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Mix de produção 2020/21: O que esperar para a próxima safra de cana-de-açúcar

Com mercado abalado pela guerra do petróleo e pelo coronavírus, setor espera por uma grande produção de açúcar na próxima temporada

NovaCana 11 min de leitura

O que começou com uma perspectiva tímida no final de 2019 está se confirmando diariamente: a safra 2020/21 de cana-de-açúcar do Centro-Sul, que oficialmente inicia em 1º de abril, será consideravelmente mais açucareira do que a anterior.

No mais recente levantamento realizado pelo NovaCana, com nove consultorias, a média das perspectivas é que, em 2020/21, 43,7% da cana seja direcionada para a fabricação de açúcar. No acumulado da safra anterior, este índice está em 34,38%, de acordo com a última atualização da União da Indústria da Cana-de-açúcar (Unica).

Levando em consideração a produção acumulada da commodity na safra 2019/20, este aumento de quase 10 pontos percentuais no mix de produção das usinas poderia significar um incremento de 7,19 milhões de toneladas no volume total de açúcar. Ou seja, considerando uma manutenção da moagem, a fabricação de açúcar poderia ultrapassar 30 milhões de toneladas – bem mais do que o esperado inicialmente.

Em setembro de 2019, três consultorias haviam arriscado números para o mix de produção da temporada. Na média, a matéria-prima destinada ao açúcar corresponderia a 36,47% do volume total, um reflexo da fixação dos preços futuros da commodity em patamares mais positivos do que os vistos na safra vigente.

No início de março, uma nova pesquisa com cinco consultorias chegou a uma média de 37,4%. À época, a Datagro apresentou suas estimativas para 2020/21 e afirmou que a produção de açúcar brasileira poderia aumentar graças às reduções em países como Índia e Tailândia, devido especialmente a questões climáticas.

Desta forma, o mundo precisaria de mais açúcar vindo do Brasil. Para as usinas, por sua vez, uma relação favorável entre os preços internacionais e o câmbio poderia significar um incremento na produção da commodity em detrimento do biocombustível.

Em menos de um mês, porém, o cenário se intensificou. Mesmo antes da safra iniciar, especialistas confirmam que a produção de açúcar em 2020/21 será consideravelmente maior do que a vista nos últimos anos.

Da pandemia de coronavírus à guerra do petróleo entre a Arábia Saudita e a Rússia, o etanol está se desfavorecendo na perspectiva das usinas e dos consumidores. O consumo de combustíveis e de commodities está mudando e as produtoras brasileiras precisarão ajustar sua produção em meio a um cenário inédito, tentando evitar que as possibilidades não as prejudiquem muito financeiramente.

Confira as estimativas levantadas pelo NovaCana, além dos detalhes do cenário mundial que influenciaram nas alterações, no texto completo, exclusivo para assinantes

O que começou com uma perspectiva tímida no final de 2019 está se confirmando diariamente: a safra 2020/21 de cana-de-açúcar do Centro-Sul, que oficialmente inicia em 1º de abril, será consideravelmente mais açucareira do que a anterior.

No mais recente levantamento realizado pelo NovaCana, com nove consultorias, a média das perspectivas é que, em 2020/21, 43,7% da cana seja direcionada para a fabricação de açúcar. No acumulado da safra anterior, este índice está em 34,38%, de acordo com a última atualização da União da Indústria da Cana-de-açúcar (Unica).

Levando em consideração a produção acumulada da commodity na safra 2019/20, este aumento de quase 10 pontos percentuais no mix de produção das usinas poderia significar um incremento de 7,19 milhões de toneladas no volume total de açúcar. Ou seja, considerando uma manutenção da moagem, a fabricação de açúcar poderia ultrapassar 30 milhões de toneladas – bem mais do que o esperado inicialmente.

Em setembro de 2019, três consultorias haviam arriscado números para o mix de produção da temporada. Na média, a matéria-prima destinada ao açúcar corresponderia a 36,47% do volume total, um reflexo da fixação dos preços futuros da commodity em patamares mais positivos do que os vistos na safra vigente.

No início de março, uma nova pesquisa com cinco consultorias chegou a uma média de 37,4%. À época, a Datagro apresentou suas estimativas para 2020/21 e afirmou que a produção de açúcar brasileira poderia aumentar graças às reduções em países como Índia e Tailândia, devido especialmente a questões climáticas.

