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Platts analisa como a crise de covid-19 afetou mercados global e nacional de etanol

No Brasil, queda nos preços do renovável já chegou a 38%; demanda no Ciclo Otto deve cair 11% em 2020

NovaCana 15 min de leitura

Um coquetel tóxico. Foi assim que a analista de biocombustíveis Beatriz Pupo, da S&P Global Platts, definiu o cenário atual do mercado de combustíveis, que soma a guerra de preços do petróleo à pandemia de coronavírus.

“Os eventos combinados viraram as estimativas de cabeça para baixo ao redor do mundo, em todas as commodities”, relatou Pupo em webinar promovido pela Platts.

De acordo com ela, o setor sucroenergético brasileiro enfrenta a tempestade perfeita. Os preços do petróleo tiveram mais de 50% de redução apenas em março, acompanhando o mercado internacional, e acumularam quedas de 80% no trimestre. A isto, ela junta a interrupção abrupta na demanda por combustíveis, que levou o preço do hidratado para o menor patamar em mais de dois anos.

Com a máxima histórica dos preços do biocombustível atingida no fim de fevereiro, o tombo foi ainda mais evidente. Conforme a analista, a queda ao longo de março foi de 38%. Ainda que tenha sido registrada certa reação nos estados que mais produzem etanol, o consumo ficou aquém dos patamares mais habituais, destacou Pupo.

“A gente sabe que o setor está propondo medidas em termos de estocagem e mudanças de impostos, mas ainda não há nenhuma decisão tomada nesse sentido”, explicou.

Conforme a Platts, a queda na demanda no Ciclo Otto deve ser de 11% em 2020. O panorama traçado pela empresa já inclui um maior impacto no hidratado, uma vez que a gasolina deve ficar mais competitiva. Desta forma, o biocombustível teria seu consumo reduzido em 18%, ficando abaixo de 20 bilhões de litros.

Enquanto isso, a produção de etanol deve cair 13% em 2020 – o equivalente a 4 bilhões de litros –, ficando em aproximadamente 27,5 bilhões de litros. Especificamente, a produção de etanol de milho é estimada entre 2,2 bilhões e 2,5 bilhões de litros para 2020.

Confira, na versão completa, as análises da Platts sobre os mercados de etanol nacional e mundial, e detalhes do funcionamento do mercado nacional.

Um coquetel tóxico. Foi assim que a analista de biocombustíveis Beatriz Pupo, da S&P Global Platts, definiu o cenário atual do mercado de combustíveis, que soma a guerra de preços do petróleo à pandemia de coronavírus.

“Os eventos combinados viraram as estimativas de cabeça para baixo ao redor do mundo, em todas as commodities”, relatou Pupo em webinar promovido pela Platts.

De acordo com ela, o setor sucroenergético brasileiro enfrenta a tempestade perfeita. Os preços do petróleo tiveram mais de 50% de redução apenas em março, acompanhando o mercado internacional, e acumularam quedas de 80% no trimestre. A isto, ela junta a interrupção abrupta na demanda por combustíveis, que levou o preço do hidratado para o menor patamar em mais de dois anos.

23042020 perspectiva etanol SP preco brasil

Com a máxima histórica dos preços do biocombustível atingida no fim de fevereiro, o tombo foi ainda mais evidente. Conforme a analista, a queda ao longo de março foi de 38%. Ainda que tenha sido registrada certa reação nos estados que mais produzem etanol, o consumo ficou aquém dos patamares mais habituais, destacou Pupo.

“A gente sabe que o setor está propondo medidas em termos de estocagem e mudanças de impostos, mas ainda não há nenhuma decisão tomada nesse sentido”, explicou.

Conforme a Platts, a queda na demanda no Ciclo Otto deve ser de 11% em 2020. O panorama traçado pela empresa já inclui um maior impacto no hidratado, uma vez que a gasolina deve ficar mais competitiva. Desta forma, o biocombustível teria seu consumo reduzido em 18%, ficando abaixo de 20 bilhões de litros.

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Enquanto isso, a produção de etanol deve cair 13% em 2020 – o equivalente a 4 bilhões de litros –, ficando em aproximadamente 27,5 bilhões de litros. Especificamente, a produção de etanol de milho é estimada entre 2,2 bilhões e 2,5 bilhões de litros para 2020.

Com a redução no consumo doméstico, a questão é para onde a produção de etanol vai ser escoada. Enquanto as exportações poderiam ser um caminho, a Platts não acredita que terão um incremento, justamente pela falta de demanda também externa.

