Usinas Uberaba, Serrana e São José da Estiva lideram o ranking; maior parte do dinheiro foi destinada à expansão ou modernização industrial
As dificuldades financeiras das usinas, especialmente das menos capitalizadas, vêm se intensificando nos últimos anos, dificultando o acesso ao crédito. Enquanto algumas companhias têm procurado saídas além do sistema bancário, outras optam pelo financiamento público, com linhas do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Porém, em 2019, nem mesmo desta fonte saíram montantes elevados. Aliás, no ano passado, o banco emprestou ao setor a menor quantia desde 2004, R$ 953,69 milhões, conforme levantamento realizado pelo NovaCana.
Na comparação com o ano anterior – quando o BNDES financiou um valor total acima de 2,5 bilhões –, o novo montante representa uma redução de 67,5%. Porém, em 2018, a quantia havia surpreendido ante os três anos anteriores: entre 2015 e 2017, os valores anuais não passaram de 1,5 bilhão.
Em 2019, 46% do total financiado foi destinado à expansão ou modernização industrial das usinas, enquanto outros 32% foram para o plantio de cana-de-açúcar e 11%, para a cogeração.
Os dados divulgados pelo banco foram agrupados pelo NovaCana e são referentes à lista de financiamentos aprovados em diferentes modalidades: operações indiretas, automáticas ou não, ou diretas não automáticas.
Confira, na versão completa, mais detalhes sobre os financiamentos do banco e gráficos com:
- Ranking dos financiamentos por empresas e por grupos
- Histórico das dez empresas com os maiores financiamentos de 2019
- Valor total financiado no ano e número de projetos
- Direcionamento dos recursos do banco para o setor
- Valores destinados ao plantio de cana-de-açúcar
- Valores destinados à expansão ou modernização
- Histórico das formas de financiamento
As dificuldades financeiras das usinas, especialmente das menos capitalizadas, vêm se intensificando nos últimos anos, dificultando o acesso ao crédito. Enquanto algumas companhias têm procurado saídas além do sistema bancário, outras optam pelo financiamento público, com linhas do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Porém, em 2019, nem mesmo desta fonte saíram montantes elevados. Aliás, no ano passado, o banco emprestou ao setor a menor quantia desde 2004, R$ 953,69 milhões, conforme levantamento realizado pelo NovaCana.
Na comparação com o ano anterior – quando o BNDES financiou um valor total acima de 2,5 bilhões –, o novo montante representa uma redução de 67,5%. Porém, em 2018, a quantia havia surpreendido ante os três anos anteriores: entre 2015 e 2017, os valores anuais não passaram de 1,5 bilhão.
No total, 57 empresas adquiriram crédito do BNDES em 2019, somando 306 projetos. Em 2018, o número de empresas e projetos foi praticamente o dobro: 105 empresas e 765 projetos.
No ano passado, a usina que obteve o maior montante foi a Uberaba, do Grupo Balbo. Foram R$ 185,79 milhões por meio de dez projetos diferentes ao longo de 2019, sendo que boa parte do valor é direcionado para investimentos em expansão ou modernização industrial. Além disso, o montante é 540,66% superior aos R$ 29 milhões contratados pela empresa em 2018.

Além disso, o Balbo foi o grupo que mais recebeu investimentos do BDNES – as usinas São Francisco e Santo Antônio também obtiveram financiamentos no ano passado. A primeira contratou R$ 5 milhões e a segunda, R$ 9,73 milhões. No total, foram R$ 200,52 milhões financiados para o grupo por meio do banco.
A segunda usina que mais adquiriu créditos do BNDES em 2019 foi a Serrana, do grupo Pedra Agroindustrial. Foram R$ 125,78 milhões, 255,41% a mais ante os R$ 35,39 milhões financiados em 2018. A quantia foi dividida entre a fabricação de açúcar e o plantio de cana.
O Pedra Agroindustrial também ficou em segundo lugar no ranking de grupos. Além da unidade Serrana, as usinas Ipês e Buriti obtiveram, juntas, R$ 15,66 milhões. Com isso, o grupo adquiriu R$ 141,45 milhões em 2019.

Por sua vez, a usina São José da Estiva recebeu R$ 100 milhões, ficando em terceiro lugar no ranking. Todo o valor foi investido em expansão e modernização industrial.
Já a unidade Iacanga, do grupo Ipiranga, diversificou um pouco mais os investimentos, aplicando não só em expansão ou modernização industrial, mas também em apoio ao campo e cogeração. No total, os financiamentos obtidos pela empresa somaram R$ 69,17 milhões em 2019.
Considerando as dez empresas que mais captaram recursos em 2019, a Iacanga foi a que mais obteve créditos do banco nos últimos cinco anos, somando R$ 351,33 milhões.

Em 2018, as cinco unidades que obtiveram os maiores financiamentos com o BNDES foram: Guarani, do grupo Tereos; Batatais, do grupo de mesmo nome; Cocal, também do grupo de mesmo nome; Vale do Paraná, do grupo Pantaleon; e São Martinho, do grupo de mesmo nome.
Dentre elas, apenas São Martinho e Batatais contrataram financiamentos no ano passado, de R$ 3,95 milhões e R$ 508 mil, respectivamente.
Foco em modernização e plantio
Em 2019, 46% do total financiado pelo BNDES às sucroenergéticas foi destinado à expansão ou modernização industrial das usinas, enquanto 32% foi para o plantio de cana-de-açúcar e 11%, para cogeração.
No total, R$ 439,6 milhões foram investidos em expansão ou modernização. As usinas que destinaram o valor para este fim foram: Uberaba (Balbo), São José da Estiva, Iacanga (Ipiranga), Diana, DVPA e Cerradão.

