Etanol: Mercado

Usinas não devem aumentar produção de etanol no atual cenário, projeta StoneX

Conforme o gerente de açúcar e etanol da consultoria, a vantagem para o etanol em detrimento do açúcar foi momentânea e já está se arrefecendo


NovaCana - 21 mar 2022 - 12:25

Este texto foi originalmente divulgado em 16 de março por meio da NC+, newsletter exclusiva para os assinantes NovaCana. Quer ter acesso? Assine o portal.


Recentemente, o presidente Jair Bolsonaro (PL) sancionou o projeto de lei que altera a cobrança de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre os combustíveis. O texto cria uma alíquota única do imposto e muda o modelo da cobrança, de um porcentual sobre o preço na bomba para um valor fixo por litro.

A aprovação do projeto no Congresso ocorreu no mesmo dia em que a Petrobras anunciou aumentos de 18,8% no preço da gasolina e de 24,9% no do diesel, alta que foi seguida por diversas críticas.

Entretanto, especialistas enxergam os principais pontos da lei como inconstitucionais, afirmando que eles ferem a autonomia dos estados ao definirem o tipo e valor da alíquota a ser cobrada.

Além disso, Bolsonaro vem defendendo que o PIS/Cofins da gasolina seja zerado. Por mais que ele afirme que há um estudo de viabilidade por parte do governo, a ministra da Secretaria de Governo, Flávia Arruda, declarou que o projeto de lei deve sair do Congresso.

Toda esta movimentação ocorre em uma tentativa de frear a escalada dos preços dos combustíveis. Apesar do movimento não ser de hoje, ele ganhou nuances mais críticas com o conflito entre Rússia e Ucrânia e a consequente alta nos preços do petróleo.

Em meio a tudo isso, como fica o etanol? Quais as consequências das mudanças tributárias neste mercado? Quais os planos das usinas em relação ao mix de produção? O açúcar segue mais vantajoso do que o biocombustível ou a chave já virou?

Em busca de respostas para estas perguntas, o NovaCana realizou uma entrevista exclusiva com o gerente de açúcar e etanol da StoneX, Bruno Lima.

Caso os planos de zerar os impostos federais sobre a gasolina se consolidem, quais seriam os impactos para o setor de etanol?
Sem dúvida seria um cenário bem baixista para o etanol. Estimamos que, se houvesse essa desoneração federal, entre Cide e PIS/Cofins na gasolina, estaríamos falando de algo em torno de R$ 0,60 [de redução]. Isso traria um impacto bastante significativo para o preço do etanol. Conversamos com os clientes na semana passada e todos ficaram muito afoitos com o ajuste de preços da Petrobras, mas as coisas basicamente voltaram a como estavam antes: com a retração do petróleo, o etanol começou a ceder um pouquinho. Por isso, [a desoneração] seria um fator bastante baixista para o etanol.

A alta do petróleo, decorrente em parte da guerra entre Rússia e Ucrânia, impacta diretamente a gasolina e, por consequência, o etanol. Como você enxerga este cenário e quais são os possíveis comportamentos de mercado que devem ocorrer nos próximos meses?
A nossa análise de bate-pronto é que o mercado reagiu muito; uma reação meio desmedida. O reajuste veio e isso, consequentemente, trouxe um aumento para o preço do etanol. Na segunda-feira, 14, o hidratado chegar a ser negociado na faixa de R$ 4,10 por litro na usina. Mas, no dia seguinte, os compradores já recuaram. Tem compradores que vão adquirir a R$ 3,85/L. Com certeza, o reajuste na gasolina trouxe um impacto altista para o etanol, até por favorecer a questão da relação entre os preços na bomba que já tinha se aproximado dos 70%, com São Paulo levemente abaixo dos 70%.

Esta mudança de preços pode alterar os planos das usinas em relação ao mix de produção do ciclo 2022/23?
Muito se falou sobre potencial de mix da safra, favorecendo o etanol e reduzindo a produção de açúcar; inclusive, o preço do açúcar reagiu positivamente. Mas nós temos uma visão contrária a esta justamente por entender que, talvez, não seja um cenário que permaneça por um período longo. Estamos vendo algumas movimentações no sentido de aumentar a oferta de petróleo, com os Estados Unidos e a Inglaterra pressionando a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), e a própria Agência Internacional de Energia (IEA) falando de aumento de produção do xisto nos EUA. Isso já devolveu praticamente US$ 40 das máximas do Brent.

“Do ponto de vista da usina, trocar o certo pelo duvidoso é complicado. No caso, o açúcar já tem preço travado e a arbitragem em relação ao etanol não se alterou”, Bruno Lima (StoneX)

O açúcar continuou pagando mais do que o etanol: o que houve foi um aumento do preço do etanol no mercado à vista, que passou a remunerar mais do que o açúcar, mas nele já não tem mais nada a ser feito. Nosso entendimento é que volte aos eixos, seja por meio do petróleo; seja por meio de algum posicionamento do governo, que subsidie este preço de alguma forma ou retire tributação; ou seja pelo consumo.

Neste cenário de consumo: como o etanol deve se comportar dentro do ciclo Otto?
Já tivemos quatro meses consecutivos de retração do consumo e preços nominais mais altos devem continuar. Mesmo que a gasolina suba e dê espaço para o etanol subir, estamos colocando preços nominais na bomba cada vez mais elevados. Em um cenário de juros em alta e inflação superelevada, com certeza, isso deve restringir a população de seguir o ritmo de consumo que se esperava para 2022. Nós reduzimos, na semana passada, a expectativa de crescimento do ciclo Otto. Estávamos esperando inicialmente 7,7% de crescimento em 2021/22, reduzimos para 5% em janeiro e para 3,3% em março. Para o ano que vem, estamos projetando outros 3,3% de crescimento, o que é um volume total menor do que imaginávamos inicialmente; ainda não retomamos o cenário pré-pandemia. Vemos esta desaceleração do consumo até pelos números da Unica. Resta só o mês de março para finalizar a safra e deve sobrar etanol, com estoques de anidro e hidratado de 20% a 30% acima do que estimamos inicialmente. Terminando a safra com mais estoques e tendo um desempenho do ciclo Otto ainda lento em relação ao que se esperava, o excedente tende a pesar sobre os preços ao longo da safra, não permitindo uma reação muito significativa e não justificando uma mudança de mix. As alterações de visão foram muito bruscas e rápidas por conta do aumento da Petrobras. O percentual [do reajuste] foi realmente surpreendente e, se todas as condições forem mantidas constantes, teríamos uma visão completamente diferente. Seria bem mais altista.

Conforme você comentou, o etanol tem voltado a patamares de vantagem competitiva em relação à gasolina. Na última semana, na média nacional, a relação de preços com o fóssil caiu para 68%. Há uma tendência de queda daqui em diante? Ou ficaremos em um patamar próximo aos 70%, uma vez que ficamos vários meses acima deste índice?
Devemos nos manter ao redor dos 70%, mas vimos que, em função do preço nominal, este índice talvez tenha um peso menor. Quando falamos em gasolina a R$ 7 ou R$ 8 por litro e um etanol que está R$ 2 ou R$ 2,50/L mais barato, o consumidor deve priorizar o etanol. Tanto que projetamos uma participação do etanol na matriz de ciclo Otto de 30% para o ciclo 2022/23. O atual ano-safra deve finalizar em torno de 25%. Ou seja, o etanol deve aumentar sua participação e manter a competitividade nominal, mais do que só a questão de paridade energética. Só que ainda terá um volume de vendas menor em função dos preços altos.

O setor considera a possibilidade de um começo de safra tardio por conta da seca e das geadas. Este cenário atual com a gasolina mais cara, ainda que momentâneo, deve mudar a estratégia de algumas usinas, incentivando um início de moagem mais próximo?
O que vemos até agora é que não. Hoje, dentro da nossa carteira de usinas, temos quase 40% do volume de cana do Centro-Sul. Temos a notícia de que apenas uma empresa está pensando em antecipar o início da safra. Tudo bem que o preço do etanol reagiu, mas ele já está voltando. Talvez isso ajude o preço a não cair tanto neste início de safra e o excedente de estoque seja em parte usado para este período de duas semanas de atraso. A maioria das usinas devem começar a moer a partir de 10 ou 15 de abril.

“O mercado está no automático, trazendo qualquer reação do mercado de energia diretamente para o impacto na safra. Mas estamos inseridos em um momento muito particular: conflito, eleições, potencial de dólar mais alto e todo o risco fiscal”, Bruno Lima (StoneX)

Como fica o açúcar considerando este cenário de etanol e patamar de dólar? Como está a fixação?
Para esta temporada que vai começar [2022/23], temos um número de em torno de 76% da safra já fixada a uma média de R$ 1.905/t, desconsiderando polarização, prêmio, frete e elevação. Para 2023, estamos com uma fixação de 34,1% a um preço de R$ 2.066/t. O mercado de açúcar, meio que a reboque e um pouco atrasado em relação ao petróleo, reagiu saindo das mínimas de 17,60 centavos de dólar por libra-peso para 19,80 centavos de dólar, mas muito à mercê desta valorização do petróleo e da expectativa de que haveria o reajuste da Petrobras. Com isso, o mercado recuou. Dentro deste cenário, estimamos uma produção de açúcar superior a do ano passado em 2,3 milhões de toneladas – de 33,2 milhões para 34,5 milhões de toneladas.

Qual é sua perspectiva para os preços?
Nós temos um teto de preços potencial na faixa dos 19,50 centavos de dólar, mas um piso um pouco mais alto [em relação à safra anterior], seja porque o etanol não deve subir nem recuar tanto de preço ou porque temos um cenário de aumento do petróleo, com impacto nos fertilizantes, na logística e nos custos de produção. Com isso, o piso deve ficar na faixa dos 18 centavos de dólar ao longo do ano. É um mercado de açúcar ainda valorizado comparativamente à média histórica, mas não tem potencial de se elevar acima das máximas vistas no final do ano passado.

Gabrielle Rumor Koster – NovaCana
Com reportagem de Renata Bossle


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