Um dos principais mercados para exportação do biocombustível brasileiro é a Califórnia, com 40% de market share. Porém o estado também está com restrições na demanda devido às recomendações de isolamento social. “Mas, com a super desvalorização do real, a arbitragem está aberta novamente para a Califórnia. A nossa estimativa, por enquanto, é de 900 milhões de litros indo para lá, ante 750 milhões do ano passado”, pontuou Pupo.

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A analista acredita que o mercado de etanol seguirá “amargo” no curto prazo, caminhando para um melhor cenário aos poucos. Além disso, ela destaca a crença da Platts nas economias de baixo carbono, levando em conta apelos da população por mudanças em prol do planeta. “O papel dos biocombustíveis segue sendo fundamental nisso”.

Flexibilidade para aproveitar oportunidades

Para a especialista em preços da S&P Global Platts, Nicolle Monteiro de Castro, a grande aliada das usinas neste momento é a flexibilidade da produção. Segundo ela, as ferramentas de hedge foram positivas para os produtores de açúcar, minimizando a crise. “Uma opção inteligente foi negociar acima de 75% da cotação do açúcar antes do início da safra”, afirma.

Ela ainda pontua que a indústria brasileira já se provou resiliente em momentos de recessão e de preços subsidiados de combustível no país. “Não estamos vivendo uma gripezinha, mas o setor terá a flexibilidade necessária para que possamos lidar com este cenário e aprender lições que serão contadas para as próximas gerações”, afirma.

Ainda assim, nem todas as companhias têm as mesmas condições em tempos de crise. Ela observa que há condições de fluxo de caixa bastante heterogêneas entre as usinas, sendo que algumas conseguem ficar quatro meses sem vender, enquanto outras não teriam capacidade de ficar dois meses sem comercializar.

“Algumas usinas precisam vender o almoço para comer a janta. A pressão por venda é notável porque elas precisam fazer caixa”, Nicolle Monteiro de Castro (Platts)

Ela ainda relembra que a necessidade de privilegiar a produção de açúcar é derivada de uma virada de mercado grande e inesperada. O etanol, conforme Castro, “salvou” a indústria com uma remuneração muito acima dos custos de produção na temporada passada, quando os preços foram recordes para o hidratado.

Ao analisar os preços médios dos últimos quatro anos, base Ribeirão Preto, os dados da Platts demonstram que o preço mínimo da última temporada apresentou uma alta de 10% em relação ao ano anterior. Isso ocorreu em junho, quando o etanol era negociado a R$ 2.500/m³.

“Foi interessante esse preço mínimo em junho, bem fora da curva. Normalmente, ele ocorre no comecinho da safra, em abril ou em maio, quando a temporada está entrando com volumes grandes e os preços começam a cair”, relata Castro.

Além disso, ela observa que a mais recente entressafra não teve um corte de demanda tão expressivo como nas anteriores. O preço máximo foi em fevereiro, R$ 2.570/m³, alta de 17% ante o mesmo período da safra 2018/19.

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“Agora, temos esse momento de crise de demanda e queda no preço do petróleo, que é o pior cenário”, completa a analista, que comenta: “Se não tivéssemos entrado nessa situação de crise de demanda, muito provavelmente os preços de março continuariam nos patamares de fevereiro, quando o etanol ainda estava muito competitivo na bomba e o consumo estava muito firme”.

Em relação à margem média de remuneração do etanol, ela aponta que há uma variação de 43% entre as temporadas 2017/18 e 2018/19.

23042020 perspectiva etanol SP remuneracao

Para os cálculos, Castro considerou o preço Platts, base Ribeirão Preto e sem impostos. Como premissa, também foi usado o custo de produção calculado pelo Pecege.

Formação de preço: o longo caminho da usina à bomba

Castro destacou que a relação entre o preço do etanol nas usinas e nos postos não pode ser encarada de forma direta e imediata. Uma queda no valor do etanol nas usinas, por exemplo, não necessariamente será repassada pelo distribuidor para a ponta final, pois ele ainda trabalha com um estoque precificado em outro patamar.

Outro fator determinante é o imposto, pois o ICMS é calculado pelos estados com base no preço médio de bomba de quinze dias anteriores, um fator que aumenta o tempo do repasse de eventuais reduções para o consumidor final.

“Em 2019, enquanto o preço da usina variou acima de 23% positivo, para as distribuidoras ele variou, em média, 13%, e para a revenda, 12%. Ou seja, muito da alta do etanol hidratado não foi repassada em totalidade para o consumidor final”, pontuou Castro.

