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Custos de produção da cana sobem em 2019/20 por influência da pandemia e do petróleo

Além das consequências previstas para 2020/21, fatores externos tiveram peso negativo nos gastos das usinas na safra passada

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Completando mais de sete meses de pandemia de coronavírus – apenas no Brasil –, já é sabido o impacto que ela está tendo e ainda terá em diversos setores da economia mundial. No caso da indústria sucroenergética, a baixa demanda por combustíveis devido às recomendações de isolamento social e à desvalorização do real perante o dólar tiveram profunda influência na produção das usinas.

Desta forma, especialistas do setor esperam que o resultado da atual safra de cana-de-açúcar seja diferente tanto da tendência observada nos últimos anos quanto das primeiras estimativas. Muitos deles, inclusive, foram reduzindo seus números ao longo do ano.

Por mais que esta perspectiva não surpreenda, pouco foi observado da influência deste cenário nos números finais da safra 2019/20. Esta análise é relevante especialmente por conta do período da entressafra, entre os meses de janeiro e março, momento em que a pandemia eclodiu no país.

O Instituto de Pesquisa e Educação Continuada em Economia e Gestão (Pecege) vem lançando, nos últimos anos, um estudo dos custos de produção para os produtores independentes e para as usinas sucroenergéticas, analisando e associando produtividade, gastos e rendimentos.

Na primeira pesquisa de 2019/20, publicada no primeiro semestre, o Pecege divulgou um resultado positivo, melhor que os das temporadas anteriores, com uma queda nos custos de produção – que ficaram em R$ 7.870,20/ha.

Normalmente, entre a divulgação dos números preliminares e dos finais há uma redução no resultado, considerando finalizações na moagem e novas vendas dos produtos. Neste caso, porém, conforme divulgado pelo Instituto, os efeitos do coronavírus foram sentidos nos custos, quebrando algumas tendências que estavam sendo observadas durante o acompanhamento da safra.

O resultado foi de um custo total médio de produção de cana-de-açúcar de R$ 111,82/t, o equivalente a R$ 8.548,00/ha. Para chegar a este valor, as usinas tiveram influências positivas, como o aumento da produtividade agrícola, e negativas, como o preço dos insumos e questões cambiais.

Confira, na versão completa (restrita para assinantes), gráficos e análises dos custos de produção finais da safra 2019/20.

Completando mais de sete meses de pandemia de coronavírus – apenas no Brasil –, já é sabido o impacto que ela está tendo e ainda terá em diversos setores da economia mundial. No caso da indústria sucroenergética, a baixa demanda por combustíveis devido às recomendações de isolamento social e à desvalorização do real perante o dólar tiveram profunda influência na produção das usinas.

Em relação ao etanol, este cenário adverso ainda se somou à guerra pelo petróleo travada entre Rússia e Arábia Saudita no início do ano. O resultado foi a queda nos preços e uma mudança substancial no mix produtivo das sucroenergéticas, que passaram a priorizar o açúcar após um ano intensamente alcooleiro.

Desta forma, especialistas do setor esperam que o resultado da atual safra de cana-de-açúcar seja diferente tanto da tendência observada nos últimos anos quanto das primeiras estimativas. Muitos deles, inclusive, foram reduzindo seus números ao longo do ano.

Por mais que esta perspectiva não surpreenda, pouco foi observado da influência deste cenário nos números finais da safra 2019/20. Esta análise é relevante especialmente por conta do período da entressafra, entre os meses de janeiro e março, momento em que a pandemia eclodiu no país.

O Instituto de Pesquisa e Educação Continuada em Economia e Gestão (Pecege) vem lançando, nos últimos anos, um estudo dos custos de produção para os produtores independentes e para as usinas sucroenergéticas, analisando e associando produtividade, gastos e rendimentos.

Na primeira pesquisa de 2019/20, publicada no primeiro semestre, o Pecege divulgou um resultado positivo, melhor que os das temporadas anteriores, com uma queda nos custos de produção – que ficaram em R$ 7.870,20/ha.

