Usinas

“A grande alternativa é a produção de açúcar”, diz presidente do Grupo São Martinho

Com 90% da equipe de 12,5 mil trabalhadores na ativa, gigante sucroenergética prioriza a produção de açúcar em tempos difíceis para o etanol


O Estado de S. Paulo - 09 abr 2020 - 07:51 - Última atualização em: 30 abr 2020 - 11:00

Enquanto o comércio e os serviços tiveram boa parte de suas atividades paralisadas por causa da pandemia de coronavírus, no agronegócio muitas empresas estão operando mais perto da capacidade normal.

É o caso do Grupo São Martinho, um dos principais produtores de açúcar e etanol do país, que hoje tem 90% de seus mais de 12 mil funcionários na ativa. Segundo o presidente do grupo, Fábio Venturelli, é a função do agronegócio continuar trabalhando para que os alimentos e itens básicos cheguem às mãos dos consumidores.

Especificamente no setor sucroenergético, a ordem agora é “virar” a produção para o açúcar – os contratos do produto foram negociados há um ano e têm preços garantidos, além de forte demanda no mercado internacional. Enquanto isso, conta Venturelli, a demanda por combustíveis no país, diante do isolamento da população, caiu em mais de 50%.

Mesmo com a queda do preço do petróleo, que deixa a gasolina mais barata, o executivo espera que, mais adiante, o etanol ganhe mercado frente à gasolina no país. “O etanol vai buscar um preço competitivo no posto”.

Como vai o setor de etanol com a queda abrupta no preço do petróleo?
Vivemos dois “cisnes negros” (dois eventos altamente improváveis) ao mesmo tempo: a queda na demanda em função da crise do coronavírus e disputa entre árabes e russos no petróleo. A queda de demanda e a alta de oferta derrubaram o preço da commodity de forma expressiva. As vendas do setor de combustíveis caíram mais de 50% justamente no momento em que estamos entrando em safra de cana. A São Martinho historicamente carrega o produto em estoque para fornecer durante o período da entressafra. A gente tem capacidade de armazenagem de 70% da nossa produção. A maioria das usinas ajustaram sua produção para focar mais no açúcar. Acaba tendo um certo ajuste. A gente tem expectativa que o etanol ocupe uma fatia maior, que o etanol vai buscar um preço mais competitivo no posto. A gente ganha um pouco de mercado frente à gasolina.

Como o senhor vê a retomada? Passado o período de confinamento, o consumo de etanol volte ao normal?
É muito difícil prever, pois todo mundo está tentando decifrar como é a saída correta para a crise. Se você projeta que ao fim da quarentena vai se retomar a vida normal – o que eu acho pouco provável –, as pessoas vão ter vontade de buscar o movimento e a liberdade. Há a hipótese de o consumo voltar rapidamente, como o que está sendo visto na China. Se for uma retomada por setores (é diferente). Vai depender muito desse fator.

A São Martinho tem 12 mil funcionários e as vendas caíram pela metade. O que vocês veem de alternativas?
A grande alternativa é a produção de açúcar que, como alimento, é a fonte mais barata de calorias. A demanda surgiu muito forte neste primeiro trimestre. Vamos operar abril, maio e junho sem uma demanda forte de etanol. Aí a gente vira para o açúcar, substitui o etanol.

A demanda por açúcar cresceu?
A demanda vai quase na contramão do preço. Houve um aquecimento do mercado de açúcar no primeiro trimestre. O preço já estava definido, porque fizemos hedge (proteção de garantia de preço). E estamos com as condições necessárias para fazer a exportação nesse momento.

Como o senhor avalia a posição do agronegócio nessa crise. É privilegiada?
Os colaboradores do agronegócio estão na linha de frente, garantem que a alimentação continue sem interrupção. Neste sentido, o agronegócio está funcionando. Todo mundo fica apreensivo, mas focado na responsabilidade que cabe ao agronegócio.

Como a São Martinho está atuando na distribuição de álcool 70% nessa pandemia?
Uma das palavras que mais se falou nessa pandemia foi álcool. As usinas, como a São Martinho, não são habilitadas por questão regulatória para comercializar álcool 70%. O álcool 70% era comumente usado nas residências para limpeza e isso foi, aos poucos, sendo substituído (por outros produtos). Mas há algumas empresas especializadas neste produto. Nessa crise, nós saímos em busca de uma licença com a Anvisa para caráter de doação emergencial e passamos a preparar e entregar o produto. E isso nos permitiu ajudar municípios e hospitais do SUS.

Como é a produção de álcool industrial? Como as usinas trabalham?
As usinas produzem todos os tipos de álcool. Na verdade, o álcool 70% recebe uma diluição. A São Martinho não atua neste tipo de venda. O grupo vende álcool para uma empresa que faz a diluição e tem a licença para comercializar o produto. As empresas que são produtoras se defrontaram com uma demanda muito forte diante da pandemia e obviamente a capacidade deles está no limite. Tem fabricante que tem o frasco, mas não espessante. A cadeia sofreu muito. Mas a matéria-prima, que é o álcool das usinas, é abundante no País.

Como o senhor tem acompanhado as medidas econômicas do governo?
As medidas anunciadas para quem perdeu renda são fundamentais. É o básico, e elas têm de acontecer. E isso deve ser estendido a outros setores que serão impactados. A gente tem de intensificar o diálogo. É preciso liquidez. São importantes todas as medidas que alcancem o CPF, como também o CNPJ.

Quais são os procedimentos da São Martinho para a equipe do grupo?
A gente montou um comitê de crise e todas as empresas do grupo que estão operando estão neste cenário. São vários os protocolos que visam assegurar a segurança no campo. As primeiras medidas foram tirar de operação as pessoas que faziam parte do grupo de risco. Além disso, foram mapeados todos os processos onde a interação de pessoas acontece e como mitigar o risco do contágio dentro desses ambientes. Em nenhuma das usinas a gente tem casos (de covid-19), tivemos suspeitas que não se confirmaram.

O setor sucroenergético tem um contingente maior de pessoas nas áreas rurais. Como é feita a conscientização?
A gente tem buscado levar as informações diariamente. Nós lançamos alguns programas em que um líder específico recebe da gerência as informações mais atualizadas e discute com os trabalhadores. O grande caminho aqui tem sido intensificar o diálogo de forma rápida. Nossos profissionais de saúde têm feito um trabalho excepcional.

Hoje, do total de funcionários, quantos estão na ativa?
De 12,5 mil colaboradores, a gente tem uma população de 400 pessoas que atuam em escritório. Boa parte desse contingente trabalha de forma remota. Outras 300 a 400 pessoas estão dentro desse grupo de risco. A operação está acima dos 90%.

Que lições essa crise pode deixar?
A resiliência das pessoas em desempenhar seu papel. Em pleno século 21, um vírus nos deixa em uma situação muito exposta. Então estamos pensando em tornar a operação mais segura.

Fernando Scheller e Mônica Scaramuzzo


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