Conforme a analista, março de 2020 vai ser um mês que será estudado daqui para frente. Os preços das usinas caíram 15% no primeiro trimestre, sendo puxados principalmente pelo declínio visto no último mês. De acordo com ela, o preço caiu 0,4% nas distribuidoras e 1,7% nas revendas.

Com isso, a baixa de março deve se estender para abril e até mesmo para maio. “Há a dificuldade de que os estoques das distribuidoras, comprados a patamares mais altos, sejam precificados em patamares mais baixos”, explica Castro.

Além disso, caso as distribuidoras fiquem com estoques muito cheios, elas perdem a oportunidade de comprar o biocombustível a preços de mercado menores. Isso dificulta ainda mais a chegada dos preços mais baixos ao consumidor.

Estes cenários também determinam as margens de lucro das distribuidoras. Em um estudo que usa dados de São Paulo do ano passado, as distribuidoras tiveram uma margem de venda de R$ 0,13 por litro de hidratado, enquanto a de revenda teve R$ 0,18.

Conforme Castro, a margem oscila bastante, mas ela ressalta que, em momentos em que o preço está mais alto na usina, a margem para a distribuidora fica um pouco mais ajustada. Muito disso vem da tentativa de manutenção do market share: “É para não assustar muito o consumidor, perder esse perfil de consumo”.

Além disso, no momento de alta na usina, muitas vezes o movimento é contrário na margem da distribuidora. No ano passado, de acordo com a analista, as distribuidoras tiveram uma margem média 5% inferior à margem de revenda. No primeiro trimestre deste ano, contudo, as distribuidoras aumentaram a margem para R$ 0,21/l, enquanto o valor para as revendas caiu para R$ 0,15/l.

“A gente entende que parte disso é justamente pelo descasamento entre tempo e preço, variando na usina e no estoque, e por uma tentativa de minimizar as perdas que serão sentidas daqui para frente”, relatou Castro.

A guinada do mix sob um olhar histórico

Além dos preços baixos, a queda no preço do petróleo, a redução da demanda e o real desvalorizado favoreceram a perspectiva de uma maior produção de açúcar na temporada 2020/21. “Essa é a parte mais complexa e sofisticada no mundo sucroenergético brasileiro: a habilidade única que as usinas têm para flexibilizar a produção, para o açúcar ou para no etanol, dependendo da remuneração”, afirma Castro.

A atratividade para a produção do adoçante está “perto de níveis históricos”, conforme a analista. Atualmente, o mix de produção estimado pela Platts é de 43% para o açúcar e 57% para o etanol, mas ela acredita que “há um forte viés de mais incrementos”, de modo que ainda mais matéria-prima pode ser direcionada para o adoçante.

Castro aproveita para relembrar que, há oito anos, o Centro-Sul teve uma temporada com o mix de açúcar acima de 49%. De acordo com ela, isso demonstra o potencial do setor para produzir ainda mais, uma vez que, na época, o volume de cana era outro e a tecnologia, menos desenvolvida.

“O mercado já acessou um mix acima de 49% quando o preço do mercado internacional de açúcar foi propício a isso”, afirma e completa: “Três safras depois, a indústria novamente flexibilizou o seu potencial de mudança de produção e reduziu o mix para 40% – foi uma queda de 9% em três anos –, novamente como uma resposta aos mercados internacionais de açúcar”.

Ela ainda observa que, antes de junho de 2017, o mercado de etanol no Brasil não tinha a atual competitividade, que foi estabelecida pela nova política de formação de preços da gasolina da Petrobras.

Para completar, a analista observa que, além dos déficits ou superávits globais de açúcar, outro ponto de influência para os produtores brasileiros optarem pela sua produção é a desvalorização cambial. Ela tem sido relevante nos últimos meses, já que ocorre desde outubro de 2019. “Isso se tornou um ponto fundamental para que os produtores de açúcar começassem a fazer um hedge maior da exportação da commodity”, explica Castro.

Conforme a analista, nos primeiros dois meses de 2020, o preço do açúcar exportado foi equivalente a R$ 1.300 por tonelada. “Foi muito significativo para a indústria e representou uma alta de 27% em relação ao primeiro bimestre de 2019”, relata Castro.

Ela ainda complementa que os preços do adoçante no primeiro bimestre do ano são determinantes para a indústria fazer os seus estudos, incluindo a fixação de preços e a definição de como será o mix a ser adotado na safra.

Preferência do consumidor em questão

Castro pontua alguns hábitos de consumo evidenciados na região Sudeste. Analisando o volume de vendas em 2019, de janeiro a dezembro, o consumo foi maior em um momento em que o etanol não estava tão vantajoso. “Em julho, quando a gente tinha uma relação de preços de 61%, a demanda foi inferior à de dezembro, quando a relação era de 67%. Observando a curva de julho em diante, o volume de venda só teve decréscimo em novembro”, detalha.

Conforme a analista, o que mais influencia a demanda na região que mais consome etanol no país é o aumento do PIB, a sazonalidade da demanda e o maior valor absoluto da Gasolina C. “A diferença nominal acima de R$ 1,30 é um fator predominante. Muitas vezes, ela tem até um peso maior que a questão da relação entre os preços”, pontua.

23042020 perspectiva etanol SP venda paridade

Além disso, há influências de como os mercados de ambos os combustíveis funcionam. Segundo ela, o mercado do etanol é mais competitivo, com amplo número de produtores e compradores, o que minimiza o monopólio de preços. Por outro lado, o mercado da gasolina C é pouco competitivo. “Nós vimos que dois grandes produtores conseguem derrubar o preço no mercado global”, relembra Castro, referindo-se à recente guerra de preços entre Rússia e Arábia Saudita.

Por outro lado, o modelo de tributação da gasolina e do etanol se convergem e limitam a concorrência, de acordo com a analista. “Muitos se preocupam que a gasolina foi ajustada na refinaria e fazem uma projeção de quando isso pode chegar a um preço máximo de etanol hidratado na bomba, mas a resposta não é linear”, pontua.

Cenário global também preocupa

Para o futuro, segundo a analista Beatriz Pupo, o petróleo deve permanecer pressionado caso a demanda não seja reestabelecida – algo que não deve ocorrer tão logo. “Só a partir de agosto”, estima.

23042020 perspectiva etanol SP petroleo

Assim, ela acredita que a queda na demanda deve se manter nos meses de abril, maio e junho, sendo combinada com uma produção estável. Estes fatores devem aumentar os estoques a níveis nunca testados durante o período, de acordo com a analista.

Ela ainda afirma que, embora os operadores possam “segurar as pontas e seguir produzindo”, o que se vê é que, em algum momento, deve ocorrer um corte de produção. Conforme Pupo, os preços devem se recuperar para US$ 40 por barril apenas após os estoques começarem a ser usados, ou seja, a partir do terceiro trimestre do ano.

Com isso, o etanol e o biodiesel também são impactados. “O covid-19 vai acabar colocando o teto nos níveis de mistura, não só por uma perda de volume, mas também por preço. Os spreads e as margens da mistura estão negativos”, afirma.

23042020 perspectiva etanol SP demanda global

Conforme a analista, somando etanol e biodiesel, a perda na demanda mundial é de aproximadamente 16 bilhões de litros. Dessa quantia, 70% é de etanol; só nos Estados Unidos, a perda deve ser de 5 bilhões de litros, o equivalente a uma redução de 8% em relação ao ano passado.

Além disso, sobrariam 5 bilhões de litros para exportação no país norte-americano. “Agora, haverá apetite no mercado global para exportações? Ainda é muito cedo, mas, aparentemente, não”, projeta Pupo.

23042020 perspectiva etanol SP preco

De acordo com ela, a Platts acredita “que o pior ainda está por vir”. No final de março, mesmo as indústrias que ainda estavam operando já tinham parado de comprar milho. “Na nossa estimativa, a produção deve cair para aproximadamente 55 bilhões de litros, contra os quase 60 bilhões de litros que os Estados Unidos produziram ano passado”, projeta a analista.

Outro ponto importante neste cenário é a estocagem. Nos Estados Unidos, a capacidade máxima de armazenamento, segundo estimativa interna da Platts, é de aproximadamente 4 bilhões de litros.

A empresa também não crê que haverá redução de mandatos por parte da Agência de Proteção Ambiental (EPA), pois, com um menor volume de combustíveis sendo usado, serão necessários também menores volumes de etanol para a mistura. Porém dificuldades econômicas causadas pela pandemia podem ser consideradas pela agência.

23042020 perspectiva etanol SP demanda eua

Indo além dos Estados Unidos, a Platts observa que as margens se tornaram negativas também para os produtores de biocombustíveis da Europa. Ainda que os preços tenham começado a se recuperar no continente, Pupo afirma que a região registrou a taxa de produção mais baixa dos últimos sete anos.

Gabrielle Rumor Koster – NovaCana

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