Cana: Plantio

Produtores de cana em Ribeirão Preto (SP) avaliam reduzir uso de potássio nas lavouras

Rússia é a principal vendedora do fertilizante ao Brasil e consequências da guerra na Ucrânia podem afetar importação; segundo produtores, atual período é o melhor para a compra


G1 - 04 mar 2022 - 08:46 - Última atualização em: 04 mar 2022 - 12:24
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Preparo da terra para plantio do amendoim na região de Jaboticabal (SP)

O conflito entre a Rússia e a Ucrânia, iniciado no final de fevereiro, preocupa empresários na região de Altinópolis (SP) e de Jaboticabal (SP), produtores de cana-de-açúcar e de amendoim, por causa do potássio importado para as lavouras.

O risco de desabastecimento e da escalada de preços já implica na discussão de estratégias, como redução do volume de aplicação para dar conta de toda a área plantada no segundo semestre, e na previsão de queda de produtividade.

O Ministério da Economia aponta que, no ano passado, 23% dos adubos ou fertilizantes químicos comprados pelo Brasil vieram da Rússia. Isso significa mais de 9,2 milhões de toneladas de insumos.

De acordo com dados do Itaú BBA, 28% do volume veio da Rússia. Segundo o diretor da cooperativa agroindustrial Coplana, Sérgio de Souza Nakagi, o potássio é muito utilizado na plantação de amendoim.

“O potássio é um produto essencial para o enchimento de grãos do amendoim e a Rússia tem uma grande jazida de potássio. Então tudo isso tem um impacto caso o mercado não se regularize”, comentou.

Na produção de cana-de-açúcar não é diferente. Segundo o produtor da Alta Mogiana, Marcelo Ravagnane, há a preocupação no abastecimento do potássio.

“O potássio é fundamental para a produção da cana para que ela tenha um alto teor de sacarose. Como o nosso principal fornecedor de potássio é a Rússia e tem esse problema aí com a Ucrânia, a gente prevê sim um problema de abastecimento”, disse.

Falta de fertilizantes

Durante os próximos meses ocorre o período de compra dos fertilizantes para as próximas plantações. Outra preocupação dos produtores, além do potássio, é o nitrogênio, que também vem da Rússia (20%) e não consegue ser armazenado.

“Você tem o nitrogênio que muitas vezes não suporta ficar muito tempo armazenado. Há um período para usar ele e não perder as qualidades. Então, a gente não tem estoque de produtos e o que tem hoje está restrito, por isso há a preocupação”, explicou o diretor da Coplana.

Segundo Nakagi, em função das sanções que estão sendo impostas, a Lituânia bloqueou a rota usada por Belarus, aliada da Rússia, para escoar potássio. O país é responsável por 6,1% das importações brasileiras de potássio.

Para o presidente do Sindicato Rural de Altinópolis (SP), Guilherme Salomão Vicentini, todas as culturas serão afetadas com essa indecisão, pois esse é o melhor momento para a aquisição de fertilizantes.

“Dificulta os novos pedidos. Esse é o momento oportuno onde o produtor consegue se organizar e efetuar as suas compras com tempo hábil para as entregas e logísticas. As próximas semanas serão decisivas para os produtores brasileiros”, explica.

O produtor rural de Altinópolis, Roberto Rossetti, diz que não está fácil encontrar os produtos e, se isso continuar, a partir de maio ele não terá o suficiente, precisando diminuir as doses de fertilizantes usadas.

“A gente pode ter que tentar reduzir doses do fertilizante para tentar adubar todas as áreas. Isso aí é bem possível, pode acontecer. Consequentemente, para o próximo ano, a produtividade da lavoura será menor”, afirma.

Para Rossetti, os preços também são uma grande preocupação, pois mesmo antes do conflito entre a Ucrânia e a Rússia eles já estavam altos. “Os fertilizantes hoje são um dos maiores custos da lavoura e já tiveram uma elevação muito grande por conta do dólar nos últimos anos”, diz.

Impacto na comercialização

A plantação de cana funciona em rotatividade com a de amendoim – uma ajuda a outra na recuperação do solo para o novo plantio. De acordo com o diretor da Coplana, a safra do amendoim está programada para terminar em abril. Depois, até outubro, essa parte da terra é utilizada para o plantio de cana.

“Dentro da propriedade há talhões (unidades de cultivo). Então, tem uma unidade de primeiro corte, segundo, terceiro... Elas vão ficando degradadas ao longo dos anos. Aí, você reforma essa unidade com o amendoim. É a rotação por partes. Todo ano você terá uma parte de terra reformando e virando amendoim”, explica.

Após a finalização da colheita do amendoim, de maio até abril do próximo ano, ocorre o que eles chamam de ano agrícola, ou seja, o período de vendas das sacas. Nesse período, segundo Nakagi, os produtores podem ser afetados pelo conflito entre a Ucrânia e a Rússia.

Os impactos podem vir principalmente do banimento da Rússia no sistema de transações financeiras entre países. Essas sanções foram uma forma de punição da comunidade internacional pelos ataques contra a Ucrânia.

“Tem que haver um entendimento entre as partes o quanto antes. Caso isso não aconteça, vai impactar não só o preço, mas a comercialização também. Essas sanções econômicas podem travar todo esse trabalho que foi feito desde outubro, quando o produtor colocou a semente. E quem sabe futuramente possa afetar o próximo ano de safra”, disse.

Em 2021, o Brasil vendeu US$ 1,6 bilhão em produtos para os russos, o que colocou o país comandado por Vladimir Putin como o 36º colocado no ranking de exportações brasileiras. A Ucrânia tem um menor destaque na balança comercial brasileira, mas ainda assim é significativa. Para o país, o Brasil vendeu US$ 227 milhões em 2021.

Tanto Rússia como Ucrânia têm o amendoim como o principal produto importado do Brasil: 39,25% da produção brasileira vai para a Rússia, o que equivale a US$ 129,7 milhões faturados. Já a Ucrânia é responsável pela compra de 8,83% da produção, o que corresponde a US$ 29,2 milhões.

Só a região de Jaboticabal (SP) corresponde a 37% de toda a leguminosa que foi exportada pelo país em 2021, segundo dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços. Atualmente, a Coplana tem 125 cooperados cadastrados no setor de amendoim, presentes nas cidades também de Guariba e Dumont (SP).

“Nós estamos aguardando que isso cesse. A Rússia é nossa parceira, pois importamos os fertilizantes e exportamos amendoim. Se ela não pensar ‘olha, a gente precisa ter alimento e sair com fertilizantes’, isso entra em colapso”, diz Nakagi.

Rebecca Crepaldi


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