São Martinho lidera empréstimos; plantio de cana-de-açúcar se destaca entre as demandas por recursos
A pandemia de coronavírus fez com que o ano de 2020 fosse desafiador para diversos setores da economia – e a perspectiva para 2021 ainda é de cautela. No caso das sucroenergéticas, algumas adiaram o início da moagem da safra 2020/21, a demanda por combustíveis influenciou a produção e havia o receio de um colapso financeiro.
Dentre as formas de garantir a “sobrevivência do setor” estavam medidas emergenciais propostas por entidades representativas. A redução de impostos dos combustíveis e novas linhas de financiamento eram algumas das possibilidades.
Em junho, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), uma das principais instituições de apoio ao setor, de fato aprovou uma linha de crédito de R$ 3 bilhões especialmente voltada para a estocagem de etanol.
Ainda assim, aparentemente, o crédito não foi aproveitado. Não há registros nos dados do BNDES de 2020 sobre financiamentos na linha, o que, conforme o economista do Pecege, Haroldo Torres, em entrevista à EPBR, indica a letargia na aprovação do auxílio.
Isso não indica, porém, a ausência do banco no setor ao longo do ano – a aprovação da linha, inclusive, demonstra a necessidade de atenção para a capacidade de armazenamento das usinas, especialmente considerando uma baixa demanda.
A usina sul-mato-grossense Laguna, do grupo de mesmo nome, por exemplo, financiou R$ 72,51 milhões com o banco em 2020. Este empréstimo fez parte dos R$ 1,18 bilhão destinados ao setor pelo BNDES em 2020, uma queda de 59,42% em relação a 2019, por meio de 983 projetos. A usina São Martinho e o grupo de mesmo nome foram os que mais contrataram valores no ano passado.
Confira, na versão completa, restrita para assinantes, dados e gráficos sobre os financiamentos do setor via BNDES, com destaque para as companhias e áreas que mais emprestaram dinheiro em 2020.
A pandemia de coronavírus fez com que o ano de 2020 fosse desafiador para diversos setores da economia – e a perspectiva para 2021 ainda é de cautela. No caso das sucroenergéticas, algumas adiaram o início da moagem da safra 2020/21, a demanda por combustíveis influenciou a produção e havia o receio de um colapso financeiro.
Dentre as formas de garantir a “sobrevivência do setor” estavam medidas emergenciais propostas por entidades representativas. A redução de impostos dos combustíveis e novas linhas de financiamento eram algumas das possibilidades.
Em junho, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), uma das principais instituições de apoio ao setor, de fato aprovou uma linha de crédito de R$ 3 bilhões especialmente voltada para a estocagem de etanol.
Pelos cálculos do banco, o montante poderia garantir o armazenamento de até 6 bilhões de litros do biocombustível por todo o país. Para o cenário que se desenhava no início da pandemia, a possibilidade era atraente, especialmente considerando a queda no consumo.
Ainda assim, aparentemente, o crédito não foi aproveitado. Não há registros nos dados do BNDES de 2020 sobre financiamentos na linha, o que, conforme relata o economista do Pecege, Haroldo Torres, em entrevista à EPBR, demonstra a letargia na aprovação do auxílio.
Isso não indica, porém, a ausência do banco no setor ao longo do ano – a aprovação da linha, inclusive, demonstra a necessidade de atenção para a capacidade de armazenamento das usinas, especialmente considerando uma baixa demanda.
A usina sul-mato-grossense Laguna, do grupo de mesmo nome, por exemplo, financiou R$ 72,51 milhões com o banco em 2020. A quantia foi destinada à ampliação na moagem de cana-de-açúcar; ao aumento na cogeração de energia elétrica e à implantação da linha de transmissão; à ampliação e renovação do canavial; e ao aumento da sua capacidade de estocar etanol.
A companhia foi a terceira a contratar os maiores valores em 2020, subindo 20 posições no comparativo ano a ano. Em 2019, ela havia obtido R$ 11,16 milhões.
Este empréstimo fez parte dos R$ 1,18 bilhão destinados ao setor pelo BNDES em 2020, uma queda de 59,42% em relação a 2019, por meio de 983 projetos. Os investimentos, inclusive, têm caído desde o pico atingido em 2018. Em relação ao número de empresas, no ano passado foram 604 companhias, ante as 109 do anterior.
Vale ressaltar que os valores a partir de 2017 foram atualizados no início deste ano devido a uma mudança de metodologia para a coleta de dados. Agora, as informações compiladas pelo NovaCana sobre financiamentos via BNDES estão ainda mais completas.
Do total emprestado em 2020, R$ 322,1 milhões foram concedidos à usina São Martinho, do grupo de mesmo nome. A companhia e o conglomerado foram os que mais contrataram dinheiro do BNDES no período.

