As divulgações dos primeiros resultados financeiros referentes à safra 2023/24 têm trazido um quadro que já era esperado pelo mercado: após uma moagem recorde de cana-de-açúcar, os lucros também subiram. Além disso, em meio a uma melhoria nas margens operacionais, muitas companhias também aproveitaram o período para alongar suas dívidas.
A partir dessa base, é preciso olhar para a frente e tomar decisões. Mesmo considerando perspectivas mais modestas para os resultados no campo, as usinas têm realizados aportes na indústria já estabelecida, como em fábricas de açúcar e no aumento de capacidade de moagem; na diversificação dos produtos, com biogás, etanol de milho e outros; e no campo, com destaque para a irrigação.
Para falar um pouco mais sobre a saúde financeira das usinas e as opções das companhias para captar recursos e investir, a Conferência NovaCana 2024 convidou o sócio da FG/A, Juliano Merlotto. O evento acontece em São Paulo (SP) nos dias 9 e 10 de setembro.
Ele será um dos palestrantes do painel “Perfil financeiro das usinas”, ao lado do analista de equity do BTG Pactual, Thiago Duarte, e do sócio da Mapa Capital, Manoel Pereira de Queiroz.
Além de ser um dos fundadores da FG/A, Merlotto também ocupa o cargo de vice-presidente da FG/A Gestora. Formado em administração pela Universidade de São Paulo, ele possui mestrado pela mesma instituição, além de uma pós-graduação em finanças pela Universidade da Califórnia.
A programação completa da Conferência NovaCana já está disponível. Você pode se inscrever, clicando aqui.
O executivo conversou com o NovaCana sobre alguns dos temas que serão abordados no evento, além de trazer as perspectivas da FG/A para a safra de cana-de-açúcar em andamento. A seguir, confira a entrevista completa.
Os últimos anos foram uma montanha-russa para os canaviais, indo de quebra de safra a moagens recordes. As empresas conseguiram lidar com esses altos e baixos de uma maneira saudável, ainda mais considerando a elevação nos custos de produção?
Eu acho que sim, pois vivemos um ciclo bem positivo para o açúcar, com os últimos quatro anos com preços remuneradores. No etanol, houve um recuo na safra passada e nessa, mas há três anos também ocorreram preços muito bons. Então, o setor passou por um ciclo favorável em termos de preços. Isso ajudou muito, principalmente para as usinas que têm açúcar. As empresas também conseguiram aumentar a moagem e esse incremento, aliado a preços bons, gera muito caixa. As usinas conseguiram crescer e, ao mesmo tempo, desalavancar.
Então, isso também ficou evidente no aspecto financeiro?
Sim. Acho que um outro vento muito favorável foi o amadurecimento do mercado de capitais. Há o acesso a crédito longo, via CRAs [Certificados de Recebíveis do Agronegócio], além da vinda dos Fiagros [Fundos de Investimento nas Cadeia Produtivas Agroindustriais], que se posicionaram bastante no setor. Do ponto de vista de crédito, isso é muito significativo. Então, não só as usinas começaram a trabalhar com a indústria cheia, otimizada, mas também com preço, com margem e trouxeram prazos mais longos para sua gestão da dívida. Nesses anos, as usinas saem fortalecidas, mesmo com alguma volatilidade em clima e custos.
“Quando se trabalha com a fábrica cheia, até o custo agrícola reduz. Você tem mais cana no mesmo hectare e consegue colher mais com o mesmo equipamento, rodando a mesma distância. Isso traz uma redução de custo agrícola e, depois, diluição de custos industriais”, Juliano Merlotto (FG/A)
Algumas empresas que estavam em dificuldade financeira lá atrás, naquele ciclo pior, saíram da recuperação judicial. Outras que estavam em discussão com bancos conseguiram desenrolar. E os bancos também ficaram mais sensíveis; viram que o setor está melhorando e que a capacidade de pagamento melhorou. Até essas negociações e os refinanciamentos acabaram sendo facilitados por esse cenário.
Já que estamos falando sobre o endividamento das usinas: na edição da Conferência NovaCana do ano passado, você comentou sobre o aumento da alavancagem do setor em um cenário de margens mais apertadas. Ao mesmo tempo, o acesso a diferentes fontes de financiamento permitiu o alongamento das dívidas. Como esse cenário mudou de lá para cá?
Eu estava olhando no retrovisor, para a safra 2022/23. Agora, olhando para 2023/24, que se encerrou em março, eu diria que a situação não mudou muito. O acesso a capital se intensificou, o setor teve uma safra excepcional em termos de moagem – nesse aspecto, foi até melhor. Os balanços estão começando a sair e acho que vamos enxergar margens estáveis, pois teve mais cana, e o etanol um pouco pressionado; mas uma coisa equilibrou a outra. Então, eu diria que vamos ver uma melhora – não é brutal, mas segue a tendência de crescimento.
Os mais recentes anúncios de investimentos incluem novos produtos, expansões na indústria e o direcionamento para os canaviais. Como identificar as melhores apostas para o atual momento?
Os investimentos estão acontecendo, mas talvez não no ritmo que imaginávamos. Não é nem por culpa das usinas, mas por conta da entrega de fabricantes. Geralmente, esses investimentos têm um período de maturação, têm fases de teste e de ajustes. Por exemplo, os investimentos em fábrica de açúcar são relevantes e têm um tempo de maturação, mas eles estão acontecendo. O açúcar ainda é, hoje, o investimento mais óbvio, dada a margem e a possibilidade de fixar preço. A grande vantagem de aplicação em uma planta de açúcar é que se pode fazer uma trava por dois ou três anos e garantir, de certa forma, um retorno sobre aquele capital alocado. Então, as destilarias estão fazendo um movimento forte para ter essa diversificação de produto. O investimento em etanol está vindo apenas das plantas de etanol de milho. Cogeração, por outro lado, não tem preço atrativo e não há contratos de longo prazo de leilão.
No campo, o destaque é mesmo a irrigação?
Os canaviais estavam no seu potencial. Por isso, as usinas continuam fazendo um bom trato, uma boa reforma. Em relação à irrigação, eu tenho presenciado muita discussão. Ainda não é um investimento óbvio para muitos, dado que é difícil medir o retorno. Você vai ter que esperar um ciclo inteiro da cana para fechar a conta e saber, de fato, qual foi o diferencial de toneladas produzidas por hectare e qual foi a diferença de longevidade daquele canavial. E é uma conta pesada de investimento. Mas algumas usinas têm olhado para isso não só pensando no retorno, mas na diminuição da volatilidade dessa matéria-prima e, consequentemente, na diminuição do risco do seu negócio. É uma conta mais complexa e que envolve não só retorno financeiro, mas redução de risco operacional e, consequentemente, risco financeiro.
Para fazer essas aplicações, as usinas têm escolhido tanto fontes tradicionais de financiamento, como instituições bancárias, quanto a emissão de títulos, como debêntures e CRAs. O acesso a crédito realmente está mais amplo ou as companhias pequenas seguem com dificuldades?
Vou vender um pouco meu peixe: o crédito tem que ser trabalhado. Eu gosto da palavra “bancabilidade” – e você não cria bancabilidade do dia para a noite. O que eu vejo é que, mesmo entre as menores, as empresas que estão fazendo um bom trabalho de melhoria na governança e testado esses mercados – tanto bancos de fomento como mercado de capitais – têm tido, sim, um acesso muito bom. Inclusive, para esses investimentos, os bancos de fomento são, hoje, o caminho ideal devido ao prazo para pagamento.
“As companhias que não exercitam o crédito vão continuar tendo um pouco mais de dificuldade. Para mim, não é o tamanho das companhias que influencia. É muito mais como elas fazem esse trabalho de bancabilidade no mercado”, Juliano Merlotto (FG/A)
A FG/A assessorou a usina Laguna com o BNDES e saiu uma operação de mais de R$ 170 milhões. Essa foi a segunda operação deles com o banco. Quando começamos, a Laguna moía 600 mil toneladas de cana. Auditamos o balanço, teve um ciclo favorável do preço do etanol e, há dois anos, eles fizeram um financiamento de R$ 90 milhões. A usina teve um crescimento para até 1,3 milhão de toneladas, ou seja, ela dobrou de tamanho. Agora, esse novo financiamento vai levar a unidade para mais de 2 milhões de toneladas com a fábrica de açúcar. Esse é um exemplo claro de que uma empresa pequena, desde que bem tocada, pode ter um bom acesso a bancos de fomento. A Laguna não fez CRA porque o bilateral do banco é, hoje, mais barato e com prazo equivalente. Para ela, não fazia sentido ir a mercado de capitais, sendo que ela pode fazer o capex junto ao BNDES e o giro junto a um banco no longo prazo. Há outros casos de usinas menores que também estão fazendo um bom trabalho de bancabilidade. Tem companhias que estão até acessando órgãos multilaterais, como BID [Banco Interamericano de Desenvolvimento] e IFC [Corporação Financeira Internacional].
Como os Fiagros se integram nesse cenário? Quais são as vantagens e as desvantagens desta opção nesse momento?
O mercado está um pouco pressionado dado que alguns Fiagros estão enfrentando inadimplência e problemas de crédito. O investidor pessoa física às vezes não tem tanta profundidade e acaba vendendo tudo. Isso é meio geral, ou seja, mesmo os Fiagros que estão indo bem do ponto de vista de carteira também estão sofrendo com esse giro dos investidores; uns sofrendo mais, outros menos. O que acontece, hoje, é que o preço nos Fiagros listados está abaixo do valor patrimonial, então, existe uma dificuldade para eles acessarem novas emissões, novas captações. Neste exato momento, existe pouca oferta de crédito, dado que eles já estão alocados. Agora, eles têm que esperar repagamento de operações para ter caixa para fazer novas alocações. Então, eu diria que há menos oferta. Os Fiagros estão demandando menos operações porque estão alocados e não estão crescendo. Mas temos visto emissões de CRAs para carteiras de crédito específicas, para algumas gestoras ou até para distribuição.
Pode detalhar melhor essa questão dos CRAs?
O mercado de capitais ainda continua amadurecendo e demandando papéis do agronegócio. Mas, nesse momento, é mais para a distribuição do que para “encarteirar” dentro dos Fiagros. Ou seja, têm os CRAs para os Fiagros e os CRAs que as gestoras vão colocar em outros fundos de crédito ou direcionar para algum cliente particular, com uma carteira administrada, ou até para uma distribuição pública, como o Banco do Brasil e a XP fazem. Essa segunda parte ainda tem bastante demanda, principalmente para empresas já conhecidas, com rating.
Há alguns anos, era esperado que diversas sucroenergéticas abrissem capital, mas essa tendência estagnou. Há essa perspectiva para os próximos anos ou não se espera mais esse movimento?
Há dois pontos a serem comentados aqui. O primeiro é que, setorialmente, temos um momento favorável. Mas a janela para IPO [Oferta Pública Inicial] está fechada. No ano passado, não teve quase nada e, nesse ano, o mercado continua quieto. A bolsa está pressionada, com alguma insegurança da parte política e fiscal. Então, mesmo que o setor de açúcar, etanol e energia viva um bom momento, isso não é suficiente para que ele possa superar esse período ruim de IPOs na bolsa. Além disso, depois daquela onda de IPOs vista dois ou três anos atrás, as empresas caíram muito de preço. O investidor está machucado, está ressabiado. Ele comprou uma ação a R$ 10 e, hoje, ela está por R$ 5. Talvez a situação mude com a bolsa melhorando. O primeiro semestre foi péssimo, mas, se o preço das ações voltar, o ânimo geral pode mudar. Mas, enquanto isso, não vejo isso acontecendo.
Mas, mudando o cenário na bolsa, haveria interesse do setor em abrir capital?
As empresas, hoje, estão conseguindo captar no longo prazo. Uma companhia vai à bolsa por “n” motivos, mas o principal deles é quando ela quer crescer e o balanço não permite mais; ela precisa trazer equity para não desbalancear a relação dívida-capital. Outro motivo é quando a empresa quer, de fato, abrir capital para dar liquidez para os seus sócios, para mudar de patamar em termos de governança e perspectivas. Mas o principal motivo é quando ela tem o desejo de crescer e a dívida começa a incomodar. Neste momento, eu estou sentindo o contrário. O acesso à dívida está bom e isso pode até mesmo postergar algum movimento de abertura de capital.
Recentemente, a BP comprou da fatia da Bunge na joint venture sucroenergética das companhias. Nós devemos ver mais fusões ou aquisições no setor?
Seguramente, vão acontecer. Mas eu não vejo uma tendência de consolidação ou um movimento mais enérgico nesse aspecto. Eu acho que vão acontecer operações pontuais, como essa. Os movimentos de M&As [fusão e aquisição] geralmente acontecem quando o setor passa por um ciclo de dificuldade e algumas empresas se veem naquele caminho de vender ou de se associar a alguém. Então, momentos de maior estresse acabam empurrando ondas de M&A; não é algo que temos visto agora. O que pode mudar – e isso é um ponto interessante – é que, quando o mercado de SAF começar a amadurecer e não ser mais uma promessa, o setor e os players no entorno do setor vão começar a enxergar que esse é um produto diferenciado, com uma demanda mundial e que, de fato, pode ser uma commodity – afinal, o etanol ainda não é considerado uma commodity pura. Isso pode, sim, funcionar como uma onda diferente de M&As. É um fator externo.
“Essa discussão do SAF tem caminhado. Tem muitas empresas fazendo as contas e talvez surja alguma associação de companhias para montar uma planta, pois o investimento é pesado”, Juliano Merlotto (FG/A)
Mudando um pouco de tema, quais são as perspectivas da FG/A para a safra em andamento, considerando a chegada do La Niña e a visão geral de uma queda na moagem?
Quando vocês soltam os comparativos, nós talvez sejamos os mais otimistas. Apesar de sermos contrariados em várias discussões, continuamos esperando 620 milhões de toneladas de cana. Agora, temos que acompanhar como é que está a cana do segundo semestre. O fato é que o primeiro semestre foi muito bom em termos de volume, pois tinha cana bisada. Eu acho que isso, talvez, seja o que vai fazer a diferença das estimativas; não sabemos exatamente o tamanho da cana bisada. Talvez o setor tenha uma surpresa, pois tinha muita. Na nossa leitura, tinha um estoque grande de matéria-prima e uma área de cana de corte maior nesse ano porque houve menos renovação de canavial. Assim, mesmo diminuindo bastante a produtividade nesse segundo semestre, a FG/A manteve 620 milhões de toneladas – e com bastante açúcar, aproximadamente 42 ou 43 milhões de toneladas. Mas provavelmente vamos fazer alguma revisão; estamos colhendo informações com nossos clientes.
Em relação às estimativas de mercado, muitas consultorias estavam esperando um mix de produção de açúcar acima de 50%. Os números divulgados quinzenalmente pela União da Indústria de Açúcar e Bioenergia (Unica) têm chegado perto, mas não ultrapassam esse limite. Você acha que o setor realmente vai conseguir superar a marca de 50% de mix de açúcar nessa safra?
Como eu comentei anteriormente, alguns projetos atrasaram. Isso pode ter puxado o mix mais para baixo nesse primeiro trimestre de safra. Mas, conforme essas plantas forem entrando e forem feitos testes, pode ser que o mix aumente. Também foi falado sobre a qualidade da cana no começo da safra – a cana bisada é mais difícil de processar, não é uma coisa convencional. Então, a qualidade dela não estava tão boa e foi difícil fazer açúcar. Ou seja, por mais que a usina tivesse capacidade de fazer mais, a qualidade da cana não permitiu esse mix maior. A minha aposta é que, provavelmente, o mix vai passar dos 50%. E, se olharmos isoladamente o segundo semestre, acho que, com certeza, vai ser maior que 50%.
Estes e outros tópicos sobre as finanças das usinas, investimentos, captação de recursos e safra devem marcar presença durante a Conferência NovaCana 2024. A programação completa está disponível no site do evento.
Renata Bossle – NovaCana