
Há exatamente um ano a Raízen deu início, oficialmente, a uma estratégia inédita para dominar as exportações de etanol para os EUA. Ao longo desse período a movimentação aconteceu de forma silenciosa e poucos conheceram os objetivos e detalhes dessa estratégia.
Mas nas últimas semanas documentos vieram à tona e isso mudou. Os primeiros a se manifestarem questionaram a iniciativa e podem atrapalhar os objetivos da empresa controlada pela Cosan. Entre os que argumentam contra os planos da Raízen está ninguém menos do que a gigante Odebrecht Agroindustrial.
Apesar da proposta ter potencial para diminuir significativamente o mercado de exportação das demais usinas, ela já foi previamente aprovada pelo governo da Califórnia nos EUA.
O portal NovaCana apresenta a seguir os detalhes do "novo" etanol proposto pela Raízen, como os concorrentes estão tentando desconstruir a iniciativa e por que a Raízen pode garantir uma fatia ainda maior de sua posição privilegiada nas exportações de etanol para os EUA.
Há exatamente um ano a Raízen deu início, oficialmente, a uma estratégia inédita para dominar as exportações de etanol para os EUA. Ao longo desse período a movimentação aconteceu de forma silenciosa e poucos conheceram os objetivos e detalhes dessa estratégia.
Mas isso mudou recentemente, quando documentos sobre os planos da Raízen se tornaram públicos. A empresa, por meio da usina Costa Pinto, em Piracicaba (SP), solicitou a aprovação de uma nova classificação para o seu etanol junto ao governo da Califórnia.
Com o respaldo de vários documentos, a empresa tenta convencer o estado americano a classificar o seu etanol como o primeiro "etanol de melaço". A diferença do etanol de melaço da Raízen, conforme defendido pela empresa, está na baixíssima emissão de CO2 durante seu ciclo de vida que seria, pelo menos, quatro vezes menor que a intensidade de carbono do etanol de cana brasileiro.
O sucesso da iniciativa pode fazer com que a Raízen envie etanol à costa oeste dos Estados Unidos com larga vantagem sobre os concorrentes brasileiros.
O órgão que regula a entrada de combustíveis no estado, o California Air Resources Board (Carb), já recomendou que seja aprovada a nova via de produção para o etanol da Costa Pinto. Mas o caminho pode ser mais tumultuado a partir de agora, com a opinião de concorrentes sobre os dados apresentados pela Raízen.
Entre os primeiros a argumentar contra os planos da Raízen está ninguém menos que a gigante Odebrecht Agroindustrial.
A unidade de Piracicaba já possui autorização para vender à Califórnia o etanol de cana-de-açúcar que produz. Classificado como ETHS003, o biocombustível da Costa Pinto é avaliado com uma intensidade de carbono de 66,4 g CO2e/MJ, um nível intermediário entre as seis classificações que o etanol de cana brasileiro recebe pelo LCFS. A nova modalidade de etanol que a Raízen pleiteia reduziria a intensidade de carbono em quatro vezes, o que o tornaria muito mais interessante frente às leis californianas do que o etanol de cana comum.
Conforme a documentação apresentada pela empresa, o etanol de melaço tem uma intensidade de carbono de apenas 14,93 g CO2e/MJ, enquanto o etanol de cana do Brasil possui, em seis classificações diferentes (conforme práticas e tecnologias adotadas), intensidades de carbono que variam de 58,4 a 78,94.
O pedido da Raízen foi enviado ao governo californiano há exatamente um ano atrás, em 31 de janeiro de 2013, e foi divulgado para consulta pública, com parecer favorável à aprovação, em 17 de dezembro de 2013. Durante o mês para manifestações sobre a nova via para o etanol de melaço, sete mensagens foram enviadas ao governo californiano, todas discordando da proposta.
O relatório da Raízen indica que a Usina Costa Pinto usa como matéria-prima para a fabricação de etanol exclusivamente o melaço. O documento afirma que, após a moagem da cana, o caldo é destinado à fabricação de açúcar bruto que gera, como subproduto, o melaço. Transferido para a destilaria, o subproduto do açúcar é convertido em etanol pelas etapas convencionais de fermentação, destilação e desidratação. Do volume produzido, conforme a estimativa da empresa, anualmente 30,2 milhões de litros de etanol de melaço seriam entregues por navio à Califórnia.
Segundo a Raízen, esse processo, da fabricação à entrega do biocombustível, resulta na emissão direta de 1,13 gramas de CO2 equivalente por megajoule. Quando o impacto das emissões pela mudança no uso da terra, é incluído na conta, a intensidade de carbono sobe para 14.67 g CO2e/MJ. Entretanto, o cálculo atribui apenas 34% do impacto total relacionado ao cultivo de cana-de-açúcar. Várias informações confidenciais, protegidas do acesso ao público, apoiam a solicitação da Raízen.
"Achamos que há um mal-entendido na proposição de valor para as emissões de uso indireto da terra para o etanol de melaço", diz o texto assinado por Vitor Caetano, da Odebrecht. Outros três comentários também indicam críticas ao cálculo e defendem que seja atribuída ao etanol de melaço a mesma intensidade de carbono do etanol de cana brasileiro.
Em um dos documentos, elaborado por um engenheiro independente, contratado para vistoriar a unidade e examinar a veracidade das informações, o diagrama de fluxo da usina mostra que, além de melaço, a Costa Pinto usa caldo clarificado para a fabricação de etanol, matéria-prima que não é mencionada em nenhum momento. A partir dessas informações, um dos comentários questiona se o etanol a ser direcionado para a Califórnia será mesmo feito apenas a partir do melaço e se o caldo destinado ao biocombustível foi ignorado no cálculo da intensidade de carbono.
A maioria dos autores dos comentários tem apenas o nome e sobrenome identificados, não fazendo menção à empresa ou instituição a que estão relacionados. Um deles é de Marcia Fonte, que mostra surpresa na recomendação do Carb para aprovação do etanol da Usina Costa Pinto. Nas palavras da autora, a usina é "um antigo engenho de açúcar que têm investido pouco ou nada para melhorar a sua pegada de carbono ao longo dos anos".
"Gostaríamos de perguntar gentilmente ao Carb se ele está dizendo que é melhor para um investidor interessado no fornecimento de combustíveis de baixo carbono para o mercado da Califórnia adquirir uma usina de quatro décadas de açúcar na América do Sul do que investir no desenvolvimento de tecnologia de ponta? Celulósica, por exemplo?", indaga Fonte. A remetente também não acredita na baixa intensidade de carbono defendida pela Raízen. "Não vamos nos enganar, o carbono para produzir o etanol a partir deste melaço está lá, assim como é com outras usinas de cana-de-açúcar", diz.
Já o comentário de Monica Hirsch aponta que o mesmo processo da unidade de Piracicaba é comum em muitas outras usinas. "Nós estimamos que 50,5 % de todo o etanol produzido no centro-sul do Brasil tem a mesma origem (melaço) e segue o mesmo caminho (em paralelo com diferentes quantidades de caldo de cana, dependendo da usina de açúcar)". Porém, afirma que no Brasil o etanol é produzido com uma mistura de caldo e melaço e não apenas com o segundo, como afirma a Raízen.
O melaço é essencialmente formado por glicose e frutose, que não cristalizam, ao contrário de sacarose, abundante no caldo e de cristalização simples. Conforme Hirsh, esse é o fato pelo qual o melaço é comumente uma parte da matéria-prima para o etanol, já que o processo é mais eficiente com a presença da frutose do melaço. Segundo ela, as leveduras "preferem" a frutose. Mas como o melaço é pobre em açúcares totais, a fermentação do etanol requer a presença da sacarose do caldo, sem ela o processo também seria ineficiente.
"Não há casos conhecidos de plantas, no estado de São Paulo, que produzem etanol a partir do melaço exclusivamente uma vez que, mesmo ignorando os pontos acima, as suas fábricas de açúcar são insuficientes para processar todo o caldo imediatamente. Tais plantas podem seguramente produzir etanol a partir de melaço, mas apenas uma pequena fração do total de etanol produzido nessa unidade", assegura.
O período para o envio dos comentários foi encerrado há duas semanas e agora o Carb analisa as opiniões enviadas antes de emitir uma avaliação final sobre a solicitação da Raízen.
Amanda SchArr - NovaCana
Mas nas últimas semanas documentos vieram à tona e isso mudou. Os primeiros a se manifestarem questionaram a iniciativa e podem atrapalhar os objetivos da empresa controlada pela Cosan. Entre os que argumentam contra os planos da Raízen está ninguém menos do que a gigante Odebrecht Agroindustrial.
Apesar da proposta ter potencial para diminuir significativamente o mercado de exportação das demais usinas, ela já foi previamente aprovada pelo governo da Califórnia nos EUA.
O portal NovaCana apresenta a seguir os detalhes do "novo" etanol proposto pela Raízen, como os concorrentes estão tentando desconstruir a iniciativa e por que a Raízen pode garantir uma fatia ainda maior de sua posição privilegiada nas exportações de etanol para os EUA.
Há exatamente um ano a Raízen deu início, oficialmente, a uma estratégia inédita para dominar as exportações de etanol para os EUA. Ao longo desse período a movimentação aconteceu de forma silenciosa e poucos conheceram os objetivos e detalhes dessa estratégia.
Mas isso mudou recentemente, quando documentos sobre os planos da Raízen se tornaram públicos. A empresa, por meio da usina Costa Pinto, em Piracicaba (SP), solicitou a aprovação de uma nova classificação para o seu etanol junto ao governo da Califórnia.
Com o respaldo de vários documentos, a empresa tenta convencer o estado americano a classificar o seu etanol como o primeiro "etanol de melaço". A diferença do etanol de melaço da Raízen, conforme defendido pela empresa, está na baixíssima emissão de CO2 durante seu ciclo de vida que seria, pelo menos, quatro vezes menor que a intensidade de carbono do etanol de cana brasileiro.
O sucesso da iniciativa pode fazer com que a Raízen envie etanol à costa oeste dos Estados Unidos com larga vantagem sobre os concorrentes brasileiros.
O órgão que regula a entrada de combustíveis no estado, o California Air Resources Board (Carb), já recomendou que seja aprovada a nova via de produção para o etanol da Costa Pinto. Mas o caminho pode ser mais tumultuado a partir de agora, com a opinião de concorrentes sobre os dados apresentados pela Raízen.
Entre os primeiros a argumentar contra os planos da Raízen está ninguém menos que a gigante Odebrecht Agroindustrial.
As regras do mercado mais desejado do mundo
A análise e classificação feita pelo Carb para liberar a entrada de combustíveis na Califórnia precisa seguir as regras do programa Low Carbon Fuel Standard (LCFS – Padrão de Combustíveis de Baixo Carbono), que é ainda mais rigoroso e complexo do que a regulação nacional para combustíveis renováveis, o Renewable Fuel Standard (RFS). Para o LCFS, quanto menor a emissão de carbono por unidade de energia (gramas de CO2 equivalente em megajoule), considerando todo o ciclo de vida do combustível, mais ele é valorizado.A unidade de Piracicaba já possui autorização para vender à Califórnia o etanol de cana-de-açúcar que produz. Classificado como ETHS003, o biocombustível da Costa Pinto é avaliado com uma intensidade de carbono de 66,4 g CO2e/MJ, um nível intermediário entre as seis classificações que o etanol de cana brasileiro recebe pelo LCFS. A nova modalidade de etanol que a Raízen pleiteia reduziria a intensidade de carbono em quatro vezes, o que o tornaria muito mais interessante frente às leis californianas do que o etanol de cana comum.
Conforme a documentação apresentada pela empresa, o etanol de melaço tem uma intensidade de carbono de apenas 14,93 g CO2e/MJ, enquanto o etanol de cana do Brasil possui, em seis classificações diferentes (conforme práticas e tecnologias adotadas), intensidades de carbono que variam de 58,4 a 78,94.
O pedido da Raízen foi enviado ao governo californiano há exatamente um ano atrás, em 31 de janeiro de 2013, e foi divulgado para consulta pública, com parecer favorável à aprovação, em 17 de dezembro de 2013. Durante o mês para manifestações sobre a nova via para o etanol de melaço, sete mensagens foram enviadas ao governo californiano, todas discordando da proposta.
Etanol de melaço: detalhes da proposta da Raízen
O registro da nova via de classificação para o etanol de melaço abrange, por enquanto, apenas a produção da unidade Costa Pinto, em Piracicaba. Segundo a documentação disponibilizada pelo CARB durante o período de consulta pública, a capacidade nominal da usina é de 216,5 milhões de litros de etanol de melaço por ano, sendo que o volume de produção médio é de 127 milhões de litros (33 milhões de galões) por ano.O relatório da Raízen indica que a Usina Costa Pinto usa como matéria-prima para a fabricação de etanol exclusivamente o melaço. O documento afirma que, após a moagem da cana, o caldo é destinado à fabricação de açúcar bruto que gera, como subproduto, o melaço. Transferido para a destilaria, o subproduto do açúcar é convertido em etanol pelas etapas convencionais de fermentação, destilação e desidratação. Do volume produzido, conforme a estimativa da empresa, anualmente 30,2 milhões de litros de etanol de melaço seriam entregues por navio à Califórnia.
Segundo a Raízen, esse processo, da fabricação à entrega do biocombustível, resulta na emissão direta de 1,13 gramas de CO2 equivalente por megajoule. Quando o impacto das emissões pela mudança no uso da terra, é incluído na conta, a intensidade de carbono sobe para 14.67 g CO2e/MJ. Entretanto, o cálculo atribui apenas 34% do impacto total relacionado ao cultivo de cana-de-açúcar. Várias informações confidenciais, protegidas do acesso ao público, apoiam a solicitação da Raízen.
Desconfiança e crítica
A Odebrecht Agroindustrial não concorda com o cálculo de emissões defendido pela concorrente. No cálculo proposto pela Raízen, as emissões indiretas – pela mudança no uso da terra – são computadas levando em consideração apenas o percentual de ATR contido no melaço, que seria de 34%, enquanto o restante compõe o caldo usado na fabricação de açúcar. A Odebrecht aponta que, por um critério de proporcionalidade, 34% do ATR contidos no melaço só pode resultar em 34% de etanol, portanto a emissão de CO2 não poderia ser a indicada e teria que permanecer a mesma definida para o etanol de cana, que é de 46 g CO2e/MJ."Achamos que há um mal-entendido na proposição de valor para as emissões de uso indireto da terra para o etanol de melaço", diz o texto assinado por Vitor Caetano, da Odebrecht. Outros três comentários também indicam críticas ao cálculo e defendem que seja atribuída ao etanol de melaço a mesma intensidade de carbono do etanol de cana brasileiro.
Em um dos documentos, elaborado por um engenheiro independente, contratado para vistoriar a unidade e examinar a veracidade das informações, o diagrama de fluxo da usina mostra que, além de melaço, a Costa Pinto usa caldo clarificado para a fabricação de etanol, matéria-prima que não é mencionada em nenhum momento. A partir dessas informações, um dos comentários questiona se o etanol a ser direcionado para a Califórnia será mesmo feito apenas a partir do melaço e se o caldo destinado ao biocombustível foi ignorado no cálculo da intensidade de carbono.
A maioria dos autores dos comentários tem apenas o nome e sobrenome identificados, não fazendo menção à empresa ou instituição a que estão relacionados. Um deles é de Marcia Fonte, que mostra surpresa na recomendação do Carb para aprovação do etanol da Usina Costa Pinto. Nas palavras da autora, a usina é "um antigo engenho de açúcar que têm investido pouco ou nada para melhorar a sua pegada de carbono ao longo dos anos".
"Gostaríamos de perguntar gentilmente ao Carb se ele está dizendo que é melhor para um investidor interessado no fornecimento de combustíveis de baixo carbono para o mercado da Califórnia adquirir uma usina de quatro décadas de açúcar na América do Sul do que investir no desenvolvimento de tecnologia de ponta? Celulósica, por exemplo?", indaga Fonte. A remetente também não acredita na baixa intensidade de carbono defendida pela Raízen. "Não vamos nos enganar, o carbono para produzir o etanol a partir deste melaço está lá, assim como é com outras usinas de cana-de-açúcar", diz.
Já o comentário de Monica Hirsch aponta que o mesmo processo da unidade de Piracicaba é comum em muitas outras usinas. "Nós estimamos que 50,5 % de todo o etanol produzido no centro-sul do Brasil tem a mesma origem (melaço) e segue o mesmo caminho (em paralelo com diferentes quantidades de caldo de cana, dependendo da usina de açúcar)". Porém, afirma que no Brasil o etanol é produzido com uma mistura de caldo e melaço e não apenas com o segundo, como afirma a Raízen.
O melaço é essencialmente formado por glicose e frutose, que não cristalizam, ao contrário de sacarose, abundante no caldo e de cristalização simples. Conforme Hirsh, esse é o fato pelo qual o melaço é comumente uma parte da matéria-prima para o etanol, já que o processo é mais eficiente com a presença da frutose do melaço. Segundo ela, as leveduras "preferem" a frutose. Mas como o melaço é pobre em açúcares totais, a fermentação do etanol requer a presença da sacarose do caldo, sem ela o processo também seria ineficiente.
"Não há casos conhecidos de plantas, no estado de São Paulo, que produzem etanol a partir do melaço exclusivamente uma vez que, mesmo ignorando os pontos acima, as suas fábricas de açúcar são insuficientes para processar todo o caldo imediatamente. Tais plantas podem seguramente produzir etanol a partir de melaço, mas apenas uma pequena fração do total de etanol produzido nessa unidade", assegura.
O período para o envio dos comentários foi encerrado há duas semanas e agora o Carb analisa as opiniões enviadas antes de emitir uma avaliação final sobre a solicitação da Raízen.
Amanda SchArr - NovaCana