Análise com grupos de açúcar e etanol, reunindo 26 usinas, foi realizada pelo Pecege; amostra teve um faturamento total de R$ 5,68 bilhões no período
Com um certo distanciamento, já é possível analisar os resultados financeiros das sucroenergéticas no primeiro trimestre do ciclo vigente, o de 2022/23. Diferentemente dos trimestres posteriores, o período foi marcado pela primazia do etanol no mix de produção das usinas.
No evento Expedição Custos Cana, promovido em outubro pelo Instituto de Pesquisa e Educação Continuada em Economia e Gestão (Pecege), o economista Haroldo Torres apresentou os números detalhados de nove grupos sucroenergéticos durante o primeiro trimestre de 2022/23, ou seja, de abril a junho de 2022.
As empresas selecionadas são responsáveis por 26 usinas, distribuídas em seis estados. Juntas, elas moeram 30,96 milhões de toneladas no período em questão, com uma redução de 5,6% no comparativo com o mesmo período do ciclo 2021/22. A amostra ainda representou 17% do total esmagado no Centro-Sul, ou seja, 187 milhões de toneladas no intervalo de três meses.
Conforme Torres, as empresas participantes – Adecoagro, CerradinhoBio, Cocal, Companhia Mineira de Açúcar e Álcool (CMAA), Coruripe, Jalles Machado, São Martinho, Uisa (antiga Usinas Itamarati) e Zilor – têm capital aberto ou um portal de relação com o investidor estruturado. Assim, todas publicam trimestralmente suas demonstrações financeiras.
Ainda que o grupo seja restrito, ele apresenta as primeiras percepções sobre o que ocorreu no primeiro trimestre da safra.
Com um certo distanciamento, já é possível analisar os resultados financeiros das sucroenergéticas no primeiro trimestre do ciclo vigente, o de 2022/23. Diferentemente dos trimestres posteriores, o período foi marcado pela primazia do etanol no mix de produção das usinas.
No evento Expedição Custos Cana, promovido em outubro pelo Instituto de Pesquisa e Educação Continuada em Economia e Gestão (Pecege), o economista Haroldo Torres apresentou os números detalhados de nove grupos sucroenergéticos durante o primeiro trimestre de 2022/23, ou seja, de abril a junho de 2022.
As empresas selecionadas são responsáveis por 26 usinas, distribuídas em seis estados. Juntas, elas moeram 30,96 milhões de toneladas no período em questão, com uma redução de 5,6% no comparativo com o mesmo período do ciclo 2021/22. A amostra ainda representou 17% do total esmagado no Centro-Sul, ou seja, 187 milhões de toneladas no intervalo de três meses.
Conforme Torres, as empresas participantes – Adecoagro, CerradinhoBio, Cocal, Companhia Mineira de Açúcar e Álcool (CMAA), Coruripe, Jalles Machado, São Martinho, Uisa (antiga Usinas Itamarati) e Zilor – têm capital aberto ou um portal de relação com o investidor estruturado. Assim, todas publicam trimestralmente suas demonstrações financeiras.
Ainda que o grupo seja restrito, ele apresenta as primeiras percepções sobre o que ocorreu no primeiro trimestre da safra.
Mais investimentos e mais custos
Somando os dados padronizados dos nove grupos analisados, a amostra teve um aumento de 22,2% no faturamento: de R$ 5,68 bilhões no primeiro trimestre da safra anterior para R$ 6,94 bilhões.
No entanto, os custos dos produtos vendidos – como arrendamentos, fornecedores e Corte, Transbordo e Transporte (CTT) – subiram 32,3%. “Apesar da bonança do lado do etanol, teve o impacto do diesel. As operações mecanizadas foram muito afetadas no começo da safra”, complementa Torres.

Com isso, enquanto a receita começa a se acomodar, os custos dos produtos vendidos foram mais expressivos. Já os investimentos, representados pelo capex, aumentaram 19% no mesmo período, demonstrando alta logo no início da temporada.
“O setor vai precisar trabalhar em melhoria de eficiência operacional para conseguir atenuar o impacto do aumento de custos”, Haroldo Torres (Pecege)
Observando os trimestres pela margem Ebitda com ajuste pelo capex de manutenção – índice usado para comparar usinas de diferentes perfis de originação da cana (própria ou de terceiros) –, o Pecege observou uma queda de 21,6% no resultado.
“O que nos espera para essa safra é uma redução da margem Ebitda da geração de caixa, pois passamos por um período muito forte de elevação de custos, mas cremos que essa variação vá se suavizar ao longo da safra pelo efeito da melhor produtividade, que ajudará a catalisar a diluição de custo fixo”, explica Torres.
Outro indicador, que relaciona a receita pela moagem efetiva, teve um aumento de 29,5% no mesmo comparativo. Conforme o Pecege, o resultado foi impulsionado pelo etanol.
Entretanto, todos os grupos da amostra tiveram altas no indicador de custos por conta da amortização de gastos com tratos culturais, investimentos em expansão e preço dos fertilizantes. Desta forma, o índice que soma os custos dos produtos vendidos com o capex, sendo balizado pela moagem efetiva, sofreu um aumento de 21,3%.
Já a eficiência operacional do grupo, representada pela margem Ebitda, teve uma queda de 5,4% motivada especialmente pela redução da produtividade e do volume produzido. De acordo com o Pecege, houve menor diluição de custos no período e o desempenho foi prejudicado pelo aumento da depreciação e amortização.
“Começamos com um trimestre muito positivo, mas já sinalizando que cara teria a safra 2022/23: com uma redução ligeira da margem mostrando que começamos a arrefecer o fenômeno de geração robusta de caixa”, Haroldo Torres (Pecege)
Resultados por tonelada
Já analisando os mesmos números por tonelada de cana moída, os grupos avaliados tiveram uma receita de R$ 173,13/t em 2021/22.
Segundo o Pecege, o incremento frente ao ciclo passado foi motivado pelos maiores preços dos produtos, pelo alto volume de venda do etanol em comparação com o açúcar e pelo aumento na participação do etanol no mix de produção.
Os custos, por sua vez, foram de R$ 132,82/t. Nesse caso, motivaram o resultado fatores como menor diluição de custos fixos agrícolas – por conta da menor produção de açúcares totais recuperáveis (ATR) – e aumento do valor do Consecana. No caso desta análise, os custos dos produtos vendidos foram observados sem a depreciação.
Com isso, o lucro bruto médio das empresas ficou em R$ 91,44/t.

Considerando uma relação de receitas operacionais de R$ 5,96/t e de despesas operacionais de R$ 19,08/t, o Ebitda contábil dos grupos atingiu R$ 78,33/t no primeiro trimestre de 2022/23. De acordo com o instituto, as despesas subiram porque o diesel ficou mais caro e porque houve incremento nas despesas administrativas com serviços de terceiros.
Já o Ebitda ajustado ao capex foi de R$ 15,12/t no período. Os investimentos realizados foram, em grande parte, para expansão e tratos culturais.
Alavancagem menor
Além disso, no comparativo com o primeiro trimestre da safra anterior, os números apontam que o setor se desalavancou. De acordo com a análise, o endividamento total médio caiu 21,2% e o endividamento oneroso médio baixou 8,7%.
Segundo o Pecege, com a redução da dívida bruta a curto prazo, as usinas concentraram as operações de capital de giro no longo prazo, além de fazerem transações no mercado de capitais, como por meio de emissão de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs)
No primeiro trimestre da safra passada, o grau de alavancagem foi de 2,97 vezes e, na atual temporada, ele foi 1,59 vez. A redução, conforme o instituto, demonstra o impacto do aumento da taxa de juros, o que pode inibir investimentos e tensionar as despesas financeiras para essa safra.
Nos grupos analisados, a liquidez corrente aumentou, em média, 12,8%. “O setor melhorou a sua liquidez, sua disponibilidade de caixa, mostrando que dívidas foram alongadas e que foi gerado um caixa substancial no primeiro trimestre. Mas foi nesse mesmo período que aumentamos em 2 pontos o mix para o etanol, que é o ativo de maior liquidez”, explica Torres.
CBio e etanol em foco
No primeiro trimestre de 2022/23, a comercialização de açúcar da amostragem caiu 32,8%, enquanto a de etanol aumentou 13,6%. Olhando para os preços, por sua vez, o etanol teve um ganho de 24% na comparação safra contra safra. Além disso, o crédito de descarbonização (CBio) sofreu uma valorização de 306,2%.
Conforme Torres, o cenário incentivou as usinas a terem um mix de produção mais alcooleiro, pois o valor da gasolina havia se elevado substancialmente no mercado doméstico, assim como o dos CBios. Inclusive, ele destaca que a comercialização dos créditos cresceu 167,8% no trimestre. “A produção de etanol estava sendo baseada nesses dois movimentos”, completa.
O economista ainda explica que, como o preço do etanol no mercado doméstico acompanha a gasolina, a alta foi intensificada a partir do início do conflito entre Rússia e Ucrânia, em fevereiro. Na época, o barril de petróleo brendt atingiu US$ 120, o que levou à elevação do preço do combustível fóssil.

Já o açúcar perdeu espaço, mesmo que tenha tido uma valorização de 19,2%. Enquanto isso, a energia elétrica teve baixa de comercialização de 4,7% e aumento de preços de 2%.
Cada trimestre tem uma história
Torres relembra que a temporada 2022/23 começou mais tarde devido aos reflexos do ciclo anterior, especialmente por conta da geada que atrasou o desenvolvimento fisiológico das plantas; além disso, a produtividade também foi penalizada.
Em termos de participação de cana própria e de terceiros na moagem dos grupos, ele observa que não houve uma alteração significativa entre os primeiros trimestres das duas temporadas analisadas: a parcela segue sendo de um terço de matéria-prima de fornecedores e dois terços de cana própria. “Há uma estrutura onde a maior parte é própria e isso impacta os indicadores”, destaca o economista.
No primeiro trimestre de 2021/22, 63,6% do volume de cana era próprio; já em 2022/23, a fatia foi de 64,7%.

Além disso, o mix de produção das usinas saiu de 54% para o renovável ante os 52% do primeiro trimestre de 2021/22. “Nós começamos a safra de um jeito e teremos os outros trimestres muito diferentes. No primeiro, a temporada era muito mais alcooleira”, reforça.
Torres destaca que o quadro se inverteu a partir de junho, quando entraram em vigor as medidas tributárias que alteraram o balanço entre o preço da gasolina e o do etanol nas bombas. Em São Paulo, por exemplo, o ICMS da gasolina saiu de 25% para 18% e do etanol de 13,3% para 9,57%.
Porém o maior impacto foi nos tributos federais sobre a gasolina. “Tínhamos uma variação expressiva de tributação do PIS/Cofins da gasolina em relação ao do etanol e perdemos isso”, completa. Com isso, a regra do jogo mudou em função de preços e indicadores, reduzindo o incentivo para as usinas produzirem o biocombustível.
Assim, ele afirma que, no segundo trimestre do ciclo 2022/23, o setor deu um “cavalinho de pau” e direcionou a produção para o açúcar, aproveitando um ganho em ATR e em produtividade. Para o terceiro trimestre, o mix para o açúcar deve ser mantido, porém, o desafio está na disponibilidade agroindustrial, ou seja, no aproveitamento de tempo.
Desta forma, para ele, essa vem sendo uma temporada com trimestres totalmente diferentes entre si. “Cada trimestre conta uma história e tem uma particularidade”, resume.
Perspectivas para os próximos meses
Conforme o Pecege, a safra começou com um nível de ATR muito baixo, cerca de 2,5% inferior ao da safra passada. O mesmo ocorreu com a produtividade média, que ficou 2,4% abaixo na comparação entre os primeiros trimestres dos dois ciclos.
No acumulado da temporada, Torres acredita que a produtividade deve ficar acima da média do ciclo passado: o rendimento de 67 toneladas por hectares em 2021/22 deve passar para algo em torno de 72 t/ha ou 73 t/ha em 2022/23. Já a concentração de ATR deve fechar um pouco abaixo na comparação anual, mas ainda em linha com o ano passado, conforme o economista.
Ele também observa que, no decorrer da temporada, as empresas começam a sentir a redução nos preços dos fertilizantes e defensivos, à medida que começa a suavizar o efeito da guerra e de outras características macroeconômicas globais. Para Torres, isso impactou muito os custos de tratos culturais.
Ainda de acordo com ele, o setor também buscou novas tecnologias e fez investimentos com o intuito de atenuar as dificuldades. “Caminhamos para uma estabilidade de preços, senão um cenário de retração do nível nominal de preços”, projeta.
O economista ainda prevê que a próxima entressafra será curta, uma vez que as indústrias ficaram mais tempo paradas. “Em função das chuvas, não estamos conseguindo maximizar o nosso ritmo, o que deve estender a safra com muitas usinas processando até dezembro. Algumas correm o risco de bisar a cana e iniciar uma safra mais cedo no ano que vem, a partir de março”, detalha.
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana
