Estudo do Pecege sobre a safra 2018/19 calcula custo médio de produção da cana em R$ 111,30/t e custos agroindustriais em R$ 140,68/t
Os custos de produção das sucroenergéticas do Centro-Sul estão mais elevados a cada safra. Desde a produção da cana aos gastos de processamento industrial, e até mesmo às despesas com vendas, cada fase do processo tem pesado cada vez mais no bolso dos usineiros.
As motivações são variadas. Na safra 2018/19, conforme um estudo do Instituto de Pesquisa e Educação Continuada em Economia e Gestão (Pecege), a situação se agravou por conta dos menores preços internacionais do açúcar e da queda na produtividade dos canaviais.
O documento ainda aponta que as despesas com a produção da cana própria estão mais altas do que os custos dos fornecedores, que enfrentaram prejuízo na temporada.
Com isso, fica evidente a dificuldade do setor para a diluição de custos – nos canaviais e na indústria –, já que grande parte deles são fixos.
Segundo o relatório, feito com base em valores de abril a dezembro de 2018, o que tem tirado a corda do pescoço das usinas é a comercialização de bioeletricidade. Além dela, a venda de subprodutos como o bagaço também ajudou a suavizar a deterioração dos resultados financeiros.
Confira, na versão completa, gráficos com as seguintes informações:
- Custos de produção da cana-de-açúcar das usinas no Centro-Sul em 2018/19
- Custos de produção agroindustrial das usinas no Centro-Sul em 2018/19
- Custos de produção e preços da bioeletricidade das usinas no Centro-Sul em 2018/19
- Margens econômicas do açúcar e do etanol, incluindo variação por tipo de produto
- Detalhes da amostragem
Os custos de produção das sucroenergéticas do Centro-Sul estão mais elevados a cada safra. Desde a produção da cana aos gastos de processamento industrial, e até mesmo às despesas com vendas, cada fase do processo tem pesado cada vez mais no bolso dos usineiros.
As motivações são variadas. Na safra 2018/19, conforme um estudo do Instituto de Pesquisa e Educação Continuada em Economia e Gestão (Pecege), a situação se agravou por conta dos menores preços internacionais do açúcar e da queda na produtividade dos canaviais.
O documento ainda aponta que as despesas com a produção da cana própria estão mais altas do que os custos dos fornecedores, que enfrentaram prejuízo na temporada.
Com isso, fica evidente a dificuldade do setor para a diluição de custos – nos canaviais e na indústria –, já que grande parte deles são fixos.
Segundo o relatório, feito com base em valores de abril a dezembro de 2018, o que tem tirado a corda do pescoço das usinas é a comercialização de bioeletricidade. Além dela, a venda de subprodutos como o bagaço também ajudou a suavizar a deterioração dos resultados financeiros.
Etanol e açúcar: produtos no prejuízo
Com preços baixos de açúcar na temporada – decorrente do excesso na oferta global –, tanto a versão VHP quanto a cristal tiveram margens econômicas negativas segundo o Pecege. De acordo com o levantamento, a receita obtida foi suficiente para cobrir apenas os custos operacionais (soma do custo-caixa com a depreciação).
“O preço não cobriu o custo total de produção, o que implicou na destruição de valor na produção de açúcar cristal e VHP, uma vez que as margens econômicas foram negativas para ambos os produtos”, detalha o estudo.
O documento ainda aponta que apenas opções com maior valor agregado, como os açúcares mascavo, orgânico e demerara, tiveram margem positiva, de 12,11%. Enquanto isso, o VHP teve margem negativa de R$ 4,89% e o cristal, de R$ 4,31%.

No caso do etanol, a situação não foi muito diferente. Os preços foram suficientes apenas para cobrir os custos operacionais de produção, mas não a remuneração de capital fixo. O anidro ficou com margem negativa em 0,43% e o hidratado, em 1,82%.
Ainda assim, a safra foi muito mais alcooleira. O açúcar total recuperável (ATR) destinado ao açúcar foi de 29,89% na média da amostra durante a temporada. Deste total, 78% foi destinado ao adoçante cristal branco, 4,61% ao VHP e os 1,98% restantes a outros tipos de açúcares, como demerara e refinado.
A maior produção de etanol foi justificada pela queda no preço do adoçante no mercado internacional, a mudança na política de precificação da gasolina no mercado interno e o aumento no preço do petróleo no mercado internacional.
O levantamento também calcula que as perdas industriais cresceram 7,7% na temporada. “[O aumento] pode impactar negativamente, ainda que de forma discreta, na eficiência produtiva de açúcar e etanol nas usinas”, complementa.
Bioeletricidade salvadora
De acordo com o Pecege, a geração de valor por meio da bioeletricidade é um dos fatores relevantes para o aumento na receita das usinas de cana. O produto é considerado menos volátil no mercado e vem, em alguns casos, salvando as finanças das unidades.
Conforme o levantamento, a produtividade elétrica das usinas foi de 60,50 kWh/t, com uma comercialização de 45,93 kWh/t na temporada. Os números mostram que, na média, 24,09% da energia elétrica foi destinada ao consumo interno da usina, enquanto 75,91% foi exportado para a rede elétrica.
Assim, retirando o custo da energia elétrica consumida pela própria usina e absorvida nos custos de produção do açúcar e do etanol, é possível saber quanto as companhias lucraram com este produto.
Com um preço médio de comercialização de R$ 12,43/t, ou R$ 261,60/MWh, a margem das unidades foi de R$ 8,23/t, ou R$ 192,60/MWh, sem a contabilização do uso do bagaço da cana.
“Trata-se de um resultado capaz de compensar o prejuízo econômico apurado, de forma geral, com os produtos principais da cana-de-açúcar”, expressa o relatório.

