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Panorama do etanol de milho: Números inéditos detalham a produção com o grão [atualizado]

Levantamento com base em informações da ANP explora, mês a mês, o volume produzido de etanol de milho e o processamento do grão

NovaCana 15 min de leitura

Atualização (24/08, às 11h10): O texto e os gráficos abaixo foram atualizados a pedido da FS Bioenergia. Segundo a companhia, os dados originalmente enviados à ANP estavam errados. Ao longo da reportagem, todos os números referentes ao grupo e, consequentemente, os acumulados nacionais foram corrigidos.

Atualização (28/08, às 14h35): Foi realizada uma correção nas unidades correspondentes ao processamento do grão.

Ao longo das últimas safras, a União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica) tem acompanhado a participação do etanol de milho na produção do biocombustível brasileiro. Nos números finais da safra 2017/18, por exemplo, a instituição divulgou que a produção acumulada de etanol de milho chegou a 521,58 milhões de litros, um aumento de 123% em relação ao volume produzido em 2016/17.

A partir da safra 2018/19, a Unica passou a trazer um acompanhamento mais frequente e, em 2019/20, toda quinzena apresentou novos dados sobre a produção do renovável com o grão, que crescia mês a mês. A safra mais antiga foi encerrada com 791,43 milhões de litros; já em 2019/20, o volume chegou a 1,62 bilhão de litros.

De acordo com dados inéditos da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), atualmente existem 14 usinas ativas que produzem etanol com o milho, localizadas em cidades de São Paulo, Paraná, Goiás e Mato Grosso. Destas, sete utilizam apenas o grão para gerar o renovável e as outras sete também utilizam a cana-de-açúcar no seu processo produtivo.

Considerando o período de janeiro a dezembro de 2019, estas usinas produziram 2,12 bilhões de litros de etanol, dos quais 711,86 milhões (33,63%) foram fabricados pelas unidades que utilizam somente o grão como matéria-prima.

Já no primeiro quadrimestre de 2020, 14 usinas produziram 787,82 milhões de litros do renovável, sendo que 488,32 milhões (64,1%) foram apenas com o milho. Os estados que mais se destacam nesta produção são Mato Grosso e Goiás, onde novas unidades estão sendo construídas e devem aumentar a produção total brasileira até o fim do ano.

Confira, no texto completo restrito para assinantes, um panorama da produção de etanol de milho em 2019 e 2020, com gráficos e análises sobre:

- O rendimento das usinas de milho
- Uma comparação entre as unidades que utilizam o grão e a de cana-de-açúcar
- A produção dos estados
- A perspectiva para os próximos anos

Atualização (24/08, às 11h10): O texto e os gráficos abaixo foram atualizados a pedido da FS Bioenergia. Segundo a companhia, os dados originalmente enviados à ANP estavam errados. Ao longo da reportagem, todos os números referentes ao grupo e, consequentemente, os acumulados nacionais foram corrigidos.

Atualização (28/08, às 14h35): Foi realizada uma correção nas unidades correspondentes ao processamento do grão.

Ao longo das últimas safras, a União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica) tem acompanhado a participação do etanol de milho na produção do biocombustível brasileiro. Nos números finais da safra 2017/18, por exemplo, a instituição divulgou que a produção acumulada de etanol de milho chegou a 521,58 milhões de litros, um aumento de 123% em relação ao volume produzido em 2016/17.

A partir da safra 2018/19, a Unica passou a trazer um acompanhamento mais frequente e, em 2019/20, toda quinzena apresentou novos dados sobre a produção do renovável com o grão, que crescia mês a mês. A safra mais antiga foi encerrada com 791,43 milhões de litros; já em 2019/20, o volume chegou a 1,62 bilhão de litros.

A produção de um biocombustível que não depende da cana-de-açúcar – ou seja, não está à mercê dos períodos da safra, da impossibilidade de armazenar a matéria-prima, de eventuais restrições de plantio, dentre outras especificidades da cultura – tem a capacidade de mudar o perfil do mercado, considerando a demanda constante e os incentivos pela produção de energia limpa.

Desta forma, os últimos anos vêm registrando um maior interesse na construção ou ampliação de usinas que produzam o renovável com o milho – seja somente com ele ou também com a cana-de-açúcar. A produção, consequentemente, também vem crescendo.

De acordo com dados inéditos da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), atualmente existem 14 usinas ativas que produzem etanol com o milho, localizadas em cidades de São Paulo, Paraná, Goiás e Mato Grosso. Destas, sete utilizam apenas o grão para gerar o renovável e as outras sete também utilizam a cana-de-açúcar no seu processo produtivo.

