Investimento

Linha do BNDES para o etanol completa um mês sem demanda


EPBR - 24 jul 2020 - 07:29

O BNDES não recebeu nenhum pedido de financiamento pela linha de R$ 3 bilhões criada para o setor sucroenergético e garantida por estoques de etanol. A medida foi disponibilizada há um mês como uma resposta ao pedido de socorro feito em abril, em meio à crise causada pela pandemia de covid-19.

As informações foram publicadas pelo Valor Econômico e confirmadas pela EPBR.

“A principal explicação é a melhora do mercado de combustíveis ocorrida após o lançamento do produto. Depois de uma queda abrupta de demanda e preço em março e abril, os preços se recuperaram em função da desvalorização do dólar, alta do preço do petróleo e recuperação da demanda”, afirma o BNDES.

Após chegar a atingir preços negativos em abril, a cotação do petróleo se recuperou, levando a reajustes da Petrobras no mercado interno de gasolina. Na última terça-feira, os preços internacionais do petróleo atingiram o maior patamar em quatro meses e meio, com o Brent avançando 3,19%, a US$ 44,66, enquanto o WTI chegou a registrar ganhos de 3,13%, a US$ 42,20.

O aumento dos preços eleva as margens do etanol hidratado, que concorre nas bombas com a gasolina. O BNDES afirma que preços do etanol para as usinas estão superiores aos usados como referência da linha de financiamento, R$ 1,54/litro de hidratado e R$ 1,62/litro de anidro, reduzindo o interesse pelo programa.

“O prazo final para protocolo de projetos no Pass [a linha] é fim de setembro e, por ser o etanol uma commodity, os preços podem mudar novamente, sendo importante o BNDES ter um produto disponível para o setor”, conclui o banco.

A demora no anúncio da linha de crédito e a situação financeira das usinas podem ter contribuído para essa ausência de pedido.

“Fica clara a letargia, demoramos para tomar medidas e criar mecanismos para atenuar os efeitos do coronavírus. Abril foi o ápice da quarentena, com o menor nível de preço, mas somente um mês depois a linha foi liberada”, afirmou o economista do Pecege, Haroldo Torres, em entrevista à EPBR, em maio. “Eventualmente, os que mais precisam não vão ter acesso a essa linha, dada a situação em que se encontram e o risco que têm. O próprio spread de risco pode inviabilizar a operação para algumas usinas”.

As usinas mais necessitadas da linha de crédito, destilarias que produzem exclusivamente etanol, são as que enfrentam maiores problemas financeiros e têm mais dificuldade para cumprir os critérios exigidos pelo BNDES para acesso ao financiamento.

Atualmente, estima-se que 200 usinas estejam em recuperação judicial ou com pedidos de falência. Além disso, 117 usinas ainda não apresentaram à Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) documentação necessária para regularização financeira, a Certidão Negativa de Débitos (CDN) e a certidão de Créditos não Quitados do Setor Público Federal (Cadin).

Já as usinas mistas, que produzem etanol e açúcar, maximizaram sua produção açucareira, destinada ao mercado internacional, o que representou um alívio nas contas devido à alta valorização do dólar nos últimos meses.

No acumulado desde o início da safra 2020/21 até 1º de julho, a produção de açúcar alcançou 13,30 milhões de toneladas, contra 8,94 milhões de toneladas verificadas na mesma data do ciclo 2019/20, segundo dados da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica).

Gabriel Chiappini