Superintendente de agronegócio aponta que não vê um setor tão voltado para a agende “verde” quanto o de açúcar e etanol; para ele, cenário até mesmo antecede a atual onda de emissões

NovaCana 30 ago 2022 - 08:48 - Última atualização em: 01 set 2022 - 12:09

A produção de etanol, um combustível renovável e com menor pegada de carbono, colocou o setor sucroenergético no radar dos investidores preocupados com o meio ambiente. Mas o biocombustível não está sozinho: ao longo das últimas décadas, outras iniciativas transformaram o perfil das usinas, que estão cada vez mais voltadas para os princípios ambientais, sociais e de governança (ESG, na sigla em inglês).

Práticas mais sustentáveis, procurando o reaproveitamento de resíduos e tentando reduzir o impacto no campo, assim como investindo em projetos sociais e na sua própria governança, deixaram o setor sucroenergético cada vez mais atrelado à agenda ESG.

Com o envolvimento direto com os três pilares, as companhias do setor passaram a ter acesso aos chamados títulos “verdes”. Estas emissões são atreladas a metas ambientais e trazem vantagens financeiras para as empresas que atingem seus objetivos.

Para falar sobre este cenário e o contexto do ESG no setor sucroenergético, o superintendente de agronegócio do Banco Alfa, Manoel Pereira de Queiroz, estará presente na Conferência NovaCana 2022. O evento acontece em São Paulo (SP) nos dias 19 e 20 de setembro.

Ele será moderador do painel “Investimentos e captação do mercado ‘verde’”, que terá como palestrantes o sócio da FG/A, Juliano Merlotto, e o CEO da Raízen, Ricardo Mussa.

Agrônomo formado pela Universidade de São Paulo (USP), Manoel Pereira de Queiroz também é membro do Conselho Superior do Agronegócio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Ao longo de sua carreira, acumulou passagens pelos bancos Itau BBA, Votorantim e Rabobank, além de ter atuado na USJ Açúcar e Álcool.

cnc22 painel5 300822

A programação completa da Conferência NovaCana 2022 já está disponível. Clique aqui para se inscrever.

Queiroz conversou com o NovaCana sobre o tema que será abordado na Conferência, apontando a proximidade do setor com a agenda ESG. Confira a entrevista completa abaixo.

Você consideraria que o setor sucroenergético já tem um perfil mais voltado para o ESG do que outras áreas? Por quê?
Depende das áreas que a gente usa para comparar, mas o sucroenergético tem um enorme potencial não apenas para operações ESG, mas para o ESG em si. Do ponto de vista ambiental, o setor hoje é muito moderno, utiliza praticamente todos os seus subprodutos, reaproveita água e palha para matéria orgânica, praticamente tem uma economia circular. Então, eu chamaria o setor de “ESG friendly”, amigo do ESG. Com o RenovaBio, as usinas estão sendo beneficiadas financeiramente quanto menor a sua pegada de carbono. Quando você entra no social, a geração de empregos diretos e indiretos e os benefícios sociais que uma usina causa para a comunidade ao redor são muito grandes. A maioria das usinas tem uma consciência social muito grande, existem projetos de educação ambiental, escolares, de melhoria em vias de acesso. A governança também cresceu muito. Há alguns anos, era família que tocava; hoje, apesar de você ter bons grupos familiares, eles têm regras de governança claras, existe um conselho e a maioria das usinas é auditada.