Em palestra realizada no ano passado, o ex-presidente executivo da União Nacional do Etanol de Milho (Unem), Ricardo Tomczyk, explicou que existem as usinas chamadas full, que produzem apenas etanol de milho; as flex, que utilizam o grão na entressafra de cana-de-açúcar – modelo recomendado para São Paulo, Minas Gerais e Paraná – e as flex-full, que operam com as duas matérias-primas em paralelo. Conforme a ANP, a maior parte das usinas que trabalham com o milho e com a cana-de-açúcar na geração de etanol se encaixam no último caso.

Considerando o período de janeiro a dezembro de 2019, estas usinas produziram 2,12 bilhões de litros de etanol, dos quais 711,86 milhões (33,63%) foram fabricados pelas unidades que utilizam somente o grão como matéria-prima.

Já no primeiro quadrimestre de 2020, 14 usinas produziram 787,82 milhões de litros do renovável, sendo que 488,32 milhões (64,1%) foram apenas com o milho. Mesmo que os períodos de análise sejam diferentes, a proporção do grão na produção de etanol das usinas aumentou bastante neste ano e a perspectiva – mesmo com alguns percalços – é que ela siga aumentando.

Em 2019, ainda segundo a ANP e dados corrigidos pela FS Bioenergia, foram processadas 3,37 milhões de toneladas de milho por estas 14 usinas; já nos primeiros quatro meses de 2020, 13 delas e a unidade Sorriso, do grupo FS Bioenergia, processaram 1,76 milhões de toneladas do grão. Ou seja, em um terço do tempo, este ano já contabilizou o processamento de mais da metade do que foi registrado no ano anterior, demonstrando um crescimento da produção das usinas.

milho x cana processamento milho prod etanol V3

No caso das unidades que produzem etanol apenas com o milho, é possível calcular o rendimento dividindo os litros produzidos pelos grãos processados. Tanto em 2019 quanto nos primeiros quatro meses de 2020, a unidade que melhor rendeu foi a Inpasa Agroindustrial, de Sinop (MT), do grupo de mesmo nome. Seus resultados foram de 437,35 litros por tonelada no ano passado e de 443,48 l/t nos primeiros quatro meses deste ano.

Em 2019, a variação entre a primeira e a segunda colocada – a FS Lucas do Rio Verde, localizada na cidade mato-grossense de mesmo nome e do grupo FS Bioenergia – foi um pouco maior, já que esta ficou com 418,9 l/t de rendimento. Dela em diante, as outras quatro usinas registraram rendimentos entre 349,3 l/t e 389,22 l/t.

milho x cana rendimento V3

Neste ano, a FS Lucas do Rio Verde segue no segundo lugar, mas muito próxima da Inpasa, com 433,43 l/t. Já os rendimentos das outras cinco usinas variaram entre 333,33 l/t e 429,78 l/t – o que, com exceção da Destilla, demonstra uma melhora.

O potencial do Centro-Oeste

Além da Inpasa e da FS Lucas do Rio Verde, as outras cinco usinas que produzem etanol apenas com o milho são: Sorriso, localizada na cidade mato-grossense de mesmo nome, do grupo FS Bioenergia; Cereale Brasil, em Dois Córregos (SP), do grupo de mesmo nome; Neomille, em Chapadão do Céu (GO), do Cerradinho Bioenergia; Safras, em Sorriso (MT), do grupo de mesmo nome; e a Destilla, em Itaúba (MT), também do grupo de mesmo nome.

Já as que produzem etanol tanto com o milho quanto com a cana-de-açúcar são: Caçú, em Vicentinópolis (GO), do grupo Caçú Comércio e Indústria; Cooperval, em Jandaia do Sul(PR); Libra, em São José do Rio Claro (MT); Porto Seguro, em Jaciara (MT), sendo as últimas três de grupos de mesmo nome; São Francisco, em Quirinópolis (GO), da USJ; Usimat, em Campos de Júlio (MT), do grupo de mesmo nome; Decal - Rio Verde, em Rio Verde (GO), do grupo Rio Verde; e Santa Helena, em Santa Helena de Goiás (GO), do grupo Naoum.

Esta última, especificamente, não registra produção de etanol desde novembro do ano passado, quando teve sua falência decretada pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional. Conforme nota do Movimento Sem Terra (MST), divulgada no mesmo mês, a usina vivia há mais de dez anos em um processo de recuperação judicial que nunca se efetivou.

milho x cana usinas V3

Com oito usinas, o Mato Grosso foi o estado que mais processou milho em 2019 e nos primeiros quatro meses de 2020, com 2.508,81 mil e 1.312,26 mil toneladas, respectivamente. Goiás vem em segundo lugar nos três indicadores: com cinco usinas em 2019 e quatro em 2020, processou 721,37 mil e 386,69 mil toneladas, respectivamente. São Paulo e Paraná possuem uma usina cada, e não processaram mais do que 100 mil toneladas do grão nos dois períodos analisados.

Em relação ao potencial dos dois estados do Centro-Oeste, em julho de 2019, o então presidente da Unem, Ricardo Tomczyk, comentou o assunto: “A concentração dos investimentos na produção de etanol de milho tem sido na região Centro-Oeste do país, principalmente em Mato Grosso e Goiás, destacando o primeiro pelo tamanho da produção de milho e o baixo custo do fornecimento da matéria-prima”.

O estado mato-grossense, de fato, é o que concentra a maior quantidade de usinas que produzem etanol com o grão, número que não deve parar de crescer. “Há inúmeros projetos no horizonte de médio prazo. Muitas usinas, principalmente em Mato Grosso, têm projetos sólidos, que saem do papel”, afirmou Tomczyk.

A expectativa dele é que Mato Grosso se torne o segundo maior estado produtor de etanol do país, atrás apenas de São Paulo, que produz o renovável majoritariamente com a cana-de-açúcar. Porém, para isso, é preciso melhorar questões logísticas de distribuição, além da necessidade de mais incentivos governamentais.

Na previsão do Sindicato das Indústrias Sucroalcooleiras do Estado de Mato Grosso (Sindalcool-MT), datada de abril de 2019, a partir deste ano poderá existir um equilíbrio entre a produção de etanol de cana-de-açúcar e milho. Ou seja, cada cultura será responsável por 50% do biocombustível produzido no estado.

De fato, de acordo com os dados da ANP e com as correções feitas pela FS Bioenergia, nos primeiros quatro meses de 2020, foram produzidos 60,1 milhões de litros de etanol por usinas de cana no estado – Brenco, Itamarati e Coprodia – e 555,73 milhões de litros por usinas de milho – FS Lucas do Rio Verde, Sorriso, Libra, Inpasa, Porto Seguro, Safras, Destilla e Usimat. Destas, mesmo naquelas que utilizam ambas as matérias-primas, apenas o milho foi processado até então.

Vale observar que, oficialmente, a safra de cana-de-açúcar começou apenas em abril, último mês do período divulgado pela ANP.

milho x cana producao mensal V3

O processamento do grão pelas usinas, a nível nacional, veio demonstrando crescimento ao longo dos meses analisados pela ANP. Simultaneamente, a produção de etanol de milho também vem registrando aumentos. A abertura de novas unidades está bastante relacionada com as melhoras nos números.

Em relação apenas ao número de usinas, a perspectiva é que ele aumente já nos próximos anos. Em outubro de 2019, a Millenium Bioenergy, consórcio de empresas de vários setores, divulgou o investimento de cerca de US$ 1 bilhão para a construção de usinas de etanol de milho, sendo que as duas primeiras seriam em Mato Grosso.

Além disso, a FS Bioenergia segue investindo fortemente no estado: após concluir a expansão da Lucas do Rio Verde, em março de 2019 – o que não se refletiu diretamente no processamento do grão ou na produção de etanol da unidade –, divulgou o início das construções de uma terceira usina mato-grossense, em Nova Mutum.

A segunda, em Sorriso, teve suas operações iniciadas em 28 de fevereiro deste ano, conforme cronograma previsto pelo grupo, e seus dados de produção iniciais já fazem parte deste levantamento. E a FS Bioenergia segue com planos no estado: de acordo com o site da empresa, além das cidades já citadas, existem projetos para Querência, Campo Novo dos Parecis e Primavera do Leste, cujo projeto está sendo tratado como o de maior impacto econômico na história do município.

A expectativa com estes investimentos é que a FS Bioenergia se torne uma das três maiores produtoras de etanol do Brasil, podendo chegar a fabricar até 2,6 bilhões de litros do renovável por ano – ficando atrás apenas de Raízen e Atvos (antiga Odebrecht Agroindustrial).

A Inpasa, segundo maior grupo produtor de etanol de milho do estado, não fica longe. A Inpasa Agroindustrial, localizada em Sinop, iniciou sua operação em agosto de 2019 e produziu 191,98 milhões de litros do biocombustível até o final do ano, dobrando a produção mato-grossense.

Além disso, em julho deste ano, sua segunda planta, em Nova Mutum, recebeu licença ambiental para funcionar e está apenas no aguardo da autorização da ANP para comercializar o biocombustível produzido. Ela terá capacidade para produzir de 900 mil a 1 milhão de litros do renovável por dia, graças ao processamento de até 2,3 mil toneladas de milho diárias.

Já em Goiás, foram anunciados dois grandes projetos em junho do ano passado: da usina São Martinho, de R$ 350 milhões, em Quirinópolis, e da VMG Bioenergia e Agronegócio, de R$ 550 milhões, em Jataí. Com isso, a expectativa é que o estado se torne polo na produção do etanol de milho – além de já ser um dos maiores produtores nacionais do renovável da cana-de-açúcar.

A produção do estado ainda viu um aumento expressivo no final de 2019 com o início do funcionamento da usina Neomille, da Cerradinho Bioenergia, em Chapadão do Céu, que havia sido divulgada em 2018.

Só nos dois últimos meses do ano passado, a usina produziu 20,25 milhões de litros de etanol com o milho e, no primeiro quadrimestre deste ano, foram produzidos 62,09 milhões de litros. Para o grupo, o funcionamento da nova planta teve influência positiva inclusive nos resultados financeiros da safra 2019/20.

Mesmo que o foco da produção de etanol de milho seja o Centro-Sul, foram divulgados projetos de usinas que utilizam o grão como matéria-prima em Roraima, da Brasil BioFuels e da Millenium Bioenergy, e no Amazonas, também da Millenium.

Novas expectativas com a pandemia

De acordo com a ANP, em janeiro, dez usinas que produzem etanol com o milho estavam em construção. Destas, cinco tinham previsão para serem finalizadas ainda em 2020 – a de Sorriso, da FS Bioenergia, é a única que já iniciou suas operações.

Com as unidades que supostamente estarão ativas ainda em 2020, conforme informado pelas próprias empresas, serão adicionados 3,5 mil litros de etanol à produção diária do país.

À época, foi divulgado que a Etamil Bioenergia, do grupo Coprodia, em Campo Novo do Parecis; a Alcooad, em Nova Marilândia; e a Destilaria TJ, em Sorriso, ficariam prontas em julho deste ano. Já o fim das obras da Ethanol Indústria de Combustíveis, em Nova Mutum, está previsto para outubro. Todas as usinas de milho previstas para 2020 estão sendo construídas em Mato Grosso.

Além disso, de janeiro até agora, duas novas usinas que produzirão etanol com o grão entraram na relação da ANP: a Fermap Indústria de Etanol, em Ipiranga do Norte (MT), e a Nova Geração Biocombustíveis, em Tabaporã (MT), o que poderá aumentar ainda mais o potencial do estado mato-grossense.

De qualquer modo, as circunstâncias apresentadas em 2020 podem modificar o cenário otimista esperado nos últimos anos e até o começo desde. A expectativa da Unem em abril deste ano, mesmo com a queda na demanda devido à pandemia de coronavírus – o que se refletiu diretamente no processamento do grão, que vinha em uma crescente desde o início de 2019 e apresentou uma baixa expressiva – era que a capacidade instalada fechasse o ano em 3 bilhões de litros, quase o dobro dos 1,7 bilhão vistos no fim de 2019.

milho x cana processamento mensal V3

Para isto, a instituição acreditava que os investimentos já feitos deveriam seguir, porém os novos planos estão suspensos. Conforme o atual presidente da Unem, Guilherme Nolasco, as usinas que usam milho têm algumas opções para enfrentar a crise, como armazenar o grão ou o biocombustível, e até vender o milho produzido.

Ele afirma que, neste momento, as companhias precisam fazer seu “dever de casa” e investir em maiores capacidades de armazenamento – cenário similar ao visto pelas produtoras de cana-de-açúcar.

Além disso, Nolasco entende que este momento é de cautela e incerteza, o que pode causar o adiamento da inauguração de novas plantas. “A iniciativa de iniciar uma operação pode ser retardada mediante o cenário. Na hora que estiver pronto, vamos analisar: dar início em 2020 ou esperar o restabelecimento da demanda? Será uma avaliação individual de cada empresário”, afirmou ao Globo Rural no final de abril.

As novas usinas que produzem o renovável com o milho previstas para este ano provavelmente devem abrir até dezembro, adicionando até 200 milhões de litros à capacidade de produção anual do país. Ainda assim, conforme Nolasco, há uma imprevisibilidade quanto ao retorno da demanda e, consequentemente, dos novos investimentos no setor.

Rafaella Coury – NovaCana

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