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[Exclusivo] As 52 usinas brasileiras que produziram etanol de melaço em 2019 e 2020

Informações da ANP trazem dados do processamento do subproduto para produção do combustível, que ainda é tímida no país

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A cana-de-açúcar é um vegetal com diferentes possibilidades. É possível consumi-la logo após colhida, servindo como alimento e fonte de energia; esta energia também pode ser adquirida por meio do seu processamento, originando o açúcar e o etanol; o bagaço pode ser utilizado para queima, produzindo ainda mais energia, ou mesmo para uma nova produção do renovável, com a segunda geração; e o melaço, subproduto da produção do adoçante, também tem sua utilidade.

Após a moagem da cana, o caldo é destinado à produção do açúcar bruto que gera, como subproduto, o melaço. Por meio de etapas convencionais de fermentação, destilação e desidratação, este subproduto pode ser convertido em etanol, aumentando as possibilidades das usinas.

Uma das primeiras usinas a investir nesta diferenciação como estratégia para dominar as exportações de etanol para os Estados Unidos foi a Costa Pinto, da Raízen Energia, em 2014. O plano era enviar o renovável para a Califórnia, participando do programa do Conselho de Qualidade do Ar da Califórnia (Carb, na sigla em inglês).

De lá para cá, outras usinas intensificaram o processamento do melaço para produzir o biocombustível. Atualmente, conforme estimativa do NovaCana de acordo com dados exclusivos da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e do Carb, 72 unidades produzem o renovável com o subproduto.

Conforme a ANP, entre janeiro de 2019 e abril de 2020, 52 usinas processaram o melaço para este fim. Foram 2,88 milhões de toneladas processadas no período, sendo 2,26 milhões em 2019 e 622,6 mil em 2020.

Confira, na versão completa do texto (restrita para assinantes), mais detalhes sobre o processamento do melaço conforme a ANP, informações exclusivas da produção da Raízen, e a relação entre o Carb e o renovável ao longo dos anos.

A cana-de-açúcar é um vegetal com diferentes possibilidades. É possível consumi-la logo após colhida, servindo como alimento e fonte de energia; esta energia também pode ser adquirida por meio do seu processamento, originando o açúcar e o etanol; o bagaço pode ser utilizado para queima, produzindo ainda mais energia, ou mesmo para uma nova produção do renovável, com a segunda geração; e o melaço, subproduto da produção do adoçante, também tem sua utilidade.

Após a moagem da cana, o caldo é destinado à produção do açúcar bruto que gera, como subproduto, o melaço. Por meio de etapas convencionais de fermentação, destilação e desidratação, este subproduto pode ser convertido em etanol, aumentando as possibilidades das usinas.

A disseminação do aproveitamento do subproduto para este fim só começou em 2014, com a unidade de Piracicaba (SP) da Raízen Energia, a Costa Pinto. À época, a empresa investiu nesta possibilidade como estratégia para dominar as exportações de etanol para os Estados Unidos, em especial para a Califórnia, participando do programa do Conselho de Qualidade do Ar da Califórnia (Carb, na sigla em inglês).

De lá para cá, outras usinas intensificaram o processamento do melaço para produzir etanol. Atualmente, conforme estimativa do NovaCana a partir de dados exclusivos da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e do Carb, 72 unidades produzem o renovável com o subproduto.

Conforme a ANP, entre janeiro de 2019 e abril de 2020, 52 usinas processaram o melaço para este fim. Foram 2,88 milhões de toneladas processadas no período, sendo 2,26 milhões em 2019 e 622,6 mil nos primeiros quatro meses de 2020.

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Conforme o diretor do Instituto de Tecnologia Canavieira (ITC), Jaime Finguerut, em entrevista ao NovaCana, o melaço vem sendo utilizado pelas sucroenergéticas brasileiras “desde sempre”. Inicialmente, as usinas tinham um só produto principal, o açúcar, e o melaço era “o que sobrava” após a extração dos cristais formados pelo caldo de cana evaporado. Desta forma, ele afirma que as usinas produziam o etanol do melaço desde antes de 1925, já que este era um dos seus melhores usos.

A produção do etanol utilizando o melaço não se restringe apenas a ele; a ideia é que o subproduto complemente o caldo da cana, porém há controvérsias – desde 2014 – sobre a utilização do melaço sozinho neste processo. Efetivamente, as sucroenergéticas brasileiras possuem destilarias anexas às refinarias, tendo como padrão o uso do caldo com alguma fração de melaço.

Por isso, seu uso exclusivo para a produção do etanol é mais raro, tornando o processo menos eficiente. Finguerut é categórico ao afirmar que “não é uma boa ideia” fermentar só melaço, sendo preferível a mistura ao caldo, e completa: “A fermentação só do melaço é mais difícil do que da mistura com o caldo, pois este dilui alguns excessos do subproduto, que aumenta o teor de açúcar do caldo de forma barata”.

Assim, não é possível fazer um cálculo simples sobre o rendimento das unidades que processam o melaço considerando suas produções do renovável no mesmo período.

De qualquer forma, de acordo com a ANP, a usina que mais processou o melaço coincidentemente também é a que mais produziu etanol, dentre as que o utilizam para este fim.

A unidade Serrana, localizada na cidade paulista de mesmo nome, do grupo Pedra Agroindustrial, processou 196,9 mil toneladas entre abril e novembro de 2019 e em abril de 2020. Já sua produção de etanol foi de 264,32 milhões de litros no mesmo período.

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Além dela, a única outra usina que ficou na mesma posição nos dois rankings foi a São Manoel, do grupo de mesmo nome e localizada em São Manuel (SP), com 141,91 mil toneladas de melaço processado e 150,36 milhões de litros produzidos também entre abril e novembro de 2019 e em abril de 2020.

Logo atrás da Serrana no processamento do melaço está a Santo Antônio, do grupo de mesmo nome, localizada em São Luiz do Quitunde (AL), com 180,4 mil toneladas utilizadas para potencializar sua produção de etanol, que chegou a 91,8 milhões de litros entre 2019 e 2020.

Os estados do Nordeste, inclusive, estão bastante presentes neste ranking, com 19 usinas que processaram, juntas, 1,25 milhões de toneladas de melaço em 2019 e no primeiro quadrimestre de 2020. A região só fica atrás do Sudeste, com 1,6 milhões de toneladas no mesmo período.

“Muitas das usinas do Nordeste privilegiam a produção de açúcar para exportação e usam o só melaço para produzir etanol, por isso a maior presença neste ranking”, Jaime Finguerut (ITC)

O Sul e o Centro-Oeste também estão representados dentre as usinas que processaram melaço de acordo com os dados da ANP, porém com número bem menos expressivos: 6,98 mil e 20,04 mil toneladas, respectivamente.

A usina Santo Angelo, do grupo de mesmo nome e localizada em Pirajuba (MG), ocupa o terceiro lugar dentre as que mais processaram melaço no período, e o nono do ranking da produção de etanol. Seguida dela vem a Mococa, da cidade paulista de mesmo nome, do grupo Ipiranga, com 176,4 mil toneladas.

Dentre os grupos, o Ipiranga foi o que mais acumulou processamento de melaço em todo o período analisado pela ANP: 426,82 mil toneladas das usinas Mococa, Iacanga e Descalvado. O segundo colocado, e com duas usinas – Caeté e Marituba –, foi o Carlos Lyra, com 220,53 mil toneladas de melaço.

Após o Carlos Lyra, todos os outros 33 grupos que constam na lista da ANP processaram menos de 200 mil toneladas do subproduto.

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O pioneirismo da Raízen Energia

Ocupando o nono lugar dentre os grupos que processaram melaço entre 2019 e o primeiro quadrimestre de 2020, a Raízen Energia acumulou 116,4 mil toneladas com a produção de 16 unidades. A com o maior volume foi a Costa Pinto, com 22,93 mil toneladas – o que a deixou em 29º lugar no ranking entre as usinas.

A produção da Raízen se concentrou entre os meses de abril de 2019 e abril de 2020. A Costa Pinto é a que apresentou o processamento mais constante, sendo a única que deixou de processar melaço em apenas dois meses: maio e junho de 2019.

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A usina, localizada em Piracicaba (SP), foi a primeira, do grupo e do país, a produzir o etanol de melaço, objetivando dominar as exportações do renovável para os Estados Unidos. No início de 2014, a empresa tentou convencer a Califórnia a classificar o seu produto como o primeiro etanol brasileiro exclusivamente de melaço, que teria como benefício a baixa emissão de CO2 durante seu ciclo de vida.

À época, a Atvos (que ainda era a Odebrecht Agroindustrial) questionou a proposta da Raízen – de que o etanol de melaço reduzia em quatro vezes a intensidade de carbono em relação ao produto da cana –, já que não era possível comprovar que todo o renovável direcionado para a Califórnia era realmente feito apenas do melaço.

Cinco meses depois, em junho de 2014, o conselho californiano concordou com o questionamento da Atvos – e de outras companhias – e considerou a intensidade de carbono liberada pela Costa Pinto durante sua produção de etanol maior do que a inicialmente declarada. Mesmo com a revisão, a classificação da unidade, à época, era a mais vantajosa do país.

A companhia inclusive afirmou ao NovaCana, também à época, que utilizava exclusivamente o melaço para produzir etanol – o que é pouco usual, já que ele normalmente complementa a produção com o caldo da cana. Porém, de acordo com os dados da ANP, entre dezembro de 2019 e março de 2020, a Costa Pinto produziu etanol registrando apenas o processamento de melaço.

Em 2014, o próprio Carb havia considerado que o melaço utilizado na Costa Pinto não era um subproduto, e sim uma matéria-prima em si – com efeito no campo, o que impediu a redução da nota sob o argumento de que não haveria mudança no uso do solo. Assim, condicionou a produção do etanol da unidade como totalmente feita a partir do melaço.

Sobre este assunto, Finguerut afirma que “de fato, a Raízen tem uma destilaria bem pequena em uma das suas usinas, que usa só melaço, próprio ou recebido de outras unidades do mesmo grupo”, provavelmente se referindo à companhia de Piracicaba.

O NovaCana entrou em contato com a Raízen para esclarecer este e outros pontos sobre a produção do etanol de melaço do grupo, porém o grupo não quis contribuir com a reportagem.

Atualmente, outras usinas possuem notas melhores do que a da Costa Pinto na classificação do Carb, especialmente pelo programa também considerar a produção de etanol de segunda geração e por muitas empresas terem reduzido suas emissões de CO2 ao longo dos anos.

Especificamente em relação ao etanol de melaço, a unidade com a melhor nota é a Ituiutaba, da BP Bunge, que não teve registro de processamento do subproduto em 2019 e no início de 2020, conforme a ANP. Atualmente, das que estão registradas com esta matéria-prima, a Costa Pinto figura no 20º lugar, inclusive abaixo de outras unidades da Raízen.

Melaço positivo para a Califórnia

A segunda companhia a propor uma diferenciação na sua produção a fim de se destacar na exportação para a Califórnia foi a GranBio, com seu etanol de segunda geração. A companhia registrou a Bioflex no programa em 2014 com uma nota também baixa, o que indica uma menor emissão de CO2 no processo produtivo e menor impacto no uso do solo.

Atualmente, ela segue na primeira posição na lista das usinas brasileiras registradas no programa. Em seguida vem os etanóis de melaço e de primeira geração da Ituiutaba, da BP Bunge, respectivamente. Das companhias que registraram o processamento do subproduto em 2019 e no primeiro quadrimestre de 2020, a Ibaté, da Raízen Energia, possui a melhor nota e fica em oitavo lugar da lista geral.

Atualmente, existem 38 usinas que produzem etanol de melaço na lista de exportadoras para a Califórnia, e elas se concentram em São Paulo, Goiás, Minas Gerais e Paraná. Em sétimo lugar dentre as melhores notas do Carb está a São Luiz, da Abengoa Bioenergia, que foi a segunda grande produtora de etanol do subproduto do país, conseguindo a autorização para exportá-lo em 2015.

Em 2016, nove sucroenergéticas enviaram propostas para o programa. À época, todas faziam parte da Copersucar e sete já exportavam etanol para a Califórnia. Eram as paulistas: Barra Grande, Quatá e São José, da Zilor; Serrana, da Pedra Agroindustrial – que teve o maior processamento de melaço no período analisado pela ANP; Jaboticabal e Pioneiros, da Santa Adélia; e São José da Estiva, do grupo de mesmo nome. Hoje, todas figuram na lista do Carb.

Para definir a possibilidade de exportação de etanol para a Califórnia, o Carb criou o Padrão de Combustíveis de Baixa Emissão de Carbono (LCFS). Diferentemente do RenovaBio, o programa estadunidense contabiliza as emissões de cada processo produtivo e não sua mitigação na comparação com a gasolina.

No cálculo, é utilizado o ciclo de vida da produção do biocombustível, com base em diversas fases do processo, incluindo uso da terra e outras emissões indiretas de carbono. É neste cálculo que o melaço sai na frente do caldo da cana-de-açúcar em relação ao dano ao meio ambiente, fazendo com que as usinas que o declaram tenham melhores notas.

Para as usinas, a participação no Carb pode ser uma alternativa para aumentar os rendimentos – o que também é a proposta do RenovaBio –, já que o programa oferece um prêmio referente ao carbono não emitido no processo produtivo do etanol que é exportado. Conforme o sócio fundador da Green Domus, Felipe Bottini, atualmente, a bonificação está próxima a US$ 170 por crédito, o que pode ser um respiro em momentos de crise.

Rafaella Coury – NovaCana

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