Economista destaca a importância da maior demanda interna por milho em Mato Grosso: as usinas economizam por estarem próximas da matéria-prima enquanto os produtores ganham espaço para negociar a preços melhores

NovaCana 06 set 2022 - 08:35

Inicialmente visto como uma matéria-prima alternativa, o milho tem ganhado cada vez mais espaço no mercado de etanol. Com novas unidades processadoras a caminho e uma série de ampliações em andamento, as perspectivas para o biocombustível feito com o grão são de crescimento.

De acordo com a União Nacional do Etanol de Milho (Unem), o volume produzido em 2023 deve chegar a 6 bilhões de litros, alta de 80% frente a este ano. Além disso, até 2030, a expectativa é de que 20% de todo o etanol feito no país seja com o grão.

A Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia (MME), vai na mesma direção, projetando a abertura de 33 novas usinas dedicadas ao grão até 2031. No mesmo período, a cana-de-açúcar deve ganhar 12 unidades.

Um dos estados brasileiros mais impactados por este cenário é Mato Grosso, que tem recebido a maior parte das novas plantas industriais. De acordo com a coordenadora de desenvolvimento regional do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), Vanessa Gasch, a escolha é prática: ao ficarem mais próximas dos produtores, as usinas têm economia de custos, com destaque para o frete.

Gasch, inclusive, deve compartilhar seus conhecimentos sobre o mercado na Conferência NovaCana 2022, como moderadora do painel “Os desafios do etanol de milho”. Ela irá mediar o debate entre o diretor-presidente da CerradinhoBio, Paulo Motta, e o diretor de processamento de grãos para a América Latina da IFF, Mario Cacho.

Atuando no agronegócio a seis anos, Vanessa Gasch é economista formada pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Em 2017, ela participou da elaboração do primeiro grande diagnóstico sobre a viabilidade da produção de etanol no estado e, atualmente, acompanha e gera dados do mercado de etanol de milho.

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Ao NovaCana, Gasch falou sobre o tema que será abordado no evento, apontando como o setor de milho mudou com a entrada das usinas de etanol neste mercado, além de trazer perspectivas para o futuro. Confira a entrevista completa abaixo.

Os produtores de milho de Mato Grosso já concluíram a colheita da segunda safra. É possível fazer previsões para a próxima temporada? Quais são as expectativas nesse momento?
Na primeira estimativa para a safra 2022/23 de milho do Imea, divulgada agora em setembro, nós estimamos um incremento de área de 1,8% para a próxima safra em relação à 2021/22, totalizando 7,28 milhões de hectares. Os produtores têm sido incentivados pelos altos patamares de preços que estão sendo praticados no mercado, além da perspectiva de demanda externa firme pelo milho. Contudo, os altos custos de produção e incertezas climáticas, são fatores que podem interferir na definição da área que será semeada na próxima safra. Ainda é cedo para definir, tem muita coisa para acontecer, mas se tudo correr bem, é estimada uma produção de 45,54 milhões de toneladas, cerca de 1,7 milhão de toneladas a mais que o produzido na safra 2021/22.

O Imea divulgou uma perspectiva de menor rentabilidade para 2022/23 por conta dos maiores custos. Não haveria risco de perda de espaço para outras culturas?
Em Mato Grosso, o milho é, majoritariamente, plantado sobre a primeira safra de soja. Então, ele acaba não competindo com a soja porque é uma cultura de segunda safra, disputando área com o algodão. Mas é mais difícil um produtor decidir que, na próxima safra, ele vai passar para o algodão; é todo um maquinário diferente. Então, os produtores são mais consolidados. Como vai ter uma expansão de área em 2022/23, consequentemente, haverá mais espaço para o milho e para algodão crescerem.

Mas como está a rentabilidade do milho?
Apesar do incremento de mais ou menos 10% no preço da safra 2022/23 de milho, o aumento do custo de produção foi na casa dos 30%. Isso, de fato, impactou a rentabilidade do produtor. Até agosto, a gente estima uma diminuição na rentabilidade de cerca de 17%. E o produtor vai precisar driblar isso para termos uma manutenção da área ou até um incremento. O produtor mato-grossense é muito empreendedor e teimoso no bom sentido; ele consegue passar pelos desafios. Ele teve problemas com o clima na safra passada e, nessa, teve algumas questões de chuva, mas conseguiu semear a maioria do milho dentro da janela ideal, então, isso não impactou tanto na produtividade. Em algumas regiões, alguns produtores tiveram problema, mas, de modo geral, acabou que não impactou tanto quanto a gente estava pensando.

Uma perspectiva positiva do setor para os próximos meses está nas exportações para a China. Como você enxerga esse mercado?
Já ouvimos alguns relatos, mas o problema é que ninguém tem uma informação oficial. O ministro da agricultura, Marcos Montes, veio a público falar que essa exportação vai acontecer. A China vai entrar no nosso mercado, mas tem toda a questão fitossanitária que precisamos cumprir. Em alguns momentos, vimos pessoas falando de contratos de até 400 mil toneladas ainda neste ano, mas não é nada oficial. O que eu consigo dizer é que, se a China entrar no nosso mercado, isso é benéfico para o produtor, para o setor como um todo, porque teremos uma maior competitividade. Mas depende de como ela vai entrar. Pensando na questão da produção de etanol, depende da intensidade. Se ela vier, por exemplo, com a força que tem na soja – demandando 60% da produção –, isso pode bagunçar um pouco as coisas. Mas se for uma coisa de 500 mil toneladas, ou até 1 milhão de toneladas, acredito que não vai gerar tantos problemas. Há essa expectativa para o próximo ano. Isso foi até um pouco forçado por conta das últimas discussões da China com os Estados Unidos e, agora, com os problemas na Ucrânia.

O RenovaBio tem representado uma receita adicional importante para as usinas de cana-de-açúcar, mas as unidades de milho têm dificuldades: há uma menor incidência de matéria-prima elegível para o programa por conta da falta de rastreabilidade na cadeia. Isso pode mudar?
Como você falou, o problema maior é a rastreabilidade. Muitas usinas usam de atravessadores e é muito difícil conseguir rastrear lá do início. Se esse atravessador tem uma carteira de 5 mil produtores, como que você vai rastrear todo esse milho? Então, de fato, é uma dificuldade. Já existem alguns movimentos do próprio mercado de etanol buscando resolver esse problema. Estamos produzindo etanol e poderíamos gerar CBios, mas não conseguimos por conta da rastreabilidade. Então, nos próximos anos, precisamos resolver essa questão. Para trabalhar isso, há várias frentes que estão discutindo a questão, inclusive vendo como unificar documentos.

“Os CBios poderiam ser mais uma fonte de rentabilidade para as usinas, mas este ainda é um desafio a ser a ser vencido”, Vanessa Gasch (Imea)

O que mudou para os produtores de milho do Mato Grosso com o maior número de usinas de etanol demandando o grão? Foi algo significativo?
Quando se fala do mercado de milho do estado, é perceptível como houve uma mudança no setor depois da instalação da primeira usina de etanol. Há uma maior competitividade, uma maior procura. Em 2016 e no começo de 2017, vimos leilões de milho com vendas a R$ 9,50 por saca. Nunca imaginamos que o milho conseguiria chegar aos preços do último ano. Aqui no Mato Grosso, quando comparamos a safra 2021/22 com 2017/18, ano da instalação da primeira usina, houve um incremento significativo na demanda interna: mais que dobrou a quantidade de milho que passou a ficar no estado. Essa demanda das usinas tem ajudado muitos os produtores daqui, principalmente na sustentação do preço do milho – e isso incentiva os produtores a produzirem mais. É um ciclo que beneficia todo mundo. Nos últimos dois anos, muitos fatores externos também contribuíram para a alta do preço: teve um choque de oferta e demanda e, mais recentemente, a questão da guerra na Ucrânia. Mas também sabemos que, quando a gente olha para o estado, aconteceu uma mudança após a chegada das usinas de etanol de milho. Elas beneficiaram bastante os produtores.

“Em 2020/21, Mato Grosso teve uma diminuição de 8% na oferta de milho, enquanto a demanda interna cresceu 12%”, Vanessa Gasch (Imea)

Você poderia falar mais sobre como o etanol de milho faz diferença nas negociações do grão, afetando os preços? Como é esse movimento?
A instalação das usinas acabou afetando os preços porque ela trouxe mais competitividade para o milho e porque o produtor não ficou tão dependente das exportações. Foi um fluxo natural: conforme mais usinas foram chegando, a demanda foi aumentando e o produtor conseguiu ter margem para negociar. É difícil falar em questão de rentabilidade porque ela não é guiada só pelos preços, mas também pelos custos. No mesmo período, houve um incremento significativo nos custos de produção. Quando olhamos para os últimos três anos, principalmente, os preços dos fertilizantes dispararam e teve um aumento significativo do dólar. De qualquer modo, o preço disponível do milho teve um incremento conforme passamos a ter uma presença cada vez maior das usinas de etanol de milho no estado.

Os coprodutos do milho, como DDG, DDGS e óleo de milho, são um grande atrativo para a instalação de usinas. Qual é o tamanho destes mercados?
A gente trabalha com alguns dados de estimativa de produção de DDG. Conforme foi aumentando a produção, o DDG acabou caindo no gosto dos pecuaristas. Ele é uma ótima opção de suplementação para os bovinos, principalmente por conta do seu alto teor de proteico e, até um tempo atrás, por ter um preço abaixo das outras opções, como o farelo de soja, o próprio milho e, também, o caroço de algodão. Quando analisamos o valor em reais por proteína bruta, o DDG tem sido a opção mais barata nos últimos meses, desde o último ano. Tem oscilado às vezes, com o farelo de soja ficando um pouco mais competitivo, mas o DDG tem ganhado muita competitividade. E ele tem sido muito utilizado: tanto é que não sobra DDG. Se fosse produzido mais, ainda teria demanda. Conseguimos ver essa valorização do DDG no último ano por conta desse aumento da procura dos pecuaristas e, também, pelo aumento do preço do milho. Assim, ele conseguiu dar sustentação para a margem de processamento. Quando comparamos o ano de 2016, momento em que começamos a acompanhar o preço, com a média de junho de 2022, o DDG valorizou cerca de 173%. Então, ele auxilia na margem de processamento das usinas. O óleo também se valorizou, mas o mercado dele é bem diferente. Há uma competitividade bem grande com óleo de soja, mas é um mercado pequeno quando comparado ao DDG.

“A participação do DDG sobre a margem de processamento na safra 2020/21 era de 26% a 27%; na safra 2021/22, isso passou para 31,5%. Esse indicador mostra a importância dos coprodutos para manter a rentabilidade e a margem das usinas de etanol de milho”, Vanessa Gasch (Imea)

Considerando a expansão que o setor já teve e as unidades que estão previstas, há espaço para mais usinas de etanol de milho em Mato Grosso?
A gente não sabe até onde essa expansão pode ir, mas tem espaço. O Imea tem uma projeção na qual estima que, na safra 2029/30, o Mato Grosso vai produzir cerca de 67 milhões de toneladas de milho. Ou seja, vai ter oferta de milho para subsidiar a produção de etanol no estado. Há também, na ótica da demanda por etanol, estimativas de outras instituições que apontam para aumento do consumo por conta da maior população e do crescimento da frota de veículos. Então, quando olhamos para a demanda de etanol, também há espaço. Além disso, eu acredito que o incremento de agroindústrias no estado é benéfico para todo mundo. Ele é benéfico para o setor de etanol, que está perto da matéria-prima e tem um custo um pouco menor de frete e também é bom para o desenvolvimento do próprio estado; isso é nítido. Quando a gente anda no interior de Mato Grosso, vemos como algumas cidades se desenvolveram após a chegada das usinas de etanol.


Estas e outras discussões sobre a atual situação financeira do setor sucroenergético acontecerão durante a Conferência NovaCana 2022. A programação completa está disponível no site do evento.


Renata Bossle – NovaCana{/viewonly}


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