Em meio a uma melhor situação financeira das usinas, analista aponta que há uma série de empresas que tem porte, escala e qualidade para acessar o mercado acionário

NovaCana 02 ago 2022 - 10:13

De forma geral, as empresas de açúcar e etanol vivenciaram uma melhora em suas situações financeiras nos últimos anos. As companhias estão mais capitalizadas e menos alavancadas, o que permitiu inclusive, a volta do setor para a bolsa de valores, com a oferta pública inicial (IPO, na sigla inglês) da Jalles Machado e da Raízen.

Além disso, as sucroenergéticas passaram a contar com outras opções para captar recursos, facilitando novos investimentos. Entre as possiblidades estão os Certificados Recebíveis do Agronegócio (CRAs), as debêntures incentivadas e até mesmo os Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas da Agroindústria (Fiagros).

A temporada 2021/22, em especial, foi favorável neste quesito. Apesar da quebra de safra e da consequente menor produção, os preços atrativos garantiram a melhora da margem de lucro. O ciclo 2022/23, entretanto, tende a registrar custos que apertam as margens, de forma que as companhias precisam se preparar.

Para falar deste cenário, o analista de ações do banco BTG Pactual, Thiago Duarte, estará presente na Conferência NovaCana 2022, que acontece em São Paulo (SP) nos dias 19 e 20 de setembro. Ele será um dos palestrantes do painel “A nova realidade financeira das sucroenergéticas”, ao lado do gerente de agronegócios do Itaú BBA, Guilherme Bellotti, e do superintendente da área de indústria, serviços e comércio exterior do BNDES, Marcos Rossi.

Bacharel em ciência econômicas pela Universidade de São Paulo (USP), Duarte iniciou a carreira como analista de investimentos na Schroder Investment Management e, desde 2009, é analista de ações do BTG Pactual para os setores de agronegócio, alimentos e bebidas. Ele foi eleito o melhor analista para América Latina e Brasil por seis anos consecutivos, de acordo com o ranking da Institutional Investor.

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A programação completa da Conferência NovaCana 2022 já está disponível. Clique aqui para se inscrever.

Duarte conversou com o NovaCana sobre o tema que será abordado no painel da Conferência e trouxe sua visão sobre a situação econômica atual do setor. Confira a entrevista completa abaixo.

Você acredita que o crescimento dos custos de produção pode impactar o caixa das usinas nesta temporada?
Eu diria que sim, mas eu também acho que as empresas estão muito mais preparadas do que estiveram. Obviamente isso varia bastante, mas eu diria que o setor está muito mais capitalizado e menos alavancado do que esteve alguns anos atrás. No passado, uma inflação de custos da natureza como a que estamos vendo agora seria muito mais danosa e comprometeria muito a capacidade das companhias. A situação é mais confortável principalmente por conta dos resultados que o setor usufruiu nos últimos três anos.

Nesta safra, os resultados financeiros serão tão expressivos quanto os de 2021/22 ou há a possibilidade de uma menor margem de lucro?
Isso varia de acordo com a companhia, com a região em que opera e com os projetos, mas eu diria que as margens devem ser menores do que foram no ano passado. O ano passado teve uma alta de custos importante, principalmente para as usinas localizadas no Centro-Sul, mais notadamente no estado de São Paulo, que teve um impacto importante climático com estiagem, geadas e incêndios. Então, teve uma queda importante na disponibilidade de cana. Mas, por outro lado, teve uma dinâmica de preços bastante interessante. Foi um período que permitiu boa rentabilidade para o setor na média. Este ano, os problemas climáticos devem continuar tendo algum impacto. Algumas usinas devem ter uma melhora na disponibilidade de cana, mas ainda acreditamos que a recuperação será muito tímida. Além disso, a dinâmica de insumos e outros componentes de custo deve ser bastante desfavorável e, ainda por cima, deve ter preços menos favoráveis, particularmente para o etanol e principalmente neste segundo semestre de 2022. E acreditamos que isso terá reflexo no mercado de açúcar.

