Analista vê cenário negativo para as usinas de etanol de cana-de-açúcar e compara rentabilidade com a de unidades de milho
Vindo de temporadas muito rentáveis, com desalavancagem e aumentos dos investimentos, as sucroenergéticas podem estar prestes a entrar em um período mais crítico. O cenário não parece fugir do normal em um setor acostumado a lidar com ciclos de alta e baixa das commodities, porém, na visão do analista de equity do banco BTG Pactual, Thiago Duarte, a situação é grave.
De acordo com ele, desde maio, o setor sucroenergético vem “performando mal”, especialmente quando se comparado ao Ibovespa e a outros índices da bolsa.
“O setor é tomador de preço por todos os lados: no arrendamento, no Consecana, no plantio e no trato; também é interferido pela regulação, pelos juros e pelo preço de mercado. Então, a grande variável controlável é o custo de produção”, expressa o analista.
Ele relembra que os gastos das usinas são predominantemente agrícolas e fixos, portanto, a capacidade de alavancar a produtividade é fundamental para obter custos individuais mais baixos. “É isso que o setor tem sido incapaz de fazer, de forma agregada, nos últimos anos. Em termos de moagem de cana estamos estagnados há mais de uma década e nos últimos anos, sofremos um baque adicional”, declara.
Ainda que, nesta safra, a produção deva ficar em 545 milhões de toneladas – acima do ciclo passado –, o volume está abaixo da capacidade de moagem do setor, conforme Duarte. Ele ainda complementa que a produtividade está nos mesmos patamares de quinze anos atrás. Ou seja, não houve qualquer aumento da alavancagem operacional pelo setor.
E, por mais que as empresas listadas em bolsa sejam, em sua maioria, mais eficientes do que a média do setor, o cenário também é negativo para elas. Duarte detalha que a São Martinho, por exemplo, está com um custo total de produção da ordem de R$ 2,14 por litro neste ano. Já a Adecoagro tem R$ 2,30/L; a Jalles Machado, R$ 2,47/L; e a Raízen, R$ 2,90/L.
Com o preço do etanol na usina abaixo dos R$ 2,50/L (base São Paulo), fica clara a situação crítica. “Se eu imaginar que as sucroenergéticas estão mais próximas dos números da Raízen – o que eu acredito que seja –, o setor já está embaixo d’agua em termos de preço de venda versus custo total da operação”, declara.
Confira na versão completa (restrita a assinantes NovaCana) mais detalhes sobre a visão do BTG Pactual a respeito dos desafios do setor de açúcar e etanol.
Vindo de temporadas muito rentáveis, com desalavancagem e aumentos dos investimentos, as sucroenergéticas podem estar prestes a entrar em um período mais crítico. O cenário não parece fugir do normal em um setor acostumado a lidar com ciclos de alta e baixa das commodities, porém, na visão do analista de equity do banco BTG Pactual, Thiago Duarte, a situação é grave.
De acordo com ele, desde maio, o setor sucroenergético vem “performando mal”, especialmente quando se comparado ao Ibovespa e a outros índices da bolsa.
“O setor é tomador de preço por todos os lados: no arrendamento, no Consecana, no plantio e no trato; também é interferido pela regulação, pelos juros e pelo preço de mercado. Então, a grande variável controlável é o custo de produção”, expressa o analista.
Ele relembra que os gastos das usinas são predominantemente agrícolas e fixos, portanto, a capacidade de alavancar a produtividade é fundamental para obter custos individuais mais baixos. “É isso que o setor tem sido incapaz de fazer, de forma agregada, nos últimos anos. Em termos de moagem de cana estamos estagnados há mais de uma década e nos últimos anos, sofremos um baque adicional”, declara.
Ainda que, nesta safra, a produção deva ficar em 545 milhões de toneladas – acima do ciclo passado –, o volume está abaixo da capacidade de moagem do setor, conforme Duarte. Ele ainda complementa que a produtividade está nos mesmos patamares de quinze anos atrás. Ou seja, não houve qualquer aumento da alavancagem operacional pelo setor.

E, por mais que as empresas listadas em bolsa sejam, em sua maioria, mais eficientes do que a média do setor, o cenário também é negativo para elas. Duarte detalha que a São Martinho, por exemplo, está com um custo total de produção da ordem de R$ 2,14 por litro neste ano. Já a Adecoagro tem R$ 2,30/L; a Jalles Machado, R$ 2,47/L; e a Raízen, R$ 2,90/L.
Com o preço do etanol na usina abaixo dos R$ 2,50/L (base São Paulo), fica clara a situação crítica. “Se eu imaginar que as sucroenergéticas estão mais próximas dos números da Raízen – o que eu acredito que seja –, o setor já está embaixo d’agua em termos de preço de venda versus custo total da operação”, declara.
Assim, Duarte considera que é de extrema importância fazer uma alavancagem operacional, com o aumento da produtividade diluindo o custo unitário.
Cana versus milho
O analista faz uma comparação entre o milho, que quase triplicou sua produtividade, com a cana-de-açúcar, que está estagnada e sem ganho de eficiência há vários anos.
“Isso é muito preocupante. A cana corre risco de perder espaço de plantio, ou seja, não só não tem grande produtividade como vem gradualmente reduzindo em área”, alerta e justifica: “Do ponto de vista do dono da terra, assim que vencer o contrato de arrendamento, se tiver em uma região com essa aptidão, ele vai pensar em trocar para grãos e ter uma rentabilidade muito maior”.
Fazendo outro comparativo, o analista pontua que o custo do etanol de milho na safra passada foi de R$ 1,76/L devido aos subprodutos, especialmente o DDG. Já a média das empresas de cana listadas em bolsa teve um custo total em torno de R$ 2,15/L no mesmo comparativo.

“O etanol de milho tem se mostrado mais eficiente em termos de produção”, analisa Duarte.
Baixo uso da capacidade
Ainda que o setor tenha passado por importantes ajustes nos últimos anos – com a melhoria dos preços e a manutenção dos custos –, o analista acredita que o atual cenário é “mais preocupante”.
“O risco é a gente voltar a um ciclo como o de 2010 a 2015, de muito fechamento. O que nós vimos por muitos anos foram as usinas menos eficientes fechando, de forma que o custo médio da indústria voltasse a patamares supridos pelo nível de preço”, declara.
Em relação à taxa de utilização da capacidade, Duarte relata que o setor vinha de uma recuperação após a onda de fechamento de usinas, porém, no ano passado, a quebra da safra fez com que o nível voltasse a ficar baixo. Entre 2020/21 e 2021/22, o índice caiu de 92,4% para 82,6%, segundo dados do próprio BTG Pactual.
Duarte ainda expressa que o setor teve uma recuperação nos últimos três anos, mas ele considera que há chances de se interromper o ciclo de consolidação. “O setor ainda é extremamente pulverizado, é heterogêneo; a consolidação passa a ser uma necessidade”, completa.
Preços desfavoráveis
Considerando a evolução dos preços, Duarte observa que, em maio de 2022, o cenário parecia “espetacular”, com alta para o etanol e os CBios. Porém, em seguida, o açúcar voltou a pagar um prêmio relevante de quase 500 pontos em relação à combinação do renovável e créditos de descarbonização.
Parte do motivo foi a política de preços da gasolina no Brasil. Além da redução tarifária ter afetado os valores nos postos, a Petrobras voltou a praticar um desconto em relação ao preço internacional.
O analista recupera que, hoje, o preço de equilíbrio do etanol está em torno de R$ 2,40/L. Entretanto, considerando a mesma base de cálculo na primeira quinzena de maio deste ano, o valor era de R$ 3,50/L.
“Se os impostos da gasolina voltarem no ano que vem, o que não há nenhuma garantia com base no projeto de orçamento enviado ao Congresso, estamos falando de um preço de equilibro na ordem de R$ 2,75/L”, relata.
“Ou você tem uma melhora de preço, ou você tem uma melhora no ambiente regulatório – principalmente no RenovaBio –, ou você tem uma melhora de custo. Senão, o setor vai viver anos difíceis”, Thiago Duarte (BTG Pactual)
Conforme o analista do BTG, o cenário também impacta o mercado de açúcar. Com o etanol remunerando muito menos, a expectativa é de uma maximização da oferta da commodity na segunda metade desta safra e, também, na próxima.
“Quando se maximiza a oferta de açúcar no Brasil, a gente leva a um superávit global. Essa é nossa expectativa: de 3,5 milhões de toneladas global excedentes na safra 2022/23, iniciada em outubro”, declara.
Segundo Duarte, com a perspectiva de um excedente de açúcar, a composição de valor cai. “Falamos de um preço de equilíbrio do açúcar na ordem de 17 centavos de dólar por libra-peso, que ainda é um pouco acima do custo médio de produção”, completa.
Luz no final do túnel
O analista reforça que o cenário, especialmente quando se considera os meses que antecederam a eleição, não é sustentável. “A Petrobras é muito mais benevolente em baixar o preço da gasolina do que em relação ao diesel. Dependemos de importação de quase 30% do diesel consumido no Brasil. Na gasolina essa conta é muito mais tranquila. No ano passado cerca de 8% da gasolina consumida foi importada. Então se depende menos da paridade de importação”, detalha.
Por outro lado, Duarte acredita que, se o consumo de gasolina seguir subindo em detrimento do etanol hidratado, a conta vai apertar. “Sem capacidade de refino sobrando para produzir mais gasolina, entra o RenovaBio, que a gente considera, dos programas de mercado de carbono, o mais bem-feito e elaborado”, define.
De acordo com ele, o setor de combustíveis conta com duas décadas de histórico de consumo para calcular qual é o preço de CBio necessário para estimular a demanda. “O crédito começou quando o etanol representava 45% do conteúdo energético do ciclo Otto; esse ano, estamos falando de apenas 38%. Até agora, o etanol tem perdido espaço ao invés de ganhar”, reforça.
Para Duarte, se o programa não tiver mudanças relevantes – que diminuiriam o incentivo a investimentos em biocombustíveis –, há espaço de crescimento para o etanol. Em 2030, conforme as projeções do BTG, o CBio atingiria R$ 430.

“Isso demonstra um grande otimismo para o preço do açúcar nos próximos anos, pois não tem praticamente ninguém mais produzindo a um custo abaixo do preço de tela”, detalha Duarte, complementando que o adoçante é a única commodity que não está acima do preço médio da última década: “A soja e o milho estão 50% acima, assim como o algodão, e o próprio petróleo”.
Duarte ainda deixa uma mensagem de otimismo em relação ao potencial da cana e a todo o conteúdo energético que ela possui; entre sacarose e biomassa em forma de bagaço e folhas, boa parte não está sendo utilizada. “Há muito para ser capturado considerando novas tecnologias, como etanol de segunda geração e a própria cogeração – só metade da capacidade de cogeração no país é efetiva”, declara.
Além disso, ele aponta que o biogás pode representar um crescimento de 36% na captura de valor da energia que está armazenada dentro da cana. “Então, para que o setor possa viver dias melhores, o caminho talvez não seja do lado do custo, mas do lado da melhor utilização da energia estocada na cana”, completa.
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana
