Ao falar sobre a alteração na data limite para o cumprimento das metas do RenovaBio, diretor comercial afirma que mudança de regra no meio do caminho “sempre é ruim” para o setor produtivo e para o mercado

NovaCana 23 ago 2022 - 09:57 - Última atualização em: 29 ago 2022 - 08:52

O mercado de CBios não vem se mostrando muito estável. Após ultrapassar a marca dos R$ 200 reais em junho, atingiu a mínima de R$ 76 no mês seguinte, em uma queda provocada pelo adiamento do prazo para cumprimento das metas individuais das distribuidoras referentes a 2022.

O cenário de instabilidade no mercado dificulta as tomadas de decisão por parte das usinas, além de afetar investimentos por parte do setor produtivo. Pelo menos, esta é a visão do diretor comercial da Alta Mogiana, Luiz Gustavo Junqueira.

Para falar mais sobre os cenários relacionados ao mercado de créditos de descarbonização, ele estará presente na Conferência NovaCana 2022, que acontece em São Paulo (SP) nos dias 19 e 20 de setembro.

Junqueira irá mediar o painel “O valorizado mercado de CBios” que contará com palestras do diretor do departamento de biocombustíveis (MME), Fábio da Silva Vinhado, da superintendente comercial do Santander, Caroline Perestrelo, e do vice-presidente da Brasilcom, Abel Leitão.

Graduado em administração de empresas pela Faculdade de Economia e Negócios de São Paulo (FEA-USP) e com mestrado em finanças pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ), o executivo já foi presidente da Câmara Consultiva de Açúcar e Etanol da Bolsa de Futuros e Derivativos da BMF, sendo responsável pela criação e modernização de diversos contratos futuros de etanol e açúcar nos últimos 15 anos. Também atuou em conselhos do Sindicato da Indústria Açucareira de São Paulo (SIAESP) e da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica).

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A programação completa da Conferência NovaCana 2022 já está disponível. Clique aqui para se inscrever.

Luiz Gustavo Junqueira conversou com o NovaCana sobre o tema que será abordado no painel da conferência em que irá realizar a moderação, falando sobre como as mudanças no mercado dos créditos afetam as usinas. Confira a entrevista completa a seguir.

A mais recente mudança no mercado de CBios foi o adiamento do cumprimento das metas das distribuidoras referentes a 2022 que, excepcionalmente, poderá ser feito até 30 de setembro de 2023. Já para os próximos anos, a comprovação da aquisição dos créditos deverá ocorrer até 31 de março do ano subsequente. Como você vê essa alteração?
Sempre é ruim para o setor ou para o mercado uma mudança de regra no meio do caminho. As datas não eram essas, não eram as que tinham sido combinadas com o setor privado. Por mais que a gente concorde com o intuito por trás da mudança, que é o controle de inflação e a redução de preços dos combustíveis, temos que entender que estamos em um período pós-pandêmico, com inflação no mundo inteiro. O setor é sensível a isso e temos que contribuir, mas a quebra de confiança nas regras é relevante. O ideal seria ter conversado em vez de, simplesmente, dar uma canetada. Com certeza, o setor se sentaria com o governo e poderia achar uma solução que agradasse os dois lados. Foi uma medida precipitada, sem diálogo com o setor privado. Para uma próxima oportunidade fica essa sugestão: estamos aqui para conversar, pois o setor privado quer o bem do país, queremos que o país cresça, esteja com a inflação baixa e as contas controladas. O que o governo quer para o país é o que queremos também, uma economia pujante. Mas também precisamos ter confiança jurídica e, sem isso, nós acabamos tendo receio de investir, de crescer.

O Itaú BBA enxerga que tal mudança pode gerar acúmulo de demanda por créditos no próximo ano. As distribuidoras que deixarem para fazerem a aquisição de última hora, podem, consequentemente, levar a um aumento de preço. Você corrobora com essa perspectiva?
De fato, quando é criado um conforto no curto prazo, como o adiamento do cumprimento, isso pode gerar um acúmulo lá na frente. As metas continuam existindo. Na verdade, o governo ganhou tempo. Por isso, volto a enfatizar que é muito importante que as regras sejam muito bem definidas e conversadas e que haja total confiança do setor privado de que elas serão cumpridas. Imaginemos que lá na frente ocorra outra mudança de data. Isso pode causar um desconforto e uma insegurança; podemos não querer expandir a produção de etanol nos próximos anos, o que seria necessário para poder cumprir as metas do RenovaBio. Eu concordo com a tese de que podemos estar gerando um problema maior para o futuro. Felizmente, com o setor produtivo acreditando que o país vai continuar crescendo, é provável que ele vá responder favoravelmente, com o aumento de produção. Esse ganho do tempo que o governo conseguiu vai encontrar o setor privado disposto a continuar contribuindo com o investimento e com o aumento de produção. É o mundo ideal, o ganha-ganha.

“Espero que não ocorra uma quebra de confiança a ponto de haver uma falta de incentivo para que as empresas invistam em aumento de produção de etanol nos próximos anos”, Luiz Gustavo Junqueira (Alta Mogiana)

Além disso, o Itaú BBA trouxe a possiblidade de um cenário pessimista em que não haverá créditos suficientes para cumprimento das metas futuras; já em um cenário positivo e de incentivos, sobrariam créditos. Você tende a crer em qual possibilidade?
O DNA do empresário é de acreditar do país, senão não seríamos empresários. Em tendo a ser mais otimista que a média, estar no cenário mais construtivo. Mas eu repito que não podemos mais abalar a confiança do mercado.

Os preços dos créditos já caíram consideravelmente nas últimas semanas – na segunda quinzena de julho, a retração foi de mais de 46%; na primeira metade de agosto, de 13,5%. Como você encara esse desaquecimento?
Claramente, foi uma resposta do mercado. A mudança no prazo foi uma surpresa, pegou todos os participantes do mercado de “calças curtas”. Em um primeiro momento houve até um exagero e se chegou a negociar CBio por R$ 70; agora estamos voltando para um patamar entre R$ 90 e R$ 100 [nota da edição: a entrevista foi realizada em 15 de agosto]. O mercado é soberano e é evidente que mudou o panorama; isso é o que justifica o preço estar mais baixo. Mas, olhando de um ponto de vista mais construtivo, nós também temos que considerar um outro fator: é preferível ter um mercado ao redor de R$ 100, mas com certa estabilidade de regras, do que ter um mercado que ora é R$ 200 e ora é R$ 50. No que se refere a investimentos, é melhor um mercado menos volátil.

“Se essa mudança de datas trouxer uma menor volatidade para o mercado, isso pode ser entendido como algo positivo para o médio ou para o longo prazo”, Luiz Gustavo Junqueira (Alta Mogiana)

Muitas entidades criticaram a mudança, como foi o caso da a Federação dos Plantadores de Cana do Brasil (Feplana), que considerou a alteração “oportunista” e “imprevisível”. Como a medida afetou os fornecedores de matéria-prima da Alta Mogiana?
A competividade dos fornecedores de cana é um ponto muito importante, aliás, a competividade da cana vis-à-vis outras culturas. Com a pandemia e a guerra entre Ucrânia e Rússia, tivemos uma elevação muito grande nos preços dos grãos. Isso está trazendo uma competitividade e um acirramento da disputa por área no Brasil inteiro; todos os grandes polos canavieiros estão enfrentando uma concorrência muito forte dos grãos, que estão remunerando muito bem. Precisamos que a cana tenha uma remuneração condizente com a meta que nós temos de crescimento de produção para os próximos anos. Se a cana não tiver preços significativos, nós não vamos conseguir avançar em áreas que hoje estão sendo pagas por outras culturas. E, consequentemente, as metas do RenovaBio para os próximos anos podem ficar prejudicadas. Por isso, volto a falar que é preferível ter um mercado com baixa volatilidade e mais previsível, que dê segurança para o empresário investir. Assim, chegamos a uma remuneração da cana que faça sentido tanto para os fornecedores quanto para as usinas, de tal modo que a gente consiga avançar o plantio, com crescimento de área em locais que hoje estão sendo disputados.

Como o mercado de CBios afeta as estratégias de comercialização da Alta Mogiana?
Com os CBios, mudou bastante a atratividade do etanol para a Alta Mogiana. O etanol passou a ganhar em competividade perante o açúcar, o que ele dificilmente tinha. O CBio elevou o patamar não só de rentabilidade, mas também de previsibilidade, algo que a gente não enxergava antes. Nos últimos anos, a Alta Mogiana tem produzido mais etanol do que anteriormente. Por outro lado, a recente mudança no calendário fez com que o CBio caísse de preço e, ao mesmo tempo, trouxe perda de competitividade para o etanol perante a gasolina. A grande redução de impostos, especialmente federais, sobra a gasolina, acabou levando a empresa a privilegiar mais a produção de açúcar no restante da safra. A gente vinha bem construtivo para o etanol, inclusive enxergando possibilidade de aumento de produção para os próximos anos, mas, momentaneamente, enxergamos que a competividade do etanol perante o açúcar se perdeu um pouco. Isso está levando muitas usinas à reflexão; a Alta Mogiana, por ser muito açucareira, não é diferente. Hoje, a venda de hidratado está sendo feita próxima ao custo de produção. Não existe nenhuma margem relevante para as usinas paulistas – não posso falar pelos outros estados, com condições de custos diferentes.

“[O mercado de etanol] tem sido muito mais desafiador nas últimas semanas. Toda a margem que o produto tinha praticamente se evaporou”, Luiz Gustavo Junqueira (Alta Mogiana)

Então, a Alta Mogiana pensa no valor do CBio no momento da negociação do etanol? Um mercado afeta o outro em termos práticos?
Sem dúvida. O CBio hoje é tão relevante que entra no cálculo de remuneração das usinas, inclusive deslocando a produção de açúcar para a de etanol, o que é algo fantástico considerando que imaginamos que o consumo de combustíveis é crescente. Cremos em um crescimento da economia nos próximos anos.

Aliás, as usinas já começaram a contabilizar ganhos de CBios em seus resultados financeiros. Você acredita que essa receita realmente será direcionada para investimentos no campo e em sustentabilidade, que é o objetivo do programa?
Eu acredito que sim. Hoje, todas as empresas do setor estão cientes do comprometimento que precisam ter com o programa, que é sério. Eu não tenho dúvida de que o próximo governo também dará indícios claros e firmes que o programa é realmente de estado, um compromisso que foi assumido com outros países em relação às metas de aquecimento global. Isso não é uma brincadeira. Precisamos que o governo – o Ministério de Minas e Energia, principalmente – leve isso a sério a ponto de dar uma segurança para as usinas seguirem investindo em aumento de produção. É o que eu espero.

Uma reportagem do Valor Econômico apurou que o Ministério da Agricultura pretende fazer uma medida provisória para que os CBios se integrem com outros mercados de carbono internacionais. Esse movimento faz sentido para as usinas?
Faz sentido, sim. O mercado de carbono caminha para crescer não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Não há nenhuma dúvida de que a precificação de carbono vai começar a ser um fator determinante para todos os países, para as grandes economias, para conseguirmos chegar em uma meta coerente de redução de carbono na atmosfera. Não tem veículo melhor para isso do que precificar esse carbono. Qualquer medida que integre essas cadeias é muito bem-vinda.

Há uma perspectiva de que a oferta de CBios fique apertada nos próximos anos. Na sua concepção, o dinheiro do programa estimularia investimentos em produção e/ou medidas que reduziriam a nota significativamente, aumentando a quantidade de CBios gerados?
Sim, não tenho dúvidas. A partir do momento em que o CBio começa a ser relevante e tem liquidez – o que é uma coisa fantástica, pois você começa a comercializar os seus créditos com uma relativa facilidade e esse dinheiro entra no seu caixa – o mercado acaba ficando muito prático para as usinas. Isso tem muito valor para a cadeia. Não podemos esquecer que o setor é de muito capital intensivo em termos agrícolas. Você planta a cana para colher nos próximos seis ou sete anos. Toda a receita que chega em plena safra é muito bem-vinda e valorizada.


Estas e outras discussões sobre a safra 2022/23 e o futuro do mercado acontecerão durante a Conferência NovaCana 2022. A programação completa está disponível no site do evento.


Gabrielle Rumor Koster – NovaCana


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