Desta forma, o mundo precisaria de mais açúcar vindo do Brasil. Para as usinas, por sua vez, uma relação favorável entre os preços internacionais e o câmbio poderia significar um incremento na produção da commodity em detrimento do biocombustível.

Em menos de um mês, porém, o cenário se intensificou. Mesmo antes da safra iniciar, especialistas confirmam que a produção de açúcar em 2020/21 será consideravelmente maior do que a vista nos últimos anos.

Da pandemia de coronavírus à guerra do petróleo entre a Arábia Saudita e a Rússia, o etanol está se desfavorecendo na perspectiva das usinas e dos consumidores. O consumo de combustíveis e de commodities está mudando e as produtoras brasileiras precisarão ajustar sua produção em meio a um cenário inédito, tentando evitar que as possibilidades não as prejudiquem muito financeiramente.

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Os caminhos da mudança

A suposição inicial de que a produção brasileira em 2020/21 se voltaria mais para o açúcar se deveu ao aumento nos valores de venda da commodity. Além disso, o real desvalorizado fez com que as usinas pudessem fixar preços mais competitivos.

Porém, foram as perspectivas para o cenário do etanol que tiveram maior peso na alteração do mix. Inicialmente, a principal influência veio do que muitos estão chamando de “choque do petróleo”, que se iniciou com o desacordo entre a Arábia Saudita e a Rússia, principais nações a gerenciarem o mercado do óleo.

A discordância entre os países levou à queda nos preços do petróleo, que chegou a cair mais de 30% em um dia – um dos piores registros da história. Com isso, os principais produtores passaram a competir por um mercado mais enxuto e o inundaram com suas produções, aumentando a guerra pelos preços.

O quadro se intensificou ainda mais com a pandemia de coronavírus. A atual recomendação mundial é o isolamento, o que diminui a demanda por combustíveis em todo o mundo, sejam eles quais forem. Nos Estados Unidos e na Europa, usinas de etanol já estão fechando as portas – algumas sequer tem previsão para a retomada das atividades.

No Brasil, estes fatores se refletiram na política de preços da Petrobras, que anunciou reduções de mais de 40% para a gasolina nas refinarias, considerando o acumulado desde o início do ano. Para o consumidor, entretanto, isso tem chegado de forma mais lenta, por conta dos diversos fatores que compõem o valor cobrado pelos combustíveis.

Desde meados de janeiro, a gasolina vendida nos postos vem apresentando quedas, tendo uma redução de 4,22% na média nacional, de acordo com os dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

Preço do açúcar em risco

Atualmente, as usinas estão no final do período de entressafra. Muitas delas ainda não retomaram a produção de etanol e estão trabalhando para diminuir os volumes estocados. Tradicionalmente, este é um período em que o renovável chega a preços mais altos devido à menor oferta, perdendo competitividade perante a gasolina.

Porém, todas as tensões no mercado do combustível fóssil se refletem no setor de etanol. O diretor da MB Agro, José Carlos Hausknech, afirmou ao Globo Rural que o setor de açúcar e etanol vai sentir mais os efeitos deste momento mundial, que envolve tanto o coronavírus quanto a guerra do petróleo.

“O etanol cai por conta da gasolina. E o preço do açúcar caiu também”, diz o diretor. E é isto que fez com que o mix tivesse uma alteração tão forte nas perspectivas do setor.

A Fitch Ratings, por exemplo, em 16 de março já afirmava que, com o valor mais baixo do petróleo, a competitividade do etanol iria diminuir, fazendo com que a tendência seja as usinas alterem o mix de produção em favor do adoçante. Uma maior oferta de açúcar, contudo, também traz impactos ao mercado da commodity.

O sócio-diretor da Job Economia, Júlio Maria Borges, vai na mesma direção. Ele afirmou à Reuters que, à medida em que o etanol deixar de ser economicamente interessante para as usinas, o setor deve maximizar a produção de açúcar, “o que derruba seu preço em um segundo momento”.

Os reflexos, aliás, já começam a ser sentidos. Em 21 de fevereiro, os contratos futuros de açúcar com vencimento em maio chegaram a ser negociados na ICE por valores acima dos 15 centavos de dólar por libra-peso – o valor mais alto desde dezembro de 2017 –, seguindo os fundamentos altistas do mercado. Em 19 de março, porém, esse valor caiu mais de 29%, para 10,59 centavos de dólar por libra-peso.

Ainda assim, a Job Economia acredita que a união dos atuais fatores de mercado pode fazer com que o mix da safra 2020/21 chegue a 46% para o açúcar, um aumento de mais de dez pontos percentuais ante a temporada anterior.

Pressão e sacrifício

Entre as consultorias escutadas pelo NovaCana, a Job Economia possui a segunda maior estimativa para o mix – a primeira é da Safras & Mercado, com 48%. “Ironicamente, a safra passada foi uma tragédia para quem estava posicionado no açúcar e, neste ano, é a salvação. Toda a dinâmica da safra passada foi invertida”, disse o analista da consultoria, Mauricio Muruci, ao Globo Rural.

Ele explica que, na primeira quinzena de março, o biocombustível ofereceu uma remuneração média entre 8% e 10% superior à do açúcar, ante a média de 38% a 40% normalmente observada no período. Desta forma, para os produtores, o adoçante passa a ser cada vez mais atrativo no direcionamento da produção.

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Muruci ainda complementa que a pandemia do coronavírus deve manter a economia mundial e os mercados de açúcar e etanol negativamente pressionados ao longo de todo o ano.

O diretor da consultoria Archer, Arnaldo Correa – que espera um mix de 43,5% para o açúcar na safra 2020/21 –, acredita que este será um ano de muito sacrifício para quem não fez nenhuma estrutura de proteção. Para ele, isso deve favorecer ainda mais a produção de açúcar.

Segundo Correa, a produção do Brasil deve suprir o déficit da commodity que era esperado para a safra atual, mesmo desconsiderando a redução do consumo que deve ocorrer nos próximos meses em função da epidemia do coronavírus. A Green Pool também alterou sua perspectiva para o mercado global de açúcar em 2020/21 (outubro a setembro): de um déficit de 3,04 milhões para um excedente de 300 mil toneladas.

 

Já no Ciclo Otto, para Correa, a diminuição na demanda é dada como certa. “A gente está tendo uma redução no consumo extraordinária, de 50% a 60%, em função das paralisações. Imaginando que este assunto se resolva, a gente pode esperar uma melhora a partir do mês de setembro. Mas, até aí, o desastre já terá ocorrido”, afirma. A expectativa do consultor é que o mercado feche o ano com uma queda de 3% a 4% no consumo de combustíveis do Ciclo Otto.

“A situação não é das melhores e nada indica que vá melhorar em um curto espaço de tempo. O setor já teve crises anteriores, já vimos recuperações de maneiras bastante robustas, mas ainda nos falta elementos para poder opinar sobre essa questão”, Arnaldo Correa (Archer Consulting)

O analista de commodities sênior da Green Pool, Eder Vieito, explica que a revisão feita na estimativa de mix para a safra 2020/21, de 38% para 42%, deve-se especialmente à redução esperada para o consumo no Ciclo Otto.

“Passamos a trabalhar com uma redução de 11% na demanda do Ciclo Otto devido aos impactos do vírus – tanto por efeito direto, via restrições na mobilidade, quanto indireto, por efeitos na economia e emprego”, afirma.

Para ele, os preços já pré-fixados de açúcar dificilmente serão desfeitos para serem transformados em etanol. “Parece que vamos para um ano com produção pesada de açúcar”, conclui.

A menor estimativa de mix levantada pelo NovaCana é da S&P Global Platts. Ainda assim, o valor está bem acima do acumulado da safra 2019/20: 41% contra 34,38%. Em documento, eles resumiram a situação atual e suas influências no setor sucroenergético.

“A combinação da disseminação do coronavírus no Brasil e o colapso observado na cesta de energia tem pressionado fortemente o etanol hidratado, que possui forte correlação com os preços da gasolina no Brasil. Além disso, com as preocupações globais envolvendo os preços do petróleo e a pandemia de coronavírus, o real desvalorizou mais de 20% no último mês, ultrapassando R$ 5,00/US$ em 17 de março, o maior nível histórico já observado em relação ao dólar”, detalha.

Para o banco holandês Rabobank, em relatório divulgado no fim de março, o preço da gasolina nos postos pode cair até 15% na comparação com 2019, caso o real siga em baixa na comparação com o dólar.

Segundo o banco, o atual cenário, somado aos impactos da pandemia do coronavírus na demanda dos combustíveis, fará com que as receitas e margens dos produtores de etanol em 2020 fiquem vulneráveis. Por isso, o mercado estaria realmente confiante em mix mais açucareiro.

Porém, o banco acredita que a perspectiva ainda poderia mudar caso a Rússia e a Arábia Saudita demonstrem sinais de que estão voltando a negociar em paz.

Rafaella Coury – NovaCana

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