
Principal mercado para o etanol de cana brasileiro nos Estados Unidos, a Califórnia sinaliza que as vantagens concedidas ao renovável feito no Brasil podem durar pouco tempo. Com a revisão da norma local, o etanol de milho produzido nos Estados Unidos pode roubar o espaço antes preenchido com o biocombustível brasileiro, considerado mais limpo por ter uma emissão de CO² menor em seu ciclo de vida.
Para compensar o impacto negativo, as usinas brasileiras buscam alternativas que também melhorem a classificação do renovável de cana e tornem o produto mais atrativo economicamente.
Principal mercado para o etanol de cana brasileiro nos Estados Unidos, a Califórnia sinaliza que as vantagens concedidas ao renovável feito no Brasil podem durar pouco tempo.
Este mercado, considerado um dos mais lucrativos e que já pagou prêmios generosos às usinas brasileiras, está criando condições para equiparar o etanol de milho americano aos mesmos níveis de baixa emissão de CO2, vantagem que, até então, era uma prerrogativa exclusiva do biocombustível brasileiro.
Além de desconfiar da capacidade de o país abastecer a Califórnia com um combustível avançado, o Conselho de Qualidade do Ar da Califórnia (Carb) sofre uma forte pressão da indústria americana de etanol.
Para piorar a situação das usinas brasileiras, além de as cotações do renovável americano estarem mais baixas nos Estados Unidos, algumas usinas de etanol de milho estão melhorando sua pontuação ambiental na Califórnia, como é o caso da Poet, que em uma de suas unidades obteve uma pontuação de CI muito próxima ao do etanol de cana brasileiro.
Este cenário levou o Carb a revisar alguns critérios de medição da intensidade de carbono (CI) do etanol americano. Com isso, a expectativa é que o etanol de milho receba cinco pontos a partir de 2016, o que diminuirá sua pontuação ou intensidade de carbono.
Usinas buscam alternativas
De olho neste importante mercado, empresas brasileiras como a GranBio e a Raízen já buscaram no Padrão de Combustível de Baixa Emissão de Carbono – LCFS, na sigla em inglês – uma diferenciação para tornar seus produtos mais competitivos e rentáveis.
As companhias apresentaram ao Carb produtos “mais limpos”, como um etanol de melaço da Raízen, que teve posição final rebaixada na Califórnia, ou o 2G da GranBio, que foi classificado pelo Carb como o CI mais limpo do mundo para um combustível produzido em escala comercial.
Mas com as vantagens do etanol de cana convencional ameaçadas, uma alternativa para conter a eventual perda de mercado para o etanol americano é a possibilidade de a Califórnia estabelecer critérios adicionais para melhorar a classificação de combustíveis.
Em entrevista ao portal NovaCana, o head de desenvolvimento de negócios da Roundtable on Sustainable Biomaterials (RSB), Matthew Rudolf, revela que a entidade está em conversas avançadas com o governo da Califórnia a fim de estabelecer critérios adicionais para diminuir o “score” ou a intensidade de carbono dos produtos que estas empresas comercializam. Quanto menor é o CI de um combustível, melhor é a sua classificação.
Rudolf não deu detalhes sobre como o LCFS incorporaria estes parâmetros de sustentabilidade, mas adiantou que a análise deverá considerar aspectos relativos à produção de combustíveis no nível “agrícola”.
Se uma medida como esta sair do papel, é provável que empresas como a GranBio sejam beneficiadas.
“Estamos trabalhando com as autoridades californianas para ajudar empresas como a GranBio a obter créditos de carbono adicionais e, essencialmente, melhorar sua pontuação [CI]”, disse o executivo da RSB.
A afirmação reforça a premissa de que a sustentabilidade tem sido vista não apenas do ponto de vista ambiental e social, mas também a partir do aspecto econômico.
“Muitas vezes pensamos na questão ambiental e social, mas isso acaba voltando para o âmbito econômico. O que realmente vale e faz com que os mercados avancem é a questão econômica”, disse o gerente de Marketing Corporativo e Sustentabilidade da Bunge, Michel Santos, em um evento que reuniu executivos do setor sucroalcooleiro em São Paulo no final de setembro.
Embora não haja um memorando de entendimento ou qualquer outro documento assinado com o governo californiano, Rudolf é otimista ao falar sobre a possibilidade de um acordo.
“Eles estão muito interessados nisso. Há um apoio interno muito forte no estado da Califórnia. Eu posso dizer que temos nos reunido por mais de três anos e foram muitas dezenas de reuniões. As discussões estão bem avançadas”, disse Rudolf.
O executivo da RSB explica que as conversas com o governo da Califórnia surgiram no âmbito de uma das frentes de trabalho do Carb.
“Há vários grupos de trabalho diferentes dentro do LCFS. Um deles é o grupo de trabalho da sustentabilidade, criado há cerca de três anos a pedido do conselho de diretores do Carb, que visa discutir como implementar a sustentabilidade dentro do LCFS”, explica Rudolf.
Foi a partir deste grupo que surgiu a ideia de “linkar a sustentabilidade com a intensidade de carbono” dos biocombustíveis, explica.
Além de discutir novos critérios para a emissão de créditos de carbono, a RSB, entidade que certifica projetos nas áreas de biocombustíveis e bioquímicos, busca junto às usinas uma certificação para o etanol 2G.
NovaCana