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Safra global de açúcar 2019/20: Déficit é certo, mas não garante recuperação dos preços

Na média, as empresas e consultorias estimam um déficit de 4,48 milhões de toneladas para a temporada que inicia em outubro

NovaCana 15 min de leitura

Não há quem discorde de que a safra global de açúcar 2019/20 (outubro a setembro) será deficitária. Nenhum número positivo para o balanço da temporada foi apontado pelas 18 empresas e consultorias especializadas que fazem parte do mais recente levantamento do NovaCana sobre o tema.

O ponto é: qual será o tamanho deste déficit? Mesmo com o Brasil mantendo o pé no freio na produção de açúcar – especialmente por conta da valorização do etanol – existem outros países que são peças importantes no jogo, como China, Índia e Tailândia. Assim, especificidades locais serão determinantes para a produção global da commodity e, consequentemente, para os preços.

Inclusive, mantendo a tendência de preços baixos, o mercado ainda não dá sinais claros de que haverá uma recuperação ao longo de 2019/20.

Na sondagem anterior feita pelo NovaCana para a temporada, em maio, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) foi a única entidade a apontar uma perspectiva de superávit – com 6,8 milhões de toneladas –, enquanto as outras 12 trouxeram projeções de déficit, variando de 200 mil a 10,2 milhões de toneladas.

No mais recente levantamento, concluído ontem (25), 18 companhias cravaram que haverá déficit na relação entre a produção e a demanda. Ele varia de 1 milhão – visto pela Bunge e pela FG/A –, a 7,75 milhões de toneladas – conforme projetado pela Tropical Research Services (TRS).

Na média das análises, o déficit seria de 4,48 milhões de toneladas, acima das 3,06 milhões de toneladas da sondagem anterior.

Confira os detalhes na reportagem a seguir, com gráficos comparativos das projeções, a evolução das médias, perspectivas de preços e análises do mercado global de açúcar das seguintes empresas e consultorias:

- Agroconsult
- Biosev
- BTG Pactual
- Bunge
- Citigroup
- Czarnikow
- Datagro
- F.O. Licht
- FG/A
- Green Pool
- INTL FCStone
- ISO
- LMC
- Platts
- Rabobank
- Sopex
- Sucden
- TRS

Não há quem discorde de que a safra global de açúcar 2019/20 (outubro a setembro) será deficitária. Nenhum número positivo para o balanço da temporada foi apontado pelas 18 empresas e consultorias especializadas que fazem parte do mais recente levantamento do NovaCana sobre o tema.

O ponto é: qual será o tamanho deste déficit? Mesmo com o Brasil mantendo o pé no freio na produção de açúcar – especialmente por conta da valorização do etanol – existem outros países que são peças importantes no jogo, como China, Índia e Tailândia. Assim, especificidades locais serão determinantes para a produção global da commodity e, consequentemente, para os preços.

Inclusive, mantendo a tendência de preços baixos, o mercado ainda não dá sinais claros de que haverá uma recuperação ao longo de 2019/20.

Na sondagem anterior feita pelo NovaCana para a temporada, em maio, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) foi a única entidade a apontar uma perspectiva de superávit – com 6,8 milhões de toneladas –, enquanto as outras 12 trouxeram projeções de déficit, variando de 200 mil a 10,2 milhões de toneladas.

No mais recente levantamento, concluído ontem (25), 18 companhias cravaram que haverá déficit na relação entre a produção e a demanda. Ele varia de 1 milhão – visto pela Bunge e pela FG/A –, a 7,75 milhões de toneladas – conforme projetado pela Tropical Research Services (TRS).

Na média das análises, o déficit em 2019/20 seria de 4,48 milhões de toneladas, acima das 3,06 milhões de toneladas da sondagem anterior.

balanco global safra201920 260919

Já para o ciclo 2018/19, que encerra em setembro, 14 empresas apresentam números, sendo que quatro delas já acreditam em um déficit. As apostas vão de um superávit de 4,19 milhões de toneladas – dado pela S&P Global Platts – a um déficit de 703 mil toneladas – projetado pela TRS.

balanco global safra201819 260919

Na média das 14 empresas, espera-se um superávit de 1,85 milhões de toneladas no mercado global de açúcar, número um pouco menor que o estimado pela amostragem anterior, 2,03 milhões de toneladas. Por outro lado, as apostas apresentadas em julho do ano passado traziam uma perspectiva média de superávit de 6,29 milhões de toneladas, indicando uma constante redução nos números.

balanco global media estimativas 260919

O cenário que levou ao déficit

Na temporada 2017/18, o mercado mundial de açúcar registrou um superávit gigantesco – em torno de 12 milhões de toneladas –, atribuído especialmente às safras indiana e tailandesa.