“Acho difícil encontrar um setor que seja tão pró-ESG e que isso seja tão bem aproveitado como no sucroenergético no Brasil”, Manoel Pereira de Queiroz (Banco Alfa)

Em uma entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, o empresário Leontino Balbo falou que o greenwashing está institucionalizado no Brasil e que o atual modelo agrícola precisa mudar. Você concorda com essas afirmações?
Eu concordo parcialmente. O greenwashing é a prática de vender que uma empresa é verde e, na verdade, ser algo muito mais no discurso do que na prática. É óbvio que a Balbo, o Leontino em particular, tem um trabalho de vários anos, principalmente na parte de cultura regenerativa, então eu acho que ele olha de padrões muito elevados. O greenwashing é um problema, mas eu não o vejo no setor sucroenergético. Eu não lembro de um caso de você olhar para uma usina e falar “esse cara está fazendo mais marketing do que realmente pratica”. O que eu tenho sentido é que as práticas ESG nas usinas de cana-de-açúcar são realmente legítimas. Esse processo todo, inclusive do RenovaBio, faz com que as empresas queiram investir. Elas ganham se reduzirem, por exemplo, o uso de adubo mineral ou de óleo diesel, pois reduzem a pegada de carbono e fazem mais CBios com menos etanol. O crédito tem um valor no mercado, então existe um estímulo.

Nos últimos anos, houve um aumento no número de títulos verdes, muitos vinculados a metas relacionadas à agenda ESG. Como você vê esse cenário?
Tem um apelo da sociedade. Mudou a visão do capitalismo que a gente chamava de shareholder para o stakeholder; a empresa tem que ser responsável, não só por gerar lucro para o acionista, mas em gerar benefícios para funcionários, acionistas, comunidade local e a sociedade em geral. Essa visão de mercado vem sempre do consumidor, que também é eleitor e cidadão. O pessoal falava muito da geração Y, notem que ela já está chegando aos 40 anos, e essas novas gerações têm realmente uma preocupação com propósito. Como consumidoras que são, elas cobram isso das empresas. Isso faz com que as empresas se movimentem no sentido de agradar os seus stakeholders. Ter padrões elevados é importante não só para companhias do setor sucroenergético, mas para qualquer empresa do mundo. Nas operações ESG é a mesma coisa. No final das contas, é uma maneira de mostrar ao mercado: estou fazendo uma emissão na qual estou me comprometendo com alguns covenants ambientais que eu vou cumprir e eu sei que, se não cumprir, vou ter uma penalidade nessa operação financeira com o banco ou investidor. É uma forma pública de ele se comprometer. Se as metas forem bem definidas, se for uma ideia e um objetivo genuíno da empresa, isso é muito bom, é uma forma dele divulgar e de se obrigar a cumprir as metas. Agora, se você coloca metas muito frouxas, isso seria um bom exemplo de greenwashing: eu traço a meta, mas é fácil de conseguir, praticamente já faço.

O que motiva bancos e investidores a fazerem estas apostas?
É questionável se já existe uma diferença por parte do mercado, do investidor, se ele pagaria mais por um papel ESG. Tem gente que diz que sim, tem gente que diz que não, mas vamos lembrar que no maior fundo do mundo, o Black Rock, o presidente faz todo ano uma carta aos acionistas. Ele tem mais de US$ 10 trilhões administrados em fundos e nas cartas, já há alguns anos, ele tem falado sempre como é importante investir em empresas que tenham e levam em consideração o capitalismo de stakeholders. A conversa chegou no mercado financeiro, então, é difícil de mensurar se essa demanda já é maior ou não, mas esse fundo fala que, na análise de um investimento, vai dar importância a esse ponto. É assim que a gente fecha a cadeia e é por isso que há interesse em operações ESG.

Então, você acredita que a captação de recursos por meio de títulos verdes é uma boa alternativa para as sucroenergéticas? Há espaço para crescimento nesse mercado?
Sim, há espaço para crescer. As empresas têm o que mostrar, tem como ser medidas facilmente, tem como se mostrar e tem o que mostrar. Então, é uma boa alternativa de emissão para empresas sucroenergéticas.

