Cana: Safra / Moagem

Cenário com coronavírus e queda do petróleo é o pior possível para início da safra, diz Unica


Agência Estado - 08 abr 2020 - 12:25

A pandemia de coronavírus e a disputa entre Arábia Saudita e Rússia, que derrubou os preços do petróleo nas bolsas internacionais, configuram o “pior cenário possível para o início da safra de cana-de-açúcar no Centro-Sul do País”, afirma o diretor técnico da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), Antonio de Padua Rodrigues.

Ao Broadcast Agro, ele disse que as expectativas em relação à safra 2020/21, que começou neste mês, eram muito positivas até fevereiro. Agora, entretanto, a perspectiva é bem diferente, embora ainda considere uma possibilidade de maior oferta de cana, já que as condições climáticas até o momento são favoráveis.

A maior preocupação do setor no momento é quanto à redução nas vendas de etanol, uma consequência do período de quarentena para evitar a propagação do coronavírus. “É uma consequência drástica para o início da safra porque os preços estão quase abaixo dos custos de produção e, além disso, como não há demanda, não há venda”, reforça Pádua, afirmando que a queda real será conhecida ao fim do mês de abril.

Ele ressalta que, embora algumas empresas consigam maximizar a produção de açúcar voltada para o mercado externo em detrimento do etanol, cerca de 20% da oferta do biocombustível é produzida por usinas que não comercializam adoçante e que possuem dificuldades logísticas para exportação, caso de Estados como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás. Essas serão as empresas mais afetadas pelo cenário de crise atual, aponta o diretor da Unica.

Além disso, a reversão do mix sucroalcooleiro pelas empresas que têm capacidade de migrar a produção é limitado, lembra Pádua. “Não é possível mudar de 100% de etanol para 100% de açúcar, nem ao contrário. Na safra passada, tivemos 35% de cana destinada à produção do adoçante, enquanto 65% ficou para o etanol. Neste ano, sem dúvida haverá uma mudança”, disse. A perspectiva da Unica para a safra atual é de cerca de 40% para açúcar e 60% para etanol, com o mix podendo chegar, no máximo, a 45% de açúcar e 55% de etanol no mix.

Dada a importância do setor sucroenergético para o País, ele afirma que a Unica está em contato com a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, para viabilizar formas de financiamento que possam garantir o funcionamento das usinas. Uma das opções abrange a questão tributária, passando pela desoneração do PIS-Cofins sobre o etanol hidratado e pela elevação da carga tributária da gasolina para aumentar a competitividade do biocombustível, o que, no primeiro momento, não mudaria os preços para o consumidor, reforça o diretor.

O fator mais importante, entretanto, é o financiamento das empresas, que precisam de capital de giro para estocar a produção enquanto não há demanda. Como a cana-de-açúcar é um produto muito perecível, não pode ser estocada no campo, o que faz com que a produção não possa parar. Pádua alerta que o risco de o governo não auxiliar na questão financeira é muito baixo, mas se as empresas não tiverem como sustentar esse armazenamento, em um período de 30 a 40 dias o setor veria uma paralisação na moagem, o que seria “um problema sério na cadeia produtiva”.

O diretor da Unica lembrou também que o maior desembolso financeiro do ano-safra ocorre no período da colheita, quando as empresas também contam com aumento de receita para custear os investimentos feitos no momento do plantio. Para a safra 2020/21, especificamente, muitas empresas gastaram com reforma das indústrias, expansão em tancagem, além de renovação das máquinas.

Julliana Martins