No caso da Uberaba, foram seis projetos, com quantias que variaram de R$ 6 milhões a R$ 130,14 milhões, totalizando R$ 185,80 milhões. A companhia deve direcionar este capital para a produção de etanol e para a ampliação da capacidade de moagem, com o objetivo de chegar a até 3,2 milhões de toneladas de cana por safra.
Além disso, o dinheiro foi injetado no plantio de 4,2 mil hectares de variedades protegidas ou clones potenciais de cana-de-açúcar, na aquisição de máquinas e veículos agrícolas e na implantação de uma adutora de vinhaça.
Já a usina Diana contratou R$ 55,6 milhões em setembro do ano passado. “[O valor] permitirá consolidar uma melhor eficiência a um custo mais baixo, além de acelerar o crescimento no intuito de aproveitar e melhorar toda a capacidade da empresa”, afirma a companhia.
Por sua vez, a Destilaria Vale do Paracatu contratou, em dezembro, R$ 29,88 milhões. Conforme o BNDES, o valor foi usado para a modernização agrícola em áreas no município de Paracatu (MG), além do plantio de até 5 mil hectares de cana-de-açúcar.
O apoio do banco ocorreu no âmbito do programa Finem Prorenova Industrial, representando 74% do investimento total do projeto, que é de R$ 40,25 milhões. Conforme uma reportagem do site Último Instante, a empresa também visa ampliar a produtividade agrícola em cerca de 8% por conta da escolha pela cana protegida, que é mais resistente a pragas e necessita de menos água.
Ainda que, um ano antes, a expansão industrial também tenha sido o principal destino da quantia, o valor total havia sido bastante superior: R$ 1,90 bilhão. Desta forma, houve uma queda de 76,85% em 2019.
Já em relação ao plantio de cana-de-açúcar, o valor financiado via BNDES foi de R$ 307,30 milhões em 2019, 3,09% a menos que o registrado um ano antes. As usinas Serrana (Pedra Agroindustrial), Passa Tempo (Biosev) e Umoe Bioenergy II foram as que mais obtiveram créditos para esta finalidade.

Como o BNDES não detalha a participação destinada à indústria e ao campo em projetos que envolvem as duas áreas, o NovaCana optou pela classificação como um investimento industrial.
Usinas seguem de olho na cogeração
Além de financiamentos para o plantio de cana-de-açúcar e para a expansão industrial, R$ 103,60 milhões foram destinados a investimentos na área de cogeração. A usina que recebeu o maior valor foi a Branco Peres, do grupo de mesmo nome: R$ 49 milhões.
Conforme detalhes do projeto, o valor foi usado para o aumento da capacidade de cogeração da usina, além da construção de subestações e linhas de transmissões. Outro uso foi o plantio de 1,22 mil hectares de cana-de-açúcar, dentro do programa Prorenova, do BNDES.
Já a usina Cerradão fez investimentos de R$ 36,60 milhões em cogeração de energia. Conforme reportagem da Reuters, a usina passará a ter potência instalada de 105 megawatts após as melhorias, ante os 55 megawatts anteriores.

Mudança no perfil dos investimentos
Em 2019, oito áreas receberam investimentos do BNDES: plantio de cana-de-açúcar, expansão ou modernização industrial, cogeração, logística para açúcar e etanol, apoio ao campo, apoio à indústria, fabricação de etanol e fabricação de açúcar.
A divisão dos recursos que o banco disponibiliza para as usinas, porém, vem se modificando ao longo dos anos. Entre 2015 e 2017, o plantio de cana-de-açúcar e a fabricação de etanol foram os principais usos do capital. Já em 2018 e 2019, o destaque foi para expansão ou modernização e houve um aumento do valor destinado para a investimentos em cogeração.
Ainda em 2019, o plantio de cana-de-açúcar voltou a ter uma parcela significativa de investimentos, diferente do que ocorreu em 2018.

Por outro lado, a área de implantação de novas unidades não recebe recursos desde 2012; já etanol de segunda geração e bioquímicos de cana, desde 2016.
Modalidades de financiamento
Os dados divulgados pelo banco e agrupados pelo NovaCana são referentes à lista de financiamentos aprovados em diferentes modalidades: operações indiretas, automáticas ou não, ou diretas.
Cada uma tem relação com a forma como o valor foi aprovado pelo banco. As operações indiretas são feitas por meio de financeiras credenciadas no BNDES, sendo ela a responsável pela análise do tomador de crédito.
Na modalidade automática, com valor máximo de R$ 150 milhões, não é preciso passar por uma avaliação prévia do banco. Já as operações não automáticas dependem de autorização prévia e financiam valores de, no mínimo, R$ 10 milhões.
E na operação direta, o pedido é apresentado diretamente ao BNDES. O banco, por sua vez, financia principalmente quantias acima dos R$ 10 milhões, embora haja exceções em linhas de crédito específicas.

Em 2019, não foram realizados financiamentos na modalidade indireta não automática. Do total, 56,96%, ou R$ 543,19 milhões, foram de operações diretas, enquanto os 43,04% restantes foram de financiamento indiretos automáticos.
Em 2018, a fatia das operações diretas foi ainda maior, de 76,95%. Já as indiretas automáticas haviam representado apenas 18,56%.
NovaCana DATA
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana