Produção de etanol e certificação no RenovaBio facilitam o processo de captação de recursos, abrindo portas para as usinas no mercado de capitais
Tendência ou modismo? É com essa pergunta que o superintendente de agronegócio do Banco Alfa, Manoel Pereira de Queiroz, inicia sua palestra no painel da Conferência NovaCana 2022 dedicado à agenda ESG (sigla em inglês para indicar boas práticas ambientais, sociais e de governança). Entretanto, seu objetivo não é exatamente questionar, mas defender que há uma tendência em construção.
“A pauta do ESG está no ambiente, tanto no agronegócio como em bancos”, relata. De acordo com ele, o termo começou a circular em 2014 e é vinculado à teoria de que o capitalismo está sofrendo uma transformação, deixando de se voltar para os shareholders (acionistas) e se direcionando aos stakeholders (partes interessadas). “Isso envolve os funcionários, a comunidade e o meio ambiente”, completa.
Para reforçar seu ponto, Queiroz cita uma pesquisa da Ypulse que indica que 69% das pessoas das gerações Y e Z entendem que as marcas precisam se esforçar para serem politicamente corretas. Além disso, 65% evitariam marcas que se opõem às causas que apoiam. “A geração Y começa com os nascidos em 1982. Então, eles estão fazendo 40 anos neste ano”, observa.
Outro dado trazido por ele vem da XP Investimentos: “Entre os clientes deles – ou, ao menos, os pequenos clientes – 70% querem alocar dinheiro em empresas atuantes na questão ESG”.
O superintendente ainda relata que estas pessoas também são eleitoras e fazem pressão sobre os políticos, que passam a impor regras ambientais mais rígidas em diversos países. Desta forma, os investimentos em melhores práticas começam a ser uma obrigação para muitas companhias; não mais um diferencial.
No texto completo, exclusivo para assinantes NovaCana, saiba como este tema afeta as empresas de açúcar e etanol e como elas podem se beneficiar de iniciativas ESG no mercado de capitais. Além das perspectivas de Queiroz, a reportagem ainda inclui a visão do sócio da FG/A, Juliano Merlotto.
Tendência ou modismo? É com essa pergunta que o superintendente de agronegócio do Banco Alfa, Manoel Pereira de Queiroz, inicia sua palestra no painel da Conferência NovaCana 2022 dedicado à agenda ESG (sigla em inglês para indicar boas práticas ambientais, sociais e de governança). Entretanto, seu objetivo não é exatamente questionar, mas defender que há uma tendência em construção.
“A pauta do ESG está no ambiente, tanto no agronegócio como em bancos”, relata. De acordo com ele, o termo começou a circular em 2014 e é vinculado à teoria de que o capitalismo está sofrendo uma transformação, deixando de se voltar para os shareholders (acionistas) e se direcionando aos stakeholders (partes interessadas). “Isso envolve os funcionários, a comunidade e o meio ambiente”, completa.
Para reforçar seu ponto, Queiroz cita uma pesquisa da Ypulse que indica que 69% das pessoas das gerações Y e Z entendem que as marcas precisam se esforçar para serem politicamente corretas. Além disso, 65% evitariam marcas que se opõem às causas que apoiam. “A geração Y começa com os nascidos em 1982. Então, eles estão fazendo 40 anos neste ano”, observa.
Outro dado trazido por ele vem da XP Investimentos: “Entre os clientes deles – ou, ao menos, os pequenos clientes – 70% querem alocar dinheiro em empresas atuantes na questão ESG”.
O superintendente ainda relata que estas pessoas também são eleitoras e fazem pressão sobre os políticos, que passam a impor regras ambientais mais rígidas em diversos países. Desta forma, os investimentos em melhores práticas começam a ser uma obrigação para muitas companhias; não mais um diferencial.
ESG e o mercado financeiro
A entrada do mercado financeiro no ESG, conta Queiroz, acontece com a Internacional Capital Markets Association (ICMA). Foi esta entidade que estabeleceu normas, por meio do documento Green Bonds Principals, para a emissão de títulos verdes.
“O título verde, inicialmente, pode ser qualquer tipo de emissão ou empréstimo cujo recurso seja destinado diretamente a uma ação ligada a diminuição no consumo de água, reflorestamento ou alguma coisa similar”, resume o superintendente.
Ele ainda relata que, posteriormente, o mercado teria “evoluído” para os sustainable linked bonds (títulos vinculados a sustentabilidade, em tradução livre), também regulamentados pela ICMA. “A ideia é que o dinheiro pode ser usado para qualquer coisa, mas a companhia tem que se comprometer com alguns índices de melhora socioambientais”, explica.
A partir do estabelecimento de metas, Queiroz explica que uma empresa teria dois caminhos: se submeter a uma ampliação na taxa de juros caso os objetivos não sejam cumpridos; ou receber descontos nas alíquotas caso tudo ocorra como o planejado. A fiscalização, por sua vez, teria que ser delegada a uma terceira parte.
O superintendente, contudo, faz um alerta contra metas que não apresentem desafios ou que não tenham relação com os principais problemas do setor. “Se eu estou tentando atingir alguma coisa que é muito fácil, não estou realmente comprometido. É preciso tomar cuidado porque, da mesma maneira que o mercado valoriza a emissão ESG, ele também pode criar um problema para a imagem da empresa”, ressalta.
O sócio da FG/A, Juliano Merlotto, reforça a conexão entre o mercado de capitais e o ESG. Em sua palestra na Conferência NovaCana, ele garante que há um “vento favorável” neste sentido, com um avanço de ambos os lados. “Seria muito difícil uma agenda ESG caminhar sem o mercado de capitais amadurecendo”, relata.
Fator de desempate
Mas, entre as provocações feitas para o público da Conferência NovaCana, Queiroz coloca em dúvida se os investidores realmente pagam mais pelos papéis ESG. De acordo com ele, percepções de mercado apontam que, no Brasil, o interesse é maior por parte das empresas que querem emitir o título, não pelos compradores.
“O mercado [brasileiro] não paga melhor ou não tem, ainda, um aumento da demanda por conta disso”, relata e questiona: “Do ponto de vista financeiro, faz diferença eu emitir, em termos de taxa, um papel ESG tendo que me comprometer com outras coisas do que simplesmente emitir uma dívida normal no mercado financeiro?”.
“O interesse maior do emissor acaba sendo por marketing. Ele quer falar para o mercado ‘eu sou sustentável’”, Manoel Pereira de Queiroz (Banco Alfa)
Merlotto, por sua vez, acredita que seria “muito difícil” que o papel ESG tenha um diferencial significativo nos juros, o que beneficiaria o emissor, mas não o investidor. “O comprador do título vai olhar preço, riscos, prazo e estrutura de garantia. As emissões verdes têm vantagens se houver dois papéis com o mesmo preço e com o mesmo risco: se um deles tem selo verde, provavelmente o investidor vai tender a comprar aquele”, afirma, garantindo que já presenciou uma situação como esta em um roadshow.
Assim, para o sócio da FG/A, o papel verde tem um componente de atração maior, que talvez aumente sua demanda, ainda que não garanta o interesse. Para completar, no caso de uma maior procura, pode ocorrer o chamado overbooking (excesso de reservas, em tradução livre), o que é favorável para a emissora. “Na minha leitura, eu recomendaria às empresas que sigam esse caminho porque, lá no fundo, o benefício talvez não seja preço, mas algum outro”, completa.
“Olhando pelo lado da empresa, se eu tenho essa possibilidade de ser o escolhido no empate, eu preferiria ter essa opção”, Juliano Merlotto (FG/A)
Merlotto ainda garante que, para as sucroenergéticas, “custa muito pouco” ter um selo verde. De acordo com ele, companhias de outros setores precisariam desenvolver medidas, contratar uma empresa certificadora, avaliar o modelo de negócio e analisar os impactos. “Mas, para açúcar e etanol, isso já está mapeado. Vai custar R$ 40 mil ou R$ 50 mil para uma emissão verde de, talvez, R$ 500 milhões”, estima.
Queiroz concorda: “O setor [sucroenergético] é um espetáculo para qualquer coisa relacionada a ESG. A atividade principal da empresa – produzir etanol – já é verde. Além disso, com a RenovaCalc e os índices do RenovaBio, é fácil mensurar essas características”.
O superintendente do Banco Alfa ainda pontua que, mesmo com as crises trazidas pela pandemia de covid-19 e a guerra entre Rússia e Ucrânia, o tema ESG permaneceu relevante no mercado internacional, indicando que não se trata de algo passageiro. Desta forma, haveria espaço para uma maior relevância no país.
“Apesar de todo o crescimento, o mercado de capitais ainda é pequeno no Brasil. Então, vai de o investidor entender o que está sendo vendido”, observa e relata: “Quando você busca papéis para investir, na plataforma de uma grande corretora, você olha o fundo, a rentabilidade e uma série de índices; mas você não está olhando se aquele fundo tem investimentos verdes ou não”.
“Dinheiro não falta”
Em meio às perspectivas abertas pelos títulos verdes, Queiroz afirma que as sucroenergéticas vivem um momento de boas perspectivas. “Obviamente, esse é um setor muito heterogêneo. Mas as empresas tiveram oportunidades, nestes últimos três anos, de melhorar a liquidez, de melhorar as suas captações e de diminuir as suas dívidas. Isso, para mim, é fundamental”, assegura.
O superintendente do Banco Alfa reforça o caráter cíclico do setor de açúcar e etanol: “Vai ter hora que vai estar muito bom e vai ter hora que vai estar muito apertado. O importante é a empresa chegar nesse ciclo de baixa de forma saudável e não dar um passo maior do que a perna”.
“Dinheiro não falta. Hoje, as usinas estão bem estruturalmente, com dívida baixa e liquidez boa; elas conseguem, por conta disso, captar mais barato”, Manoel Pereira de Queiroz (Banco Alfa)
Merlotto concorda com essa visão e aponta que, com a menor alavancagem, as usinas têm conseguido captar recursos com prazos mais longos de pagamentos e melhores condições de juros, a despeito da condição econômica do país. “Apesar do juro ter subido de forma geral, as companhias estão conseguindo tomar crédito com spreads menores e isso ajuda na redução do custo financeiro”, conta.
O sócio da FG/A complementa: “À medida que o mercado vai crescendo, a cobertura aumenta, o conhecimento do investidor sobre o setor aumenta e a demanda aumenta. Então, tem muito espaço para novas emissões”, garante.
Indícios de amadurecimento
Ainda segundo Merlotto, um dos sinais de “amadurecimento” do mercado de capitais brasileiro é o menor peso do Estado no financiamento do mercado. “A participação do crédito público sobre o PIB teve um pico no final do governo da Dilma, com 30%. De lá para cá, a gente viu uma inversão completa, com o crédito privado ocupando esse espaço e chegando próximo de 31% do PIB”, exemplifica.
De acordo com ele, a criação da Taxa de Longo Prazo (TLP), que substituiu a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) nos contratos do BNDES, aproximou as tarifas do banco público daquelas cobradas pelo mercado. Com isso, as empresas mais capitalizadas e, portanto, com melhor qualidade de crédito, passaram a enxergar o mercado de capitais como uma alternativa mais interessante.
“No BNDES, vão estar aqueles projetos e aquelas empresas que ainda não encontram abertura no mercado de capitais. Isso é um reflexo da política pública que vem mudando ao longo do tempo, que está empurrando as melhores empresas para o mercado”, afirma.
Merlotto também observa que, com a pandemia de covid-19 e a queda da participação dos serviços e da indústria no PIB, o agronegócio passou a se sobressair, chegando a uma participação próxima de 30%. “O agro fica mais representativo na economia nacional e, também, ganha espaço no mercado de equity”, completa.
Segundo ele, isso abriu espaço para que, em fevereiro de 2021, a Jalles Machado pudesse “reinaugurar” o agronegócio no mercado de capitais. De lá para cá, outras cinco empresas ligadas ao campo abriram capital: Vittia, Agrogalaxy, Boa Safra Sementes, 3tentos e Raízen.
“Mais recentemente, em setembro, duas empresas do setor passaram a compor o Ibovespa”, comemora, falando da entrada de Raízen e São Martinho, e aponta: “A gente não tinha nenhuma empresa pura do setor sucroenergético no principal índice da nossa bolsa”.
Para o sócio da FG/A, esse movimento reflete que o mercado está olhando para o agronegócio e para a maior liquidez dos papéis destas empresas. “A consequência disso é um círculo virtuoso. Quanto mais empresas do agro venham a mercado ou passem a compor o Ibovespa, maior a cobertura dos bancos, maior a cobertura dos analistas, maior o interesse dos investidores”, projeta.
“Se você tem um aumento da cobertura, há um maior entendimento do setor e isso permite que mais companhias possam usufruir dessa importante fonte de recursos”, Juliano Merlotto (FG/A)
Considerando as sucroenergéticas, ele acredita que a sinalização é particularmente positiva. Merlotto explica que, por se tratar de um setor cíclico, os financiamentos de longo prazo se tornam mais importantes.
Ele exemplifica a situação com o aumento na emissão de Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), que totalizaram R$ 26 bilhões entre janeiro e julho de 2022. Em todo o ano de 2021, por sua vez, o volume gerado com estes papéis foi de R$ 25 bilhões. “O estoque [de dívida] do CRAs cresce 51% ao ano. Saímos de R$ 6 bilhões em 2015 para R$ 92 bilhões em julho deste ano”, complementa.
Ainda segundo Merlotto, outro sinal de amadurecimento do mercado é o maior prazo médio das operações. Citando dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), ele aponta que o prazo médio dos CRAs emitidos de janeiro a julho de 2022 foi de 7,4 anos, superando os 6,1 anos das debêntures. “Ou seja, o investidor que está comprando esses papéis está disposto a oferecer um prazo superior para o agronegócio”, relata.
Para completar, ele menciona o crescimento das ofertas restritas, que seguem a regra CVM 476 e são voltadas para investidores profissionais e qualificados. O sócio da FG/A explica que o volume das ofertas públicas – abertas para o público em geral – costumava superar o das ofertas restritas. Em 2020, entretanto, houve uma virada.
“Com o início da pandemia, o mercado ficou muito ruim. Por conta da velocidade – você precisa de quatro a cinco meses para fazer uma oferta pública, mas uma restrita pode ser feita em um ou dois meses –, mesmo as empresas maiores acabaram usando esse mecanismo”, relata.
De acordo com ele, o que começou “com um susto” se transformou em tendência: “O mercado recebeu muito bem essas operações. Foram 169 emissões restritas de CRAs [de janeiro a agosto de 2022], quase uma operação por dia. As ofertas públicas continuam no mesmo patamar, com 21 emissões neste ano”.
Assim, apesar das dificuldades, Merlotto observa que o agronegócio e, em especial, o setor sucroenergético, tem conseguido fazer captações de recursos maiores e com mais prazo. “O setor vai poder passar por ciclos de baixa com um pouco mais de liquidez”, projeta.
Renata Bossle – NovaCana