Segundo o gerente de inteligência de mercado e energia da Biosev, Luiz Fernandes, as safras destes países ampliaram a produção mundial em 18 milhões. Isso pressionou os preços da commodity e fez com que as usinas do Brasil mudassem o destino da cana-de-açúcar, maximizando a fabricação de etanol, para amortecer o que ele chama de “choque de oferta” das safras asiáticas.

“Em 2018/19, estimamos que vai terminar em [um superávit de] 2,3 milhões de toneladas e, para 2019/20, estimamos um déficit de 5,4 milhões”, expressa, durante a NovaCana Ethanol Conference, ocorrida nos dias 16 e 17 de setembro, em São Paulo.

balanco global evolucao 201819 260919

No mesmo sentido, de acordo com a gerente de inteligência de mercado da Bunge, Luciana Torrezan, o Brasil reduziu em 10 milhões a sua produção de açúcar: “Foi um esforço grande para ajudar a equilibrar o mercado mundial”.

Outros países, em contrapartida, reduziram menos proporcionalmente. “Foram 3 milhões [de queda na produção] no total; alguns países até aumentaram a produção nesta safra”, expressa Torrezan.

Em 2019/20, por sua vez, a redução deve ser ainda maior, de 5 milhões, ainda que a diminuição dos grandes produtores seja contrabalanceada por aumentos de produção pelo mundo. “Vemos reduções significativas, com a Índia produzindo 4,7 milhões a menos e a Tailândia, 2 milhões a menos. Porém, isso é insuficiente para reduzir o excedente que foi gerado nas duas safras anteriores”, complementa.

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Déficit não garante recuperação nos preços

O déficit esperado para 2019/20 não significa, necessariamente, preços melhores para a commodity. A opinião é quase generalizada entre os analistas.

Conforme Fernandes, a Biosev não considera o mercado deficitário um sinal positivo para o aumento de preços. “Estamos no ponto máximo do estoque global e precisamos desse déficit para deixar o mercado um pouco mais aliviado, já contando que o Brasil vai novamente maximizar o etanol em 2020/21”, projeta o gerente.

Além disso, o profissional acredita que, em julho de 2020, o açúcar ainda terá um preço de venda menor que o do etanol. Um dos motivos para isso é a possibilidade de a safra brasileira transformar o déficit em superávit novamente. “Se o Brasil voltar a maximizar o açúcar, adicionaremos de 5 a 7 milhões de toneladas à oferta, e o mundo volta para superávit. Na nossa visão, isso seria insustentável com os níveis de estoque que temos hoje”, afirma.

Portanto, ele acredita que, para o próximo ano ou até no período de dois anos, o etanol seguirá como o principal balizador do mercado de açúcar, agindo como um teto do mercado.

O analista de mercado da Agroconsult, Fabio Meneghin, tem uma perspectiva semelhante. Apesar da configuração de déficit ser “uma boa notícia”, ele acredita que ela não tem força o suficiente para elevar os preços do açúcar. Por isso, a empresa estima valores em torno de 12,8 centavos de dólar por libra-peso.

balanço global preço 260919

Torrezan, da Bunge, também visualiza preços pressionados no curto prazo: “Pelo menos até que esse estoque seja consumido, no segundo semestre de 2020, e os preços tenham algum suporte”.

Conforme a gerente, os dois superávits mais recentes (2017/18 e 2018/19) acumularam quase 12 milhões de toneladas excedentes. Assim, visualiza que o mundo teria um estoque de 4,6 milhões de toneladas no primeiro trimestre de 2020. No ano, haverá reduções na produção da União Europeia e da Tailândia, configurando um maior equilíbrio na relação estoque-uso.

No relatório lançado em setembro, o Rabobank também espera que os altos níveis de estoques comecem a declinar conforme o déficit para 2019/20 se materializar. Segundo o banco, isso deve fazer com que a relação entre estoque e consumo volte à média de longo prazo até setembro de 2020. “Isso indica uma transição bastante gradual para fundamentos mais construtivos nos próximos 12 meses”, detalha o documento.

Andy Duff, gerente do departamento de pesquisas do banco, afirma que é difícil crer que os preços eram “espetaculares” há pouco tempo; em janeiro de 2017, eles bateram a marca de 20 centavos de dólar por libra-peso.

“Com a virada do ciclo, o acúmulo dos estoques e os fundos tomando uma posição vendida líquida cada vez maior chegamos aonde chegamos. Ao longo desse tempo, em quase três anos, [o mercado de açúcar] perdeu 40% do valor”, explica o analista. O banco enxerga um déficit de 5,2 milhões de toneladas para 2019/20.

O profissional também destaca que, no Brasil, o impacto foi mais leve na comparação com outros países exportadores. Ele justifica dizendo que a desvalorização cambial ajudou a suavizar o impacto, fazendo com que os preços de venda fossem 25% menores entre janeiro de 2017 e setembro de 2019.

Na Tailândia, em contrapartida, a situação das usinas é mais complicada, com queda de valor de 50%. “Se achamos que estamos sofrendo com esse preço de açúcar hoje, os tailandeses estão sofrendo ainda mais”, pontua Duff.

Quando à demanda global, Torrezan afirma que ela seguirá crescendo cerca de 1,5% ao ano, o que representa em torno de 2,5 milhões de toneladas de açúcar. “O mundo vai precisar que o Brasil aumente a produção de açúcar, mas não necessariamente o Brasil vai precisar maximizar a sua capacidade”, expressa.

“Só na safra 2024/25 que o mundo vai precisar que o Brasil maximize sua produção de açúcar novamente”, Luciana Torrezan (Bunge)

Ainda assim, existem dois pontos de atenção. Um deles é que, considerando o trade flow construído pela Bunge, a Índia exportaria 4 milhões de toneladas, número menor que os 6 milhões permitidos pelos subsídios do governo indiano.

Neste caso, o preço do açúcar subiria e Torrezan visualiza um equilíbrio na Índia, para exportação, no valor de 13 centavos de dólar por libra-peso. Portanto se os preços atingirem esse nível, a Índia tem mais 2 milhões a oferecer, então esse equilíbrio de mercado é postergado”, detalha.

O segundo ponto de atenção expresso pela profissional é a produção brasileira. A Bunge espera que a fabricação nacional de açúcar fique entre 28 e 29 milhões de toneladas no próximo ano. Se o preço subir muito, o Brasil poderia oferecer mais 5 ou 6 milhões de toneladas de açúcar ao mercado.

“Existe um cap importante de preços em torno de 13 a 14 centavos de dólar por libra, que seria o ponto de equilíbrio no preço de exportação da Índia e o preço de paridade de etanol no Brasil. Se o açúcar ficar muito mais caro que o etanol, as usinas vão produzir mais commodity”, explica.

Produção indiana subsidiada e exportações

Os grandes produtores mundiais são a maior influência no mercado. Nos principais estados indianos, segundo Andy Duff, do Rabobank, as usinas do país estão lucrando mais e, com isso, podem investir na capacidade de produção de etanol, reduzindo a de açúcar. O relato foi dado durante a NovaCana Ethanol Conference 2019.

De acordo com ele, existe um movimento de conversão do açúcar em etanol para reduzir os estoques do adoçante. “Parece uma ideia genial. Até é, se você olha o preço mínimo no mercado de açúcar e o preço que as petroleiras vão comprar o etanol. A operação faz sentido. Mas ouvi várias razões de que isso não vai acontecer, seja por questões técnicas ou de regulamentação”, relata.

O especialista em inteligência de mercado da INTL FCStone, João Paulo Botelho, também comenta a questão do etanol no país. “O governo indiano está incentivando as usinas a produzirem etanol e elas, em algumas regiões, têm dinheiro para fazer esses investimentos”, afirma.

Por outro lado, em alguns casos, as unidades esbarram na burocracia, já que são necessárias inúmeras autorizações para instalações de novas plantas de etanol. “O etanol deve tirar um pouco do açúcar no mercado neste ano, mas não deve ser um fator tão relevante assim”, pondera.

Assim, é da Índia que vem a ameaça de um novo superávit. Há três safras, conforme relembra Fabio Meneghin, a Índia tem produção e exportação subsidiadas. No país, os produtores são obrigados a pagar mais que o dobro do preço pela cana que é praticado no Brasil – aqui o preço gira em torno de US$ 20 por tonelada, enquanto lá o valor é de US$ 45/t.

“Como as usinas pagam muito caro por essa matéria-prima e teriam um custo de produção próxima dos 22 centavos de dólar por libra-peso, o governo tem que dar alguma compensação. Ela vem por meio dos subsídios, em torno de US$ 146 por tonelada de açúcar para exportação”, explica Meneghin.

Com isso, a Agroconsult visualiza a exportação de um volume de 5 a 6 milhões pela Índia em 2019/20. De acordo com os números apresentados, os subsídios correspondem a algo em torno de 7 centavos de dólar por libra-peso, permitindo que o país consiga ser competitivo mesmo com os preços internacionais pressionados.

Além disso, o analista relembra que o país detém grandes estoques de açúcar. De acordo com ele, a Índia mantinha entre 3 e 5 milhões de toneladas, que foi para 7 milhões de toneladas no início da atual temporada, chegando a até 16 milhões de toneladas. “A política está claramente distorcendo o mercado e gerando muito estoque por lá, colocando o açúcar subsidiado no mercado internacional”, destaca.

A situação afeta diretamente as exportações brasileiras. Até 2017/18, segundo Meneghin, o Brasil exportava 20 milhões de toneladas, porém perdeu participação de mercado ao reduzir suas exportações em 10 milhões de toneladas. Com isso, o país que detinha quase metade do comércio internacional passou a ter menos de um terço, ou 32%. “Esse é o principal motivo que leva o Brasil a questionar na OMC essa política de subsídios que a Índia vem praticando”, completa.

Fatores altistas no horizonte

Mesmo com todos estes argumentos, há espaço para otimismo. Durante a NovaCana Ethanol Conference, João Paulo Botelho, da FCStone, apontou alguns fatores altistas para o mercado global em 2019/20, como a produção tailandesa.

Conforme o analista, os produtores do país estão trocando a cana-de-açúcar pela mandioca e pelo arroz, já que o preço da commodity não tem compensado – e isso pode reduzir a produção de 10 a 15%. Lá, a cana também é subsidiada, porém a remuneração tem sido inferior à vista nos anos anteriores.

O clima também influencia, já que a seca tem acometido o país e a mandioca é mais resistente à intempérie do que a cana. “As principais áreas produtoras no centro e no nordeste do país receberam chuvas abaixo da média durante a maior parte dos primeiros três meses; em agosto, o nordeste se recuperou, mas todas as informações indicam que não tem sido o suficiente para anular os prejuízos sobre a cana”, explica Botelho.

De acordo com ele, a Tailândia deve demorar alguns anos para retomar a produção de 15 milhões de toneladas vista anteriormente. “[O volume] deve reduzir por mais alguns anos, a não ser que o preço internacional volte para 14 ou 15 centavos de dólar por libra, o que também não vemos no curto prazo”.

O Rabobank, por sua vez, visualiza uma produção tailandesa de 13,4 milhões de toneladas para 2019/20, 2 milhões a menos do que na temporada 2018/19, além de quedas nas exportações. “Encontrar mercados para o açúcar branco tailandês é um desafio real em meio à concorrência indiana, além de uma repressão ao comércio informal da China, deixando as exportações de janeiro a junho em queda de 40% no comparativo anual”, detalha o relatório.

Conforme Botelho, a Índia segue sendo uma incógnita para o mercado internacional. Com as monções abaixo do esperado no ano passado, houve redução na área plantada de cana, por isso, a produção de açúcar deve cair. “A questão é quanto”, pontua. Ele explica que a produção no país é muito heterogênea, tendo regiões que sofreram com enchentes e outras com chuvas abaixo do esperado.

Neste cenário, enquanto a produção do ano passado foi de 33 milhões, neste é esperada entre 27 e 29 milhões de toneladas. “Se for acima disso, é possível que os preços sofram e, se for abaixo disso, é possível que se recuperem”, completa. Já o Rabobank projetou, em relatório, uma produção um pouco maior para 2019/20, de 30,8 milhões, abaixo das 35 milhões de toneladas em 2018/19.

União Europeia perde relevância

Também de acordo com Botelho, entre os fatores altistas, a produção da União Europeia é o menos relevante, pois mantém o cenário do ano passado. Por lá, há o potencial de uma nova quebra na produção, que já teve uma redução significativa no ano passado.

“Este ano deve repetir o resultado passado em grande parte porque teve uma onda de calor nunca antes vista na Europa no período de junho e julho”, explica o analista, que completa: “A União Europeia não tem sido um fator que coloca tanto açúcar no mercado, como víamos a 12 meses atrás. É muito mais tímida no mercado internacional e ficará assim, servindo mais como um fator para o preço não cair mais”.

O Rabobank também enxerga essa redução na produção europeia, com o rendimento médio da beterraba calculado em 5% abaixo da média dos últimos cinco anos, ainda que 3% acima do desempenho da última temporada.

Gabrielle Rumor Koster – NovaCana

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