Normalmente, entre a divulgação dos números preliminares e dos finais há uma redução no resultado, considerando finalizações na moagem e novas vendas dos produtos. Neste caso, porém, conforme divulgado pelo Instituto, os efeitos do coronavírus foram sentidos nos custos, quebrando algumas tendências que estavam sendo observadas durante o acompanhamento da safra.

O resultado foi de um custo total médio de produção de cana-de-açúcar de R$ 111,82/t, o equivalente a R$ 8.548,00/ha. A amostra do Pecege se refere a 42 grupos, com 80 unidades distribuídas em sete estados do Centro-Sul. Juntas, elas foram responsáveis pelo processamento de, aproximadamente, 212,6 milhões de toneladas de cana, o que equivale a cerca de 37,08% da moagem da região na safra.

Recentemente, o Pecege realizou mudanças na metodologia de seu modelo de custos. Desta forma, não é possível fazer uma comparação direta com os resultados da safra 2018/19, por exemplo. Independentemente disso, no relatório referente à última temporada, o Instituto afirmou que, de fato, a conclusão de 2019/20 ainda foi positiva, com uma redução nos custos na comparação com as anteriores.

Dentre os motivos estão, especialmente, o aumento da produtividade agrícola, os níveis de inflação nacional e a expansão do plantio de cana pelo Método Inter-rotacional Ocorrendo Simultaneamente (meiosi) em oposição ao convencional.

Durante o evento Expedição Custos Cana, realizado pelo Pecege no início de outubro, o gestor de novos projetos João Rosa explicou que à medida em que aumenta a produtividade, ocorre uma diluição dos custos e, consequentemente, o valor total diminui. O mesmo se aplica à longevidade do canavial, na média.

“Perenizar o sistema de produção de cana, com o desafio de manter a produtividade alta, é o caminho da rentabilidade”, afirma. Ele ainda complementa que a análise é sempre mais justa quando os custos são comparados com a produção.

Na área da produção agrícola, os tratos culturais de cana soca corresponderam à maior parte dos custos, com R$ 2.229,84/ha. Esta quantia, mais alta que o observado na versão preliminar (de R$ 1.707,70/ha), deve-se especialmente ao aumento no valor dos insumos, que, por mais que estivesse baixo ao longo de 2019, atingiu um pico no início de 2020.

pecege custos usinas prod cana 201020

A queda da oferta destes produtos, devido ao fechamento da província de Hubei, na China, foi uma consequência da pandemia e influenciou este movimento altista. Além disso, a desvalorização cambial também teve um impacto negativo.

“Essa variação drástica durante o período final de levantamento das informações implicou em heterogeneidade quanto ao movimento dos custos com insumos ante à safra anterior”, aponta o relatório. O nível da influência nos gastos, então, dependeu do período em que a usina investiu na compra de insumos.

Ao analisar os dispêndios com a área de tratos culturais de cana soca, Rosa explica que a comparação por tonelada é a mais adequada, levando em consideração a produtividade média da usina. O gestor acredita que, com a tecnologia disponível hoje, é possível atingir os “desejados três dígitos”, porém fazer isso de forma rentável é mais difícil.

Desta forma, ele questiona qual o custo de atingir uma alta produtividade: “Dá para alcançar o patamar dos três dígitos, mas é preciso investir. Este investimento compensa?”.

“Alta produtividade não é sinônimo de custo baixo. Tem que analisar quanto foi investido para isso”, João Rosa (Pecege)

Já em relação aos tratos culturais de cana planta, que envolvem especialmente as operações de colheita, transbordo e transporte (CTT), Rosa explica que também há uma diluição dos custos quando a produtividade cresce, mas isso depende do rendimento do maquinário. Por outro lado, se o raio médio aumenta, os custos crescem.

Neste caso, a influência da pandemia de coronavírus foi positiva, pois o preço do diesel sofreu uma queda relevante no final da safra 2019/20, após uma estabilidade ao longo do ano passado. A soma destes fatores “resultou em quedas reais nas contas de maquinário no comparativo com a safra 2018/19”, demonstra o relatório.

