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Confinamento pode ser o próximo passo do etanol após as usinas flex

Money Times 6 min de leitura

A integração entre cana e milho pode ganhar um terceiro componente nas usinas de etanol: o confinamento de bovinos. Para o sócio-diretor do Pecege Consultoria e Projetos, João Rosa, incorporar a pecuária é um caminho para ampliar o aproveitamento dos coprodutos e diversificar as fontes de receita do negócio.

“O negócio (do etanol de milho) para em pé hoje não pelo preço do etanol, mas sim pelo DDG e pelo óleo: 30% da receita vem desses coprodutos agregados. É um complexo que vai para dar certo”, disse durante o painel “O dilema do etanol no Brasil: sobreoferta ou sobredemanda?”, na nona edição da Conferência Nova Cana.

Na sequência, ele questiona: “Se o próximo passo das usinas de cana é anexar uma destilaria de etanol de milho para aproveitar o vapor integrado, o próximo passo depois disso é montar um confinamento. Por que não integrar a cadeia como um todo?”.

A proposta acrescenta uma etapa à integração industrial: aproximar a produção de etanol da atividade que pode consumir seus coprodutos na alimentação animal. É o caso do DDG, sigla em inglês para grãos secos de destilaria.

Há um ano, o CEO da Minerva Foods, Fernando Queiroz, destacou que o etanol de milho é transformacional para a pecuária. Na ocasião, o debate abordou como a maior disponibilidade desses coprodutos ajuda na terminação dos animais.

Segundo Rosa, alguns grupos já se movimentam em direção à integração com confinamentos, incluindo cooperativas. O objetivo é ampliar as fontes de receita e reduzir a dependência de um único produto em um momento de expansão da oferta de etanol.

“São modelos que dão muito certo. Aí você vai diversificando a cadeia, às vezes você perde uma coisa, ganha outra. Ficar em um só produto, ‘colocar todos os ovos na mesma cesta’ é o maior risco”, afirmou.

Para o chefe do departamento de pesquisas do Rabobank, Andy Duff, o DDG vem ganhando espaço tanto no mercado doméstico quanto nas exportações, contribuindo para diversificar as matérias-primas disponíveis à alimentação animal e para os resultados das usinas.

Integração entre etanol de cana e milho

A lógica começa dentro da própria usina. Incorporar o processamento de milho a uma operação de cana permite aproveitar o bagaço como fonte de energia e, conforme o projeto, compartilhar equipamentos, mão de obra e infraestrutura.

Em entrevista ao Money Times, Duff explicou que a necessidade de comprar biomassa é uma preocupação principalmente das plantas dedicadas exclusivamente ao milho, chamadas de full. Para as operações anexas às usinas de cana, a disponibilidade de bagaço oferece uma vantagem competitiva.

“Quando você tem milho e cana juntos, a biomassa é problema resolvido. É um menor custo significativo, mas não é uma diferença entre quebra e sobrevivência quando olhamos apenas para plantas full”, explica.

Duff cita São Martinho e Cargill como exemplos desse aproveitamento, por meio de suas plantas flex. Ele ressalta, porém, que as grandes unidades dedicadas exclusivamente ao milho também se beneficiam de escala e ganhos de eficiência.

O desafio bilionário da biomassa

Segundo um estudo recente do Itaú BBA, a capacidade instalada de produção de etanol de milho no Brasil deve passar de 10,9 bilhões de litros, em 2025, para 25,3 bilhões, em 2030, avanço de 132%. Esse crescimento exigiria uma ampliação expressiva da oferta de biomassa.

Em Mato Grosso, a expansão das florestas de eucalipto para atender à demanda projetada exigiria investimentos estimados em R$ 7,6 bilhões. Em um cenário de menor eficiência industrial e florestal, a conta poderia alcançar R$ 14,3 bilhões.

Para as usinas de cana que dispõem de bagaço excedente, há uma escolha econômica: utilizá-lo para gerar eletricidade destinada à rede, vender a própria biomassa ou direcionar energia ao processamento de milho. A decisão depende do retorno e dos investimentos exigidos por cada alternativa.

Duff pondera que, embora os projetos de integração continuem no radar das empresas, o cenário do setor e os juros elevados dificultam novos investimentos no curto prazo.

Mais produtos, melhor aproveitamento da estrutura

Para Werner Roger, CIO da Trígono Capital, combinar as atividades permite aproveitar melhor a estrutura industrial ao longo do ano e reduzir a dependência de biomassa comprada de terceiros.

Em novembro de 2025, Roger já havia classificado os riscos das operações de etanol de milho sem integração com a cana como uma “bomba-relógio armada”. O alerta incluía tanto o encarecimento da biomassa quanto a possibilidade de o milho subir sem uma valorização equivalente dos combustíveis.

“Sigo vendo esse problema para o etanol de milho e acho muito arriscado ter uma usina só de etanol de milho. A melhor solução é aquela que você tem cana consorciada. Se eu tiver açúcar, etanol de cana e etanol de milho, é a melhor solução”, disse em conversa recente com o Money Times.

Na avaliação de Roger, essa combinação permite utilizar a biomassa da própria cana para fornecer energia ao processamento do milho e ampliar o período de uso dos equipamentos, já que a safra canavieira ocupa cerca de sete a oito meses do ano. A operação também preserva a flexibilidade de direcionar mais cana à fabricação de açúcar quando os preços forem favoráveis.

O gestor vê espaço principalmente para acrescentar o processamento de milho às usinas de cana existentes. Nessas unidades, parte da energia hoje vendida à rede poderia ser consumida na produção adicional de etanol, conforme o retorno de cada alternativa.

A vantagem também aparece no investimento. Ao ampliar uma operação existente, a empresa pode aproveitar equipes, equipamentos, manutenção e infraestrutura logística, reduzindo o desembolso em comparação com uma unidade construída do zero, conhecida como greenfield.

“Meu investimento adicional é muito menor do que o Greenfield”, disse Roger. “Fazer uma usina nova Greenfield é muito mais caro do que um Brownfield usando uma estrutura que eu já tenho”, acrescenta.

Outro fator é a proximidade do mercado consumidor. Roger destaca que produzir no Sudeste pode reduzir a necessidade de transportar etanol de Mato Grosso e Goiás para a região. Ao mesmo tempo, avalia que o crescimento da demanda pelo milho e as melhorias nas rotas de exportação podem diminuir a vantagem de preço do grão no Centro-Oeste.

Para o gestor, a combinação desses fatores favorece o modelo que chama de “plantas flex híbridas”: cana, milho e açúcar integrados, com melhor aproveitamento da estrutura e diferentes alternativas de produção.

É a partir dessa lógica de diversificação que Rosa propõe avançar para o confinamento: além de combinar matérias-primas e produtos dentro da usina, incorporar à operação uma atividade que aproveite os coprodutos do milho.

Pasquale Augusto

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