O Brasil vem de uma série de notícias relacionadas ao meio ambiente que tiveram impacto internacional negativo. Mesmo assim, há interesse de fora por títulos verdes de sucroenergéticas brasileiras?
Acho que precisa separar um pouco o joio do trigo. Nós, no Brasil, temos lição de casa para fazer em relação ao meio ambiente. Não podemos tampar o sol com a peneira, principalmente no que diz respeito ao desmatamento. Acho que, hoje, esse é o maior calcanhar de Aquiles e ele está em uma região que não se planta cana; mas não existe zoneamento ecológico para se plantar cana na região amazônica. Existem problemas que somos nós que temos que resolver. Por outro lado, eu acho que existe uma falta de conhecimento lá fora. O investidor não sabe onde se planta cana, se está a dois mil quilômetros da floresta amazônica, então, as coisas boas que a gente faz aqui em relação aos pontos socioambientais precisam ser mostradas de uma forma melhor. O agro no Brasil, em geral, tem um problema muito grande de comunicação, de mostrar o que faz.

Outro ponto são as emissões de bonds de sucroenergéticas feitas no passado, que também geraram mal-estar.
Existem muitos títulos verdes no mercado local: Certificados Recebíveis do Agronegócio (CRAs), debêntures e tudo mais. No mercado internacional, grandes empresas como a Suzano ou a Raízen, por exemplo, conseguem emitir títulos e bonds verdes. No setor sucroenergético, houve a emissão de títulos lá no passado, que não eram verdes, e houve um grande default. Praticamente todas as empresas que emitiram bond, com exceção de uma ou duas conhecidas, entraram em recuperação judicial e tiveram problemas de liquidez. Mas, naquela época, já era uma tábua de salvação. A empresa não emitiu bond porque estava apta, mas porque não conseguiu mais crédito aqui dentro entre 2011 e 2012. Outro problema é que, para você emitir o bond, você tem uma série de custos fixos, portanto a emissão precisa ser de alto volume, então resulta em uma dívida muito grande. Uma empresa relativamente média – usinas de 5 milhões a 6 milhões de toneladas de capacidade – precisam fazer uma dívida muito pesada e que vence de uma vez só. Nesse mercado, você faz uma operação de sete anos e, até dois anos antes, tem que trocar essa dívida fazendo uma emissão nova e pré-pagar o débito. Só que o Brasil é um país que vive de crises. Às vezes, não abre o mercado nesses dois anos que a empresa teria de janela para emitir a dívida, e aí chega a época do vencimento, o volume é enorme, e vence tudo de uma vez só. Para emitir bond lá fora, a empresa tem que ter um tamanho relevante e a emissão não pode ser muito representativa sobre o total da dívida da empresa. Mas eu não acho que seja uma fonte muito segura; se eu fosse o CFO de uma empresa, não seria a minha primeira opção.

“O investidor estrangeiro pode vir ao Brasil com a renda fixa, pode comprar CRAs ou papéis de dívida de empresas e existe gente no mercado fazendo isso via fundo”, Manoel Pereira de Queiroz (Banco Alfa)

Como você mencionou, após anos de difícil acesso a crédito, as empresas do setor estão com um leque de possibilidades, como oferta de ações na bolsa de valores, CRAs, debêntures incentivadas e Fiagro. Como aproveitar esse momento e evitar os tropeços do passado?
Foram as emissões de dívida do passado que fizeram o índice de endividamento elevado. Aqui no Alfa temos feito bastante operação de CRA verde, temos estudado operações de debêntures incentivadas, feito bastante dívida bilateral. Acho que o que faz o erro não é o tipo da dívida, mas a gestão do passivo financeiro da empresa. É muito mais uma questão de o gestor financeiro saber financiar, saber atender níveis mínimos de endividamento, não dar um passo maior do que a perna, procurar se endividar em um prazo correspondente à maturação do investimento que está fazendo. Depende muito mais da empresa e o setor é muito heterogêneo. Vou citar uma empresa pública, que é São Martinho. Se você olhar o balanço nos últimos dez anos, vai ver que eles estão, uma hora mais endividados, outra hora um pouquinho menos. Mas eles passaram por esse período sem problema nenhum de crédito, cresceram e fizeram uma boa gestão financeira. Como eles, há várias outras empresas do setor que fizeram a lição de casa certinha. Por outro lado, tem as que não fizeram essa gestão bem-feita. As emissões de mercado de capitais estão aí mais para você diversificar o funding. Antigamente, você financiava só com banco. Hoje, se você acessar o mercado de CRA ou de debêntures, você tem investidor, fundo, pessoa física. Se você acessar o mercado de bonds, tem investidor lá fora que está comprando.

“Quando você diversifica a sua fonte de financiamento, você faz captações a custos e condições melhores. Essa é que deveria ser a tônica do gestor financeiro: diversificar a fonte e gerenciar bem”, Manoel Pereira de Queiroz (Banco Alfa)

O ciclo de investimento da cana é de seis a sete anos; e o que mais consome recurso é a renovação de canavial. Então, você tem que tomar dívida, na medida do possível, condizente com o prazo de maturação do investimento. As empresas que eu acompanhei e que tinham um caixa robusto passaram pelas crises que tivemos no setor. O nível de endividamento também precisa de atenção. Você não pode investir ou descapitalizar a empresa mais do que deveria. Mas as empresas estão aprendendo ao longo dos anos; a gestão financeira tem melhorado de forma bastante impressionante nos 20 anos em que eu acompanho as finanças das empresas de açúcar e álcool.

Os investimentos em biogás e biometano têm aumentado no setor, também visando negócios mais “verdes”. Como o mercado vê esse crescimento?
O mercado vê de forma muito boa. Particularmente, acho que tem dois enfoques aí e esse investimento pode ser causa e pode ser consequência. Nos anos 2000, as usinas investiram demais em expansão, achando que era necessário aumentar a área do canavial. Foram investimentos muito vultuosos e a produção cresceu muito, mas muita gente se endividou além da conta e as consequências disso foram sentidas ao longo dos anos. O que estamos vendo hoje no mercado é que, em vez de querer fazer expansão de área, as usinas estão investindo para tirar mais da mesma tonelada de cana. As aplicações estão indo no sentido de aumentar produtividade, ter mais cana por hectare. Estamos vendo técnicas como a meiosi, projetos que podem revolucionar a produção, o que é o caso da semente de cana que o CTC está pesquisando. E tem como tirar mais da mesma tonelada, com a cogeração de energia, por exemplo. O biogás tem potencial para ter o impacto de um novo Proálcool, na minha opinião. Você pega a torta de filtro e a vinhaça e transforma em um novo produto. Ou seja, está usando subprodutos e convertendo em valor agregado. E o biogás pode virar biometano, que pode suprir uma quantidade importante da própria frota da usina, diminuindo enormemente o consumo de combustível, o que reduz também os gastos e a pegada de carbono. Isso resulta em uma nota melhor na RenovaCalc, permitindo que você emita mais CBios. Quer dizer, tem toda uma dinâmica que está muito conectada.

Na sua opinião, como será o futuro do setor? Como as empresas podem se preparar?
O setor tem um potencial grande pela frente. Acredito que os investimentos vão vir e existe dinheiro para bons projetos. Realmente vejo um futuro brilhante para o setor de açúcar e etanol, mas é preciso que cada usina faça sua lição de casa bem-feita. Do ponto de vista de produção, é preciso ser eficiente: nós estamos em um setor que é tomador de preço, quem define valor é o mercado, então, a única coisa que o produtor de cana pode mexer é em custo.
Ou seja, além de ser muito bom na produção, tem que produzir cada vez mais barato, ficar por dentro de todas as tecnologias e ser eficiente, mais do que os concorrentes. A segunda questão que está em nosso controle é a boa gestão financeira.

“Uma empresa que tiver um bom controle de custos e boa gestão financeira tem futuro e consegue crescer nos piores momentos, mesmo com o setor enfrentando grande dificuldades”, Manoel Pereira de Queiroz (Banco Alfa)


Estas e outras discussões sobre a atual situação financeira do setor sucroenergético acontecerão durante a Conferência NovaCana 2022. A programação completa está disponível no site do evento.


Giully Regina – NovaCana


PUBLICIDADE BASF_NOV_INTERNAS BASF_NOV_INTERNAS