Banco holandês afirma que o “caos” criado pela queda nos preços de petróleo deve afetar as estimativas para as usinas brasileiras de cana na safra 2020/21
O mercado de açúcar em 2020 trocou um momento de euforia por um de melancolia. Os contratos de futuros negociados na ICE, que estavam acima dos 15 centavos de dólar por libra-peso, agora são negociados abaixo de 11 centavos – uma queda de quase 30%.
“No início de fevereiro, o ICE nº 11 subiu à medida em que os danos à colheita tailandesa se tornaram aparentes. Logo depois, a crise do coronavírus já estava minando os preços. Mas não foi até a Rússia abandonar seu pacto de fornecimento de petróleo com a Opep que a verdadeira bomba chegou”, resumem os analistas do Rabobank, em relatório.
De acordo com o banco, o mercado já previa que os baixos preços do petróleo reduziriam o valor da gasolina no Brasil e, consequentemente, o do etanol. Com isso, a fabricação do biocombustível deixaria de ser economicamente vantajosa para as usinas, incentivando um maior direcionamento da matéria-prima para a produção de açúcar neste ano.
Por conta deste cenário, o banco projeta que o setor sucroenergético brasileiro tenha um mix de produção médio de 45% para o adoçante. O aumento, contudo, ainda não seria suficiente para abalar o déficit global, projetado em 6,7 milhões de toneladas para a temporada 2019/20 (outubro a setembro).
“Os cortes profundos na produção tailandesa e indiana são parcialmente compensados por perspectivas mais altas para o Brasil”, aponta o relatório. A perspectiva para 2020/21, porém, é de um retorno ao quadro de excedente, com uma produção de 600 mil toneladas para além do volume consumido no período.
Leia mais:
- Efeitos do coronavírus para o mercado de açúcar
- Impactos nos preços da commodity
- Reflexos para a produção brasileira
- Produção de açúcar em queda na Índia
- China tem produção e consumo afetados
- Tailândia enfrenta quebra na safra de cana
- Estabilidade relativa no mercado europeu
- Oferta de açúcar reduzida na América do Norte
- Setor açucareiro da Austrália em bom momento
O mercado de açúcar em 2020 trocou um momento de euforia por um de melancolia. Os contratos de futuros negociados na ICE, que estavam acima dos 15 centavos de dólar por libra-peso, agora são negociados abaixo de 11 centavos – uma queda de quase 30%.
“No início de fevereiro, o ICE nº 11 subiu à medida em que os danos à colheita tailandesa se tornaram aparentes. Logo depois, a crise do coronavírus já estava minando os preços. Mas não foi até a Rússia abandonar seu pacto de fornecimento de petróleo com a Opep que a verdadeira bomba chegou”, resumem os analistas do Rabobank, em relatório.
De acordo com o banco, o mercado já previa que os baixos preços do petróleo reduziriam o valor da gasolina no Brasil e, consequentemente, o do etanol. Com isso, a fabricação do biocombustível deixaria de ser economicamente vantajosa para as usinas, incentivando um maior direcionamento da matéria-prima para a produção de açúcar neste ano.
Por conta deste cenário, o banco projeta que o setor sucroenergético brasileiro tenha um mix de produção médio de 45% para o adoçante. O aumento, contudo, ainda não seria suficiente para abalar o déficit global, projetado em 6,7 milhões de toneladas para a temporada 2019/20 (outubro a setembro).
“Os cortes profundos na produção tailandesa e indiana são parcialmente compensados por perspectivas mais altas para o Brasil”, aponta o relatório. A perspectiva para 2020/21, porém, é de um retorno ao quadro de excedente, com uma produção de 600 mil toneladas para além do volume consumido no período.

Especificamente em relação aos efeitos da crise do coronavírus no consumo, o Rabobank não prevê um grande impacto em 2019/20. Segundo o relatório, deve ser registrada “uma pequena erosão” em países severamente afetados pelo vírus. Com isso, a taxa de crescimento do consumo mundial – anteriormente calculada em 1% – seria zerada.
“Acreditamos que as perdas na demanda de serviços de alimentação possam ser compensadas por um aumento no varejo e por um possível crescimento no consumo de alimentos processados, em detrimento de alimentos frescos, dada a situação atual”, afirma e completa: “Por enquanto, prevemos um retorno a um crescimento da demanda em 2020/21”.
Impacto nos preços
Para o Rabobank, o preço internacional do açúcar deve acompanhar o mercado de petróleo nas próximas semanas. Se o valor do barril permanecer em torno de US$ 30, a perspectiva do banco é que os preços médios do etanol no estado de São Paulo atinjam um valor equivalente a 11 centavos de dólar por libra-peso.
“Portanto, qualquer preço de açúcar muito acima deste nível encorajaria ainda mais sua produção no Brasil, às custas da de etanol”, aponta o relatório. “Os mercados de petróleo e açúcar estarão atentos a sinais de que a Arábia Saudita ou a Rússia podem querer voltar à mesa de negociações”, completa.
Para completar, o banco ainda relata que há fatores altistas atuando no mercado de açúcar, principalmente para o produto refinado. Entre eles estariam as exportações indianas, que foram menores do que o esperado. Além disso, os Estados Unidos ampliaram sua perspectiva de demanda de açúcar refinado ao mesmo tempo em que foi registrada uma escassez inesperada do produto na Tailândia.
Com isso, o Rabobank espera que a falta de açúcar refinado tenha potencial de impulsionar a demanda pelo produto bruto. “Enquanto o mundo luta para combater o coronavírus, podemos esperar mais gargalos logísticos, especialmente atrasos nos portos e nas fronteiras. Até agora, os governos priorizaram o setor de alimentos e agricultura como essencial, e os esforços para tentar minimizar quaisquer interrupções na cadeia de suprimento de alimentos devem continuar”, complementa.
“Caos” do petróleo chega ao Brasil
Segundo o relatório do banco, o “caos” criado no mercado de petróleo “afetou profundamente” as perspectivas para a indústria brasileira de cana-de-açúcar na safra 2020/21, que começou oficialmente na quarta-feira (1º).
A estimativa é que, caso o real permaneça desvalorizado ante o dólar, o preço da gasolina caia até 15% na comparação com 2019. Além disso, o banco já projeta uma queda brusca no preço do etanol nas usinas, provocada pela diminuição na demanda por combustíveis, outro reflexo do coronavírus na economia.
“O ponto principal é que as receitas e margens das usinas com etanol parecem muito vulneráveis em 2020, especialmente diante de semanas ou meses com demanda reduzida, além da ameaça de preços persistentemente baixos do petróleo”, observa o relatório.

Por conta deste cenário, a projeção do banco é que, com uma moagem de 600 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, um mix de produção de 45% para o adoçante gere cerca de 35 milhões de toneladas de açúcar. Já a produção de etanol seria de 27 bilhões de litros.
“Essa perspectiva ainda pode mudar se, por exemplo, a Rússia e a Arábia Saudita mostrarem sinais de retorno à mesa de negociações”, ressalva o banco. Na atual temporada, a moagem acumulada até a primeira quinzena de março é de 582,9 milhões de toneladas, com 34,4% da matéria-prima sendo direcionada para o açúcar.
Ainda que a situação de preços pareça ruim, o Rabobank afirma que há “algum consolo” para as usinas brasileiras. “Os mercados ofereceram combinações muito atraentes de futuros de açúcar e de câmbio em janeiro e fevereiro”, afirma.
De acordo com o relatório, cerca da metade da produção de açúcar projetada foi protegida a preços acima da média de longo prazo, de R$ 1.230/t (equivalente FOB NY). “Mesmo valores à vista fornecem um preço em moeda local de R$ 1.215/t”, completa.
Produção de açúcar em queda na Índia
Enquanto a perspectiva para o Brasil é de um aumento na produção, a Índia vive uma quebra de safra. Segundo o Rabobank, a produção de açúcar no país tem apresentado “um ritmo variável” e a projeção é de uma queda de 19% ante a safra passada, totalizando 28,9 milhões de toneladas de açúcar bruto.
Conforme o relatório, a produção está “relativamente normal” em Uttar Pradesh. “No entanto, o estado de Maharashtra está passando por uma redução de 40% na produção anual, após a seca no início da estação e as inundações regionais”, pondera. No estado, a produção de açúcar até a primeira quinzena de março foi de 5,5 milhões de toneladas – um valor bem abaixo das 10 milhões vistas em 2018/19.
Para 2020/21, por sua vez, a perspectiva é de uma retomada na produção, com o país chegando a 33,5 milhões de toneladas de açúcar. De acordo com o banco, os reservatórios estão cheios após as monções do final de 2019 e serão favoráveis para a produção na próxima temporada.
O Rabobank ainda reforça que o governo indiano realocou as cotas de exportação, como forma de melhorar os resultados das usinas em 2019/20. No total, cotas de 611,8 mil toneladas foram redistribuídas entre as usinas, beneficiando as unidades localizadas no norte de Uttar Pradesh.
Outro ponto que beneficia as exportações de açúcar na Índia são as mudanças nas especificações exigidas pela Indonésia. O país reduziu sua exigência de cores Icumsa para importações de açúcar bruto, justamente com o objetivo de favorecer o produto de origem indiana.
Em contrapartida, com os contratos futuros sendo negociados entre 10 e 11 centavos de dólar por libra-peso, o Rabobank acredita que as exportações de açúcar representam prejuízo para as usinas indianas, mesmo com a recente desvalorização da rupia indiana em relação ao dólar.
“Caso os preços mundiais continuem sendo negociados abaixo dessa paridade, existe o risco de que as exportações indianas em 2019/20 caiam para baixo das 5 milhões de toneladas previstas anteriormente”, alerta.
China tem produção e consumo afetados
Por sua vez, a produção chinesa em 2019/20 está prevista pelo Rabobank em 10 milhões de toneladas, uma queda de 7% a 9% em relação ao ano anterior. De acordo com o relatório, isso se deve a uma menor área cultivada e a perda de rendimento no sul da China. “Para a próxima temporada, os impactos negativos do Covid-19 na logística e mão de obra atrasaram o plantio da primavera, o que poderia reduzir a produção 2020/21”, complementa.
Já em relação à demanda chinesa, o Rabobank acredita em um menor consumo de açúcar no primeiro trimestre devido ao surto de Covid-19, especialmente considerando o uso industrial. A projeção é de uma queda de 0,3 a 0,5 milhão de toneladas no ano, graças a uma recuperação no consumo a partir do segundo trimestre.
Além disso, o banco acredita que o governo chinês deve reduzir as tarifas de importação fora da cota, que passarão de 85% para 50% a partir de 22 de maio de 2020. Com isso, o volume importado pelo país deve subir, mesmo que os embarques sejam adiados para depois de maio. Para completar, devem ser colocadas em prática inspeções rigorosas, diminuindo a chegada de importações clandestinas de açúcar.
“Em contrapartida, o Rabobank prevê que o governo chinês terá que vender de 500 mil a 800 mil toneladas de açúcar de reserva estatal através de leilão, a fim de suprir seu déficit de oferta doméstica em 2019/20”, pondera.
Tailândia enfrenta quebra na safra de cana
Um dos principais fatores altistas do mercado de açúcar no começo de 2020 era a quebra na safra tailandesa de cana-de-açúcar. De acordo com o Rabobank, a temporada 2019/20 deve registrar uma queda de 40% na produção ante a safra anterior, totalizando 75 milhões de toneladas, e terminando um mês antes do período habitual.
“A queda acentuada segue um corte na área cultivada de cana, juntamente com a seca sazonal”, observa o relatório. Por conta disso, a produção de açúcar bruto do país deve atingir 8,6 milhões de toneladas, contra 15,4 milhões de toneladas no ano passado. Deste volume, o Rabobank projeta uma exportação entre 6 e 7 milhões de toneladas.
Já para a safra 2020/21, o banco não prevê uma recuperação na produção tailandesa, mantendo uma perspectiva de 8,6 milhões de toneladas – idêntica a esperada para a atual temporada. “Prevê-se um dano persistente por conta seca, especialmente para as culturas de soqueiras, e incentivos limitados para replantio”, justifica o relatório.
União Europeia tem mercado estável
Ainda que a União Europeia tenha tomado medidas drásticas em seu combate à pandemia de coronavírus, o Rabobank não acredita que o consumo e a produção de açúcar tenham sido duramente afetados.
“Embora a demanda em serviços de alimentação deva ser severamente atingida nos próximos dois meses, não esperamos um grande impacto na demanda anual de açúcar”, aponta o banco. A justificativa é que a participação dos produtos que contêm açúcar nos serviços de alimentos não é alta na região, variando de 17% a 28%, dependendo da categoria do produto.
A princípio, o Rabobank estima uma queda de 1% no consumo de açúcar europeu. A redução se deve apenas em parte ao surto de covid-19 e à desaceleração econômica, sendo também atribuída a uma já conhecida tendência de baixa na demanda por açúcar devido a mudanças nos hábitos alimentares da população.
“Atualmente, não prevemos um impacto maior na demanda, pois isso poderia ser minimizado pela mudança dos consumidores do serviço de alimentos para o varejo. Além disso, no caso de a UE entrar em recessão, estudos mostraram que as pessoas tendem a comer mais alimentos açucarados e processados em tempos econômicos difíceis”, relata.
Em relação à produção de açúcar dos 28 países do bloco, o banco projeta 17,6 milhões de toneladas para 2019/20 e 18,3 milhões de toneladas para 2020/21. O aumento, segundo o banco, deve-se a um crescimento de produtividade, capaz de compensar até mesmo a perspectiva de uma leve redução na área plantada de beterraba.
Além disso, o relatório aponta que os preços à vista do açúcar branco na União Europeia têm se mantido relativamente estáveis desde o último trimestre, em torno de 465 euros por tonelada. O valor está acima dos preços divulgados pela comissão europeia em janeiro – 360 euros por tonelada – e dezembro, com 342 euros por tonelada. “Mas é apenas uma questão de tempo até que a repercussão da queda dos preços globais adicione pressão aos preços europeus”, acredita o banco.
Oferta de açúcar está reduzida na América do Norte
O mercado de açúcar no Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) ficou mais apertado no primeiro trimestre de 2020, segundo o Rabobank. De acordo com o banco, houve reduções nas safras dos Estados Unidos e do México, o que fez com que a relação estoque-uso nos Estados Unidos caísse para 7,2%. O valor está bem abaixo do limite de 13,5%, recomendado pelo departamento de agricultura do país (USDA).
A previsão do Rabobank para a produção de beterraba nos Estados Unidos em 2019/20 é a mais baixa desde 2008/09, enquanto a perspectiva para a produção de cana é a mais baixa desde 2013/14. “Além da escassez de fornecimento, a produção de cana-de-açúcar do México foi revisada para 5,5 milhões de toneladas, 500 mil toneladas abaixo da estimativa do governo mexicano”, observa.
Por conta disso, o USDA registrou importações do México totalizando 1,06 milhão de toneladas – 700 mil toneladas abaixo do que seria necessário para atingir o limite de 13,5% na relação estoque-uso. O USDA, então, solicitou ao Departamento de Comércio que aumentasse a quantidade de importações de açúcar refinado do México em 181 mil toneladas, de modo a compensar o déficit para 2019/20.
“Ainda não está claro quais ações o USDA tomará para suprir o déficit, mas provavelmente isso virá de realocações de cotas, tanto para o açúcar bruto quanto para o branco”, observa o Rabobank. Segundo o banco, em janeiro, os estoques de açúcar refinado nos EUA estavam 20% menores quando comparados ao mesmo momento do ano passado. Já os estoques de açúcar bruto caíram 11% no mesmo período.
Conforme o Rabobank, este desequilíbrio nos estoques teria contribuído para aumentar os preços do açúcar bruto e refinado, levando as margens de refino no país a níveis que não eram vistos desde 2011, com 17,3 centavos de dólar por libra-peso.
“O USDA também aumentou as importações de alto nível para 136 mil toneladas, o maior valor desde 2009/10, já que o spread entre os preços do açúcar refinado nos Estados Unidos e no mundo é amplo o suficiente para incentivar essas importações”, completa.
Setor açucareiro da Austrália em bom momento
O relatório do Rabobank também traz as perspectivas para a produção de açúcar na Austrália. Segundo o documento, a área dedicada à cana-de-açúcar no país caiu 11% entre 2017 e 2019, mas deve se manter estável em 2020. Além disso, com a perspectiva de rendimentos mais altos na comparação anual, a safra deste ano está prevista em 31 milhões de toneladas.
Com isso, o banco calcula a produção de 4,2 a 4,3 milhões de toneladas de açúcar bruto. Ou seja, trata-se de uma manutenção ante as 4,2 milhões de toneladas vistas em 2019, com um resultado que permanece abaixo da média nacional de cinco anos.
De acordo com o Rabobank, as principais regiões produtoras de cana-de-açúcar ao longo da costa nordeste da Austrália receberam bastante chuva no início de 2020. “Essas condições promoveram o crescimento generalizado da cana, melhorando as perspectivas de rendimento para a moagem de 2020”, aponta o relatório. Porém, há a possibilidade de ocorrerem riscos climáticos em junho, como um ciclone tropical ou inundações ao norte de Queensland.
Ao mesmo tempo, o banco acredita que o impacto da redução nos preços internacionais não será sentido com força no país. “Até o momento, a queda acentuada nos preços mundiais do açúcar foi isolada localmente por uma depreciação significativa do dólar australiano”, explica.
Além disso, a perspectiva é de um aumento nas exportações de açúcar australianas, por conta do corte no suprimento tailandês. Conforme o banco, os compradores asiáticos, particularmente da Indonésia, dependem de importações tailandesas e precisarão procurar origens mais distantes.
“Uma queda na produção indonésia em 2019/20, acompanhada de um apetite crescente, provavelmente fará com que as importações subam para 5 milhões de toneladas, beneficiando exportadores australianos e indianos”, afirma o relatório.
Já o consumo doméstico na Austrália não deve registrar crescimento em 2020/21, segundo as projeções do Rabobank – uma tendência já vista nos últimos anos.
Renata Bossle – NovaCana