Mesmo com as influências negativas do cenário mundial, nova temporada pode trazer uma colheita recorde – saiba o que esperar de 2020/21
Atualização (13/05, às 12h05): O texto e os gráficos abaixo foram alterados para incluir as estimativas de Job Economia, Canaplan e Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
A safra 2020/21 de cana-de-açúcar do Centro-Sul já começou. A data oficial para o início da colheita e da moagem na região é 1º de abril, mesmo que eventualmente haja antecipações ou pequenos atrasos nas atividades das usinas.
Neste ano, a possibilidade de um adiamento no início da safra foi mais intensa, uma consequência da pandemia do coronavírus e das medidas de isolamento que tentam impedir sua disseminação. Porém a moagem de cana não pode esperar. Tomando as devidas medidas para garantir a segurança dos trabalhadores, as usinas iniciaram os trabalhos da safra 2020/21 e ela, na prática, já completou um mês.
O momento do início de safra é repleto de expectativas sobre a temporada como um todo. E, em um cenário de incertezas como o que o país está vivendo, as possibilidades são ainda mais amplas. Em entrevista ao Broadcast Agro no início de abril, o diretor técnico da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), Antonio de Padua Rodrigues, afirmou que houve uma quebra de expectativa em relação à safra 2020/21, que era positiva até fevereiro.
Para ele, a maior preocupação do setor no início da safra era a redução nas vendas de etanol, tanto nas usinas quanto nos postos, devido à queda nos preços da gasolina e na demanda. “É uma consequência drástica para o início da safra porque os preços estão quase abaixo dos custos de produção e, além disso, como não há demanda, não há venda”, reforça Padua, afirmando que a queda real seria conhecida no fim de abril.
De fato, o resultado do primeiro mês de isolamento foi de forte retração no consumo de combustíveis no país. De acordo com o ministro de Minas e Energia (MME), Bento Albuquerque, a demanda por etanol caiu 49% em abril, enquanto a de gasolina caiu 35%.
Mas, mesmo com uma perspectiva de produção incerta, o diretor da Unica acredita que existe a possibilidade de uma maior disponibilidade de matéria-prima a ser colhida, devido às condições climáticas favoráveis observadas desde o início do ano.
O levantamento mais recente do NovaCana, feito ao longo de abril, confirma a previsão de Padua. Com 19 consultorias e empresas especializadas, a média das estimativas de moagem para 2020/21 ficou em 597,55 milhões de toneladas de cana-de-açúcar – 1,22% acima do resultado de 2019/20 (590,36 milhões).
Este é o terceiro levantamento da safra atual realizado pelo NovaCana. O primeiro, de setembro de 2019, com apenas três consultorias, indicava uma moagem de 589 milhões de toneladas. Já o segundo, de março, contava com os números de dez empresas e estava mais próximo do número atual, com 597,4 milhões de toneladas, o que demonstra que as principais mudanças foram em outros indicadores – como o mix.
Confira, na versão completa, restrita para assinantes, as previsões das principais consultorias do setor para a safra 2020/21, com comentários e gráficos.
Atualização (13/05, às 12h): O texto e os gráficos abaixo foram alterados para incluir as estimativas de Job Economia, Canaplan e Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
A safra 2020/21 de cana-de-açúcar do Centro-Sul já começou. A data oficial para o início da colheita e da moagem na região é 1º de abril, mesmo que eventualmente haja antecipações ou pequenos atrasos nas atividades das usinas.
Neste ano, a possibilidade de um adiamento no início da safra foi mais intensa, uma consequência da pandemia do coronavírus e das medidas de isolamento que tentam impedir sua disseminação.
Algumas companhias, por exemplo, informaram a RPA Consultoria que pretendiam adiar a retomada das suas operações em algumas semanas – a Cerradão foi uma das que realmente fez isso. Outras, como a Biosev, tiveram suas atividades prejudicadas por decretos municipais, levando mais tempo do que o pretendido para iniciar a moagem.
Porém, independente da circunstância pela qual o país está passando, a moagem de cana não pode esperar. Tomando as devidas medidas para garantir a segurança dos trabalhadores, as usinas iniciaram os trabalhos da safra 2020/21 e ela, na prática, já completou um mês.
O momento do início de safra é repleto de expectativas sobre a temporada como um todo. E, em um cenário de incertezas como o que o país está vivendo, as possibilidades são ainda mais amplas. O surto do coronavírus influenciou não só no funcionamento das usinas, como também na demanda por combustíveis, o que tem reflexo direto nos preços e, consequentemente, na produção.
Além disso, dois aspectos do cenário mundial já vinham impactando o setor sucroenergético brasileiro desde o início de 2020: a guerra do petróleo entre a Rússia e a Arábia Saudita, e a redução na produção de açúcar nos principais países produtores, além das diferentes circunstâncias do câmbio.
Em entrevista ao Broadcast Agro no início de abril, o diretor técnico da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), Antonio de Padua Rodrigues, afirmou que houve uma quebra de expectativa em relação à safra 2020/21, que era positiva até fevereiro.
Para ele, a maior preocupação do setor no início da safra era a redução nas vendas de etanol, tanto nas usinas quanto nos postos, devido à queda nos preços da gasolina e na demanda. “É uma consequência drástica para o início da safra porque os preços estão quase abaixo dos custos de produção e, além disso, como não há demanda, não há venda”, reforça Padua, afirmando que a queda real seria conhecida no fim de abril.
De fato, o resultado do primeiro mês de isolamento foi de forte retração no consumo de combustíveis no país. De acordo com o ministro de Minas e Energia (MME), Bento Albuquerque, a demanda por etanol caiu 49% em abril, enquanto a de gasolina caiu 35%.
Mas, mesmo com uma perspectiva de produção incerta, o diretor da Unica acredita que existe a possibilidade de uma maior disponibilidade de matéria-prima a ser colhida, devido às condições climáticas favoráveis observadas desde o início do ano.
O levantamento mais recente do NovaCana, feito ao longo de abril, confirma a previsão de Padua. Com 19 consultorias e empresas especializadas, a média das estimativas de moagem para 2020/21 ficou em 597,55 milhões de toneladas de cana-de-açúcar – 1,22% acima do resultado de 2019/20 (590,36 milhões).
Este é o terceiro levantamento da safra atual realizado pelo NovaCana. O primeiro, de setembro de 2019, com apenas três consultorias, indicava uma moagem de 589 milhões de toneladas. Já o segundo, de março, contava com os números de dez empresas e estava mais próximo do número atual, com 597,4 milhões de toneladas, o que demonstra que as principais mudanças foram em outros indicadores – como o mix.
As influências na moagem
Dentre as empresas consultadas, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) é responsável pela menor estimativa para a moagem: 578,81 milhões de toneladas em 2020/21, no Centro-Sul. Na pesquisa divulgada no início de maio, a expectativa é de redução em relação à safra anterior, especialmente devido à queda na área de plantação da cana-de-açúcar.
Além disso, a companhia afirmou que as “recentes oscilações de mercado e as consequências relacionadas à pandemia do coronavírus” diminuíram a perspectiva de produção na safra.
Já a Green Pool forneceu a segunda menor estimativa de moagem do levantamento, com 590 milhões de toneladas. O analista de commodities sênior Eder Vieito explica que a consultoria não espera muita alteração em relação a 2019/20.
“Acreditamos que é provável uma pequena redução na área plantada por questões econômicas, mas isso deve ser compensado por uma ligeira melhora na produtividade do canavial, assumindo que sigamos com um clima normal”, explica.

Do outro lado, com a maior estimativa de moagem para a safra, 610 milhões de toneladas, está a Sucden. O trader Eduardo Sia explica que este aumento de 20 milhões em relação à safra passada, para a companhia, ainda é considerado marginal: “O verão teve clima próximo ao perfeito, o tratamento do canavial vem sendo bem realizado e os plantios estão em dia. Então, 610 milhões de toneladas, para nós, é o mínimo”.
O clima também é a justificativa da FG/A para a segunda maior projeção de moagem para 2020/21 dentre as consultorias: 605 milhões de toneladas.
“Consideramos que as condições climáticas observadas até o momento foram favoráveis à cultura da cana-de-açúcar, baseado em nossos benchmarkings setoriais. Com isso, esperamos uma recuperação de cerca de 1,6% na produtividade média dos canaviais”, João Henrique Rissi (FG/A)
Por outro lado, por mais que a INTL FCStone concorde que as condições climáticas nos canaviais nos últimos meses tenham sido majoritariamente positivas, a estimativa de moagem da consultoria para a safra 2020/21 está praticamente na média, com 597,8 milhões de toneladas.
“De modo geral, os efeitos positivos da umidade observada em fevereiro de 2020 devem se somar aos ganhos de saúde vegetal obtidos desde o início de outubro 2019”, afirma o analista de inteligência de mercado Matheus Costa, em relatório. Desta forma, a FCStone espera um aumento de matéria-prima em relação à da safra anterior, porém nada excessivo.

O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), em relatório, explica que houve um atraso de um a dois meses no desenvolvimento da cana-de-açúcar em algumas regiões, devido às variações climáticas entre o fim de 2019 e o início de 2020. Porém acredita na recuperação firme da cultura e sugere uma produção de 600 milhões de toneladas ao final da temporada.
Por sua vez, a Archer Consulting tem uma das menores estimativas de moagem dentre as empresas consultadas, 596 milhões de toneladas. O sócio-diretor da consultoria, Arnaldo Correa, afirma que existe a possibilidade deste número ser ainda menor, “dependendo da evolução da crise atual provocada pelo coronavírus e pelo derretimento do preço do petróleo no mercado internacional”.
Para ele, o já esperado aumento na produção de açúcar em detrimento do etanol – que está remunerando menos que o adoçante – pode ser somado a uma eventual redução no total de cana a ser moída. De acordo com o consultor, problemas financeiros em algumas unidades produtoras podem fazer com que elas não consigam moer o que estava previsto.
A Czarnikow corrobora com a previsão da Archer. Com a terceira menor moagem dentre as consultorias, 593 milhões de toneladas, o gerente de consultoria e análise de mercado, Henrique Akamine, explica que “em condições normais” este número até poderia ser maior, ultrapassando 600 milhões de toneladas, uma vez que os dados da companhia indicam que há uma maior disponibilidade de cana na safra, além de melhores tratos culturais e clima.
“Porém, com o cenário depreciado de etanol, abaixo do custo de produção, há o risco de as usinas controlarem o ritmo de moagem para flexibilizar o mix de produção, consequentemente tendo uma moagem apenas ligeiramente acima do ano passado”, conclui.

Com um número um pouco maior, mas ainda abaixo da média, o sócio-diretor da Job Economia, Julio Borges, explica que não vê crescimento de safra entre os dois últimos anos, acreditando que a 2020/21 ficará em 594 milhões de toneladas de cana.
“O clima no Brasil foi próximo do normal no Centro-Sul. Com isto, os rendimentos agrícolas se mostram próximo do normal. Não existe expansão de área no CS. Os rendimentos industriais das últimas safras oscilam em torno dos valores adotados na previsão”, justifica.
O boom do açúcar
Com uma perspectiva média de aumento tímido da moagem na comparação entre as safras, de apenas 1,22%, as principais diferenças esperadas para 2020/21 dizem respeito ao direcionamento da matéria-prima – o chamado mix de produção – e, consequentemente, aos volumes de açúcar e de etanol produzidos ao final da safra.
No levantamento feito em setembro de 2019, a participação média da matéria-prima destinada à fabricação de açúcar na safra 2020/21 corresponderia a 36,47% do total. O número já era um reflexo da fixação dos preços futuros da commodity em patamares mais positivos do que os vistos na safra vigente até então.
Já no início de março, uma nova pesquisa chegou à média de 37,4%, um pequeno aumento graças às reduções da produção da commodity em países como Índia e Tailândia, devido especialmente a questões climáticas. Desta forma, o mundo precisaria de mais açúcar vindo do Brasil.
Desde então, o cenário se intensificou e, hoje, a certeza é de um mix muito mais açucareiro, como não é visto há anos. Na média do levantamento mais recente, essa participação ficou em 44,9%. O valor está pouco mais de dez pontos percentuais acima do resultado de 2019/20, quando 34,33% da matéria-prima foi direcionada para a fabricação do adoçante.

Henrique Akamine, da Czarnikow, explica que, desde o início do ano, o cenário “sinalizava um enfraquecimento da demanda de combustíveis e um maior foco na produção de açúcar, dado que os preços nos últimos meses proporcionaram bons retornos”.
Porém este movimento se intensificou e, atualmente, a consultoria acredita que as usinas maximizarão sua produção de açúcar, a fim de mitigar os riscos de volatilidade e incertezas macroeconômicas do momento. A previsão da Czarnikow é que 46,5% do mix de produção seja direcionado para a commodity, o terceiro maior valor do levantamento.
O gerente de projetos do Instituto de Pesquisa e Educação Continuada em Economia e Gestão (Pecege), Haroldo Torres, afirma que é um contrassenso o país maximizar sua produção de açúcar justamente em um momento em que está havendo uma redução no consumo.
Mesmo assim, para ele, este é um momento em que o setor sucroenergético vai confirmar que realmente tem grande flexibilidade na hora de definir o que produzir. “O cenário mais conservador é o de 44% de mix para o açúcar, mas, na nossa visão, ele pode chegar a 47%, 48%”, determina.
“Em 2019/20, nós maximizamos nossa produção de etanol, atingimos um recorde de 33 bilhões de litros, e ninguém esperava que o Brasil tivesse essa capacidade e essa flexibilidade”, Haroldo Torres (Pecege)
O que ele visualiza é uma tendência de retorno ao mix observado na safra 2016/17, que finalizou com 46,29% para o açúcar, chegando à produção de 35 mil toneladas. “O açúcar vai ganhar espaço. Eu não consigo ter alguma explicação econômica para que a gente não volte a maximizar a produção de açúcar em um cenário com baixo preço de gasolina e redução na demanda. No Brasil, conseguimos ter uma flexibilidade que nós mesmos não pensávamos que temos”, conclui.
O diretor técnico da Unica, Antonio de Padua Rodrigues, por outro lado, reforça que há limitações na reversão do mix sucroalcooleiro. “Não é possível mudar de 100% de etanol para 100% de açúcar, nem o contrário. Na safra passada, tivemos 35% de cana destinada à produção do adoçante, enquanto 65% ficou para o etanol”, disse.
Para este ano, ele considera que vai haver uma mudança: a atual previsão é de cerca de 40% da cana para açúcar e 60% para etanol, com o mix podendo chegar, no máximo, a 45% para o adoçante e 55% para o renovável.
A média das consultorias para o mix é de 44,9% da matéria-prima sendo direcionada para o açúcar. A FG/A é uma das que sugere um direcionamento ainda maior, de 46,3%, o que geraria, nas suas estimativas, 36,38 milhões de toneladas da commodity, a terceira maior quantidade da pesquisa.
Isso se deve, conforme explica o sócio da companhia, João Henrique Rissi, às negociações que já estão fixadas, que são muitas. “Além disso, há prêmio para o açúcar de cerca de 15% frente ao etanol na safra 2020/21”, aponta. “Por esse motivo, e pela vantagem de poder fixar os preços, entendemos que o setor irá direcionar 90% da sua capacidade ociosa de açúcar para a produção da commodity nesta safra”.

A Job Economia é responsável pela segunda maior estimativa de mix de produção de açúcar dentre as consultorias levantadas: 47,9%. Julio Borges explica que, desta vez, a commodity “retoma seu papel de ‘salvador da pátria’”, com preços e demanda melhores que os do etanol. “Estão previstos dois recordes neste caso no Brasil: um na produção, de 41 milhões de toneladas; o outro, na exportação, próxima de 30 milhões de toneladas, cerca de 10 milhões a mais que na safra passada”, conclui.
“A flexibilidade que o Brasil tem na produção de açúcar terá uma consequência relevante nos preços do açúcar no mercado internacional. Sempre que o açúcar estiver remunerando melhor que etanol, o Brasil tende a produzir mais açúcar e aumentar a oferta global do produto”, Julio Borges (Job Economia)
Já o responsável pela área de soft commodities no braço de trading da Cofco, maior empresa de alimentos da China, Marcelo de Andrade, explica que o incremento na produção de açúcar já era esperado antes mesmo da pandemia do coronavírus e da queda na demanda pelo etanol.
“Com a produção tailandesa em declínio, o Brasil precisará produzir mais açúcar para preencher o déficit”, afirmou para a Bloomberg, indicando a estimativa de 30,5 mil toneladas da commodity. Porém ele acrescenta que, “no momento, os preços precisam subir mais para que a produção atinja 32 milhões de toneladas”, e acredita que uma contínua alta poderia desviar ainda mais cana para a produção de açúcar às custas do etanol.
Ainda assim, o USDA defende que ainda não é possível analisar o impacto das políticas de quarentena na demanda de açúcar, especialmente por depender dos hábitos de consumo e da parcela da commodity que será consumida diretamente pela sociedade, substituindo os produtos processados.
Além disso, questões de logística e distribuição podem influenciar no consumo, de acordo com o Departamento, que receia interrupções no fluxo do produto pelo país. Ainda assim, com 36,5 milhões de toneladas, esta é a segunda maior estimativa para 2020/21.
Etanol em baixa
Haroldo Torres, do Pecege, explica que o aumento na produção de açúcar e o maior direcionamento de matéria-prima para a commodity são os aspectos que vão determinar as projeções para o etanol. O Pecege prevê 26,23 bilhões de litros, 20,47% a menos do que o número final da safra 2019/20.
Porém ele aponta que, para as usinas, esta redução na produção do biocombustível pode ter um grande efeito no caixa. “No momento em que muitas empresas se encontram com dificuldades financeiras, o etanol era o ativo de geração de caixa em termos de liquidez e [a mudança no mix] é um ponto negativo”, declara.

O banco holandês Rabobank, que estima um mix de 45% para o açúcar na safra 2020/21, concorda que as receitas e margens das sucroenergéticas parecem bastante vulneráveis neste ano, considerando a possibilidade de semanas ou até meses de demanda reduzida – tanto de combustíveis quanto de açúcar – e a ameaça da persistência dos baixos preços do petróleo.
O banco, aliás, modificou suas estimativas entre dezembro de 2019 e abril de 2020. No final do ano passado, a expectativa apontava para uma safra novamente focada no etanol, graças a um cenário com “petróleo alto, câmbio fraco, receita adicional vinda do RenovaBio e manutenção de um consumo robusto de hidratado”, conforme relatório.
Por outro lado, mesmo em um cenário de menor demanda de etanol, as estimativas para o produto que vem do milho aumentaram em relação ao resultado da safra 2019/20. O Rabobank, também em relatório, afirmou que “enquanto a produção nacional de cana anda de lado, o processo de polarização do setor continua ganhando esforço”.
Ou seja, enquanto há usinas lutando para manter suas operações, as empresas com capacidade para investir estariam indo além do essencial e pensando na diversificação, o que pode envolver uma maior produção do grão, “para melhor enfrentar as incertezas inerentes do negócio no futuro”, conclui o banco.
Mesmo que o etanol de milho ainda não faça parte das perspectivas de todos as consultorias ouvidas, a expectativa do levantamento mais recente é de que serão produzidos 2,1 bilhões de litros com o grão em 2020/21, em média. O volume é quase 30% maior ante o resultado anterior, 1,62 bilhão de litros.

Já em relação ao etanol apenas da cana, o coordenador de inteligência de mercado da SCA, Renan de Castro Santos, aponta para a redução na produção de anidro, além da já esperada queda do hidratado, no atual cenário.
Para ele, é importante notar que o consumo dos combustíveis como um todo está em queda no país por causa das recomendações de isolamento, e isto influencia duplamente a produção do biocombustível da cana. Não diminuiu só a demanda por hidratado, mas também a pela gasolina, o que influencia diretamente na produção do anidro.
O USDA, em relatório, reforça a ideia de que a decisão do consumidor pela gasolina ou pelo etanol depende especialmente dos preços. Já Haroldo Torres, do Pecege, afirma que não importa qual o cenário atual – seja o mais conservador ou o mais ousado –, com um mix de produção mais açucareiro, a produção de etanol brasileira será menor.
“Mais importante do que brigarmos entre as quantidades, o principal recado agora é a direção do mix. Ou seja, nós não vamos produzir os 33 bilhões de litros de biocombustível que produzimos na safra passada, e essa é a mensagem principal”, Haroldo Torres (Pecege)
O clima e os rendimentos
A chuva que pode fazer com que a moagem seja maior em 2020/21 também pode influenciar na produtividade. Renan Castro, da SCA, afirma que as chuvas da entressafra estiveram dentro da média histórica, o que pode ser favorável para o aumento da produtividade nesta temporada.
O analista da Safras & Mercado, Mauricio Muruci, também tem boas expectativas para a produtividade da safra vigente. Inclusive, seu número é o maior dentre os pesquisados, batendo os 148 quilogramas de açúcar total recuperável (ATR) por tonelada de cana, em uma média que espera os 137,82 kg/t.

“Desde novembro do ano passado, as regiões produtoras de cana do Centro-Sul têm recebido volumes constantes de precipitações com períodos intercalados de sol. A umidade e a luminosidade intercaladas são altamente benéficas ao desenvolvimento dos canaviais, o que resulta no forte desenvolvimento das plantas”, argumenta, completando: “Além, claro, da taxa de renovação em 16% para esta safra, acima da média que se tem observado nos últimos anos, que oscila ao redor de 12%”.

Eder Vieito, da Green Pool, por outro lado, não vê espaço para grandes ganhos de produtividade em 2020/21. “Acreditamos que a produtividade da 2019/20 ficou próxima do potencial, dada a idade dos canaviais, e as taxas de renovação que vimos no ano passado sugerem que não vai haver melhora significativa no estágio médio de corte da 2020/21“, esclarece, comentando sua perspectiva de 136 kg/t de cana na atual temporada, número abaixo da média das consultorias.
Para completar, Haroldo Torres, do Pecege, explica que, em um momento de restrição de orçamento, como o esperado para essa safra, as empresas “tiram o pé” dos investimentos, em função de custos mais caros e isso se opõe à priorização da produtividade. “Nós já vimos isso no setor sucroenergético, então, parece que mais uma vez estamos mantendo nossos ciclos em termos de ajustes”, conclui.
Rafaella Coury – NovaCana
