Enquanto a Índia e a Tailândia enfrentam seca e estresse térmico crescentes, as chuvas no Brasil podem prolongar as interrupções da colheita atual
Um El Niño de forte intensidade se tornou o principal fator climático para o mercado global de açúcar, segundo o mais recente relatório da Hedgepoint Global Markets. Enquanto a Índia e a Tailândia enfrentam seca e estresse térmico crescentes, as chuvas no Brasil podem prolongar as interrupções da colheita atual.
A consultoria ressalta que a maioria das agências meteorológicas espera que o fenômeno atinja seu pico entre o final de 2026 e o início de 2027, criando uma divergência entre as principais regiões produtoras.
No caso do Brasil, o fenômeno pode provocar precipitação extensa, diferentemente de outros países produtores que sofrem com a seca.
As previsões sugerem chuvas acima da média na maior parte do Centro-Sul entre outubro e dezembro – primavera e início do verão, com efeitos distintos sobre a colheita atual e o desenvolvimento da próxima safra.
“No curto prazo, chuvas adicionais provavelmente prolongarão as interrupções na colheita, reduzirão os níveis de ATR e diminuirão a eficiência operacional”, afirma, em relatório a coordenadora de inteligência de mercado da Hedgepoint, Lívea Coda.
Por outro lado, a especialista destaca que essa mesma umidade favorece o desenvolvimento da cana para a safra de 2027/28, melhorando potencialmente as perspectivas de produção.
As estimativas da Hedgepoint já consideram algum impacto sobre o Açúcar Total Recuperável (ATR) e a colheita da cana. Ainda assim, as previsões atuais de precipitação trazem risco de revisão para baixo. Uma disponibilidade mais restrita no quarto trimestre de 2026 e no primeiro trimestre de 2027 poderia dar suporte adicional ao contrato de março.
Ásia
A consultoria também avalia os riscos com o El Niño para a safra em grandes produtores de açúcar da Ásia. Na Índia, a consultoria ressalta que a temporada foi de chuvas abaixo do média, com déficits graves concentrados em Maharashtra e Karnataka, dois importantes Estados produtores.
As temperaturas elevadas aumentaram o estresse das culturas durante o período mais crítico do desenvolvimento da cana, gerando preocupações quanto aos rendimentos, à recuperação de açúcar e à eficiência da moagem.
“Isso sugere que o país pode vir a precisar de novas quotas de importação durante a safra 2026/27”, afirma Lívea Coda.
A Tailândia enfrenta uma situação semelhante, com previsões de chuvas abaixo do normal e temperaturas acima da média até o início de 2027. A forte dependência da produção de cana irrigada pela chuva faz com que a combinação de déficits de umidade e calor represente um risco substancial tanto para a produtividade quanto para o teor de açúcar.
As previsões de precipitação para novembro ainda podem ser positivas para o desenvolvimento da cana e restringir qualquer ideia de antecipação da colheita. Por isso, a expectativa é que o país inicie a colheita apenas em dezembro.
Na Indonésia, por sua vez, as perspectivas são menos prejudiciais para a safra atual, embora suscitem preocupações quanto à produção futura. A expectativa é que a estação chuvosa chegue mais tarde e seja mais curta do que o normal em grande parte do país, particularmente em Java, uma das principais regiões produtoras de cana.
Europa
Na União Europeia, a beterraba sacarina, principal matéria-prima de açúcar da região, sofreu com um verão excepcionalmente quente e seco.
A Hedgepoint revisou a projeção de produção de açúcar de 13,8 milhões para 13,1 milhões de toneladas, uma queda de 17% em relação à safra 2025/26 e um volume 2,2% abaixo dos números da Comissão Europeia.
As condições mais úmidas desde o final de agosto proporcionam algum alívio nas etapas finais do desenvolvimento da safra, embora chuvas excessivas no outono possam dificultar a colheita.
Paulo Santos