Os valores serão utilizados para a modernização da usina São Martinho com expansão da cogeração de energia; para a construção de uma nova unidade cogeradora com aproveitamento do bagaço da cana-de-açúcar; e para a expansão da usina Boa Vista.
Alguns destes projetos, inclusive, foram divulgados em atas da sucroenergética publicadas no Diário Oficial de São Paulo no final do ano, mas nem todos constam entre os dados do BNDES. Este também é o caso da Geo Elétrica Tamboara, que teve um financiamento anunciado, porém, por questões burocráticas, o dinheiro ainda não foi liberado e não consta na lista do ano em questão.
No comparativo ano a ano, os investimentos da usina São Martinho aumentaram mais de 6.000%, fazendo-a subir da 42ª para a primeira posição. Em segundo lugar vem a unidade Narandiba, do grupo Cocal, com R$ 106,99 milhões.
Parte destes recursos serão utilizados para a construção de uma planta de produção de biogás e geração de energia elétrica em Narandiba (SP), aproveitando os resíduos do processamento da cana, e a outra parte, para aquisição de máquinas e equipamentos. A Cocal é o terceiro grupo que mais contratou financiamentos em 2020.
A WD, do grupo Detoni, está entre as dez usinas que mais obtiveram dinheiro por meio do BNDES em 2020, com o valor registrado de R$ 41,55 milhões. Foi divulgada, porém, uma quantia maior, de R$ 62 milhões. Conforme o próprio banco, isso acontece pela modalidade de empréstimo.
No caso da WD, a contratação via Finame Direto não apresenta, no sistema do BNDES, o valor total, apenas o que foi desembolsado até o momento. Assim, até então, foram entregues R$ 41,55 milhões à companhia, e os R$ 20,45 milhões faltantes ainda devem ser recebidos.
“Para as operações de BNDES Finame Direto existe um tratamento diferente, em que divulgamos apenas a utilização dos recursos, não o limite pré-contratado”, explica o BNDES. Desta forma, é possível concluir que o valor final divulgado das operações registradas em 2020 é menor do que os acordos fechados ao longo do ano.
O grupo Detoni ficou na oitava posição dentre os que mais emprestaram valores do banco no ano passado. Já na segunda posição entre os grupos, depois da São Martinho, está o agrupamento de produtores independentes de cana-de-açúcar, criado pelo NovaCana para facilitar a compreensão. No período, foram financiados R$ 242,65 milhões com o BNDES, todos destinados ao plantio de cana.

Estes fornecedores independentes, no geral, possuem contratos firmados com usinas para oferecer a matéria-prima de forma exclusiva; outros produzem e vendem conforme a demanda da região, provavelmente por valores mais altos do que os primeiros. Em 2020, 757 produtores de 13 estados do país fizeram empréstimos com o banco.
Dentre os grupos que obtiveram financiamentos no ano passado, vale destacar a Cerradinho Bioenergia, que ficou em quarto lugar e investiu tanto nas suas duas unidades, a CerradinhoBio e a Neomille – que produz etanol de milho –, quanto na sua sede administrativa. Os valores combinados chegaram a R$ 89,5 milhões.
Já o grupo Cerradão ficou em nono lugar em 2020, com R$ 40,25 milhões divididos em quatro projetos para a usina de mesmo nome investir na sua capacidade de moagem, renovação do plantio e ampliação da frota de equipamentos agrícolas.
Nos últimos quatro anos, inclusive, a usina Cerradão foi a segunda, dentre as dez maiores de 2020, que mais contratou financiamentos do BNDES, somando R$ 138,92 milhões em projetos. A São Martinho ocupa a primeira posição, com R$ 473,68 milhões, e investimentos anuais desde 2017.

Em 2019, as cinco unidades que obtiveram os maiores empréstimos via BNDES foram, respectivamente: Uberaba, do grupo Balbo; Serrana, da Pedra Agroindustrial; São José da Estiva, do grupo de mesmo nome; Canápolis Açúcar e Álcool, da CMAA; e Iacanga, do grupo de mesmo nome.
Delas, apenas a Canápolis contratou dinheiro do banco no ano passado, com R$ 23,45 milhões para a fabricação de etanol, ficando em 11º lugar no ranking das usinas.
Investimento em matéria-prima
Dos financiamentos recebidos pelo setor ao longo de 2020, a maior parte – 31,32% – foi para a área de plantio de cana-de-açúcar; foram R$ 371,01 milhões em 867 projetos.
Em 2019, esta área correspondia a uma parcela maior do total – 33,23%, equivalentes a R$ 421,46 milhões –, porém era a segunda com mais investimentos, ficando atrás de expansão e modernização industrial, que foi para o segundo lugar em 2020.

Desde 2018, pico do valor financiado na área com R$ 865,81 milhões, as quantias vêm caindo, mesmo que o número de projetos e empresas aumente. Em 2020, o destaque fica com a usina Delta, do grupo Delta Sucroenergia, com R$ 20,47 milhões em 11 projetos.
A unidade também investiu R$ 7,31 milhões em sete projetos para a fabricação de açúcar. No ano anterior, ela não fez investimento algum com o BNDES.
Em segundo lugar vem a Jacarezinho, do grupo Maringá, com R$ 17,95 milhões investidos no plantio da cana. Em 2019, a companhia havia investido R$ 2,18 milhões na fabricação de açúcar, área para a qual destinou apenas R$ 1,9 milhão em 2020.
A Bevap, terceira companhia que mais investiu no plantio, com R$ 12,93 milhões no ano passado, não fazia empréstimos com o banco desde 2012. Já a Laguna, com R$ 8,8 milhões, vem investindo na área desde 2018 e inclusive já financiou R$ 422 mil reais para este fim em 2021.
A Agropecuária Pau D’Alho, por sua vez, destinou R$ 8,7 milhões no plantio de cana-de-açúcar em 2020 e vem recebendo valores para a área desde 2017.
Expansão e modernização em alta
Invertendo as posições no comparativo com 2019, a área de expansão e modernização industrial correspondeu a 26,58% dos investimentos do BNDES no setor sucroenergético em 2020, com R$ 341,85 milhões.
Mesmo com o segundo valor mais alto, foram apenas cinco projetos de duas empresas: a São Martinho e a Cerradão, ambas de grupo de mesmo nome.
A primeira delas obteve a maior parte da quantia total, R$ 279,6 milhões. O valor será utilizado para melhorias em duas unidades: a São Martinho, em Pradópolis (SP), que terá sua capacidade de cogeração ampliada, e Boa Vista, em Quirinópolis (GO).

