As sucroenergéticas vivem um cenário único, atuando com margens positivas há cerca de cinco safras e de olho em novos nichos de mercado. Por conta disso, a agência de classificação de risco Fitch Ratings, considerando apenas as sete empresas analisadas, projetou investimentos de US$ 3,9 bilhões para o ano fiscal de 2024 e de US$ 3,7 bilhões para 2025. Em 2023, o valor foi de US$ 3 bilhões.
Mas as estratégias adotadas – tanto para a captação quanto para a alocação desses recursos – demandam atenção. Afinal, as companhias precisam considerar as incertezas de mercados ainda em desenvolvimento e de políticas públicas em tramitação, sem esquecer de manter suas finanças saudáveis em um setor conhecido por sua volatilidade.
Para falar um pouco mais sobre a situação das usinas e as opções disponíveis para as companhias que desejam captar recursos e/ou investir, a Conferência NovaCana 2024 convidou o sócio sênior da Mapa Capital, Manoel Pereira de Queiroz. O evento acontece em São Paulo (SP) nos dias 9 e 10 de setembro.
Ele será um dos palestrantes do painel “Perfil financeiro das usinas”, ao lado do analista de equity do BTG Pactual, Thiago Duarte, e do sócio da FG/A, Juliano Merlotto.
Ao longo de mais de 20 anos de carreira, o agrônomo Manoel Pereira de Queiroz acumula experiências relacionadas ao setor sucroenergético, com passagem por empresas como USJ Açúcar e Álcool, Itaú BBA, Banco Votorantim, Rabobank e Banco Alfa.
A programação completa da Conferência NovaCana já está disponível. Você pode se inscrever, clicando aqui.
O executivo conversou com o NovaCana sobre alguns dos temas que serão abordados no evento, apontando os movimentos dos últimos anos e as tendências de mercado. A seguir, confira a entrevista completa.
Os últimos anos foram uma montanha russa para os canaviais, indo de quebra de safra a moagens recordes. As usinas conseguiram lidar com esses altos e baixos de uma maneira saudável?
Acho que sim. Nos últimos anos, por mais que o setor tenha vivido quebra de produtividade e seca, os preços compensaram. Praticamente desde 2019, as usinas vêm gerando caixa – tem sido um bom período para o setor. Os preços têm ajudado, apesar de o etanol ter sofrido um pouco; então, a exceção são as destilarias autônomas e aquelas que têm um mix muito alcooleiro. Mas a safra 2024/25 é a quinta consecutiva com perspectivas boas de preço. Eu não me lembro de ver, desde que comecei a trabalhar nesse setor, cinco anos seguidos de geração de caixa positiva, do jeito que foram esses anos passados.
Com os bons preços do açúcar e as elevações nas receitas, o setor voltou a falar em investimentos. Esse é realmente o momento de fazer novos aportes?
Sim. Tenho visto novos investimentos para tentar tirar mais geração de caixa, mais Ebitda, da mesma tonelada de cana, mas não vejo projetos de expansão muito grandes. Não há greenfields de cana-de-açúcar, mas há investimentos em biogás, fabricas de açucar e até algum investimento adicional em cogeração. As empresas do setor também estão investindo em usinas de etanol de milho, por exemplo, principalmente aquelas localizadas no Centro-Oeste. Quando se está em uma situação de caixa folgada, tem duas coisas que se pode fazer: investir mais ou pagar mais dividendos. É óbvio que o setor é muito heterogêneo, mas uma grande parte das usinas está preparada para fazer novos investimentos. Elas estão com a situação financeira robusta o suficiente para fazer isso.
Anteriormente, você comentou que a exceção ao bom momento do setor seriam as destilarias. A insegurança com o futuro do etanol em longo prazo ainda é uma questão para o setor?
Há outra perspectiva aí. O que surpreendeu todo mundo foram a velocidade e o tamanho da expansão do etanol de milho. Quando se olha para os custos de produção do etanol de milho, é visível que, mesmo nos anos em que houve aumento no preço do grão, essas plantas foram muito competitivas porque elas têm o DDG [grão seco de destilaria], que representa, mais ou menos, 25% do faturamento. Assim, além de servir como um hedge natural, o DDG tem ajudado muito na receita dessas empresas. Nesse cenário, também é preciso considerar o aumento potencial de demanda. Eu acho que é possível ampliar bastante o consumo de etanol – isso sem falar em SAF e outras coisas que estão por vir. Só que isso também criou uma dinâmica nova. Com o etanol de milho entrando no setor, algumas das empresas de açúcar e etanol tradicionais fizeram as contas e têm montado fábricas – algumas são flex, mas também há usinas dedicadas ao etanol de milho. Para elas, isso é um investimento melhor do que fazer uma expansão de cana. Não à toa, reportagem recente do NovovaCana mostra que, dos 22 projetos conhecidos, somente cinco são de etanol de cana.
E como fica esse cenário, considerando as políticas públicas em tramitação, como o Combustível do Futuro?
Quando você fala em macrotendência, isso é muito positivo e vai além da possibilidade de aumento da mistura. Não só o Brasil, mas o mundo inteiro está regulando e colocando mandatos para o consumo de SAF, por exemplo. E, entre as possíveis fontes para a produção de SAF, o etanol é a mais disponível e a que tem se mostrado mais competitiva. Na Mapa Capital, estamos trabalhando em um importante projeto de SAF na rota ATJ (alcohol to jet). Agora, estabelecer mandato é uma coisa, mas efetivamente gerar essa demanda é outra; há uma série de desafios pela frente. Um estudo recente do Rabobank mostra que, para atingir o volume de SAF requerido pelo projeto para consumo doméstico seriam necessários apenas 3,45 bilhões de litros em 2037.
“Biocombustíveis são uma solução interessante e complementar para a diminuição da emissão de gases de efeito estufa, com a substituição dos combustíveis fósseis”, Manoel Pereira de Queiroz (Mapa Capital)
Mas, apesar da macrotendência positiva, existem vários desafios de curto prazo – as empresas podem ter sucesso ou quebrar em pouco tempo. Para chegar nesse futuro promissor, elas podem ter que atravessar crises que podem deteriorar bastante o setor. Eu não vislumbro nenhuma crise no horizonte por ora, mas temos que estar sempre atentos. É preciso estar sempre de olho na viabilidade e na saúde financeira da empresa no curto prazo também.
Para fazer essas aplicações, as usinas têm escolhido tanto fontes tradicionais de financiamento, como instituições bancárias, quanto a emissão de títulos, com destaque para as debêntures incentivadas. O acesso a crédito realmente está mais amplo?
Sim. Tenho visto uma tendência de migração para o mercado de capitais em detrimento dos mecanismos tradicionais; e não só no setor, mas no Brasil inteiro. Porém, cerca de 69% do crédito no Brasil ainda está concentrado em cinco grandes bancos. Então, quando você pega o mercado de capitais, o crescimento dele é impressionante. Mas, quando você considera a participação sobre o todo, ela ainda é relativamente pequena. Para as debêntures de infraestrutura, por sua vez, também é preciso considerar que os bancos têm alguns benefícios tributários. Então, eles podem fazer uma emissão no mercado de capitais sem colocar esse título para distribuição. Isso aconteceu bastante com as debêntures incentivadas e é como se o banco fizesse um empréstimo qualquer, pois o título fica “encarteirado”. Obviamente, isso não acontece com todas as emissões, então também temos que separar bem o joio do trigo.
Na edição de 2022 da Conferência NovaCana, você participou de um painel voltado à relação entre aspectos financeiros e a agenda ESG (sigla em inglês para ambiental, social e de governança). Como os financiamentos vinculados a metas ambientais e investimentos ESG se enquadram nesse cenário? Há um interesse maior dos investidores, condições mais vantajosas e outros benefícios?
Isso existe e tem crescido, mas eu acho que, tirando algumas linhas específicas e alguns fundos internacionais focados exclusivamente nisso, muito do que existe é mais uma forma da empresa se comprometer do que, realmente, uma fonte adicional de recursos. Essa opção, simplesmente, coloca algumas diretrizes ou algumas metas que são socioambientais. Isso tem aumentado bastante porque as empresas se interessam; é uma forma de mostrarem que estão comprometidas. Elas querem deixar claro para o seu público que estão vinculadas com melhorias ESG, sejam elas medidas ambientais, sociais, de engajamento ou de diversidade. Apesar disso, tenho sentido uma diminuição no interesse sobre o tema. Um levantamento feito pela Business Insider mostra que as menções aos temas ESG nas conferências com investidores das empresas S&P 500 caíram para menos de um terço em 2023 em relação a 2022.
Em um tema similar: iniciativas de captura e estocagem de carbono também têm chamado atenção das usinas que estão de olho em novos nichos. Esse mercado é vantajoso, especialmente considerando as necessidades iniciais de investimentos?
Eu não conheço nenhum projeto a fundo para poder dizer se eles realmente são vantajosos ou não. Mas eles existem e há uma tendência. No setor de açúcar e etanol, claramente, uma das coisas que que ajuda a viabilizar qualquer projeto que melhore o balanço de carbono é o RenovaBio. A partir do momento em que as usinas investem em biogás, na redução de uso de óleo diesel ou na redução de uso de fertilizantes minerais, lá na RenovaCalc, isso leva a uma eficiência maior e a uma maior emissão de CBios. Então, esses investimentos têm ocorrido e há uma lógica bastante econômica. É um projeto de fluxo de caixa positivo.
“Uma coisa que tem crescido bastante – e não só no setor de açúcar e etanol – é o uso de bioinsumos. As empresas procuram por soluções que diminuam o consumo de adubos minerais”, Manoel Pereira de Queiroz (Mapa Capital)
Gostaria que você comentasse também sobre abertura de capital, que era algo apontado como uma tendência, mas que acabou esfriando. Ainda há a perspectiva de que mais sucroenergéticas resolvam abrir capital nos próximos anos ou o mercado está realmente mais fechado?
Não houve nenhum IPO [oferta pública inicial] na B3 desde o final de 2021. Então, não é uma questão só do setor de açúcar e etanol. Outra coisa que devemos sempre pensar é que o mercado de ações no Brasil ainda é pequeno e bastante concentrado. A bolsa de valores tem patinado bastante; ela é muito volátil, sobe muito e desce muito facilmente. Assim, não é fácil você entrar nesse mercado de forma estruturada. Quem mexe na bolsa procura papéis com altíssima liquidez, algo que você possa comprar e vender com uma velocidade muito grande. Com isso, se houver muitas empresas do mesmo setor na bolsa, há uma diminuição dessa liquidez. Quem tem um portfólio de ações quer diversificar; quer ter algo do setor de açúcar e etanol, algo de mineração, algo de bancos, por exemplo. No pouco que ele vai ter de açúcar e etanol – ou de agro, falando de uma forma geral –, será considerado se essa ação é boa, mas principalmente se ela é liquida. Então, se muitas empresas do setor abrem o capital, elas vão concorrer pelo mesmo bolso.
Mas, se as características da bolsa brasileira fossem outras, as sucroenergéticas estariam aptas?
Acho que uma barreira foi vencida por uma grande parte delas: a questão de governança corporativa. Hoje, muitas empresas do setor, até mesmo as companhias familiares, têm boa governança e, do ponto de vista interno, estariam plenamente preparadas. Mas elas precisariam ser grandes para chamarem atenção. O mercado de ações precisaria ser mais pujante para elas poderem fazer isso. Na medida em que esse mercado for crescendo, nós vamos, talvez, ver mais uma ou duas emissões. Mas não existe espaço para dez empresas de açúcar e etanol na bolsa de valores.
Recentemente, a BP anunciou a compra da fatia da Bunge na joint venture sucroenergética das companhias. Nós devemos ver mais negociações de unidades industriais no setor ou esse foi um caso isolado?
Há quanto tempo o setor não tinha um anúncio de fusão ou aquisição? Isso tem vários motivos. Eu não sei detalhes da operação, mas acho que esse foi um caso isolado. Eram dois grupos muito grandes. A Bunge vinha tentando sair desse mercado há bastante tempo e a própria fusão com a BP foi um passo nesse sentido; já que não conseguiam vender, tentaram dar os braços a alguém para crescer e, eventualmente, sair via um IPO. Mas eu acredito que existe espaço para uma consolidação grande, principalmente entre empresas menores, uma vez que há mais de 150 grupos econômicos no setor de açúcar e etanol. A preocupação é que, em fusões de grandes empresas deste setor, que é vinculado à agricultura, o ganho de escala muitas vezes é acompanhado de uma “deseconomia” de escala.
Como assim?
A operação se torna tão complexa que, em vez de melhorar a sua eficiência, a companhia acaba por diminuí-la. O setor tem empresas familiares que são extremamente eficientes, inclusive mais do que as grandes. As empresas maiores ganham pela escala, pela distribuição de custos fixos administrativos, na captação de recursos e em outros aspectos. Mas o tamanho – ainda que ele tenha vantagens – não é absolutamente essencial. Talvez eu queime a minha língua em alguns anos com o advento da inteligência artificial, com novas tecnologias, com mapeamento por satélite e tudo o mais. Afinal, isso facilita e dá uma nova dinâmica para as operações agrícolas. Talvez, com essa digitalização e com a adoção de novas tecnologias, o setor ganhe a capacidade de crescer sem perder eficiência. Mas, hoje, muitas empresas grandes são menos eficientes do ponto de vista operacional do que as médias e pequenas, onde há um operador tradicional tocando o negócio.
Alguns anos atrás, falava-se bastante da “consolidação silenciosa”, com a aquisição de terras de usinas inativas, por exemplo. Esse movimento ainda merece atenção?
Nem era compra de terra, necessariamente; era uma tendência de compra de cana. Na verdade, uma unidade ia tomando conta da cana dos vizinhos e aumentando a sua capacidade. Uma usina de 3 milhões de toneladas trocava uma moenda, por exemplo, e podia chegar a 3,2 milhões de toneladas; então, pegava parte da cana que iria para outras usinas. Mas, normalmente, isso ocorria porque os vizinhos estavam em má situação financeira. Como o setor teve condições muito boas nos últimos anos, acho que isso deve ter diminuído bastante; não vi mais casos explícitos. Claro que os bons sempre tentam crescer um pouco em produção, mas não necessariamente estão ganhando espaço dessa forma.
Estes e outros tópicos sobre as finanças das usinas, investimentos, captação de recursos, políticas públicas e tendências de mercado devem marcar presença durante a Conferência NovaCana 2024. A programação completa está disponível no site do evento.
Renata Bossle – NovaCana