Levantamento exclusivo com 18 consultorias e empresas especializadas traz estimativas de déficit entre 544 mil e 10,2 milhões de toneladas
Atualização (02/03, às 15h) O texto e gráficos foram atualizados por conta de novas projeções divulgadas pela Agroconsult e ISO.
A perspectiva de um déficit entre o consumo e a produção de açúcar na safra 2019/20 vem sendo a esperança para a sustentação dos preços da commodity ao longo deste e do próximo ano. O aporte nas cifras, inclusive, já começou a ocorrer nos futuros negociados pela bolsa de Nova York. E as estimativas de déficit feitas por empresas e consultorias vêm aumentando, conforme apontam os levantamentos periódicos realizados pelo NovaCana.
As safras dos gigantes – especialmente na Tailândia, mas também na China e na Índia – são pontos principais de influência. Os números destes produtores e a evolução dos preços ainda influenciam a produção brasileira, que funciona como uma grande balizadora para o mercado global de açúcar.
Na sondagem anterior feita pelo NovaCana, em setembro de 2019, 18 companhias estimaram déficits para 2019/20 que variavam entre 1 milhão e 9,7 milhões de toneladas. Na pesquisa mais recente, também com 18 empresas, o padrão se repete, porém a média do indicador subiu de 4,48 milhões para 6,88 milhões de toneladas.
A empresa que estimou o déficit mais elevado foi a MB Agro, com 10,2 milhões de toneladas, enquanto o mais baixo veio do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), que previu 544 mil toneladas.
Olhando adiante, sete consultorias já arriscaram números para 2020/21. Todas esperam um déficit, com uma média de 1,75 milhões de toneladas de açúcar demandadas além da produção. O valor mais elevado é o esperado pela MB Agro, 4 milhões de toneladas. Já o menor, da LMC Internacional, é de 587 mil toneladas.
Além disso, algumas empresas atualizaram seus números para a safra 2018/19, encerrada em outubro do ano passado. Dentre as 11 empresas consultadas, apenas a MB Agro estimou um déficit, com 1 milhão de toneladas – já o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) expressou o superávit mais elevado, com 6,56 milhões de toneladas. Na média, as consultorias estimam um superávit de 2,6 milhões de toneladas, pouco maior que a do levantamento de setembro, 1,8 milhões de toneladas.
Confira, na reportagem a seguir, gráficos comparativos das projeções, a evolução das médias, perspectivas de preços e análises do mercado global de açúcar feitas pelas seguintes empresas e consultorias:
- Abares
- Agroconsult
- BTG Pactual
- Commerzbank
- Czarnikow
- ED&F Man
- FAO
- FCStone
- Green Pool
- ISO
- Itaú BBA
- JP Morgan
- LMC
- MB Agro
- Platts
- Rabobank
- TRS
- USDA
Atualização (02/03, às 15h) O texto e gráficos foram atualizados por conta de novas projeções divulgadas pela Agroconsult e ISO.
A perspectiva de um déficit entre o consumo e a produção de açúcar na safra 2019/20 vem sendo a esperança para a sustentação dos preços da commodity ao longo deste e do próximo ano. O aporte nas cifras, inclusive, já começou a ocorrer nos futuros negociados pela bolsa de Nova York. E as estimativas de déficit feitas por empresas e consultorias vêm aumentando, conforme apontam os levantamentos periódicos realizados pelo NovaCana.
As safras dos gigantes – especialmente na Tailândia, mas também na China e na Índia – são pontos principais de influência. Os números destes produtores e a evolução dos preços ainda influenciam a produção brasileira, que funciona como uma grande balizadora para o mercado global de açúcar.
Na sondagem anterior feita pelo NovaCana, em setembro de 2019, 18 companhias estimaram déficits para 2019/20 que variavam entre 1 milhão e 9,7 milhões de toneladas. Na pesquisa mais recente, também com 18 empresas, o padrão se repete, porém a média do indicador subiu de 4,48 milhões para 7,19 milhões de toneladas.

A empresa que estimou o déficit mais elevado foi a MB Agro, com 10,2 milhões de toneladas, enquanto o mais baixo veio do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), que previu 544 mil toneladas.

Além disso, algumas empresas atualizaram seus números para a safra 2018/19, encerrada em outubro do ano passado. Dentre as 11 empresas consultadas, apenas a MB Agro estimou um déficit, com 1 milhão de toneladas – já o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) expressou o superávit mais elevado, com 6,56 milhões de toneladas.
