NovaCana

Itaú BBA alerta que economia, incertezas tributárias e RenovaBio podem desafiar usinas

Gerente de agronegócio do banco aponta que o caminho favorável trilhado pelo setor de açúcar e etanol está sendo ameaçado

NovaCana 10 min de leitura

Um panorama de baixa nos preços de produtos, alta de juros e dúvidas tributárias fez com que as sucroenergéticas tenham começado a enfrentar problemas nos últimos meses. O cenário não parece tão favorável, a ponto do analista de equity do banco BTG Pactual, Thiago Duarte, afirmar que o considera, inclusive, grave.

Durante a Conferência NovaCana, o gerente de agronegócio do Itaú BBA, Guilherme Bellotti de Melo, compartilhou uma visão semelhante, ainda que pouco mais otimista. Em sua palestra, ele recuperou a perspectiva favorável que as empresas do setor vinham apresentando até o final do último ciclo. Além disso, relatório divulgado pelo banco em 9 de novembro reforçou essa visão de bons números em 2021/22.

“Nós, de fato, estávamos atravessando um dos melhores momentos na história recente do setor sucroenergético”, disse Melo.

A afirmação foi feita com base em um acompanhamento realizado desde a safra 2013/14 pelo Itaú BBA, considerando os balanços auditados das empresas do setor, avaliados de forma consolidada. “Os dois últimos anos foram marcados por uma redução bastante significativa nos níveis de dívida por tonelada e, também, nos de alavancagem”, destaca.

De acordo com o gerente de agronegócio, a partir do final de 2019 – e a despeito da eclosão da pandemia de covid-19 –, os preços dos produtos do setor voltaram a subir de maneira geral. O fato, combinado com bons níveis de produtividade na safra 2020/21, abriu espaço para uma redução “bastante significativa” da dívida, ainda segundo Melo.

“Na safra 2021/22, conforme números preliminares, essa tendência seguiu ocorrendo. Vimos uma redução da dívida, mas muito mais tímida, obviamente muito impactada pela retração dos níveis de produtividade”, complementa.

Na temporada, a produção de cana na região Centro-Sul caiu de 605 milhões de toneladas para 523 milhões, gerando uma retração significativa na geração de caixa do setor como um todo, ainda que as usinas estivessem se beneficiando de bons preços, de acordo com o gerente. “Mesmo com a retomada dos índices de investimento que observamos na safra 2021/22, o setor conseguiu reduzir ligeiramente o nível de dívida”, destaca. Segundo relatório do banco, a dívida líquida do setor caiu de R$ 39,32 milhões para R$ 35,88 milhões, retração de 8,7%.

Como o Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) das empresas foi “razoável”, o indicador de alavancagem – dado pela dívida líquida sobre o Ebitda – caiu para os menores patamares da série histórica do Itaú BBA. “Quando nós olhamos para os últimos nove anos, vemos que estávamos com a saúde financeira do setor muito próxima da excelência”, destaca Melo. Conforme os dados do banco, a alavancagem do ciclo 2021/22 foi o menor em nove anos.

Veja, na versão completa e restrita aos assinantes do NovaCana, detalhes sobre os desafios que o setor deve enfrentar adiante, além de visões sobre a disparidade entre as empresas.

Um panorama de baixa nos preços de produtos, alta de juros e dúvidas tributárias fez com que as sucroenergéticas tenham começado a enfrentar problemas nos últimos meses. O cenário não parece tão favorável, a ponto do analista de equity do banco BTG Pactual, Thiago Duarte, afirmar que o considera, inclusive, grave.

Durante a Conferência NovaCana, o gerente de agronegócio do Itaú BBA, Guilherme Bellotti de Melo, compartilhou uma visão semelhante, ainda que pouco mais otimista. Em sua palestra, ele recuperou a perspectiva favorável que as empresas do setor vinham apresentando até o final do último ciclo. Além disso, relatório divulgado pelo banco em 9 de novembro reforçou essa visão de bons números em 2021/22.

“Nós, de fato, estávamos atravessando um dos melhores momentos na história recente do setor sucroenergético”, disse Melo.

A afirmação foi feita com base em um acompanhamento realizado desde a safra 2013/14 pelo Itaú BBA, considerando os balanços auditados das empresas do setor, avaliados de forma consolidada. “Os dois últimos anos foram marcados por uma redução bastante significativa nos níveis de dívida por tonelada e, também, nos de alavancagem”, destaca.

De acordo com o gerente de agronegócio, a partir do final de 2019 – e a despeito da eclosão da pandemia de covid-19 –, os preços dos produtos do setor voltaram a subir de maneira geral. O fato, combinado com bons níveis de produtividade na safra 2020/21, abriu espaço para uma redução “bastante significativa” da dívida, ainda segundo Melo.

“Na safra 2021/22, conforme números preliminares, essa tendência seguiu ocorrendo. Vimos uma redução da dívida, mas muito mais tímida, obviamente muito impactada pela retração dos níveis de produtividade”, complementa.

Na temporada, a produção de cana na região Centro-Sul caiu de 605 milhões de toneladas para 523 milhões, gerando uma retração significativa na geração de caixa do setor como um todo, ainda que as usinas estivessem se beneficiando de bons preços, de acordo com o gerente. “Mesmo com a retomada dos índices de investimento que observamos na safra 2021/22, o setor conseguiu reduzir ligeiramente o nível de dívida”, destaca. Segundo relatório do banco, a dívida líquida do setor caiu de R$ 39,32 milhões para R$ 35,88 milhões, retração de 8,7%.

Como o Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) das empresas foi “razoável”, o indicador de alavancagem – dado pela dívida líquida sobre o Ebitda – caiu para os menores patamares da série histórica do Itaú BBA. “Quando nós olhamos para os últimos nove anos, vemos que estávamos com a saúde financeira do setor muito próxima da excelência”, destaca Melo. Conforme os dados do banco, a alavancagem do ciclo 2021/22 foi o menor em nove anos.

itaubba alavancagem 041122

Em 2021/22, ainda segundo o Itaú BBA, o índice de dívida líquida por tonelada foi de R$ 116/t, enquanto na safra anterior foi de R$ 115/t. Por outro lado, a dívida líquida por Ebitda caiu de 1,8 vez para 1,4 vez no mesmo comparativo.

Desafios adiante

Apesar destes avanços, o gerente de agronegócio do Itaú BBA reforça que o momento atual é bastante desafiador para as sucroenergéticas.

Analisando os preços de etanol e de açúcar, o banco comparou o retorno deles sobre o capital investido com o custo médio ponderado de capital. “A decisão de fazer novos investimentos, de maneira geral, ficou mais fria”, afirma Melo.

Ele crê que, usando as premissas atuais, seriam decisões que não levariam a uma criação de valor, pois o retorno operacional sobre capital investido é maior do que seu custo médio ponderado de capital.

“Tivemos uma mudança bastante abrupta e significativa na taxa de juros no Brasil. Passamos de uma taxa ao redor de 2% e provavelmente fecharemos o ano com ela oscilando próximo a 14%”, compara.

Em 2023, na visão do Itaú, provavelmente a taxa de juros será uma das mais elevadas pelo segundo ano seguido, impactando atividades e projetos de maneira geral.

“Não podemos esquecer que estamos enfrentando várias guerras: a da Rússia e da Ucrânia, obviamente, mas também a guerra dos juros contra inflação, a das mudanças climáticas contra a produção”, Guilherme Bellotti de Melo (Itaú BBA)

Para Melo, isso é resultado de dados econômicos gerais, que pioraram bastante, combinados com as incertezas relacionadas ao setor, principalmente quanto aos biocombustíveis. Neste caso, o quadro envolve a discussão tributária relacionada aos combustíveis no Brasil e, ainda, as incertezas em relação ao destino do RenovaBio.

“Isso acabou afetando, além dos tomadores de decisão, o mercado de maneira geral. Vimos os preços das ações perdendo bastante valor desde maio deste ano; houve uma grande repercussão no mundo de renda variável e fixa. Vimos os investidores serem mais seletivos”, destaca.

Ele ainda reitera que, principalmente em relação aos papéis incentivados, a concorrência é bastante grande. De acordo com o gerente, quando há mudanças institucionais que acabam aumentando a percepção de risco do setor, as empresas ficam ainda mais seletivas, principalmente os nomes mais novos, que estão acessando o mercado.

Assim, a visão de Melo para o curto prazo é de que “ventos contrários” estão soprando de alguns lados, exigindo preparação por parte das usinas, especialmente em relação ao etanol. Já do lado do açúcar, embora os preços de maneira geral estejam razoavelmente acima dos custos médios de produção, o consenso é de um superávit no mercado global, o que pode gerar pressão sob o preço da commodity.

Além disso, ele diz que será preciso lidar com taxas de juros “superelevadas”, logo, o custo de capital é alto. “Se pegarmos uma empresa que tem dívida líquida de três vezes em relação ao Ebitda, nos patamares que nós temos de juros no Brasil, provavelmente algo a redor de 50% dessa geração adicional de caixa vai ser comprometida com as despesas financeiras, o que sugere que se tem um colchão muito menor para absorver perdas de produtividade”, considera Melo.

Ele enxerga que a melhor forma para as empresas se protegerem contra esses riscos é a partir da preservação da liquidez e do relacionamento com bons parceiros de longo prazo, que conseguem suportar o setor nos períodos de “vacas mais magras”. Ele ainda complementa que, olhando adiante, o cenário é considerado positivo pelo Itaú BBA.

“No longo prazo, nós somos bem otimistas de maneira geral. Temos apenas que tomar alguns cuidados com as lombadas que poderemos encontrar no curto prazo”, afirma.

Disparidade inerente

Para entender a heterogeneidade do setor, o Itaú BBA analisou uma amostra de 58 grupos econômicos, com uma moagem total de 311 milhões de toneladas na safra 2021/22, correspondendo a 60% do processamento de cana do Centro-Sul no ciclo.

Como é feito regularmente pelo banco, as sucroenergéticas foram divididas em quatro grupos.

  1. O grupo A, com 12 empresas e 93 milhões de toneladas moídas, teve grande escala de ativos diferenciados e os melhores desempenhos.
  2. A parcela correspondeu ao grupo B inclui companhias bastante saudáveis operacional e financeiramente, mas com alavancagem e/ou liquidez inferiores às do grupo A. Neste caso, 28 empresas elencaram a fatia e moeram 154 milhões de toneladas.
  3. Já o grupo C foi composto por empresas com alguma fragilidade, seja por alavancagem, liquidez ou por menor eficiência operacional. Nele, estão 11 sucroenergéticas, correspondendo a 35 milhões de toneladas de moagem em 2021/22.
  4. Por fim, o grupo D engloba sete empresas, que processaram 29 milhões de toneladas. Estas são as companhias que apresentam os piores resultados.

Portanto, se por um lado há uma parcela em condições financeiras consideradas bastante favoráveis, por outro, há um grupo que, a despeito dos bons preços, não conseguiu reduzir os níveis de alavancagem, tendo dificuldade de manter o indicador em patamares saudáveis.

“O grande ponto é que parte relevante estava em condições bastante favoráveis para crescimento, expansão e investimentos de maneira geral”, completa Melo.

itaubba disparidade 041122

Ele destaca que existem diferenças relevantes olhando a realidade individual, afinal, o setor segue bastante heterogêneo. “Este é um dos setores que nos ajuda a entender que olhar a média, de maneira geral, não é tão inteligente assim”, disse.

Já na evolução do nível de investimento, ou capex, da mesma amostra, houve uma recuperação considerável em 2021/22 no comparativo com a safra anterior, principalmente para as empresas que estavam com os seus ativos razoavelmente depreciados.

itaubba capex 041122

“É válido lembrar que nós passamos por alguns períodos de aperto bastante grande do ponto de vista financeiro. Então, acho que muitas das usinas que conseguiram gerar fluxo de caixa livre positivo acabaram comprometendo a qualidade de ativos do setor, não repondo a depreciação e exaustão dos canaviais”, visualiza o gerente de agronegócio.

Além disso, o Itaú tem visto nos últimos anos – e espera para 2022/23 – uma recuperação parcial nas empresas que não estavam fazendo o processo de recuperação adequadamente, além de um aproveitamento do atual cenário de ativos para melhorar os índices de eficiência e a qualidade do canavial. “Vemos muitos novos projetos de biogás, de etanol de milho e outros acontecendo, incrementando a expansão”, complementa.

Gabrielle Rumor Koster – NovaCana

Compartilhar: