O clima é de insegurança e os preços são incertos, mas moagem foi iniciada e produção de álcool 70 está a todo vapor
A sociedade como um todo está tendo que se readaptar. As medidas de proteção contra o coronavírus pedem por isolamento, o que tem influência direta no consumo global, dos combustíveis até a alimentação.
Para as empresas, o momento é desafiador. Manter rendimentos em momentos de portas fechadas e redução na demanda pode ser difícil, e a busca por alternativas faz parte da atual rotina, mesmo nas grandes companhias.
No setor sucroenergético, não seria diferente. O cenário está desafiador para as usinas especialmente graças às alterações nos preços do açúcar e do etanol: enquanto o biocombustível está em baixa devido à guerra do petróleo, a commodity teve um momento de alta, mas está à mercê de uma super produção brasileira e pode cair novamente.
Com o surto do coronavírus, as usinas estão vendo o consumo de combustíveis, e mesmo do açúcar, cair. Além disso, as distribuidoras estão refazendo contratos. Para completar, até o deslocamento dos funcionários, assim como a disponibilidade de trabalhadores, está reduzido.
Neste novo cenário, a dúvida que fica é como a pandemia vai influenciar na produção da safra 2020/21, que acabou de começar, e nas receitas das usinas.
Decretos governamentais e estaduais definiram as atividades do setor sucroenergético como essenciais, ou seja, elas devem ser mantidas mesmo em momento de paralisação dos serviços. Quando questionados, grandes grupos do setor afirmaram que seguem com suas produções, tendo tomado cuidados específicos para garantir a segurança daqueles que seguem com trabalho em campo, e possibilitando trabalho remoto para os que são possíveis.
Além disso, todos reafirmaram seu compromisso com a produção, e até distribuição, de álcool 70 sem grandes influências na produção dos outros produtos, como etanol carburante e açúcar.
Em uma semana, 250 mil litros de etanol foram entregues nos estados de São Paulo, Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul e Espírito Santo. Já outras usinas se comprometeram com doações para Minas Gerais, Alagoas e Pernambuco.
Confira, na versão completa, restrita para assinantes, as medidas e perspectivas de companhias como:
- Raízen
- São Martinho
- Atvos (antiga Odebrecht Agroindustrial)
- Biosev
- Zilor
- Tereos Internacional
- Coruripe
- Copersucar
- Santa Terezinha
- FS Bioenergia
- Cerradão
A sociedade como um todo está tendo que se readaptar. As medidas de proteção contra o coronavírus pedem por isolamento, o que tem influência direta no consumo global, dos combustíveis até a alimentação.
Para as empresas, o momento é desafiador. Manter rendimentos em momentos de portas fechadas e redução na demanda pode ser difícil, e a busca por alternativas faz parte da atual rotina, mesmo nas grandes companhias.
No setor sucroenergético, não seria diferente. O cenário está desafiador para as usinas especialmente graças às alterações nos preços do açúcar e do etanol: enquanto o biocombustível está em baixa devido à guerra do petróleo, a commodity teve um momento de alta, mas está à mercê de uma super produção brasileira e pode cair novamente.
Com o surto do coronavírus, as usinas estão vendo o consumo de combustíveis, e mesmo do açúcar, cair. Além disso, as distribuidoras estão refazendo contratos. Para completar, até o deslocamento dos funcionários, assim como a disponibilidade de trabalhadores, está reduzido.
Neste novo cenário, a dúvida que fica é como a pandemia vai influenciar na produção da safra 2020/21, que acabou de começar, e nas receitas das usinas.
Decretos governamentais e estaduais definiram as atividades do setor sucroenergético como essenciais, ou seja, elas devem ser mantidas mesmo em momento de paralisação dos serviços. Quando questionados, grupos como Raízen, São Martinho, Atvos (antiga Odebrecht Agroindustrial), Biosev, Zilor, Tereos Internacional, Coruripe, Copersucar, Santa Terezinha e FS Bioenergia afirmaram que seguem com suas produções, tendo tomado cuidados específicos para garantir a segurança daqueles que seguem com trabalho em campo, e possibilitando trabalho remoto para os que são possíveis.
Além disso, todos reafirmaram seu compromisso com a produção, e até distribuição, de álcool 70. De acordo com os representantes das companhias, isso não influenciará na produção dos outros produtos das usinas, como etanol e açúcar.
Por sua vez, a União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica) informou, no final de março, que suas associadas seguem em funcionamento, porém tomando medidas de proteção para evitar a disseminação da doença.
A entidade também iniciou uma campanha de doação de álcool 70 para o Sistema Único de Saúde (SUS). Após a autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), as usinas passaram a fabricar o produto e, em uma semana, 250 mil litros de etanol foram entregues nos estados de São Paulo, Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul e Espírito Santo.
Safra em andamento
No geral, as operações das principais usinas do país não foram diretamente impactadas pela pandemia do coronavírus. Em informativo, a São Martinho explica que, mesmo assim, está exposta aos riscos operacionais e de mercado relacionados ao cenário, que ainda não são quantificáveis. Ou seja, é possível que as coisas mudem.
Neste meio tempo, a empresa adotou medidas para mitigação dos impactos decorrentes da pandemia do coronavírus, com o objetivo de manter a segurança dos seus colaboradores e a continuidade de suas operações, garantindo o abastecimento de alimentos, energia e combustível.
A Biosev também se comprometeu a manter suas operações normalmente, para garantir a entrega dos seus produtos. Porém a companhia encontrou empecilhos em Rio Brilhante (MS), onde possui duas unidades: o decreto municipal de isolamento determinou a suspensão do transporte público e de veículos fretados por empresas. Por falta de mão de obra, uma das usinas chegou a paralisar suas atividades.
Para contornar a situação, a Biosev trabalhou junto à prefeitura para obter as autorizações necessárias e, em uma semana, conseguiu a liberação. Segundo a companhia, havia uma solicitação da produção de álcool gel por parte da secretaria de saúde da cidade.
Com a liberação e o retorno das atividades, o presidente da Biosev, Juan Blanchard, afirmou que a prioridade é preservar os trabalhadores: “Sabemos que é um momento complexo, único e com muitas incertezas, mas estamos tomando todas as medidas necessárias para preservar as pessoas”.
Em comunicado, Blanchard também reiterou que a empresa está exposta aos riscos operacionais e de mercado relacionados à pandemia e permanece alerta à evolução da situação e orientações oficiais para tomar novas medidas, caso sejam necessárias.
Projeções em revisão
Como um exemplo de medidas que foram tomadas com a evolução da pandemia, a Raízen, maior produtora de açúcar e etanol do país, suspendeu suas projeções financeiras e operacionais para a safra 2020/21.
Inicialmente, um porta-voz da empresa havia afirmado ao NovaCana, no dia 26 de março, que a empresa mantinha suas previsões iniciais para a safra atual, sem alteração programada nas unidades de produção. À época, a expectativa era moer entre 61 milhões e 64 milhões de toneladas, com um mix de destinação da cana mais açucareiro.
Porém, em fato relevante divulgado em 7 de abril, a empresa suspendeu as projeções divulgadas anteriormente, “tendo em vista a evolução e os impactos gerados pela pandemia do coronavírus em seus negócios e o atual contexto de incertezas, em que os cenários mudam rapidamente a cada dia”.
Ainda assim, as usinas da Raízen seguem em funcionamento, sem redução do quadro de pessoal e com foco “em tomar as medidas necessárias para a continuidade das atividades de forma remota e presencial, garantindo as ações pertinentes nas áreas de segurança física, de higiene e suporte psicológico”, conforme o porta-voz.
Também em entrevista para o NovaCana, a Atvos afirmou que as atividades seguem regularmente, em todas as unidades operacionais, com a moagem dentro do planejamento previsto. Para isso, foram adotadas “as devidas medidas preventivas para proteger os funcionários”.
Em relação às indefinições financeiras, a empresa do grupo Odebrecht explicou que está “acompanhando as variações de preços e avaliando seus impactos nas finanças da companhia”.
Por sua vez, o diretor da região Brasil do grupo Tereos, Jacyr Costa Filho, contou que a programação de moagem da companhia não teve alterações com a pandemia, e que todas as unidades estarão em pleno funcionamento até o dia 20 de abril. Para isso, parte da equipe está trabalhando remotamente.
A usina Cerradão, por outro lado, atrasou o início da sua moagem em uma semana, retomando as atividades em 6 de abril. Em entrevista à RPA News, o diretor agrícola Florêncio Queiroz Neto justificou o atraso com a lentidão nas manutenções industriais devido ao reduzido quadro de colaboradores.
Independentemente deste cenário, o profissional acredita que a programação da usina seguirá a mesma, com a estimativa de moagem de 3,7 milhões de toneladas de cana-de-açúcar e um mix mais açucareiro, também como consequência da melhora de preços para a commodity.
A usina Santa Terezinha, por sua vez, lançou uma campanha em vídeo com o tema “Trabalhando para que não falte alimento, combustível e energia para o Paraná e o país”. Nela, está divulgando que segue em atividade, com todas suas unidades já em operação, e adotando as recomendações de segurança do Ministério da Saúde.
O porta-voz da empresa ainda acrescenta que as ações não são limitadas e, “diariamente, novas medidas estão sendo estudadas e adotadas com objetivo de manter as equipes em segurança”. Além disso, junto à Associação de Produtores de Bioenergia do Estado do Paraná (Alcopar), a empresa doou álcool 70 para o governo do Paraná, a prefeitura de Maringá e para entidades assistenciais dos municípios nos quais atua.
Para além do Centro-Sul
Enquanto a Unica representa as usinas do Centro-Sul, fazendo o acompanhamento da safra neste momento de incertezas e promovendo a doação de álcool 70 para o governo, outras entidades estão apoiando as sucroenergéticas de diferentes localidades e as companhias que produzem etanol com outras matérias-primas.
O presidente do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool do Estado de Pernambuco (Sindaçúcar-PR) e da Novabio – associação que congrega mais de 40 produtores de cana –, Renato Cunha, está acompanhando o desenrolar da pandemia para analisar e dar suporte para as empresas do Norte-Nordeste.
Em entrevista para o NovaCana, ele explica que, na região, a safra começa a partir de junho, então, ainda não é possível sentir os efeitos da pandemia na produção. Ainda assim, ele acredita que o isolamento pode “tirar, diminuir e combalir as nossas demandas, o que seria desastroso”.
Com o menor consumo de etanol e uma possível falta de liquidez para as usinas, o presidente vê um aumento na produção de açúcar. Porém ele acredita que isso pode deprimir ainda mais os preços da commodity, provocando queda nos preços internacionais. Desta forma, tem receios de que o setor pode precisar bisar a cana e diminuir a oferta de matéria-prima para este ano.
Como consequência, Cunha crê ser uma obrigatoriedade que as empresas adotem medidas de redução de custos: “Os ajustes são inevitáveis e ocorrerão até por impossibilidade de as usinas manterem as operações em normalidade. Mas é tudo incerto e imponderável. É difícil projetar, pois não há bola de cristal para um acidente dessa magnitude”.
Para ele, uma atitude que pode ajudar neste momento é justamente a produção de álcool 70. Ele explica que, por muitos anos, o Brasil deixou de incentivá-la, até mesmo importando o produto. Mas Cunha defende que este é o momento de rever esta postura, especialmente pela possibilidade de gerar empregos – levando em consideração as medidas de segurança indicadas para o momento.
Neste âmbito, em conjunto com o governo do Pernambuco, 55 mil litros de álcool 70 serão doados por 11 usinas que se consideraram aptas a produzir na concentração recomendada.
Milho também entra na conta
No mercado de milho, a produção de etanol também está sofrendo com a baixa demanda e a doação de álcool 70 está sendo incentivada.
Ainda assim, o presidente da União da Nacional do Etanol de Milho (Unem), Guilherme Nolasco, explicou, em entrevista ao NovaCana, que o milho tem características diferentes da cana-de-açúcar, o que oferece vantagens aos produtores em um momento de queda na demanda. As usinas que produzem etanol com o grão podem, por exemplo, armazenar a matéria-prima e reduzir custos, diminuindo impactos.
“O aumento da produção neste período de baixa demanda traz atenção ao setor como um todo”, afirma. Para ele, isso pede que cada usina tenha que analisar seu caso individualmente, a fim de reduzir os custos e aumentar a eficiência.
“Cada um tem que fazer o dever de casa, pois serão diversas as reações”, afirma Nolasco, que complementa: “Alguns continuarão produzindo na capacidade normal e estocando excedente de comercialização. As usinas flex poderão focar na produção à base de cana, reduzindo a estratégia do milho. E existe quem esteja já muito comprado e estocado, podendo realizar milho no mercado e diminuir a produção”.
A produção das usinas de milho, inclusive, segue a todo vapor, especialmente com a possibilidade da doação do álcool 70. “Muito mais que uma ação social, essa é a colaboração do setor neste momento delicado em que todos precisam dar sua contribuição”, defende Nolasco. “Tais medidas não trazem impacto algum na produção, muito menos na comercialização”.
Um exemplo é a FS Bioenergia, que também está participando das doações: “Neste mês, fizemos a doação de cerca de 100 mil litros de álcool 70 para as localidades que estamos presentes, distribuídos por meio do governo do Mato Grosso”, afirma o porta-voz da empresa.
A companhia ainda relata que manteve suas atividades. “As indústrias da FS possuem capacidade eficiente de produção e não gerou grandes impactos na industrialização”, reitera. Ainda assim, ações preventivas estão sendo aplicadas nas unidades, inclusive com atualizações constantes, a fim de manter os colaboradores em segurança.
Em relação aos preços e expectativas para o milho, o presidente da Unem afirma que é difícil fazer previsões, mesmo que o momento seja passageiro. “Temos um grande trunfo em produzir energia renovável, dando uma grande contribuição ao meio ambiente e às gerações futuras. O momento requer medidas que possam mitigar os efeitos circunstanciais, até o gradual restabelecimento da normalidade”, conclui.
Além disso, foi justamente a possibilidade de produzir álcool 70 com mais de uma matéria-prima que permitiu um início de safra dentro da normalidade em Mato Grosso. De acordo com o presidente do Sindicato das Indústrias Sucroalcooleiras do Estado de Mato Grosso (Sindálcool-MT), Silvio Rangel, o produto destinado às doações veio do estoque remanescente da safra 2019/20 e das unidades que utilizam o milho como matéria-prima, sem comprometer a produção da temporada recém-iniciada.
Ele afirma que as usinas devem manter em estoque o etanol que será produzido a partir de agora, esperando que a situação seja superada. “Não há como não iniciar a safra tendo em vista que a cana-de-açúcar está pronta para ser colhida e, ao ser colhida, tem de ser processada imediatamente”, reforça.
Indo na contramão das estimativas, Rangel enxerga para 2020/21 uma safra mais alcooleira que o usual no estado. “Mato Grosso, tradicionalmente, tem um mix de 25% para açúcar e 75% para etanol e, agora, deverá ser de 20 e 80%”, relata.
Ainda assim, ele reforça a dificuldade de se fazer previsões no atual contexto: “A busca constante por inovação e redução de custos é uma marca de nosso setor. É muito difícil fazer qualquer previsão em meio ao turbilhão que estamos vivendo; o primeiro trimestre já foi consideravelmente comprometido, notadamente o mês de março. Mas, para um setor acostumado a vivenciar crises, esta também será superada”.
Compromisso com a comunidade
A campanha para produção e doação de álcool 70 vai além da iniciativa encabeçada pela Unica. Muitas usinas iniciaram este processo internamente, por pedido de prefeituras ou secretarias de saúde, inclusive devido a um sentimento de responsabilidade com o entorno.
A Zilor iniciou a produção de álcool na última semana de março a fim de atender às cidades vizinhas das unidades industriais da empresa, porém, sem deixar de se dedicar à produção costumeira de etanol e açúcar. O presidente do grupo, Fabiano Zillo, garante que a empresa está empenhada “em garantir o abastecimento e o atendimento à demanda da população por energia limpa e alimentos”.
Ele ainda afirma que a empresa, em mais de sete décadas de atuação, construiu uma forte relação de compromisso. “Nossa missão também é apoiar essas comunidades que estão há todos esses anos nos ajudando a construir e fortalecer nossos negócios”, disse.
Além disso, Zillo reitera que está em contato com os fornecedores da empresa para revisar o andamento de todas as matérias-primas e garantir a continuidade de abastecimento. Ele completa: “Embora a maioria de nossos materiais e serviços seja proveniente das Américas, construímos contingências em todo o mundo caso seja necessário obter fontes de outros pontos geográficos”.
A usina Coruripe também concentrou suas doações de etanol, que pode ser utilizado para a produção de álcool 70 e de álcool em gel, no entorno das suas unidades, especialmente em Alagoas e Minas Gerais.
“A usina Coruripe reforça seu comprometimento com todas as comunidades nas quais está inserida, integrando de forma direta o combate a essa crise e colaborando para que os serviços essenciais continuem produzindo e fazendo o importante trabalho de prevenção ao coronavírus”, afirma o diretor presidente do grupo, Mario Lorencatto.
Por sua vez, a Copersucar defende, em comunicado, que a iniciativa privada e o poder público devem estar ainda mais unidos neste momento, para que ele seja superado o mais rápido possível. Desta forma, a cooperativa afirma que está participando ativamente da doação de álcool 70, já tendo entregue mais de 200 mil litros para São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina.
Rafaella Coury – NovaCana