A companhia vem contratando investimentos com o BNDES desde 2003, mesmo que, em 2019, por exemplo, a quantia tenha sido menor – de R$ 4,95 milhões – e em apenas um projeto, na área de apoio ao campo.
Já os investimentos da Cerradão, de R$ 35,25 milhões, estão focando na expansão da capacidade de moagem da usina de Frutal (MG) e em novas variedades de cana-de-açúcar. A companhia faz empréstimos com o banco desde 2006 e investiu R$ 12,74 milhões na área de expansão e modernização em 2019.
Nos registros de 2021, inclusive, já constam novos contratos da usina por meio do banco, de R$ 38,75 milhões, porém na área de apoio ao campo, que, no ano passado, representou apenas R$ 735 mil do total.
Destaque para a indústria
A área de apoio à indústria, por sua vez, foi a terceira que obteve mais investimentos em 2020, com R$ 147,25 milhões em 40 projetos de cinco companhias.
Com valores bem próximos, de R$ 47 milhões, R$ 46,5 milhões e R$ 41,55 milhões respectivamente, o grupo Delta Sucroenergia e as usinas CerradinhoBio e WD foram as que mais investiram na área, que, em 2019, não contratou financiamentos.

Na outra ponta, estão a Narandiba e a DVPA, com R$ 9,87 milhões e 2,33 milhões. Todos os valores foram destinados para a contratação de crédito para aquisição ou produção de máquinas e equipamentos.
Investimentos em diferentes áreas
Em 2018 e 2019, a área de cogeração recebeu diversos investimentos por meio do BNDES, ficando entre as três principais. Em 2020, porém, ela ficou em quarto lugar, com R$ 144,86 milhões que correspondem a 12,23% do total. Os empréstimos na área foram feitos pelas usinas São Martinho, Narandiba e CerradinhoBio.
Esta situação demonstra como o perfil de investimentos no setor está variando nos últimos anos. Em 2019, por exemplo, apenas sete áreas receberam valores do banco, o que fez com que as primeiras tivessem grandes participações; já em 2020, foram dez áreas, com valores que vão de R$ 230 mil a R$ 371,01 milhões.
Por outro lado, o número de projetos aumentou no comparativo anual e é o maior desde 2017, o que demonstra que os valores individuais de financiamento estão, na média, mais baixos.

As áreas que contrataram investimentos em 2020 foram: plantio de cana-de-açúcar; expansão e modernização industrial; apoio à indústria, ao campo, e administrativo; cogeração; logística para açúcar e etanol; fabricação de etanol e de açúcar; e compra e venda de insumos e derivados.
Enquanto muitas áreas se repetiram no comparativo anual, o apoio à indústria só recebeu financiamentos em 2020, 2018 e antes de 2006 – e já há um investimento na área registrado em 2021. Já apoio administrativo estava sem aparecer nos dados do BNDES desde 2014. Compra e venda de insumos e derivados obteve valores anualmente desde 2007, ficando de fora apenas em 2019.
Modalidades de financiamento
Os dados divulgados pelo BNDES e agrupados pelo NovaCana são referentes à lista de empréstimos aprovados em diferentes modalidades: operações indiretas automáticas ou não, e diretas, sendo que cada uma tem relação com a forma como o valor será entregue.
As operações indiretas são feitas por meio de empresas financeiras credenciadas no BNDES, responsáveis pela análise do tomador de crédito. Na modalidade automática, com valor máximo de R$ 150 milhões, não é preciso passar por uma avaliação prévia do banco e envolve operações com o Finame. Já as operações não automáticas dependem de autorização prévia e financiam valores de, no mínimo, R$ 10 milhões.
Já na operação direta, o pedido é apresentado diretamente ao BNDES. O banco, por sua vez, disponibiliza principalmente quantias acima de R$ 10 milhões, embora haja exceções em linhas de crédito específicas.

Em 2020, assim como em 2019, não foram realizados financiamentos na modalidade indireta não automática, que efetivamente é a menos frequente. Do total, 61,19%, ou R$ 724,95 milhões, foram de operações diretas, enquanto os 38,81% restantes foram operações indiretas automáticas.
A diferença entre estas quantias aumentaram no comparativo anual. Em 2019, a fatia das contratações diretas era de 54,32%, deixando os 45,68% restantes para as indiretas automáticas.
NovaCana DATA
Rafaella Coury – NovaCana