Na média, as consultorias estimam um superávit de 2,6 milhões de toneladas, pouco maior que a do levantamento de setembro, 1,8 milhões de toneladas.

Fundamentos firmes para o déficit
Em relatório de janeiro deste ano, o BTG Pactual destacou que enxergava déficit para 2019/20, porém os estoques elevados e as posições especulativas impediam a existência de fundamentos altistas. Ainda assim, a análise mais recente evidencia as condições climáticas negativas para a cana-de-açúcar na Ásia. Com isso, o déficit deve ser o maior da década, de 8,47 milhões de toneladas, o que justificaria um aumento de preços de 35%.

A INTL FCStone também estima um déficit elevado, ainda que um pouco menor que o do BTG Pactual. Com 7,7 milhões de toneladas, este seria o maior déficit desde 2008/09 conforme a consultoria.
Considerando todo o cenário global, a empresa projeta uma oferta de 178,8 milhões de toneladas de açúcar, uma redução de 3,6% ante a safra passada. O peso da produção dos países asiáticos sobre a oferta de açúcar no hemisfério Norte deve continuar, com reforço das expectativas negativas de fabricação do adoçante nos Estados Unidos, México e União Europeia. Além disso, a produção brasileira também deve ser maior, ajudando a balancear o saldo global.
Já a demanda esperada pela entidade é de 186,5 milhões. Os estoques estimados, porém, são de 72,1 milhões de toneladas – ainda que estejam 9,7% abaixo em relação a 2018/19, eles ainda representam um excedente considerável.

Um déficit intermediário é previsto pelo banco holandês Rabobank. Motivado pelas reduções das projeções de produção para Índia, Tailândia e União Europeia, o volume demandado além da produção é de 8,2 milhões de toneladas, aponta o banco em análise de dezembro de 2019.
Já a Green Pool espera um déficit de 7,1 milhões de toneladas. Em relatório publicado em janeiro deste ano, a consultoria aponta que alguns analistas enxergaram um déficit entre 10 milhões e 12 milhões de toneladas, ainda que ela mesma não veja uma base sólida para números tão elevados. Ainda assim, houve um aumento na previsão de déficit ante a perspectiva anterior.

A consultoria espera uma demanda de 185,51 milhões de toneladas, enquanto a produção seria de 178,25 milhões de toneladas. Com isso, os estoques também devem cair.
“Os estoques atingiram o pico no final da safra 2018/19, com 96,74 milhões de toneladas, e estimamos que cairá para 90,12 milhões de toneladas no final da safra 2019/20”, afirma e completa: “Os estoques globais permanecem abundantes, mas só podem emergir no mercado a preços mais altos”.

Preços em reconstrução
Conforme observado pela Investing, o contrato futuro do açúcar com vencimento em março na ICE Futures vem apresentando uma valorização superior a 14% na comparação com o ano passado. De acordo com a reportagem – que cita o estrategista de commodities da RJO Futures, Eric Scoles –, as notícias de aumento do déficit têm trazido ganhos sólidos nos futuros do açúcar.
Além disso, de acordo com informações divulgadas pela Bloomberg, os contratos futuros acumulam um ganho de 12% em 2020, representando o melhor começo de ano para o açúcar em uma década – a despeito da propagação do coronavírus, que derruba as cotações de várias commodities, como petróleo, cobre e soja. O grande motivo, conforme a publicação, é a redução da safra tailandesa, o segundo maior exportador mundial.
O Rabobank lembra que os preços futuros do açúcar já ficaram acima dos 13 centavos de dólar por libra-peso no início de dezembro. Na ocasião, as expectativas eram de que o aperto nos estoques fornecesse suporte. “Os fundos têm sido particularmente ativos na redução de posições vendidas ao longo do trimestre”, afirma o relatório da entidade.
Por outro lado, os abundantes estoques a curto prazo e uma demanda de importação considerada “decepcionante” seguiam pesando sobre os preços. De acordo com o Rabobank, os estoques – especialmente na Índia – demonstram que o aumento será limitado: a diminuição gradual dos volumes armazenados traria a relação entre estoque e consumo global de volta à sua média de longo prazo nos próximos três trimestres do ano.
Ainda conforme o relatório, a safra brasileira que iniciará em abril é essencial para o “quebra-cabeça” global. A princípio, o banco enxerga que movimentos acima dos 14 centavos de dólar por libra-peso podem motivar uma mudança no mix de produção das usinas brasileiras.
Outro destaque dado pelo banco foi a necessidade de uma análise minuciosa das safras da Índia e Tailândia, já que as reduções de produção destes países impulsionaram a mudança no cenário global.
Por fim, há também fatores macroeconômicos e políticos que têm potencial para impactar o mercado do açúcar nos próximos meses. Entre eles, conforme o Rabobank, estão a evolução dos preços mundiais de petróleo e a influência da gasolina na arbitragem de açúcar e etanol no Brasil.

O relatório trimestral da JP Morgan, entidade que prevê um déficit de 6,4 milhões de toneladas para 2019/20, aponta que o preço fraco do açúcar nos últimos dois anos “enviou um sinal muito forte” aos produtores para reduzirem a produção e a capacidade produtiva a longo prazo. “Os valores precisam subir para conter o fluxo de novas perdas de produção”, detalha.
Posição semelhante foi expressa pela Organização Internacional do Açúcar (ISO), que acredita que os preços começaram o ano com um viés mais positivo, “refletindo o consenso de que o mercado enfrenta um déficit estatístico considerável na safra 2019/20”. Além disso, a entidade também visualizou uma mudança nas posições dos fundos de hedge para o longo prazo nos primeiros dias de 2020.
A instituição relembra que os preços subiram de 13,24 para 14,57 centavos de dólar por libra-peso entre o início do mês de janeiro e o dia 23 do mesmo mês, representando a cotação diária mais alta em dois anos. No final do mês, os preços se consolidaram em torno de 14,40 cents por libra, com média mensal de 13,13 cents por libra. O valor representa um aumento de 5,4% ante a média de dezembro.
Para o banco Commerzbank, é possível que os preços mais elevados do açúcar levem grandes países produtores a aumentarem sua produção em 2020/21. Os analistas da instituição enxergam que, caso o crescimento seja significativo, a temporada 2020/21 deve ser de déficit pequeno, com a possibilidade de transformação em superávit.
Brasil: balizador do déficit
A produção brasileira costuma ser a balizadora do balanço global de açúcar. Conforme a FCStone, a oferta de açúcar nacional deve ser maior por conta dos preços mais elevados, chegando a 29,4 milhões de toneladas.
O volume representa um crescimento de 12,9% ante o resultado de 2018/19 no Centro-Sul. No Norte-Nordeste, a produção também deve aumentar, ficando em 2,8 milhões, ou 9,9% a mais que a temporada passada.
De acordo com o Rabobank, o clima seco propiciou uma progressão mais rápida da moagem no Centro-Sul na temporada atual, mantendo os níveis de ATR elevados. O banco destaca que o foco no etanol foi benéfico ao longo do período, já que os preços superaram os do açúcar e as vendas seguem crescendo.
Para os próximos anos, no entanto, as coisas devem mudar. “O enfraquecimento do real brasileiro no final de novembro criou boas oportunidades para as usinas negociarem preços de açúcar em níveis atraentes para 2020 e 2021”, detalha o documento.
A Cofco também acredita que o Brasil deverá aumentar a produção de açúcar para preencher o déficit global. A empresa destaca que as usinas do país devem produzir entre 30 milhões e 31 milhões de toneladas de açúcar – no geral, as produções devem ser maiores por conta das chuvas, que têm beneficiado os canaviais.
O relatório da TRS é mais um a apontar que os preços do açúcar devem garantir que as usinas no Brasil aloquem mais matéria-prima para a produção de açúcar em comparação com o ano passado. Para a consultoria, caso contrário, não haverá tempo suficiente para atender à demanda mundial.
Em contrapartida, o USDA estima uma exportação de 18,6 milhões de toneladas de açúcar brasileiro para a temporada 2019/20, uma queda de 1 milhão de toneladas ante a projeção anterior. É o nível mais baixo dos últimos 12 meses, conforme o relatório, que destaca que as exportações não têm sido competitivas em relação à produção de açúcar (consumo interno) e etanol (consumo interno e exportações).
Tailândia: grande impacto no saldo global
A produção da Tailândia foi uma das que mais impactou no aumento do já esperado déficit global de açúcar.
A FCStone espera que a produção tailandesa seja de 12,5 milhões de toneladas, ou 15,9% a menos que no ciclo anterior. A redução da produção estimada aconteceu por conta da menor umidade, maléfica para a produtividade dos canaviais, e da troca da cultura de cana pela mandioca, por conta da baixa remuneração da primeira.
Fundamentos semelhantes são usados pela Green Pool, que ainda cita a cultura do arroz como substituta.
O Rabobank, que estima uma produção de 12,2 milhões de toneladas, ainda menciona que as chuvas ocorreram muito tarde e não foram capazes de reverter as perspectivas ruins para a cana. O banco também afirma que as importações “decepcionaram”, mas completa: “Possíveis mudanças nas volume produzido ainda menor, entre 9 milhões e 10 milhões de toneladas e do Vietnã podem criar oportunidades”.
A Cofco, por sua vez, enxerga um volume produzido ainda menor, entre 9 milhões e 10 milhões de toneladas, também por conta da seca e da baixa renovação dos canaviais. Conforme Marcelo de Andrade, responsável por soft commodities no braço de trading da empresa, o país passa por um processo parecido ao vivido pelo setor brasileiro no passado, após a expansão da mecanização.
O profissional acrescenta que as usinas tailandesas precisarão se acostumar com as máquinas e que, provavelmente, estão dirigindo sobre as soqueiras, fator que prejudica a colheita.
Índia: queda na produção à vista
De maneira geral, parece que as grandes safras asiáticas não devem se repetir. Conforme a Associação das Usinas de Açúcar da Índia (Isma), as usinas do país fabricaram pouco mais de 2,5 milhões de toneladas do adoçante até a primeira quinzena de janeiro, uma queda de 55,4% ante o mesmo período do ano anterior.
A FCStone estima que a produção indiana fique em 26,5 milhões de toneladas de açúcar, ou 19,5% a menos que o resultado da temporada 2018/19. Conforme relatório lançado em janeiro, o estado de Maharashtra tem sofrido com condições climáticas bastante heterogêneas, pegando os agricultores desprevenidos.
Segundo a consultoria, algumas áreas de cana foram alagadas nos últimos meses de monções e outras sofreram com a seca. Assim, o rendimento no campo caiu e, com ele, a produção de açúcar – a Green Pool, porém, acredita que alguns analistas “exageraram” nos danos causados pela seca e pelas inundações em Maharashtra.
Além disso, a FCStone espera que a produção de açúcar no estado se encerre em março, dois meses antes do usual. Outro estado prejudicado foi Karnataka, por conta da umidade, também reduzindo sua produção. Já Uttar Pradesh teve melhorias na produção por conta dos maiores rendimentos agrícolas e maior taxa de extração, que podem superar os patamares de 2018/19.
Mas não foi apenas o clima que impactou negativamente a produção indiana. O Rabobank espera que o aumento da produção de etanol também diminua a fabricação do adoçante, com um impacto calculado em 1 milhão de toneladas.
Outro ponto destacado pelo banco holandês é que 1 milhão de toneladas foram contratadas por outros países, sendo 60% de açúcar bruto e 40%, refinado. “O Irã emergiu como um grande comprador de açúcar bruto indiano. As usinas do norte – onde há grandes volumes de estoque com altos juros e custos de armazenamento – foram os principais vendedores”, expressa o documento. A estimativa do banco é que a produção indiana fique em 28,1 milhões de toneladas.
Também há perspectiva de lucro com a possível retomada das exportações para a Indonésia. O país esteve ausente do principal mercado de importação do mundo por anos, conforme reportagem publicada pela Bloomberg.
Já o USDA, apesar de projetar reduções para a safra indiana, espera um volume mais otimista: 29,3 milhões de toneladas. Quanto à demanda, são estimadas 28,5 milhões de toneladas, por conta da economia crescente. Já as exportações devem atingir 5 milhões de toneladas.
China: consumo estável
Na China, a FCStone espera que haja uma produção de 10,4 milhões de toneladas – 3,3% a menos que na temporada anterior. As áreas canavieiras do país sofreram com uma umidade inferior à usual no último trimestre de 2019, levando a um início antecipado da colheita e a uma produção acumulada de 3,8 bilhões de toneladas entre outubro e dezembro. O volume foi 60% maior que no mesmo período do ano anterior.
Por outro lado, conforme a consultoria, a seca pode pressionar a produtividade dos canaviais. Além disso, as atividades no campo devem, possivelmente, terminar antecipadamente, sendo acompanhadas também por uma menor produção de açúcar de beterraba.
O Rabobank visualiza um volume semelhante, de 10,5 milhões de toneladas produzidas, e destaca as perdas em Guangxi e Yunnan. O banco também crê que a produção de beterraba na Mongólia Interior e Xinjiang deve compensar, em partes, as perdas com a cana. Além disso, o consumo deve ficar estável em 14,3 milhões de toneladas.
Em relatório lançado em fevereiro, o banco destaca as influências do coronavírus nas produções chinesas. Para o açúcar, ele será "limitado e de curto prazo", informa o documento. Apesar do impacto negativo para as usinas por conta da desaceleração do consumo de alimentos e bebidas fora de casa, o consumo doméstico deve permanecer resiliente.
“Qualquer desaceleração deve se recuperar rapidamente assim que o surto for resolvido – a China ainda prevê um crescimento de 1% no consumo de açúcar em 2019/20”, expressa.
Quanto às influências políticas, existem incertezas por conta da remoção de tarifas adicionais existentes sobre importações extraquota após 22 de maio de 2020. Por outro lado, o esquema de licença automática de importação deve permanecer vigente.
“As importações da China em 2019/20 são projetadas em 3,5 milhões de toneladas, incluindo importações dentro da cota de 1,9 milhão de toneladas. O volume de açúcar contrabandeado continuará caindo no próximo ano, possivelmente para 600 mil toneladas”, detalha o relatório.
O USDA, que espera uma produção de 13,5 milhões de toneladas de açúcar no país, também expressa que as importações estimadas são mais baixas por conta da retirada antecipada de estoques e dos controles mais rigorosos nas fronteiras – já o consumo segue inalterado.
Europa: Rússia surpreende
Na União Europa, as estimativas da FCStone demonstram uma produção de 16,4 milhões, ou 4,1% a menos ante a safra passada. Boa parte do período de colheita foi chuvoso, especialmente na França e em algumas regiões da Alemanha, dificultando o trabalho.
“Foi sinalizado que parte das lavouras – ainda que proporcionalmente pequena em relação ao total cultivado – não deva ser colhida devido ao ambiente atipicamente úmido nos últimos meses”, detalha o relatório. Como consequência, a taxa de extração de açúcar é menor que a do ciclo anterior.
Já o Rabobank traz outro fator de influência na redução da área de plantio: os preços mais baixos, que desencorajaram os agricultores. Com isso, a área plantada na cultura de beterraba diminuiu 5,5% em 2019/20, para 1,43 milhão de hectares.
O documento da FCStone ainda destaca a produção russa que, conforme projeções, é estimada em um recorde de 7,4 milhões de toneladas na temporada 2019/20 – 1,3 milhão de toneladas a mais que a anterior. Isso ocorreu por conta da maior área colhida e por condições mais favoráveis ao desenvolvimento da beterraba no país. Desta forma, a produção russa deve ajudar a compensar as reduções esperadas para os maiores produtores.
Quanto aos preços, o Rabobank visualiza maior estabilidade, em 460 euros por tonelada de açúcar. Ainda assim, o valor está distante dos 328 euros projetados pela Comissão Europeia em setembro. “Esta enorme discrepância surge porque os preços informados pela Comissão refletem as vendas efetuadas sob contratos firmados até um ano antes, quando os preços eram muito mais baixos”, afirma.
Além disso, o banco destaca o aumento de 43% nas importações em 2018/19 ante a safra passada – mas ainda abaixo dos últimos anos antes da retirada das cotas de produção. Enquanto isso, as exportações caíram 49% em 2018/19.
Estados Unidos e México: prejudicados pelo clima
Nos EUA, o USDA estima uma produção de 7,8 milhões toneladas de açúcar, reflexo de uma redução da produção de beterraba devido às más condições climáticas para a colheita. As maiores retrações estão centradas no Vale do Rio Vermelho, nos estados de Dakota do Norte e Minnesota. Além disso, houve uma diminuição da produção de cana em Louisiana, também devido ao menor rendimento.
“As importações de 2,9 milhões de toneladas estão subindo um pouco e o consumo previsto está relativamente estável, mas estima-se que os estoques caiam para 1,2 milhão de toneladas”, detalha o relatório do departamento estadunidense.
Já a FCStone reduziu ainda mais a projeção para o país, para 7,4 milhões de toneladas – 9,4% a menos que no ciclo anterior. A diminuição ocorreu pelo maior acúmulo de neve nas regiões produtoras de beterraba, além do frio intenso ao longo do fim de 2019, pressionando a produção. O Rabobank vê volume semelhante, de 7,1 milhões de toneladas.
O país necessita, conforme o relatório detalhado do USDA trazido pelo Rabobank, de 1,66 milhões de toneladas para suprir a demanda de estoque para uso – todo o volume deve vir do México.
Por lá, aliás, o cenário muda muito pouco. Segundo a FCStone, a produção deve alcançar 5,9 milhões de toneladas em 2019/20, um volume 9% inferior à temporada anterior. Com menos chuvas, a produtividade reduziu e impactou o resultado tanto quanto o atraso no início das atividades pelas usinas – que chegou a 27 dias em alguns casos. Com isso, a colheita da cana pode avançar nos períodos chuvosos do México, que inicia entre maio e junho.
Já o USDA estima uma produção de 6,1 milhões de toneladas, também por conta da seca. “Embora a área colhida tenha aumentado 1%, o rendimento da cana-de-açúcar caiu 11% em relação ao ano passado, pois a seca reduziu severamente o rendimento nas regiões produtoras do nordeste e do Golfo do México”, detalha o relatório.
Por fim, o Rabobank destaca que os preços do açúcar mexicano devem ser sustentados pela redução da produção estadunidense, que levará a uma maior demanda.
Austrália: menor produção em oito safras
Para a Austrália, o Rabobank estima uma produção de 4,2 milhões de toneladas de açúcar, a menor desde 2012/13. Os rendimentos do plantio australiano foram impactados por uma seca sazonal e pela redução na qualidade da cana.
Além disso, também está prevista a exportação de mais de 3 milhões de toneladas de açúcar bruto. Segundo o Rabobank, é esperado que Japão, Coreia do Sul e Indonésia continuem sendo os principais compradores.
“As reduções tarifárias indonésias para a Índia em 5% – em linha com as tarifas australianas – devem ter um impacto limitado a curto prazo, devido à melhoria da qualidade e cor do açúcar bruto australiano”, destaca o documento.
Além disso, o consumo interno deve permanecer estável, com valor bruto de 1,2 milhão de toneladas. De acordo com o relatório, as preocupações da população com o consumo de açúcar não permitem que ocorra um crescimento.
O USDA, por sua vez, espera uma produção de 4,5 milhões de toneladas – redução de 5% ante a estimativa anterior, por conta dos rendimentos mais baixos. O documento reforça que cerca de 80% do açúcar australiano é exportado para países como Japão, Indonésia, Cingapura e Coreia do Sul.
Caminhos para a temporada 2020/21
Em geral, as consultorias que já arriscam números para a temporada 2020/21 esperam que haja um novo déficit – mas menor que o da safra vigente.
A Green Pool está entre elas: “[Os motivos são] o balanço da Índia mais alto, uma pequena recuperação da produção tailandesa e da União Europeia, e um aumento de consumo mais médio”.
Para o BTG Pactual, ainda que as condições climáticas voltem a ser mais favoráveis no hemisfério norte, normalizando a produção de açúcar, o Brasil seguirá destinando a matéria-prima mais fortemente para o etanol, reduzindo a oferta da commodity.

Conforme a Green Pool, é usual descrever o mercado de açúcar, ainda que de forma generalizada, como “três para cima e dois para baixo” – ou seja, três anos de superávit e dois de déficit. Porém, a consultoria observa que as recentes safras da Índia quebraram o “lado três” da equação, levando a um período de cinco anos com excedentes. Agora, o cenário caminha para dois déficits seguidos, em 2019/20 e 2020/21.
De acordo com a consultoria, já considerando o déficit previsto para 2020/21, os estoques globais devem cair um pouco, mas permanecerão em níveis elevados. A projeção é que eles diminuam de 90,12 mil toneladas, no final da safra 2019/20, para 89,1 mil toneladas em 2020/21. “Os estoques globais permanecem abundantes, mas só podem emergir no mercado a preços mais altos”, completa o relatório da Green Pool.
Já a Agroconsult espera uma produção de 177,5 milhões de toneladas, representando 5,28% a mais que o volume projetado para a temporada 2019/20. O consumo continuaria crescendo, para 178,6 milhões de toneladas, um aumento de 1,94% ante a temporada anterior.
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana