Etanol: Mercado

Venda de etanol despenca nas usinas após início de isolamento por coronavírus

Volume de álcool usado para abastecer veículos flex teve queda de 20% nas vendas ante 2019


Folha de S. Paulo - 15 abr 2020 - 07:14

As vendas de etanol hidratado nas usinas do centro-sul do país despencaram na segunda quinzena de março, período que coincide com o início das medidas de isolamento social decretadas em virtude da pandemia do novo coronavírus.

Nos últimos 15 dias do mês passado, as vendas de álcool hidratado foram de 671,81 milhões de litros, o que representa uma queda de 20,81% em comparação com os 848,35 milhões de litros vendidos no mesmo período no ano passado, segundo dados da Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar) divulgados nesta terça-feira (14).

Com as pessoas cumprindo quarentena em suas casas ou trabalhando em sistema home office, caíram os deslocamentos entre casa e trabalho ou as viagens a negócio, por exemplo.

A queda se acentuou exatamente na segunda quinzena do mês, já que, considerando-se o mês de março inteiro, as vendas de etanol pelas usinas apresentaram retração inferior, de 12,94% em relação ao mesmo mês de 2019.

No total, as usinas venderam 2,3 bilhões de litros no mês – considerando-se o hidratado e o etanol anidro (que é misturado à gasolina antes de ser comercializado nos postos) –, ante os 2,64 bilhões de litros em março do ano passado.

Outro indicativo da desaceleração do consumo no centro-sul brasileiro é a venda de etanol anidro no mês. Na primeira quinzena, o combustível teve alta de 5,36% nas vendas em relação ao mesmo período de 2019, mas na segunda quinzena o total caiu 12,97%. Com isso, o saldo do mês foi de queda de 4,78%, com a venda de 774, 85 milhões de litros.

De acordo com a Unica, a redução nas vendas feitas pelas usinas “apenas sinaliza o comportamento do consumo”. “A queda real na demanda de combustíveis leves em março será conhecida após a divulgação pela ANP [Agência Nacional do Petróleo] dos dados de vendas das distribuidoras”, diz comunicado da associação.

Porém, conforme a Unica, o comportamento do mercado do etanol em março contrasta com o cenário de aumento das vendas na maior parte da safra 2019/20, que oficialmente foi encerrada no último dia 31.

A comercialização de etanol no centro-sul alcançou 33,26 bilhões de litros, o que representa crescimento de 7,08% em relação aos 31,06 bilhões de litros da safra 2018/19.

Desse total, o mercado interno absorveu 31,35 bilhões de litros, enquanto a exportação somou 1,91 bilhão de litros.

Dos 31,35 bilhões de litros, 22,35 bilhões foram de hidratado, que teve alta de 7,02% nas vendas.

Diretor técnico da Unica, Antonio de Padua Rodrigues disse, por meio da assessoria da entidade, que “as medidas para conter a disseminação do novo coronavírus e a disputa envolvendo Rússia e Arábia Saudita no mercado de petróleo promoveram uma queda nas cotações internacionais do óleo e uma redução drástica no consumo doméstico de combustíveis”.

Por isso, segundo ele, apesar da alta nas vendas na safra que encerrou, o início da atual safra ocorre em um “contexto de total incerteza e preocupação”, segundo ele.

“As usinas se prepararam para garantir o abastecimento pleno de etanol na entressafra, com níveis elevados de consumo. A mudança abrupta de cenário e a queda da demanda de combustíveis pegou todos de surpresa criando uma situação muito difícil, pois o produtor precisa comercializar etanol para fazer frente aos desembolsos típicos de início de safra”, disse.

Dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq-USP, mostram que o preço do etanol hidratado praticado pelos produtores em São Paulo recuou 35% em pouco mais de um mês.

Conforme a Unica, se o cenário permanecer como está, usinas podem paralisar as atividades. “Trata-se de um setor essencial para a economia, com a produção de açúcar, etanol combustível, bioeletricidade e, mais recentemente, álcool para desinfecção e assepsia”, diz a entidade.

Safra maior

A região centro-sul do país processou 589,9 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, o que representou um crescimento de 2,9% em comparação com as 573,17 milhões de toneladas registradas na safra passada.

Desse total, apenas 34,32% da cana teve como destino a produção de açúcar, o menor percentual dos últimos 22 anos. Foram fabricados 26,73 milhões de toneladas, ligeira alta em relação 26,51 milhões de toneladas na safra 2018/19.

Isso significa que 65,68% de toda a cana moída foi destinada à produção de etanol anidro e hidratado.

Já a safra que começou no último dia 1º deverá ter uma ligeira alta no total de cana esmagada e será mais açucareira que a encerrada em março, conforme dados da consultoria Datagro.

Do montante de cana a ser processado pelas usinas do centro-sul, 41,5% devem ser destinadas à produção de açúcar, conforme a consultoria, graças a quedas de produção em países como Índia e Tailândia.

A previsão da Datagro é que a safra atinja 596 milhões de toneladas de cana moídas no centro-sul.

Marcelo Toledo


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