Em meio a uma temporada de recuperação, analista aponta que o futuro do mercado não é concreto, com possíveis mudanças no mix de produção e preços em patamares mais elevados

NovaCana 05 jul 2022 - 09:14 - Última atualização em: 12 jul 2022 - 08:11

Depois de uma intensa quebra de safra em 2021/22, todos os olhares se voltaram para a temporada seguinte. Especialmente com as chuvas vistas no final do ano passado e começo deste, que favoreceram os canaviais que tanto sofreram no ciclo passado.

Ainda assim, a recuperação não deve ser tão intensa quanto o esperado inicialmente, e as produções de etanol e açúcar podem sofrer oscilações até o final do próximo ano. Desta forma, o mercado precisa acompanhar essas mudanças e se preparar para o futuro.

Ou seja, é necessário fazer um acompanhamento do desenrolar da safra, observando o direcionamento da matéria-prima e quais produtos poderão trazer uma melhor remuneração. Além, é claro, das atuais mudanças tributárias, como o já sancionado teto para o ICMS, que poderão mudar a dinâmica do mercado.

Para falar deste cenário, a analista de açúcar da S&P Global Platts, Luciana Torrezan, estará presente na Conferência NovaCana 2022, que acontece em São Paulo (SP) nos dias 19 e 20 de setembro. Ela será uma das palestrantes do painel “Inteligência de mercado para 2023”, ao lado do diretor da Sucden Brasil, Jeremy Austin, e do diretor da Czarnikow, Tiago Medeiros.

Torrezan possui mais de 15 anos de experiência em análise de commodities e é doutora em economia aplicada pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP). Ela ingressou na S&P Global Platts em dezembro de 2021 para liderar a equipe global de análise de açúcar.

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A programação completa da Conferência NovaCana 2022 já está disponível. Clique aqui para se inscrever.

Torrezan conversou com o NovaCana, no dia 20 de junho, sobre o tema que será abordado no painel da Conferência e trouxe alguns insights para 2023. Abaixo, veja a entrevista completa.

Esta safra está tendendo para um mix mais alcooleiro que a anterior. Você acredita que o açúcar pode voltar a ganhar espaço no decorrer da temporada?
Acredito que sim, em razão dos compromissos de exportação de açúcar já firmados e da recente queda dos preços do etanol, influenciada pelas prováveis mudanças nos tributos de combustíveis no Brasil. O nível de matéria-prima voltada para produção de açúcar deve aumentar gradualmente ao longo das próximas quinzenas, mas ainda assim o mix final da safra deve ser menos açucareiro que o da safra anterior.

Algumas usinas chegaram a cancelar contratos futuros para direcionar a produção ao etanol. Você acha que esta foi uma movimentação atípica de começo de safra ou que ainda pode ser ampliada conforme a remuneração dos produtos?
Essa foi uma decisão econômica pontual de algumas usinas, que viram naquele momento o etanol mais rentável que o açúcar. Dependendo dos preços relativos dos produtos, se o etanol voltar a remunerar mais que o açúcar e inclusive compensar a multa de cancelamento dos contratos, pode acontecer sim. Mas esse não é nosso cenário base para a safra.

“O mix final da safra deve ser menos açucareiro que o da anterior”, Luciana Torrezan (S&P Global Platts)

Os preços devem continuar em bons patamares para os produtores? Quais são suas perspectivas para 2022/23 e 2023/24?
Sim, nossa estimativa indica que os preços do etanol hidratado na safra 2022/23 devem ficar em média 4% acima dos praticados na safra anterior, entre R$ 3,90 por litro e R$ 4/L na média da temporada. Para o açúcar, os preços em Nova York tendem a ficar entre 18 e 20 centavos de dólar por libra-peso ao longo da safra 2022/23. Se não houver nenhum problema climático afetando as safras globais, a tendência é de preços um pouco menores para o açúcar em 2023/24.

Em maio deste ano, a Organização Internacional do Açúcar (OIA) apontou para um pequeno superávit 237 mil toneladas de açúcar no saldo global, mas há quem aposte em déficit. Qual é a sua visão? Como a atual situação da safra brasileira pode afetar o balanço global?
Nossa estimativa para o balanço global de açúcar é de um pequeno superávit de 300 mil toneladas na safra global 2021/22 (entre outubro e setembro) e de um superávit de 2,5 milhões de toneladas em 2022/23. Nessa estimativa, estamos considerando que o Centro-Sul do Brasil deve produzir 31 milhões de toneladas na temporada 2022/23 (entre abril e março). Mesmo que a produção de açúcar do Brasil seja menor que nossa estimativa atual, no caso de o etanol voltar a ser mais rentável que o adoçante, dificilmente vemos um cenário apertado no balanço global, considerando que não haja nenhum problema de safra em outros países.

No momento, qual produto é mais vantajoso ao produtor: açúcar ou etanol?
No mercado à vista, o açúcar está remunerando cerca de 0,47 centavos de dólar por libra-peso mais que o etanol hidratado, considerando um preço de açúcar VHP FOB Santos de 18,84 centavos de dólar por libra-peso e o hidratado equivalente de 18,37 centavos de dólar por libra-peso (incluindo cerca de 0,55 centavos de dólar por libra-peso de receita da venda de CBios).

Como você acha que as mudanças na tributação dos combustíveis, em especial a questão do ICMS, podem afetar o mercado de etanol?
Se apenas a proposta que limita o ICMS dos combustíveis a 17% for aprovada, pode haver um desfavorecimento do etanol hidratado frente à gasolina, particularmente nos estados onde atualmente o etanol tem uma alíquota de ICMS menor que da gasolina. Isso seria um fator baixista para os preços do etanol na usina. Nossa estimativa é de que, no pior dos cenários para o setor sucroenergético, o preço do etanol hidratado no estado de São Paulo poderia potencialmente reduzir em até R$ 0,59/L em relação ao cenário base, caso o ICMS da gasolina seja reduzido para 18% e o PIS/Cofins e a Cide de todos os combustíveis sejam zerados. Nesse cenário hipotético, estimamos o novo preço do hidratado na bomba para que a paridade do etanol e da gasolina seja mantida inalterada após a redução dos impostos. Para mitigar esse cenário, é de extrema importância a aprovação da PEC 15/2022, chamada de PEC dos Biocombustíveis, que busca manter a vantagem das tarifas dos biocombustíveis frente aos combustíveis fósseis.

“Apesar da moagem da safra 2022/23 já ter atingido cerca de 20% do volume esperado para o ciclo, ainda há muitas variáveis em aberto”, Luciana Torrezan (S&P Global Platts)

Quais são os pontos de atenção para o mercado?
A disponibilidade de cana em 2022/23 ainda é incerta, dados os grandes impactos das anomalias climáticas em 2021, e da persistência de um clima mais seco que o normal em 2022. O mix de produção nos próximos meses também não está claramente definido, particularmente com as incertezas em relação à tributação dos combustíveis e com a política de preços a ser seguida pela Petrobras. O mix de produção ainda pode mudar dependendo da evolução dos preços relativos do açúcar e do etanol.


Estas e outras discussões sobre a safra 2022/23 e o futuro do mercado acontecerão durante a Conferência NovaCana 2022. A programação completa está disponível no site do evento.


Giully Regina – NovaCana


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