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Os pontos fortes das sucroenergéticas na bolsa de valores – casos de sucesso e insucesso

Atualmente, somente São Martinho e Jalles Machado estão na bolsa – porém há chances de ingresso para mais empresas do setor

NovaCana 26 min de leitura

A entrada na bolsa de valores não pode ser feita da noite para o dia. Existe uma série de requisitos que uma companhia precisa cumprir antes de realizar uma oferta pública inicial (IPO, na siga em inglês) e que, em grande parte, depende de um histórico de boas práticas. Após o ingresso, diversas novas rotinas precisam ser internalizadas pela empresa, eventualmente até mudando a sua cultura. A manutenção disso garante a perpetuidade da abertura de capital e de um bom valor de mercado.

Para consultores ouvidos pelo NovaCana, é inegável que o momento seja atraente. “Estamos com uma bolsa com mais de 120 mil pontos, com perspectiva de chegar a 150 mil em função de uma taxa de juros muito baixa; o mercado está tendo um apetite de ações muito maior do que tinha antes”, afirma o sócio da Ready Assessoria e Gestão, Rodrigo Tetti.

O consultor sênior da Peers Consulting, Pedro Terra, acrescenta outros pontos favoráveis do momento, como o câmbio desvalorizado e o preço da gasolina alto, que ajudam o setor sucroenergético, em específico, a melhorar seus resultados. O ciclo de alta das commodities e a redução no fluxo de capitais vindo de bancos públicos, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), tornam a abertura uma “excelente opção” para adquirir capital, de acordo com ele.

Estes estímulos podem modificar a realidade de haver poucas empresas do agronegócio na B3. Para dimensioná-la, o chefe de agro, consumo e varejo da XP Investimentos, Pedro Freitas, faz um comparativo. Enquanto entre 24% e 26% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil é composto pelo setor agrícola, estas companhias não representam mais do que 5% do capital na bolsa de valores. “Existe uma defasagem, mas está havendo abertura para o setor ser mais representativo”, pondera.

Com a baixa representatividade, há poucos exemplos de agronegócio na B3 para comparação, o que desencoraja os investimentos. “[O setor sucroenergético] se restringe a São Martinho, Jalles Machado e Biosev [que está de saída da bolsa]. São poucas as informações públicas. Muitas empresas, apesar de terem feitos CRAs [Certificados de Recebíveis do Agronegócio], não divulgam os dados com frequência para o mercado”, explica o sócio da FG/A Willian Hernandes.

O cenário pode mudar. Algumas empresas iniciaram processos, como Raízen e FS Bioenergia, e outras desejam entrar, porém desistiram temporariamente por questões de mercado, como o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) e a GranBio. Além disso, existem sinais de que a Companhia Mineira de Açúcar e Álcool (CMAA) e a Uisa também possuem interesse no mercado de capitais. Por fim, há casos de saída da bolsa, como o da Tereos e o da Biosev.

Confira, na versão completa (restrita para assinantes), um panorama sobre as sucroenergéticas na bolsa de valores e os principais casos do setor.

A entrada na bolsa de valores não pode ser feita da noite para o dia. Existe uma série de requisitos que uma companhia precisa cumprir antes de realizar uma oferta pública inicial (IPO, na siga em inglês) e que, em grande parte, depende de um histórico de boas práticas. Após o ingresso, diversas novas rotinas precisam ser internalizadas pela empresa, eventualmente até mudando a sua cultura. A manutenção disso garante a perpetuidade da abertura de capital e de um bom valor de mercado.

Para consultores ouvidos pelo NovaCana, é inegável que o momento seja atraente. “Estamos com uma bolsa com mais de 120 mil pontos, com perspectiva de chegar a 150 mil em função de uma taxa de juros muito baixa; o mercado está tendo um apetite de ações muito maior do que tinha antes”, afirma o sócio da Ready Assessoria e Gestão Rodrigo Tetti.

O consultor sênior da Peers Consulting, Pedro Terra, acrescenta outros pontos favoráveis do momento, como o câmbio desvalorizado e o preço da gasolina alto, que ajudam o setor sucroenergético, em específico, a melhorar seus resultados. O ciclo de alta das commodities e a redução no fluxo de capitais vindo de bancos públicos, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), tornam a abertura uma “excelente opção” para adquirir capital, de acordo com ele.

Estes estímulos podem modificar a realidade de haver poucas empresas do agronegócio na B3. Para dimensioná-la, o chefe de agro, consumo e varejo da XP Investimentos, Pedro Freitas, faz um comparativo. Enquanto entre 24% e 26% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil é composto pelo setor agrícola, estas companhias não representam mais do que 5% do capital na bolsa de valores. “Existe uma defasagem, mas está havendo abertura para o setor ser mais representativo”, pondera.

Com a baixa representatividade, há poucos exemplos de agronegócio na B3 para comparação, o que desencoraja os investimentos. “[O setor sucroenergético] se restringe a São Martinho, Jalles Machado e Biosev [que está de saída da bolsa]. São poucas as informações públicas. Muitas empresas, apesar de terem feitos CRAs [Certificados de Recebíveis do Agronegócio], não divulgam os dados com frequência para o mercado”, explica o sócio da FG/A Willian Hernandes.

O cenário pode mudar. Algumas empresas iniciaram processos, como Raízen e FS Bioenergia, e outras desejam entrar, porém desistiram temporariamente por questões de mercado, como o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) e a GranBio. Além disso, existem sinais de que a Companhia Mineira de Açúcar e Álcool (CMAA) e a Uisa também possuem interesse no mercado de capitais. Por fim, há casos de saída da bolsa, como o da Tereos e o da Biosev.

Entrada e permanência

Um modelo de negócio robusto, boa governança, produtos diversificados, boa margem, uso de novas tecnologias e diferenciais regionais são características que favorecem o ingresso na bolsa, enumera Hernandes. “Cada empresa tem seu ponto específico de fortaleza. É a combinação destes pilares que atrai o investidor”, considera.

Sobre a diversificação, ele pontua que, no caso das sucroenergéticas, ir além do açúcar e do etanol pode fazer a diferença; a energia elétrica, por exemplo, está bem descorrelacionada dos outros produtos.

Além disso, ter um custo-caixa abaixo da média do setor também é fator determinante, afirma Freitas. “Em um cenário positivo, a empresa vai ganhar muito dinheiro; no negativo, talvez ela não ganhe, mas não vai perder capital”, explica.

A gestão de risco não fica para trás no quesito importância e é muito considerada pelos investidores. “Estamos falando de um setor que é exposto a variáveis climáticas, ciclo e preços de commodities”, justifica.

Aspectos ESG – sociais, ambientais e de governança – mais do que nunca devem ser foco da empresa de capital aberto. De acordo com Freitas, o setor acaba tendo vantagem ao participar de programas como o RenovaBio.

Ademais, a entrada na bolsa envolve desde a estruturação de um sistema de informação mais transparente até a definição de diretrizes da governança corporativa. “A empresa precisa ter processos maduros e garantir uma evolução constante dos seus resultados. Apesar do setor agrícola depender de clima e outros fatores não tão controláveis, é fundamental que a empresa busque ter previsibilidade”, explica Terra.

Como o mercado de capitais é bastante amplo, a empresa pode ir “treinando” para ingressar mais forte no de ações. Conforme Tetti, é importante que a companhia já tenha feito outras operações estruturadas, como CRAs, emissão de bonds e debêntures. “Assim, já é possível medir o apetite de mercado ao papel”, observa.

Para Terra, o setor sucroenergético é um dos que mais vem se profissionalizando, fazendo com que a as empresas estejam “mais perto da prontidão necessária para o IPO”. Ainda assim, a maior parte das companhias é composta por meio da aquisição de outras usinas e, às vezes, os aspectos de governança, gestão operacional e controles internos ainda não estão unificados. “Isso pode dificultar inclusive a elaboração do relatório financeiro”, explica.

Vale lembrar que ter todas as boas características de ingresso na B3 nem sempre é suficiente, uma vez que a questão cultural pode pesar. Tetti relata que tem “ótimas empresas” que possuem porte para acessar a bolsa, “mas se existe algum ‘traço paternalista’, eu diria que não é recomendado”, opina. O sócio da Ready enxerga que o setor “não gosta de compartilhar, de se mostrar”. Logo, não passa credibilidade aos analistas de mercado.

Novas habilidades serão demandadas dos administradores e empregados na empresa com a abertura de capital, além de controles adicionais e de transformações no negócio, de acordo com Terra.

Além disso, explica Tetti, a companhia precisa estar ciente que seus custos aumentarão, uma vez que é necessária uma estrutura favorável para o relacionamento com o investidor. “Os bancos e consultorias vêm com o relatório trimestral na mão e questionam: ‘você falou que ia ocorrer e não ocorreu’”, exemplifica. “Outro ponto importante é ter uma boa auditoria não só dos números, mas dos processos de controle interno. É um setor muito exposto”, completa Tetti.

Terra pontua que, além da empresa precisar se comunicar de forma transparente, os sócios perderão o controle total do negócio, uma vez que todos os passos devem ser dados pensando em como o mercado reagirá. “A empresa precisa ter um bom gerenciamento de risco para evitar prejuízos e desvalorização”, alerta.

Outro desafio trazido por Tetti é o fato de que o setor sucroenergético cresce de forma devagar, com poucas fusões e aquisições; na área tecnológica, como no caso da cana transgênica e do etanol de segunda geração, o movimento também é lento. Por isso, é preciso fazer com que o investidor entenda esta característica. “Mas é um setor consistente; o mundo demanda por alimento barato, energético e por energia limpa”, pondera.

Raízen é a próxima a abrir capital

A Raízen deve ingressar no mercado de capitais nos próximos dias, conforme expresso pela empresa na última segunda-feira, 31, em fato relevante. Entretanto, quem ingressa na bolsa é a Raízen Combustíveis devido a uma reorganização societária anunciada na terça-feira, 1º.

Com a mudança, a Raízen Combustíveis se tornou titular das ações que representam 100% do capital social da Raízen Energia; por isso, as empresas Cosan e Shell rescindiram e aditaram o acordo de acionistas da Raízen Energia, a fim de adaptar os seus termos e condições à nova situação societária da empresa.

Ainda serão decididos pelo conselho de administração da Raízen Combustíveis a quantidade de ações a serem ofertadas e o preço. A eventual oferta também depende tanto do aval da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) quanto das condições de mercado, conforme a empresa pontuou, também em fato relevante.

Além disso, de acordo com o informado pela companhia, a Raízen irá descontinuar a divulgação de projeções financeiras – o chamado guidance – para se alinhar com a política de procedimentos adotados pelos auditores independentes da companhia, medida necessária para realização do possível IPO.

Desta forma, a Raízen provavelmente cumprirá a previsão de protocolar o pedido junto à CVM ainda neste mês.

A empresa acabou saindo na frente no planejamento da Cosan para suas subsidiárias. Em junho do ano passado, o grupo já havia informado que simplificaria a sua estrutura societária e que os planos de reorganização corporativa poderiam incluir a realização de ofertas públicas de ações.

Até então, o processo mais adiantado era o da Compass, empresa de gás e energia do grupo. Entretanto, em anúncio posterior, a Cosan afirmou que o timing de mercado parecia mais favorável ao IPO da Raízen. A aquisição da Biosev certamente pesou nessa decisão, uma vez que fortaleceu a Raízen para uma eventual oferta.

No final de março, a Cosan confirmou a contratação de consultores para iniciar o processo de IPO da empresa. Em 10 de maio, o grupo reiterou a análise de viabilidade para a entrada da companhia na bolsa de valores, expressando que os sócios pretendem deixar tudo preparado para a realização da possível operação.

Terra, da Peers Consulting, enxerga que a Raízen já possui toda a estrutura para a abertura de capital e que talvez aguarde o melhor momento do mercado para realizá-la. Para Hernandes, da FG/A, fazer o IPO em uma época menos favorável pode afetar bastante o valor de mercado. “Quando o volume [financeiro] é maior, o impacto cresce, pois demanda aderência de muito mais investidores do que em um IPO menor”, considera.

Uma notícia veiculada no Valor Econômico em março informava que o valor estimado do IPO da Raízen ficaria entre R$ 8 bilhões e R$ 13 bilhões, ainda que a empresa tenha afirmado em um comunicado a mercado que não havia “qualquer definição de potencial valor da oferta”. O valor máximo foi reforçado em uma publicação da Reuters de 30 de março.

Se este montante se confirmar, o IPO poderá ser o maior do ano e ficar entre os que mais movimentaram capital na história da bolsa brasileira.

Hernandes considera a quantia plausível desde que o país esteja em uma situação de normalidade, sem crise econômica, política ou fiscal. “É um número possível diante do tamanho da companhia, que será disparada a líder de mercado no setor”, diz.

Tetti, da Ready, concorda, apesar de ser difícil analisar, com a visão de mercado de um valor entre R$ 12 bilhões e 13 bilhões. “Tem tudo para ser um belíssimo lançamento; além disso, quando uma companhia deste tamanho faz o roadshow internacional, ela gera apetite não só na empresa, mas no setor”, afirma e completa: “Os outros papéis pegam carona, cada lançamento isolado é positivo para o setor como um todo”.

Segundo reportagem da Exame publicada em 6 de maio, a Raízen havia começado a fazer apresentações para investidores no Brasil, uma vez que as internacionais já estavam concluídas. O processo, chamado investor education, consiste em reuniões com analistas e investidores relevantes para engajá-los, testar a tese de investimento e coletar opiniões.

A Raízen é a quarta maior empresa do país em receita, com faturamento na casa dos R$ 120 bilhões e, segundo Terra, “é muito esperada pelo mercado”. Hernandes complementa que será uma boa oportunidade para saber como os investidores estão precificando não só a Raízen, mas o setor como um todo.

Terra também considera que a companhia é bem estruturada e possui tecnologia de ponta, tendo alto potencial de valorização pós-IPO. “Possui gestores profissionalizados que conhecem o mercado de capitais, uma vez que empresas de seu ecossistema já estão listadas na bolsa”, disse, referindo-se à Cosan e à Rumo.

De todo modo, o consultor sênior da Peers Consulting destaca um ponto de atenção para a sucroenergética. Por se tratar de uma empresa grande, ele acredita que ela pode ter dificuldade de reação a um problema quando comparada a uma companhia de menor porte. “Assim como pode ter dificuldade de efetivar a incorporação da Biosev por se tratar de várias unidades espalhadas em três estados”, observa.

A reportagem entrou em contato com a Raízen, mas a empresa disse que não iria comentar sobre o processo.

Biosev sai da bolsa

Com o processo de venda, a Biosev vai sair da bolsa de valores. Em documentos enviados à CVM em 25 de maio, a empresa confirmou o cancelamento do registro de companhia aberta e a submissão deste pedido tanto à autarquia quanto à B3.

Isso ocorre, de acordo com o documento, “em virtude da incorporação da totalidade das ações de emissão da companhia pela Hédera Investimentos e Participações”, criada para representar os atuais acionistas dentro da nova estrutura. Além disso, esta era uma das etapas essenciais para que fosse concluída a venda à Raízen.

A empresa já passou por algumas dificuldades no mercado de capitais. Em novembro de 2019, obteve uma extensão do prazo para recompor o seu Free Float (percentual mínimo de ações em circulação na bolsa em relação seu capital social). Com isso, a Biosev poderia manter um índice mínimo de Free Float de 5,99%; de acordo com as regras da B3, no segmento Novo Mercado, o índice ideal é 25%.

O prazo final de recomposição era 31 de dezembro de 2020, entretanto, dez dias antes, a empresa publicou um novo fato relevante informando que havia sido autorizada pela B3, em caráter extraordinário, a permanecer no mesmo Free Float até que a sua recomposição ocorra ou até 31 de dezembro de 2021.

FS deve entrar na bolsa, mas há impasse

Dentre as empresas que possivelmente ingressarão na bolsa em 2021 está a FS Bioenergia. O primeiro anúncio de intenção foi feito em fevereiro e a empresa pretende captar R$ 1 bilhão com a oferta inicial de ações.

De acordo com a minuta do prospecto preliminar, divulgada no site da CVM, os recursos devem ser empregados na construção de uma terceira unidade de etanol e no pagamento da consolidação da reorganização societária.

Entretanto, a oferta está suspensa até 29 de julho, a pedido da empresa. Conforme reportagem do Valor Econômico publicada no início de maio, a FS deveria reapresentar o pedido do seu IPO à CVM para dar continuidade à operação uma vez que, na avaliação da entidade, a empresa que deveria ser listada seria a FS S.A., holding existente há dois anos e que é pré-operacional, e não a Agrisolutions; a tese da companhia é diferente.

Apesar de a companhia ter anexado os três últimos balanços da FS Agrisolutions ao processo, imaginando que eles seriam considerados uma vez que este é o único ativo da holding, a CVM avaliou que a empresa em análise não tem ativos e a operação foi considerada como a de uma companhia pré-operacional.

Apoiada nas instruções CVM nº 400 e nº 480, a entidade enxerga que a FS precisaria entregar um estudo de viabilidade econômico-financeiro da empresa. Além disso, os papéis só poderiam ser vendidos para investidores qualificados.

Conforme a reportagem, tanto a FS quanto o coordenador-líder da operação, Morgan Stanley, alegaram à CVM que a holding só terá a função de exercer o controle da empresa operacional quando a oferta ocorrer e que não precisaria apresentar um estudo de viabilidade uma vez que já apresentou os balanços.

Entretanto, a área técnica da CVM apontou incertezas relacionadas ao modelo de construção societária. O tema foi levado ao colegiado da autarquia, que reconhece que a holding terá, pelo menos, 40% da FS Agrisolutions e que este é seu único investimento. Logo, ela não poderia ser considerada uma companhia pré-operacional. Por outro lado, os diretores da entidade afirmaram que o disposto nas instruções se calca na realidade contábil da empresa quando fez o pedido de registro do IPO e não na que vai se concretizar a partir do início da oferta.

Com isso, ainda de acordo com a apuração do Valor Econômico, o colegiado registrou que a opção para a empresa seria solicitar a dispensa da apresentação de estudo de viabilidade e da restrição do público-alvo da oferta. A FS havia informado que, caso tivesse de fazer essa solicitação, considerando-se empresa pré-operacional, teria que alterar a documentação da oferta e, por esse motivo, solicitava que a CVM aceitasse a condição da holding como operacional.

Jalles Machado é exemplo mais recente

Dentre os casos de ingresso na bolsa de valores, o da Jalles Machado é o mais recente do setor. Em seu IPO, feito no dia 5 de fevereiro, a companhia movimentou R$ 737,77 milhões com papéis valendo R$ 8,30, conforme divulgado na CVM. Os bancos contratados pela companhia foram XP Investimentos, BTG Pactual, Citi e Santander.

Na estreia, suas ações fecharam com alta de 8,92%, para R$ 9,04 – durante o dia, o valor chegou a subir mais de 10%.

O uso do valor captado em oferta primária, que vai direto para o caixa da empresa, deverá ser usado para aumento da produção de cana-de-açúcar, investimentos nas plantas existentes e aquisição de uma terceira unidade. O novo empreendimento deverá ser em outra região, uma vez que o crescimento seria limitado em Goianésia (GO), onde estão as duas usinas da Jalles Machado, de acordo com o diretor financeiro, Rodrigo Penna.

Ele acrescenta que a abertura de capital não era uma meta da companhia. “Achávamos que ainda não tínhamos porte para isso”, relata. Ainda assim, a empresa foi instigada pela XP Investimentos, com quem já tinha um relacionamento por conta da emissão de CRAs. “Eles disseram que tínhamos uma geração de Ebitda grande, uma empresa com governança organizada e questionaram se não queríamos avaliar a abertura de capital”, relata.

Os planos se mantiveram mesmo com a redução do valor inicialmente imaginado pela empresa, de R$ 900 milhões, com ações valendo entre R$ 10,35 e R$ 12,95. No início da operação, a perspectiva era levantar R$ 1 bilhão.

Após a contratação dos bancos responsáveis em outubro, a empresa pediu o registro para o IPO em dezembro do ano passado.

O histórico da governança corporativa – com balanços auditados desde 1987, por exemplo – tornaram o IPO possível e de sucesso. “A Jalles estava preparada. A empresa evoluiu do ponto de vista de estrutura de capital e ficou mais robusta, mas no operacional e na governança muda muito pouco, pois já estava em um patamar de empresas abertas”, detalha Hernandes, da FG/A, empresa que acompanha a Jalles há 15 anos.

A XP Investimentos foi a coordenadora líder do IPO da companhia e também destaca a governança e transparência. “A Jalles já se comportava como uma empresa de capital aberto há cinco anos, divulgando informações trimestrais de resultados”, explica Freitas.

O fato de a Jalles Machado ter poucas unidades possibilita reagir às necessidades mais rapidamente, segundo Terra. “Ela se posiciona como exportadora de açúcar orgânico, produto que apresenta preços muito vantajosos versus o cristal e o VHP, e mais de um terço de suas receitas são de produtos ‘não-commoditizados’, afastando-se do perfil tradicional das usinas e mitigando a volatilidade típica do setor”, relata.

GranBio muda de planos para abrir capital

No início de 2020, a GranBio demostrou interesse em ingressar na bolsa de valores na categoria Bovespa Mais, o segmento de acesso à B3. Na época, a decisão dependia dos seus acionistas e, em maior medida, do BNDESPar (braço de participações do BNDES), que detém pouco mais de 13% das ações da empresa atualmente.

O pedido de entrada na bolsa veio em setembro de 2020, sendo concedido em novembro. Entretanto, segundo informado pela empresa, a GranBio optou, em outubro do ano passado, pela entrada por meio da instrução CVM nº 476, de esforços restritos, que busca investidores institucionais em um limite de até 75. Nesta modalidade, o IPO não precisa ser registrado e analisado pela CVM. A ideia é simplificar e agilizar o processo de acesso ao mercado de capitais com menos obrigações.

A decisão foi tomada em assembleia de acionistas da GranBio com ata publicada no Diário Oficial de São Paulo em 5 de novembro. Ainda segundo a empresa, o processo está previsto para ocorrer no segundo semestre deste ano.

Em julho de 2020, a empresa informou que esperava levantar R$ 1,5 bilhão com o processo de IPO. Conforme publicado na minuta do prospecto preliminar da GranBio, anterior à mudança de planos e disponível no site da CVM, os recursos seriam utilizados na usina de produção de etanol celulósico, elevando a capacidade produtiva de 33 milhões de litros ao ano para 50 milhões. Também seriam destinados à construção de uma unidade de produção de nanocelulose, em investimentos contínuos em pesquisa e em desenvolvimento e aquisições pontuais de patentes.

CTC desiste da bolsa de valores por ora

Além disso, o havia a expectativa de que 2021 veria a oferta pública inicial do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), referência no desenvolvimento de variedades de cana. Porém a empresa pediu a interrupção formal do pedido devido à piora nas condições de mercado, afirmando, em nota divulgada em 22 de abril, que os planos seguem existindo.

Segundo Terra, o momento de abertura faz total diferença. “É muito comum a empresa, às vésperas da abertura, cancelar com receio de o momento não ser favorável. É o que aconteceu com o CTC”, completa.

O pedido inicial havia sido protocolado em outubro de 2020 para ingresso no segmento Novo Mercado. Em fevereiro deste ano, o processo foi retomado considerando emissões primária e secundária.

Segundo a minuta do prospecto preliminar do CTC, divulgado na CVM no início do ano, a companhia pretendia usar o capital para: construir plantas de demonstração para projetos de sementes sintéticas; aumentar o investimento em seleção genômica; implementar ferramentas de edição genômica; e identificar novos negócios.

O pedido enviado em outubro ocorreu em conjunto com o de migração do CTC do segmento Bovespa Mais para o Novo Mercado. O Bovespa Mais foi pensado pela B3 para companhias que desejam acessar o mercado de forma gradual, incentivando o crescimento de pequenas e médias empresas via mercado de capitais.

O CTC já faz parte desse segmento desde 2016, portanto, seu prazo para realização da oferta inicial vence em 2023. Conforme noticiado à época, o presidente do conselho de administração da empresa, Luís Roberto Pogetti, disse que o registro integrava o acordo feito com o BNDES em março de 2014, já que o BNDESPar adquiriu uma participação do Centro naquele ano. Atualmente, o banco detém quase 19% das ações da companhia.

Segundo Hernandes, em casos como o do CTC, em que o negócio envolve mais fortemente o ramo da tecnologia, o sucesso do mercado aberto dependerá muito do apetite dos investidores, que é bastante variável e volátil. “Depende do momento de mercado para capturar esse valor, mas o caminho de médio e longo prazo é que haja mais interesse dos investidores para este tipo de tecnologia”, completa o analista.

Tereos é caso de insucesso na bolsa

Se ingressar na bolsa de valores não é um processo fácil, manter-se nela não é menos complexo. A Tereos Internacional é uma companhia que precisou sair do mercado de capitais por conta de um cenário financeiro negativo para as sucroenergéticas em um período de valores baixos para o açúcar e do controle de preços no mercado de combustíveis.

Após oito anos na B3, a empresa foi notificada em outubro de 2015, pois suas ações estavam abaixo do piso determinado para negociações em bolsa, que é de R$ 1 por unidade. Em novembro do mesmo ano, a companhia apresentou um plano para reverter a situação, que consistia no grupamento de ações, algo recomendado pela própria Bovespa. No caso da Tereos, 50 papéis viraram um para que o valor unitário subisse. Com isso as 817,72 milhões de ações se tornaram 16,35 milhões.

Com a mudança, os papéis passaram a valer R$ 28,50 em 26 de novembro de 2015, ante os R$ 0,57 no pregão do dia anterior, que ainda não refletia a mudança. O preço estava dentro da faixa considerada adequada em casos como esses, entre R$ 20 e R$ 40.

Ainda assim, no final do mesmo ano, a Tereos decidiu realizar uma oferta pública de aquisição (OPA) das ações para sair do segmento Novo Mercado. O preço oferecido pela empresa teve um prêmio sobre o negociado e foi de R$ 65. A oferta se direcionava a todas as ações da companhia que não estivessem em posse direta ou indireta dos acionistas controladores.

Na época, o diretor de relações com investidores da Tereos, Marcus Thieme, esclareceu que o momento não era favorável para o mercado de capitais no país, não sendo interessante manter papéis em negociação no Novo Mercado.

Em janeiro de 2016, o Bradesco BBI avaliou que as ações valiam mais do que estavam sendo negociadas, de R$ 56,01 a R$ 61,60, preço também superior à média de um período de 42 dias, de R$ 52,53. Ou seja, valores abaixo dos R$ 65 ofertados previamente pela empresa, que optou por manter o valor para a OPA. O edital de oferta pública de aquisição foi lançado em julho de 2016.

De acordo com Tetti, a Tereos fechou capital, pois acabou “não tendo um volume de comercialização dos papéis, um apetite pelo mercado como tem um papel da São Martinho ou da Cosan, por exemplo”.

O NovaCana entrou em contato com a Tereos, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.

Poucas empresas trilhando o caminho

Mesmo que mais companhias estejam entrando na bolsa, Tetti não enxerga uma onda de ingresso no mercado de capitais. “Um caso puro sangue, bem-feito e estruturado foi o da Jalles Machado. A Raízen é um ecossistema, sozinha ela é quase um setor, não dá para tratar ela no mesmo nível das demais”, opina o consultor em relação aos últimos casos.

O sócio da Ready não visualiza muitas empresas percorrendo etapas prévias ao pedido de IPO, como a emissão de outros títulos de dívida: “Vemos uns dez emitindo CRAs, que seria um primeiro passo. Podem vir, no máximo, umas três empresas a abrir capital”, considera.

Além disso, Tetti relembra que pular as etapas é arriscado e caro, pois o processo depende de advogados, regulamentações e adaptações da empresa. “Precisa ter bastante segurança e ainda corre o risco de abortar com tudo pronto”, explica.

Ele também reforça que nem sempre a companhia está preparada para o ingresso na bolsa. “Já vi um caso de uma empresa que era nítido que não tinha por que se lançar, mas tinha um grupo acionário forte que acabou pressionando para que o capital fosse aberto. O momento foi errado, o papel não se mexeu e virou pó ao longo do tempo”, relata Tetti.

Mas o sócio da Ready trabalhou em casos bem-sucedidos, como o da São Martinho. “A empresa passou por todas as etapas. Participei do processo de profissionalização da usina, migrando de uma empresa familiar para uma estrutura profissional. Ela ganhou musculatura, saúde financeira, governança e só então se lançou. Foi dentro do esperado e já está há mais de dez anos no mercado de capitais”, conta.

As dificuldades, entretanto, existem. “Estamos falando de um setor em que uma tonelada de cana tem o valor de uma pizza, mas, para produzir isso, há risco e esforço; tem uma margem muito pequena e oscilação de preço cíclica. Quem coloca dinheiro quer ver a empresa crescendo, muitas vezes em uma velocidade que o setor não entrega”, explica.

Por isso, a cada trimestre é preciso justificar as escolhas, o que gera questionamentos do mercado com os quais a companhia precisa lidar. “As pessoas não têm conhecimento profundo e é difícil explicar ao investidor”, afirma e completa: “É um ciclo longo, você planta a cana hoje, mas até ela ser transformada em açúcar, comercializada e entrar no caixa da usina são dois anos”.

Gabrielle Rumor Koster – NovaCana

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