O aumento na participação da colheita mecanizada – de 1,91 ponto percentual – ainda motivou essa redução. A conclusão do gerente de projetos do Pecege Haroldo Torres, também durante a Expedição Custos Cana, é que o setor tem ganhado eficiência no CTT.

Em contrapartida, um indicador que teve aumento na conclusão da safra 2019/20 foi o preço do arrendamento, que ficou em R$ 1.380,43/ha, impactado especialmente pela elevação do preço do açúcar total recuperável (ATR).

Botão explica que a relação entre o valor pago pelo arrendamento versus a quantidade de cana produzida não pode ser muito alta, pois o primeiro “está cada vez mais agressivo, tirando o sono dos produtores”. Em algumas regiões, como a de Ribeirão Preto (SP), há uma perda da competitividade da cana, afirma ele.

Também em relação ao plantio, a participação da modalidade de meiosi vem crescendo nos últimos anos e, conforme o relatório do Pecege, isso acarreta menores custos. “De forma geral, o plantio por meiosi representou uma economia de R$ 929,85/ha em comparação com o plantio mecanizado (quando da não contabilização dos custos com muda)”, relata o instituto.

As economias com o método são especialmente sentidas por evitar o transporte das mudas, que é um dos custos mais onerosos do plantio, e reduzir o investimento em insumos. Por outro lado, ele aumenta os gastos com mão de obra no comparativo com o método mecanizado, já que o plantio é feito, majoritariamente, de forma manual.

Menores investimentos em cana própria

Em relação à produção agroindustrial, o destaque fica com os investimentos com cana própria ou de fornecedores, em que os primeiros estão caindo e os segundos, aumentando. Conforme o Pecege, há uma grande dispersão nos valores pagos pela cana de terceiros, de R$ 77,16/t a R$ 107,22/t, com os preços mais altos se concentrando nas regiões com mais usinas.

pecege custos fornecedores mapa 201020

O gestor de novos projetos João Rosa explica que as usinas estão migrando sua estrutura de matéria-prima, comprando-a em vez de produzir. Nos últimos anos, tem sido mais barato adquirir, mesmo com bonificações, do que plantar. “As usinas estão terceirizando a produção e pagando melhor”, afirma.

Assim, em 2019/20, o valor pago pela matéria-prima de terceiros foi menor que os gastos com a cana produzida pelas usinas. “O preço médio pago pela cana de fornecedores independentes foi de R$ 90/t, um montante 12,7% menor que o custo-caixa da cana própria e 19,5% menor quando da consideração do custo total (que contabiliza os valores implícitos)”, traz o relatório.

pecege custos usinas agroindustrial 201020

A soma dos resultados de ambas as canas – um aumento da produtividade com a própria e a maior moagem da de terceiros – implicou em um maior processamento médio, que foi essencial para a diluição dos custos fixos industriais.

Assim, na comparação com a safra anterior, conforme o relatório do Pecege, “observou-se notória redução nos custos unitários (em R$/t) de mão-de-obra, manutenção industrial, depreciação e remuneração do capital fixo”.

Ao mesmo tempo, um final de safra mais focado no açúcar, que seria uma prévia do que está ocorrendo em 2020/21, fez com que houvesse uma maior pressão nos custos com embarque e frete da commodity, graças ao aumento na sua comercialização.

No total, levando em conta variações nas despesas com vendas, gerais e administrativas, o custo agroindustrial total de 2019/20 foi de R$ 138,16/t no Centro-Sul.

Margens positivas para os produtos

O gerente de projetos Haroldo Torres afirma que, em 2019/20, as usinas da amostra do Pecege, na média, aumentaram suas produtividade e moagem. Deste modo, elas diluíram o custo industrial, que é fixo quando ligado à mão de obra e manutenção. O maior custo da indústria, segundo ele, está na primeira etapa, de preparo, extração e recepção; já o segundo maior está nas áreas de apoio.

“O setor tem caminhado para se tornar um polo de alimentos e energia, e uma grande biorrefinaria. Por isso, é preciso apurar os custos de cada produto”, diz Torres. Porém muitas usinas ainda não fazem este acompanhamento, superestimando estes valores e subestimando a energia exportada, observa.

Por isso, o Pecege dá especial ênfase nos custos dos produtos em seu levantamento e, de forma geral, a safra 2019/20 foi marcada por preços melhores de comercialização do etanol e do açúcar na comparação com temporadas anteriores.

O diferencial está justamente na alteração entre o que foi visto nos meses de abril e dezembro de 2019 e no início de 2020. Na primeira parte, o preço do hidratado (em açúcar equivalente) foi maior do que o adoçante, o que incentivou sua produção recorde. Porém, na entressafra, essa relação se inverteu.

pecege custos preco 201020

Os motivos já são conhecidos: a queda de preços no mercado de combustíveis (provocada pelo conflito no âmbito da Opep+ e a redução do consumo) e a melhora da remuneração do açúcar, graças à desvalorização cambial e ao aumento do preço internacional até março deste ano, refletindo a expectativa de déficit no mercado global.

Por outro lado, o aumento dos custos de produção do açúcar durante a entressafra implicou na deterioração da margem econômica de todos os tipos. “Os preços de comercialização foram suficientes para cobrir até mesmo a depreciação – só não cobriram o custo de oportunidade do capital investido (remuneração do capital fixo)”, explica o relatório.

pecege custos usinas margens 201020

Já o valor do etanol vinha crescendo até fevereiro deste ano, até que houve o rompimento na tendência em março. Ainda assim, os preços foram suficientes para cobrir o custo total de produção de anidro e hidratado.

O relatório conclui: “De forma geral, os etanóis foram mais rentáveis que os açúcares no consolidado da safra 2019/20. A inversão de cenários motivada, em grande medida, pela covid-19, faz com que o adoçante apresente perspectivas mais positivas no que se refere à rentabilidade para a safra 2020/21“.

pecege custos usinas margens etanol 201020

Apesar disso, Torres espera que haja um aumento das despesas com vendas na próxima safra em função dos maiores volumes de produtos exportados, o que novamente pesará no dispêndio com fretes, bem como nas despesas de estadia e armazenagem nos portos.

Em relação à bioeletricidade, os dados apresentaram alta dispersão, conforme o Pecege. Mesmo assim, a usina média da amostra apresentou uma margem econômica de 70% com a produção de energia.

Em média, a venda da energia cogerada representou 7,3% da receita total das sucroenergéticas. Conforme Torres, grande parte das usinas não é suscetível à variação de preços no mercado spot e, por isso, confia em uma manutenção dos ganhos com bioeletricidade.

pecege custos usinas bioeletricidade 201020

Considerando os dados dos produtos, o Pecege relata que 2019/20 apresentou um cenário de rentabilidade satisfatório para o setor sucroenergético. “Apesar da falta de linearidade da estrutura de custos, em especial nos últimos meses da safra, o resultado foi, ainda, positivo para a maior parte das usinas. Aquelas que apresentavam organização financeira e econômica satisfatórias carregaram uma posição de caixa confortável para enfrentar os desafiadores primeiros meses da safra 2020/21”, descreve.

Torres acredita que, a despeito da “tempestade perfeita” do início da safra atual, o setor está caminhando para uma sequência de resultados bons e positivos. “A margem econômica da safra 2019/20 foi entregue pelo etanol, enquanto que nas safras subsequentes essa rentabilidade virá do açúcar, evidenciando a importância da diversificação”, afirma o gerente.

Para ele, estes resultados melhores poderão ser utilizados para destravar projetos que visem a maximização de valor para a usina, seja no plantio e no manejo, na indústria ou até mesmo na geração de novos produtos, com uma visão de economia circular.

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“Com essas margens positivas, teremos projetos que maximizam valor, primeiro pensando no ativo já instalado e depois pensando em novos projetos, como o etanol de milho”, espera Torres.

Assim, mais uma vez, o Pecege reitera que as usinas devem realizar um controle dos custos de produção para maximizar sua rentabilidade em situações de mercado favorável para os produtos e minimizar os prejuízos em casos desfavoráveis, como o que tem sido observado nesta temporada.

Rafaella Coury – NovaCana

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