Pesquisa da Conab com usinas aponta para uma moagem 15,1% menor do que a média estimada pelas empresas especializadas consultadas pelo NovaCana
Moagem, área plantada, produtividade e fabricação de açúcar e etanol. Estes são alguns dos indicadores que a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) utiliza para fazer estimativas sobre a safra de cana-de-açúcar.
Vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), a empresa pública realiza quatro levantamentos no decorrer da temporada, colhendo dados das usinas atualmente operantes no Brasil – segundo o Mapa, são 347 unidades. Desta forma, é possível compreender como o próprio setor está vivenciando o ciclo e quais são suas expectativas.
O presidente da Conab, Guilherme Ribeiro, afirma que, por ser feita por meio de um censo com todas as unidades produtoras brasileiras, os dados do levantamento da safra de cana-de-açúcar são “fiéis às intenções industriais do setor sucroenergético”.
Em sua primeira pesquisa para a safra 2022/23, divulgada no final de abril, a Conab espera que a moagem de cana chegue a 596,06 milhões de toneladas, com 539,05 milhões de toneladas sendo esmagadas apenas no Centro-Sul.
O volume previsto para a maior região produtora brasileira é 15,05 milhões de toneladas menor do que o estimado pelas 21 empresas especializadas consultadas pelo NovaCana no começo deste ano. Segundo as consultorias, a temporada deve somar, em média, 554,10 milhões de toneladas de cana moída.
Esta foi a maior divergência entre os resultados das duas pesquisas nos últimos cinco anos. Para a safra 2021/22, por exemplo, a expectativa da Conab no começo da temporada ficou apenas 670 mil toneladas abaixo da média computada pelo NovaCana.
Ainda assim, o cenário é, de uma forma geral, otimista para a safra corrente, tanto para a moagem quanto para a produção de açúcar.
Confira no texto completo, exclusivo para assinantes, mais detalhes sobre as expectativas de moagem, mix de produção, a fabricação de açúcar e etanol e, também, um histórico comparativo dos últimos dez levantamentos da Conab.
Moagem, área plantada, produtividade e fabricação de açúcar e etanol. Estes são alguns dos indicadores que a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) utiliza para fazer estimativas sobre a safra de cana-de-açúcar.
Vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), a empresa pública realiza quatro levantamentos no decorrer da temporada, colhendo dados das usinas atualmente operantes no Brasil – segundo o Mapa, são 347 unidades. Desta forma, é possível compreender como o próprio setor está vivenciando o ciclo e quais são suas expectativas.
O presidente da Conab, Guilherme Ribeiro, afirma que, por ser feita por meio de um censo com todas as unidades produtoras brasileiras, os dados do levantamento da safra de cana-de-açúcar são “fiéis às intenções industriais do setor sucroenergético”.
Em sua primeira pesquisa para a safra 2022/23, divulgada no final de abril, a Conab espera que a moagem de cana chegue a 596,06 milhões de toneladas, com 539,05 milhões de toneladas sendo esmagadas apenas no Centro-Sul.
O volume previsto para a maior região produtora brasileira é 15,05 milhões de toneladas menor do que o estimado pelas 21 empresas especializadas consultadas pelo NovaCana no começo deste ano. Segundo as consultorias, a temporada deve somar, em média, 554,10 milhões de toneladas de cana moída.
A distância entre os números, que indica certo pessimismo das usinas a respeito da recuperação dos canaviais, envolve também uma diferença em relação ao período de coleta dos dados: as empresas especializadas foram ouvidas em janeiro deste ano, enquanto as unidades produtoras foram consultadas em março, já cientes dos desdobramentos climáticos da entressafra.
Esta foi a maior divergência entre os resultados das duas pesquisas nos últimos cinco anos. Para a safra 2021/22, por exemplo, a expectativa da Conab no começo da temporada ficou apenas 670 mil toneladas abaixo da média computada pelo NovaCana.
Melhora à vista
A pesquisa feita pelo Conab definiu uma queda de 1,8% na área total de cana-de-açúcar plantada no Centro-Sul ante a safra anterior. Contando todas as regiões, devem ser plantados 8,2 mil hectares com a matéria-prima em 2022/23.
O decréscimo, de acordo com o relatório da entidade, acontece pela concorrência com outras culturas, especialmente soja e milho, que estão apresentando preços mais atrativos, mesmo com um “cenário positivo para o setor sucroenergético”.
Ainda assim, a Conab acredita que, com um clima mais favorável, a produtividade dos canaviais deverá melhorar em todas as regiões, chegando a 72,6 toneladas por hectare, uma alta de 3,2% ante a safra anterior.
Os especialistas consultados pelo NovaCana também acreditam em uma recuperação por conta do fator climático, com as chuvas voltando a normalidade durante o atual ciclo. A StoneX, por exemplo, declarou em seu relatório que as chuvas no final de 2021 chegaram a 520,7 milímetros, uma alta de quase 30%.
Além disso, apesar de discordar quanto à moagem da safra 2022/23, as duas pesquisas indicam que o total deverá ser maior do que as 520 milhões de toneladas vistas na temporada passada – ainda que os efeitos de longo prazo das geadas e das queimadas não permitam um crescimento muito amplo.
Os números iniciais da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica) apontam para um ritmo mais lento de produção neste início de safra. Na primeira quinzena de abril, foram processadas 5,19 milhões de toneladas, uma queda de 66,9% ante ao mesmo período de 2021/22.
Segundo a entidade, essa redução se deve ao menor número de unidades em operação neste começo de safra. Até o dia 15 de abril, 85 usinas já estavam moendo cana-de-açúcar, mas a Unica acredita que, até o final do mês, pelo menos outras 100 unidades terão iniciado os trabalhos.
Neste primeiro levantamento, a Conab acredita que o setor poderá moer 539,05 milhões de toneladas de cana. A estimativa é 3% maior do que o fechamento da safra 2021/22, demonstrando certo otimismo para a recuperação dos canaviais depois de um ano de problemas intensos.
Ainda assim, o volume estimado pelo órgão governamental está 15% abaixo do visualizado pelo mercado, 554,1 milhões de toneladas.

Em 2021/22, a perspectiva inicial da Conab era de uma produção de 574,8 milhões de toneladas no Centro-Sul, em concordância com as estimativas do mercado, que estavam em 575,47 milhões de toneladas. Entretanto, ambas as projeções iniciais foram abaladas pela quebra da safra, que fechou em 523,11 milhões de toneladas devido às intempéries climáticas.
Já na safra 2019/20 ocorreu o inverso: tanto as estimativas da Conab quanto a pesquisa de mercado feita pelo NovaCana ficaram abaixo do volume de 590,36 milhões de toneladas moídas no período.
Cenário é positivo para o açúcar
Da mesma forma como a moagem, a visão da Conab para o mix de produção da safra 2022/23 destoou da média das consultorias especializadas. A expectativa das usinas é de que 49,21% da matéria-prima seja direcionada para a fabricação de açúcar, enquanto o levantamento do NovaCana aponta para 45,5%.
Desta forma, a Conab aponta uma divisão mais igualitária da cana entre o adoçante e o etanol, enquanto o mercado acredita que a produção do biocombustível vai ser ressaltada nesta temporada.
Por enquanto, o açúcar ainda conta com um prêmio sobre o etanol hidratado, especialmente pela depreciação do real ante o dólar. Mas, com um câmbio mais ajustado no resto do ano e a atual instabilidade do mercado de petróleo, é possível que o combustível renovável volte a ser destaque ainda nesta temporada.
Além disso, os números para o mix de produção não estão muito distantes do final da safra 2021/22, quando 45,02% da cana foi direcionada para o açúcar e 54,98% para o etanol.
No início da temporada, as consultorias acreditavam que, devido a precificação, o direcionamento de matéria-prima se manteria em 45% para o adoçante. Mas as usinas acreditavam que apenas 41% da cana moída seria usada na produção da commodity, com uma maior ênfase na fabricação de etanol.

Segundo o diretor comercial do grupo BP Bunge, Ricardo Busato Carvalho, o mix não deverá ser tão maximizado para a produção de açúcar, considerando o cenário do petróleo internacional e a correção do açúcar em Nova York. Ele afirma que esse movimento deverá ser observado especialmente depois do pico da moagem.
Já em relação ao mercado futuro, o Instituto Pecege expressa que as boas perspectivas nos três principais produtores mundiais – Brasil, Índia e Tailândia – podem motivar uma queda nos preços, garantindo uma oferta elevada do adoçante no primeiro semestre do ano.
Sobre a produção total, a pesquisa da Conab junto às usinas aponta para 36,43 milhões de toneladas até o fim do ciclo 2022/23. O volume está 13,6% acima do fechamento da safra passada, quando foram produzidos 32,06 milhões de toneladas.
Em seu relatório, a Conab afirma acreditar que os níveis da produção do adoçante devam voltar aos patamares da temporada 2020/21, quando foram fabricadas 38,46 milhões de toneladas. Segundo a entidade, entre os fatores que podem favorecer essa produção estão a melhor rentabilidade do produto ante o etanol, o número de contratos no mercado futuro e o aumento da qualidade da matéria-prima, medida em açúcares totais recuperáveis (ATR).

Com um valor médio de 33,69 milhões de toneladas, o levantamento de mercado acredita que a produção deva ficar apenas 5,1% acima do produzido durante 2021/22.
A SCA Consultoria, por exemplo, aponta que os preços da commodity podem se manter interessantes para os produtores caso ocorra um terceiro déficit seguido para o açúcar no mercado global. Ainda assim, a empresa não descarta uma eventual competição com o etanol, “caso os preços do petróleo e câmbio se mantenham fortalecidos”.
Um pouco menos de etanol
Com o cenário mais favorável para o açúcar, a Conab acredita em uma queda para etanol durante a temporada 2022/23, afetando tanto o anidro quanto o hidratado. Ainda assim, o relatório indica que houve um aumento significativo na produção de anidro em 2021 devido à elevação além do previsto no consumo de gasolina no país.
Considerando esse contexto, o documento afirma que, caso aconteça um novo pico na demanda do combustível fóssil, é possível que as usinas convertam parte da produção do hidratado para anidro.
Por sua vez, as usinas consultadas acreditam que devem ser produzidos 26,82 bilhões de litros durante a safra, já contabilizando o biocombustível fabricado a partir do milho. O volume representaria uma queda de 2,6% ante os 27,55 bilhões de litros vistos no fechamento da temporada anterior.

No caminho contrário, as consultorias especializadas apontam para um aumento de 8,24% na fabricação do biocombustível, totalizando 29,82 bilhões de litros.
Um dos motivos para este acréscimo é exatamente o etanol de milho. As empresas acreditam que o renovável produzido a partir do grão deverá ganhar espaço no Brasil, alcançando 4,05 bilhões de litros em 2022/23.
Apesar da divergência entre os totais, a Conab corrobora com a ideia de que o etanol fabricado com o grão vai ser ainda mais relevante. O relatório da empresa aponta que, na fabricação do biocombustível em 2022/23, o milho aumentará seus níveis, enquanto a cana tende a cair.
Uma nova perspectiva
O NovaCana também comparou os dados obtidos pela Conab no começo das dez últimas safras com o último levantamento da própria instituição, a fim de visualizar a diferença entre as perspectivas das usinas no início e ao final de cada temporada.
Entre a primeira estimativa de 574,8 milhões de toneladas, e a última de 530,3 milhões de toneladas realizadas pela Conab em 2021/22, a diferença foi de 8,4%, ou 44,5 milhões de toneladas.
Neste caso, a safra havia começado com certo otimismo, mas os problemas registrados durante o ano diminuíram as expectativas das usinas.

Nas duas safras anteriores, entretanto, as usinas começaram o ano pessimistas, mas aumentaram suas perspectivas no último levantamento.
Ainda assim, em um contexto geral, as sucroenergéticas tendem a iniciar as temporadas mais otimistas. Em média, as perspectivas iniciais ficaram 4,49 milhões de toneladas acima do resultado visto ao final da safra.
Giully Regina – NovaCana
Com reportagem adicional de Gabrielle Rumor Koster