Com uma visão de recuperação leve para o campo, economista prevê que a inflação de custos será a grande dor da atual temporada de cana-de-açúcar

NovaCana 19 jul 2022 - 10:42

A moagem da safra 2022/23 começou atrasada, sentindo os efeitos da intensa quebra da temporada passada. No acumulado do primeiro trimestre, que já está concluído, as usinas do Centro-Sul atingiram 38,59 milhões de toneladas, segundo dados da União da Indústria da Cana-de-açúcar (Unica).

Para muitos, esta será uma safra de recuperação, mas ainda é preciso ter cautela. Afinal, os problemas da temporada passada começaram no segundo trimestre do ciclo, com as geadas e queimadas prejudicando os canaviais a partir de julho. Além disso, os imprevistos resultantes das intempéries climáticas do passado ainda devem acompanhar os canaviais, que se recupera aos poucos.

Para comentar sobre este cenário, o economista do Programa de Educação Continuada em Economia e Gestão de Empresas (Pecege), Haroldo Torres, estará presente na Conferência NovaCana 2022, que acontece em São Paulo (SP), nos dias 19 e 20 de setembro.

Ele será um dos palestrantes do painel “Avaliação e perspectivas para 2022/23 e 2023/24”, ao lado do sócio da FG/A, Willian Hernandes e com moderação do especialista do diretor da Bioagência, Tarcilo Rodrigues.

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Doutor em economia pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), Torres é gestor de projetos do Pecege e docente da Faculdade Pecege. Possuindo experiência na área de economia agrícola, com ênfase no desenvolvimento de modelos e sistemas voltados para os temas de análises de custos de produção e pesquisas nos setores sucroenergético e citrícola.

A programação completa da Conferência NovaCana 2022 já está disponível. Clique aqui para se inscrever.

Torres conversou com o NovaCana sobre o tema que será abordado na conferência. A seguir, confira a entrevista completa:

Depois da quebra vista em 2021/22, a esperança é que a safra atual seja de recuperação. Você concorda com essa posição?
Nós tivemos períodos de uma estiagem muito severa nos dois últimos anos, portanto, não conseguimos efetivamente avançar no plantio em função do déficit hídrico ou até mesmo por falta de muda. Depois vieram as geadas, que implicaram em um atraso no desenvolvimento fisiológico da safra e ainda incêndios, que levaram a uma série de falhas na brotação. Então, primeiro, eu venho com um canavial já estressado, falhado, atrasado – motivo pelo qual a safra começou mais tarde –, e com um ATR [açúcar total recuperável] bem ruim. De outubro para frente, houve uma relativa regularização das chuvas, em um patamar acima do observado, que gerou uma onda de otimismo em termos de recuperação da produção e da produtividade na região Centro-Sul, porém, eu costumo dizer que é um otimismo com cautela.

Em qual nível deve ser essa melhoria? Quais são os principais os pontos de atenção para os produtores nesta temporada?
A falha do ano passado não vai ser compensada e, nessa safra, o Pecege estima dois movimentos: primeiro, vemos uma diminuição da área de colheita; e, segundo, a produtividade, que não se recupera em toda a magnitude imaginada em função do canavial já comprometido. Somando esses dois fatores, a estimativa do Pecege é de que a safra chegue a moer 542 milhões de toneladas, uma das menores estimativas do mercado. Mas a grande maioria não está olhando para o pilar de redução de área de colheita, apenas para a recuperação da produtividade e aplicando um ganho sob esse aspecto. A visão do Pecege é de recuperação, vinda de melhoria na produtividade, porém, com dificuldades.

“Vejo um primeiro semestre muito positivo, mas sou cauteloso em relação ao segundo. Ainda é cedo para dizer”, Haroldo Torres (Pecege)

Como você mencionou, as chuvas no final de 2021 e começo de 2022 trouxeram a expectativa de melhora para os canaviais. Você acredita que a questão climática vai ser mais favorável durante este ano?
Por enquanto, só tivemos um episódio que chamou atenção: em algumas regiões do estado de São Paulo, o mês de abril foi muito mais seco, o que levou à necessidade, em alguns casos, de fazer a irrigação de salvamento no plantio. Ademais, tivemos casos isolados de geadas, mas que não impactaram a produção. Até agora, na metade de junho, o clima tem sido muito mais favorável ao que observamos no ano passado, principalmente no primeiro trimestre, com janeiro trazendo um volume de chuvas muito acima da média histórica. Porém, se eu olho para 2021, as intempéries vieram no segundo semestre, a partir de junho, com geadas e incêndios. Acho que as geadas ainda podem acontecer, mas qualquer previsão neste momento seria, de certa forma, insensato.

E em relação à qualidade da matéria-prima em 2022/23, o que podemos esperar?
O primeiro semestre do ano foi muito mais chuvoso, o que significa que a planta tende a ganhar mais em produção e menos em ATR. Consequentemente esse é o resultado que estamos vendo na entrega dos dados iniciais do ATR, que está cerca de 5% abaixo do mesmo período do ano anterior acumulado até agora. Pelas estimativas do Pecege, nós vamos “andar de lado” em termos de produção de açúcar total equivalente, ou seja, nossa visão é de uma safra ainda similar nesse índice, por conta da queda da concentração de ATR. O começo da safra foi muito ruim, mas, se até novembro for muito seco, pode ser que a gente ainda tenha uma ligeira recuperação e o tombo não seja tão grande quanto o que o Pecege está projetando. Assumindo normalidade climática, tal como no primeiro semestre, projetamos essa queda de quase 5% na qualidade da matéria-prima. Caso contrário, poderemos verificar um aumento desse ATR, podendo chegar a 140 quilos por tonelada de cana. Essa tem sido a maior preocupação das usinas: terem começado uma safra com uma qualidade muito baixa.

Os problemas vistos no ciclo passado poderão refletir na safra 2023/24? Qual a sua perspectiva para o futuro?
Vamos imaginar o seguinte: geralmente, fazemos o replantio no primeiro corte, na cana que acabei de plantar e que vou levar por mais cinco cortes. Mas, se o incêndio atingiu um canavial no segundo ou terceiro corte e que não foi reformado, teve falha e vou carregar isso para o próximo ano. Ou seja, ainda vou sentir o efeito nesta safra e na próxima. Dos incêndios, eu diria que nós vamos levar ainda um impacto para as próximas temporadas, principalmente das falhas nos canaviais que não foram reformados e que ainda vão levar mais um ou dois cortes até a sua reforma. Acho que o único ponto negativo que a gente vai levar de estresse para as próximas safras são essas falhas. Para 2023/24, eu sou mais otimista, acredito que nós vamos carregar muito mais vetores positivos do que negativos. Vamos aproveitar benefícios advindos das melhores taxas de plantio, que estamos tendo agora. Também vejo com otimismo as safras daqui para frente ao considerar normalidade climática.

“Ao mesmo tempo que a cana é resiliente, ela também é sentimental, e leva o impacto para outras safras”, Haroldo Torres (Pecege)

Quantas temporadas deve demorar para o setor voltar a atingir um patamar de moagem semelhante a 2020/21?
Quando olhamos para a safra 2020/21, foi um nível de produção considerável. Até duas safras atrás, os grãos vinham caminhando de forma complementar com a cana, principalmente soja e amendoim, no processo de meiosi. Nos últimos dois anos, com a explosão no preço dos grãos – em especial o milho, em função do conflito entre Rússia e Ucrânia –, houve uma valorização muito forte, que levou a uma pressão positiva sobre os preços de terra e arrendamentos. Então, as usinas enfrentaram dois impactos: ou teve um aumento de custo com arrendamento, ou perdeu área. Para o setor sucroenergético, a recuperação daquele patamar moagem vai depender da melhora na produtividade e da expansão de área, o que eu não vejo como oportunidade no curto prazo, porque o preço está mais elevado. Quando esse movimento de grãos arrefecer, a gente vai conseguir avançar via área em termos de moagem, mas a recuperação da produtividade, infelizmente, é um processo lento, que depende de investimento, novos plantios, novas variedades, mudanças no manejo e tecnologia. E, quando falo lento, acredito que demore duas ou mais safras para que a gente possa ter uma recuperação substancial da produção, atingindo valores superiores ao que a gente já observou nas safras anteriores.

Na última safra, os produtores tiveram uma boa remuneração, mas os custos também subiram. Qual é a sua perspectiva em relação aos custos de produção em 2022/23?
Eu gosto muito de uma metáfora, para qualquer leigo entender: o fenômeno do trem subindo a montanha com dois vagões, o primeiro é preço e o segundo é o custo. Nas duas últimas safras, tivemos crescimento do preço em função da seca, em uma velocidade muito maior do que o custo de produção, porque já tinha um estoque. Prova disso são os balanços financeiros com resultados recordes na geração de caixa e na margem das usinas, pois tinha um preço lá em cima e o custo aqui embaixo. Em 2022, o trem começou a descer a montanha: o preço começa a embarrigar para baixo e o custo está lá em cima. Assim, a diferença para a safra 2022/23 serão as margens menores. Certamente, as safras 2019/20 e 2021/22 entregaram os maiores resultados e margens do setor sucroenergético. Daqui para frente, começamos a enfrentar o impacto da inflação de custos desde os investimentos no canavial, com fertilizantes e defensivos. As usinas começam a ter uma dualidade: “se eu cortar esse investimento no fertilizante, posso prejudicar a minha produtividade, diluindo menos custo físico e prejudicando a margem de novo”. A solução é buscar alternativas, como vinhaça localizada, adubação orgânica, utilização de insumos biológicos, novas tecnologias para tentar mitigar um pouco desse impacto de custos. Acho que a maior dor desta safra é a inflação dos custos. Eu preciso lembrar que, em média, para a produção de uma tonelada de cana, utilizamos cerca de quatro litros de diesel. Com o aumento do diesel, assim como a elevação do preço de máquinas, equipamentos e implementos, o Pecege visualiza custo de corte, transbordo e transporte (CTT) na casa de R$ 40 por tonelada. E os preços, já começam a dar sinais de ligeira estabilidade, por isso mencionei a ideia do trem que começa a descer a montanha. O preço começa a cair e o custo ainda está lá em cima. Esse é o cenário que temos que olhar com cautela.

“Os preços dos produtos começaram a se acomodar, então, os recursos das últimas safras serão a ponte daqui para frente”, Haroldo Torres (Pecege)

Você mencionou a questão dos fertilizantes. De que forma os produtores de cana têm sido afetados durante esta safra?
Mesmo com o conflito no leste europeu, observamos a entrega de fertilizantes. O maior risco foi efetivamente a falta de produto, porém muitas empresas, usinas e fornecedores já haviam feito suas compras no final do ano, antes da eclosão da guerra, e tinham uma oferta garantida e bons níveis de preço. Prejudicou quem não comprou o fertilizante para 2022 com antecedência. Além disso, começamos a perceber uma busca por alternativas, já fazendo investimento em aplicação localizada de vinhaça, insumos biológicos e, também, na adubação orgânica, comprando esterco bovino, aviário e cama de frango para aplicar na área agrícola, como uma forma de reduzir o volume de fertilizante sintético. Isso é muito positivo no âmbito do RenovaBio, porque os maiores fatores de emissão de gases de efeito estufa são o diesel e os fertilizantes, pois alguns são derivados do petróleo. Na medida que reduzo a utilização de químicos e sintéticos, migrando para uma adubação orgânica, também estou indo para um caminho de sustentabilidade e de melhoria da minha nota no programa, consequentemente aumentando as emissões de CBios.

É possível que o uso de fertilizantes sintéticos diminua a partir de agora?
Sim, pode acontecer. Mas é preciso lembrar que o acesso a esse tipo de matéria orgânica é limitado a algumas regiões. A pecuária e a avicultura no Brasil estão concentradas em polos, então, algumas usinas vão se beneficiar e podem reduzir esse consumo. Outras não vão ter essa disponibilidade, mas podem usar vinhaça ou adubação biológica.

Em resumo, como você vê o futuro do setor sucroenergético?
Mesmo com todas as adversidades que tivemos, o setor entregou um alto nível de resultado nas duas últimas safras, o que deve voltar agora para projetos que versem a diversificação, como a vinhaça localizada, biogás e levedura. O setor vai caminhar para maximizar o ativo industrial e, também, ter recursos para investir na área agrícola, buscando alternativas e soluções para fugir dessa inflação de custos.


Estas e outras discussões sobre a safra 2022/23 e o futuro do mercado acontecerão durante a Conferência NovaCana 2022. A programação completa está disponível no site do evento.


Giully Regina – NovaCana


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