plano de recuperação judicial aceito pela justiça.
Ainda em março, Bolsonaro decidiu demitir o presidente da Petrobras, já anunciando a nomeação de Adriano Pires. O nome do consultor, no entanto, foi questionado e ele se recusou a entregar a relação de clientes; assim, logo no começo de abril, Pires acabou abrindo mão do cargo.
Para fechar, houve o lançamento da quinta edição da Conferência NovaCana, após dois anos de paralisação por conta da pandemia de covid-19.
Abril é o mês que marca o início oficial da safra de cana-de-açúcar. A temporada 2021/22, entretanto, terminou com a menor moagem em uma década e a perspectiva era de atraso para a retomada da colheita. O NovaCana também apurou que a cogeração caiu 10,6% em 2021. Para completar, o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) apontava uma dificuldade para a adoção de novas variedades nas usinas.
De qualquer modo, as perspectivas do Itaú BBA eram positivas, ainda que o banco não enxergasse muito espaço para expansões. Já o Rabobank observava tanto a estagnação do consumo global de açúcar quanto os efeitos da guerra entre Rússia e Ucrânia, além de projetar excedente na fabricação do adoçante. O Pecege, por sua vez, reforçava o peso dos insumos nos custos de produção.
Além disso, os olhares seguiam voltados para a Petrobras. José Mauro Coelho foi indicado para a presidência da estatal, em um movimento que parecia ser favorável aos biocombustíveis. O processo de aprovação foi rápido, mas sua permanência no cargo também seria breve – pouco mais de 40 dias depois da nomeação, Bolsonaro iniciou mais uma troca.
Neste ponto, todo o mercado de combustíveis encontrava dificuldades, com o Brasil apresentando uma das gasolinas mais caras do mundo e o abastecimento de etanol comprometido em Minas Gerais. Ao mesmo tempo, as distribuidoras de combustíveis iniciavam um movimento para pedir mudanças no RenovaBio, tentando conter os preços dos créditos.
Ainda assim, as sucroenergéticas encontravam motivos para comemorar. O CTC anunciou que havia dobrado a área plantada com cana transgênica e, poucos dias depois, lançou sua sétima variedade geneticamente modificada. Já a Raízen pretendia aplicar R$ 300 milhões em uma planta de biometano, enquanto a Inpasa divulgava investimentos de R$ 1 bilhão na ampliação de sua usina em Nova Mutum (MT) – e o etanol de milho quebrava recordes. Para fechar, um levantamento do NovaCana, apontou que as sucroenergéticas contrataram mais de R$ 1,4 bilhão em financiamentos via BNDES em 2021.
Pelo lado negativo, ações de fiscalização encontraram trabalhadores sem registro e em condições análogas à escravidão em canaviais de Araçatuba (SP) e de diversas cidades mineiras. Apesar dos avanços em várias áreas, o setor sucroenergético insiste em trazer para o presente os momentos mais tristes de sua história.
Em maio, com a safra de cana efetivamente em andamento, uma pesquisa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostrou que as usinas estavam mais pessimistas que o mercado em relação à moagem de 2022/23. Naquele momento, embora o preço do etanol tivesse começado a cair, a alta da gasolina levou algumas companhias a cancelarem contratos de exportação de açúcar para focar no biocombustível.
Mas o que realmente marcou o período foram as aquisições de usinas. A Jalles Machado comprou a Santa Vitória por R$ 704,86 milhões – em um movimento chamado de “desafiador” pelo BTG Pactual e de“administrável” pela Fitch Ratings – e a Melhoramentos passou a ser dona da Vale do Paraná. Em contrapartida, a Tereos anunciou a paralisação da usina Severínia.
Além disso, o setor demonstrou que está considerando seriamente a fabricação de novos produtos, como hidrogênio verde, biocombustível de aviação, biometano e biogás. A Geo Biogás & Tech afirmou ver um potencial para 70 novas plantas de biogás nos próximos anos e a Raízen prometeu integrar o produto a todas as suas usinas. Neste mesmo mês, a gigante sucroenergética anunciou duas novas usinas de etanol de segunda geração (E2G).
O setor de etanol de milho também estava olhando à frente. A União Nacional do Etanol de Milho (Unem) projetou 4,5 milhões de litros em 2022/23, enquanto a ANP acompanhava 11 construções e sete ampliações em andamento e a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) falava em 33 novas usinas até 2031. Antes do final do mês, a Inpasa também iniciou suas atividades em Dourados (MS).
No aspecto político, Bolsonaro afirmou que uma nova alta de preços na Petrobras poderia “quebrar o Brasil”, porém especialistas falavam no risco de desabastecimento em caso de congelamento de preços. Em meio à crise, o presidente optou por demitir o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, e nomear Adolfo Sachsida.
Além disso, o texto que coloca um teto de 18% na cobrança do ICMS sobre os combustíveis foi aprovado na Câmara dos Deputados. No Senado, a perspectiva era de uma votação em breve.
O começo de junho veio com fortes chuvas e prejuízos em Pernambuco. No Centro-Sul, por sua vez, consultorias ouvidas pelo NovaCana demonstravam cautela em suas perspectivas para a safra e apontavam para um pequeno superávit global na temporada 2022/23.
Além disso, o movimento para redução dos preços dos combustíveis dava passos decisivos, com Jair Bolsonaro anunciando suas intenções de zerar os tributos federais sobre gasolina e etanol. Considerando também o teto do ICMS – que foi aprovado e sancionado (ainda que com vetos) –, surgiu no mercado uma preocupação com a competitividade do etanol; e isso gerou uma PEC que passou no Senado.
Ainda na esfera política, a medida provisória que resolveu os impasses sobre a venda direta de etanol foi aprovada no Senado. Para completar, Caio Paes de Andrade assumiu a presidência da Petrobras sem cerimônia.
O mês também teve outros anúncios de interesse para o setor sucroenergético, como o investimento de R$ 500 milhões da BSBios em uma usina de etanol de trigo e o lançamento do primeiro açúcar mascavo rastreado por blockchain.
O segundo semestre de 2022 começou com o avanço de um projeto que declarava estado de emergência até o fim do ano e prometia auxílios para caminhoneiros, taxistas e o setor de etanol. Embora o processo de votação tenha sido conturbado, o texto foi aprovado e carregou consigo a PEC que garante a competitividade dos biocombustíveis na esfera tributária.
Mas julho acabou sendo marcado mesmo pelo recorde no preço médio dos CBios, que ultrapassou R$ 200. A alta gerou uma investigação no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e levou o Comitê RenovaBio a recomendar o adiamento do prazo para cumprimento das metas; a opção adotada foi mudar a data de dezembro deste ano para setembro de 2023.
Entre os anúncios de destaque do período, a Vibra e a Copersucar firmaram uma parceria para a comercialização de etanol com pretensões de movimentar 9 bilhões de litros já no primeiro ano. Além disso, muitas empresas divulgaram seus resultados referentes à safra 2021/22, incluindo as sucroenergéticas com ação negociada em bolsa.
Para completar, o NovaCana começou a publicar uma série de entrevistas com os palestrantes da Conferência NovaCana. Encabeçaram a lista: Luciana Torrezan (S&P Global Platts), Caroline Perestrelo (Santander), Haroldo Torres (Pecege) e Abel Leitão (Brasilcom).
Nossa equipe de jornalistas ainda explorou como mudanças no programa de biocombustíveis da Califórnia afastaram as usinas brasileiras. O portal também publicou duas reportagens sobre aquisições de sucroenergéticas: a primeira explora os casos mais recentes e a segunda traz perspectivas de especialistas.
Mas, retomando as notícias negativas, trabalhadores em situação análoga à escravidão foram resgatados em Naviraí (MS) e Guariba (SP).
Em agosto, o setor recebeu a notícia de que a BP Bunge Bioenergia colocou suas usinas à venda. A Raízen e o fundo Mubadala se interessaram pelo negócio e apresentaram ofertas. Até o momento, no entanto, a questão não foi concluída.
De qualquer modo, a Raízen não ficou parada. Em plena preparação para ingressar no Ibovespa, a companhia fez uma parceria com a ASR Group para a venda de açúcar rastreável e emitiu R$ 2 bilhões em debêntures, de olho nos investimentos em E2G.
Por sua vez, a ANP sofreu uma tentativa de ataque hacker e vários de seus sistemas ficaram fora do ar. A reguladora demorou mais de uma semana para restabelecer os primeiros serviços e algumas informações de interesse do mercado seguem sem atualização desde então.
Ainda em agosto, a justiça aceitou o pedido de recuperação judicial da Nova Canabrava e confirmou o encerramento da recuperação da Moreno. Já a Atvos completou dois anos desde o início de seu plano de recuperação, mas a companhia ainda não solicitou o fim do processo.
Entre os investimentos sucroenergéticos divulgados no mês estão os mais de R$ 120 milhões aplicados pela Jacarezinho, do grupo Maringá, o financiamento de R$ 156 milhões feito via BNDES para produtores de cana ligados à Coruripe e a captação “verde” de US$ 12 milhões da Tereos. Além disso, ICM e Impacto fecham um acordo para a construção da primeira usina de etanol de milho da Bahia. Por fim, um levantamento do NovaCana também apontou que 24 termelétricas a biomassa de cana estavam sendo implantadas.
E a série de entrevistas com palestrantes da Conferência NovaCana continuou com a presença de Thiago Duarte (BTG Pactual), Tiago Medeiros (Czarnikow), Marcos Rossi (BNDES), Luiz Gustavo Junqueira (Alta Mogiana) e Manoel Pereira de Queiroz (Banco Alfa).
Setembro foi o mês da Conferência NovaCana 2022. Para finalizar a nossa série de entrevistas com palestrantes, conversamos com Vanessa Gasch, do Imea.
Entre as maiores polêmicas do período estavam as propostas do Ministério de Minas e Energia (MME) para mudanças no RenovaBio. As sugestões não foram bem recebidas pelo setor sucroenergético e pela Frente Parlamentar Mista do Biodiesel; a pressão levou a pasta a propor um adiamento da decisão para depois das eleições. Ao mesmo tempo, pesquisadores e a ANP propunham alternativas para o setor de grãos ter mais presença no programa.
Outro tema em alta envolvia as reduções no preço da gasolina nas refinarias pela Petrobras. Embora a estatal argumente que os valores estão ligados à paridade de importação – o que foi respaldado por analistas ouvidos pelo Estadão –, o caráter eleitoreiro das decisões também foi observado. As quedas, inclusive, acentuaram a perda de competitividade do etanol.
Ainda em relação às eleições, o NovaCana reuniu as promessas relacionadas ao setor entre todos os candidatos à presidência. Neste momento da disputa, o empresário Rubens Ometto, da Cosan, já aparecia entre os maiores doadores do pleito.
Outro levantamento do NovaCana apontou que as sucroenergéticas haviam captaram R$ 8,9 bilhões com debêntures incentivadas desde a implantação desta possibilidade, em junho de 2019, até junho deste ano. Além disso, reportagens exclusivas compararam como foi o desempenho de 24 sucroenergéticas em 2021/22 a partir de 20 indicadores e de que forma a continuidade de impostos zerados pode afetar o Ebitda de grandes grupos do setor em 2023.
Entre os anúncios do mês, a Cotrijal divulgou que pretende investir R$ 300 milhões para construir uma usina de etanol de grãos no Rio Grande do Sul. Já a Inpasa passou a operar com capacidade duplicada em Dourados (MS) e começou estudos para uma nova unidade em Sidrolândia (MS). Por sua vez, a São Martinho iniciou investimentos para aumentar a flexibilização de seu mix de produção. E, para completar, a GranBio vendeu seus ativos de cana-energia para a australiana Nuseed.
A realização do primeiro turno das eleições e os preparativos para o segundo, motivaram muitas discussões no setor em outubro. A bancada ruralista analisava os novos nomes para o Congresso e especialistas tentavam entender as tendências para os combustíveis, considerando Bolsonaro e Lula. Aliás, enquanto o atual presidente colocava a Petrobras sob pressão, dificultando novos ajustes nas refinarias, Lula ensaiava uma aproximação com o setor de etanol e com o agro em geral. Após a vitória de Lula, empresários explicitaram suas desilusões com Bolsonaro.
Outro tema em alta era a exportação brasileira de milho, que já acumulava mais que o dobro do volume visto no mesmo período de 2021. Ainda em novembro, as cidades de Julio de Castilhos (RS) e Rondonópolis (MT) anunciaram o interesse de investidores na construção de usinas de etanol com o grão.
Além disso, poucos dias após um estudo da McKinsey apontar que o Brasil pode dominar 15% do mercado global de créditos de carbono em 2030, o MME propôs a redução das metas do RenovaBio para 2023. Ainda marcando o desaquecimento do setor, apenas duas sucroenergéticas comercializaram energia no leilão A-5.
Outra notícia negativa foi a explosão de tanques na usina Caeté, o que levou a uma interdição parcial da unidade. Já a usina Porto Rico se envolveu em um imbróglio por conta de denúncias de assédio eleitoral. Para completar, uma pesquisa do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) apontou que a maior parte das geradoras de energia renovável da América Latina não possuem políticas de gênero.
Por sua vez, a equipe de reportagem do NovaCana se debruçou sobre os temas apresentados na Conferência NovaCana e trouxe diversas reportagens. Entre elas: perspectivas para a safra de cana 2023/24,, projeções para o mercado global de açúcar, análises sobre as propostas do MME para mudanças no RenovaBio, números da venda direta de etanol, cálculos da rentabilidade do etanol de milho, a aposta da CerradinhoBio no grão, a forma como a agenda ESG pode ajudar na captação de recursos por parte das usinas, maneiras de driblar o aumento dos custos e, até mesmo, carros elétricos.
Em novembro, com as eleições definidas – e Rubens Ometto se consolidando como o maior doador –, chegou o momento de iniciar a transição para o novo governo. Em um contexto de alta dos combustíveis, o presidente da Unica, Evandro Gussi, passou a integrar o grupo temático do agronegócio; além disso, a equipe de Minas e Energia optou por nomes técnicos.
Os movimentos políticos, segundo o Itaú BBA, levaram a uma alta no preço dos CBios. Ainda em relação ao RenovaBio, a ANP começou o mês atualizando a composição do grupo técnico do programa.
Entre as sucroenergéticas, três grupos aprovaram projetos para a emissão de debêntures incentivadas, a FS investiu R$ 115 milhões na compra de vagões para o transporte ferroviário de etanol, a Uisa confirmou sua fábrica de levedura de R$ 53 milhões e a australiana Nuseed divulgou a meta de ocupar mais de 400 mil hectares com cana-energia. Além disso, a BP Bunge segue analisando as propostas de Mubadala e Raízen.
A gigante sucroenergética, aliás, não economizou nas novidades. Ao mesmo tempo em que paralisou a usina Santa Helena, a Raízen também anunciou a construção de cinco novas plantas de etanol de segunda geração – um produto em alta demanda, segundo o vice-presidente da companhia. Conforme o BTG Pactual, os investimentos em E2G e biogás podem render um valor de mercado de R$ 40 bilhões. Para completar, a Raízen ainda afirmou que pretende elevar sua moagem em 8% em 2023/24.
Mas o momento é de cautela. O analista do BTG Pactual, Thiago Duarte, falou sobre a necessidade de mudanças nas usinas para os “anos difíceis” à frente. O Itaú BBA também fez alertas relacionados às incertezas tributárias e ao RenovaBio, além de analisar uma década de disparidade entre as sucroenergéticas.
Internacionalmente, a Índia definiu uma cota inicial de exportações de 6 milhões de toneladas de açúcar. O anúncio levou a uma elevação dos preços e as usinas do país passaram a renegociar contratos.
Dezembro começou com a notícia de um recorde na exportação de açúcar. Além disso, a BBF anunciou investimentos de R$ 5 bilhões que incluem uma usina de etanol de milho.
Na esfera política, o governo de transição adicionou dois nomes relevantes do setor para o grupo técnico da agricultura: o presidente da Associação de Produtores de Açúcar, Etanol e Bioenergia (Novabio), Renato Cunha; e um dos responsáveis pela criação do RenovaBio, Miguel Ivan Lacerda. Além disso, Caio Paes de Andrade foi convidado para assumir secretaria no governo de São Paulo, abrindo espaço para novas mudanças na Petrobras.
Para completar, o NovaCana publicou um levantamento das cidades com os canaviais mais produtivos do Brasil em 2021. Outras reportagens exclusivas incluem números do Pecege sobre a performance financeira do setor no primeiro trimestre de 2022/23 e os custos de produção das usinas do Nordeste.
No âmbito da política, os estados aprovaram o aumento do ICMS. Enquanto isso, no programa RenovaBio, Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) definiu a meta de aquisição de créditos pelas distribuidoras em uma quantia abaixo do estipulado no início do programa. Ainda sobre o mercado de créditos de descarbonização, o MME sugeriu que a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) supervisione o mercado dos títulos. Além disso, as funcionalidades da RenovaCalc foram reestabelecidas.
Localmente, o investimento para construção de uma usina de etanol de milho em Júlio de Castilhos (RS) foi estimado em R$ 464 milhões. Além disso, a Pedra Agroindustrial conseguiu reverter uma decisão da Aneel para implantar termelétrica na usina Cedro. No âmbito global, a escassez de açúcar europeia pode beneficiar a importação do produto brasileiro.
O final de ano também foi agitado na ala financeira das usinas. A Jalles Machado aprovou a emissão de células de crédito bancário, enquanto a São Martinho e a Alcoeste tiveram a emissão de debêntures aprovadas.
No período, a Raízen também perdeu um recurso em ação, no que receberia cerca de R$ 500 milhões. Além disso, a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) pediu o cancelamento de benefícios fiscais à Fan, distribuidora alvo de um processo de aquisição pela Raízen.
O futuro ministro da Fazenda, Fernando Haddad, também deu declarações sobre o mercado de combustíveis. Haddad prometeu analisar o relatório do orçamento esperar a decisão do Congresso sobre a PEC da Transição. Ele também disse que o novo presidente da Petrobras deve ser alguém que entenda o setor. Por fim, admitiu que houve erro de condução, por parte do governo de Dilma Rousseff (PT), em relação à política de preços dos combustíveis que prejudicou o etanol.
Na metade do mês, O Ministro da Economia, Paulo Guedes, e o ministro de Minas e Energia, Adolfo Sachsida, assinaram o acordo fechado com o STF com representantes de estados, União e Congresso para resolver o impasse do ICMS sobre combustíveis. A economista-chefe do Inter, Rafaela Vitória, diz que não basta aumentar os impostos, pois é preciso analisar os gastos.
O grupo Mubadala Capital fez um acordo com os bancos credores da Atvos para adquirir o controle da sucroenergética. Além disso, executivo Ricardo Knoepfelmacher, poderá ficar com 5% da empresa em ação que faz parte da mesma negociação.
Além disso, o NovaCana publicou uma análise feita pelo Pecege em relação aos resultados financeiros das usinas no ciclo 2021/22. Os números foram positivos na média.
Renata Bossle – NovaCana
Com reportagem adicional de Gabrielle Rumor Koster