“2022 vai ser um ano sem nenhum alívio do lado de custos e com, possivelmente, preços menores”, Thiago Duarte (BTG Pactual)

Você pode comentar um pouco sobre o atual momento das sucroenergéticas, considerando especialmente os indicadores de endividamento e alavancagem?
O cenário bem mais favorável de preços envolve principalmente açúcar, etanol e energia, mas também outros subprodutos do processo, como é o caso do próprio CBio, que teve uma apreciação importante nos últimos tempos, ou mesmo biogás e etanol celulósico. Isso melhorou significativamente a condição financeira das usinas nos últimos três ou quatro anos. De certa forma, dá para afirmar que o setor hoje vive uma condição muito mais saudável do ponto de vista de endividamento. Na safra passada, por exemplo, o setor viu a primeira queda relevante em termos de endividamento total, algo que nós não víamos em muitos anos.

No ano passado, o setor voltou à bolsa de valores, com a entrada da Jalles Machado e da Raízen. Como você vê esse movimento?
Esse movimento, na verdade, é resultante da melhora na situação financeira do setor. As empresas mais equalizadas do ponto de vista financeiro, e talvez até mais bem geridas na perspectiva operacional, já começaram a encontrar espaço para listar suas ações em bolsa. Acreditando que esta dinâmica mais dura para custos e para o setor de etanol deve ser temporária, nós achamos que outras empresas de porte, com boa governança e gestão, podem voltar a almejar o mercado de capitais, particularmente o acionário, a partir do próximo ano.

Então, mais usinas devem fazer IPO em breve?
Eu acho que sim, conforme a rentabilidade do setor se estabilize em patamares melhores. Tem muito espaço. Esse setor ainda acessa muito pouco; dá para contar em uma mão só o número de empresas sucroenergéticas listadas em bolsa. Ainda há um grupo importante de empresas que tem porte, escala e qualidade para poder acessar o mercado acionário assim que as condições tanto do setor quanto do próprio mercado estiverem mais favoráveis. É um movimento em que acredito e faço votos para que continue nos próximos anos.

O BTG conta com linhas de crédito verde, com foco na agenda ESG (ambiental, social e de governança). Como tem sido a busca por estas opções? As companhias estão preparadas para atender às exigências?
Eu não trabalho na área de crédito, mas posso dizer que nós sentimos o mercado cada vez mais demandante por compromissos ESG que, de certa forma, estejam atrelados a alguns instrumentos de financiamento. Nós vemos o setor sucroenergético na vanguarda das principais métricas do ESG, seja pela questão do etanol como um combustível renovável e com capacidade de contribuir de forma relevante para as metas de descarbonização que o Brasil está se propondo a entregar nas próximas décadas, como da própria energia elétrica a partir da biomassa, que é outra fonte absolutamente necessária para cumprir algumas das agendas de maior uso de energia renovável. O setor também fez avanços importantes do lado de responsabilidade social e governança ao longo dos últimos vários anos, com mecanização de colheita e várias iniciativas no âmbito social. Ou seja, o setor é ótimo para se beneficiar e gerar esse tipo de instrumento que os investidores estão procurando, com o selo ESG de alta qualidade.

“Estamos assistindo um movimento muito saudável de democratização e privatização dos mecanismos de financiamento, notadamente no setor sucroenergético”, Thiago Duarte (BTG Pactual)

Outras formas de captação de recursos, indo além dos bancos tradicionais, têm crescido atualmente, como CRAs, debêntures e Fiagro. Você acredita que essas opções são vantajosas para as usinas?
O setor vivia muito dependente de instrumentos tradicionais: ou de bancos públicos, por meio de financiamentos, ou dos grandes bancos de varejo, os “bancões” como a gente gosta de dizer. Esses instrumentos que você fez referência democratizam, sofisticam e abrangem um universo muito maior de investidores, de potenciais credores do setor. Então, a mera existência desses mecanismos em comparação com o que você tinha alguns anos atrás é certamente muito vantajosa.

No passado, a dificuldade de acesso ao crédito era um ponto frequentemente levantado pelas sucroenergéticas. Isso mudou nos últimos anos, mas este movimento é generalizado ou não?
Eu diria que ainda tenho dificuldade de chamá-lo de generalizado. Como o setor é muito heterogêneo, você ainda tem usinas em situações muito distintas em termos de eficiência operacional ou mesmo em termos de saúde financeira. Acredito que nem todas estão aptas a acessar todos esses mercados da mesma forma, mas certamente houve uma evolução. Não saberia dizer onde estamos, mas isso está mais próximo de ser generalizado hoje do que alguns anos atrás.


Estas e outras discussões sobre a atual situação financeira do setor sucroenergético acontecerão durante a Conferência NovaCana 2022. A programação completa está disponível no site do evento.


Giully Regina – NovaCana


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