Com esse adicional, o Pecege aponta que as usinas conseguem uma margem econômica positiva. Enquanto o custo agroindustrial do processamento da cana-de-açúcar para a produção de açúcar e etanol foi de R$ 140,68/t, a receita total derivada destes produtos foi de R$ 137,50/t, gerando uma margem negativa de 2,26% na temporada 2018/19.
Por outro lado, quando a cogeração entra em jogo, bem como a comercialização de subprodutos, a margem fica positiva em 3,44%, ou R$ 7,10/t. Os subprodutos das usinas são, usualmente, o bagaço, que é vendido para outras unidades a um preço médio de R$ 59,22/t; e o óleo fúsel, obtido a partir da destilação.
“Este resultado evidencia a importância da cogeração na garantia de um resultado econômico positivo para as usinas brasileiras”, expressa o documento. O relatório também alerta que as usinas que não dispõem de cogeração em seu parque industrial possuem o risco inerente às atividades e possivelmente terão dificuldades de se manter no mercado, já que a cogeração tem sido a responsável pela geração de caixa relevante no setor.
Cana própria é mais cara que a de terceiros
Segundo o Pecege, em 2018/19, o custo médio da produção de cana pelas usinas foi de R$ 111,30 por tonelada, ou R$ 8.391,59 por hectare plantado. Dentre os fatores que contribuíram para os custos – considerados elevados – estão a baixa alavancagem operacional, a pressão dos preços dos insumos e a alta acumulada do preço do diesel.
Em um setor no qual os custos agrícolas são majoritariamente fixos, o Pecege afirma que é importante ter uma produtividade média elevada, a fim de diluir as despesas. Como o indicador foi de 75,39 t/ha na temporada, ele manteve a alavancagem operacional em nível reduzido, de modo que os custos unitários de produção foram beneficiados.
Por outro lado, a produtividade sofre a influência negativa de três fatores principais: poucas chuvas no começo da safra; mecanização da colheita, que ocasiona o pisoteio das soqueiras e compacta o solo; e o baixo investimento em renovação dos canaviais, em grande parte por conta do elevado endividamento das usinas.
Ainda de acordo com o documento, a alta do preço dos fertilizantes influenciou no aumento no custo dos insumos, que corresponderam a R$ 1.158,42/ha ou R$ 15,35/t no período. Isso ocorreu por conta da restrição deste tipo de produto no balanço global, motivado pelo aumento da demanda, o que ampliou os preços internacionais. Além disso, contribuiu para o cenário a desvalorização cambial do real em 2018, pressionando ainda mais os custos para o setor.

Fato semelhante ocorreu com o preço do diesel, que também aumentou no ciclo 2018/19. Ele impactou principalmente em etapas como a colheita, o trasbordo e o transporte (CTT), além do preparo do solo.
Inclusive, as operações de CTT foram as que mais impactaram nos custos de produção da cana-de-açúcar das usinas, representando 28,8% do total – R$ 2.417,29/ha ou R$ 32,06/t. Estes valores, porém, são diversos ao longo da amostra. As usinas mais eficientes tiveram, em média, custos de R$ 26,24/t, segundo o pesquisador do Pecege, João Rosa.
Após as operações de CTT, o maior custo está nos tratos da cana-soca, que representaram 22,1% do total, enquanto a formação de canavial somou 22,03%. Conforme o estudo, o uso da meiosi teve um aumento expressivo na temporada 2018/19, principalmente porque seu custo é menor frente ao plantio convencional, gerando uma economia de R$ 1,4 mil por hectare.
Em relação aos tratos culturais da cana-soca, os gastos ficaram em R$ 1.854,76/ha ou R$ 24,60/t na média da amostra. Mas, há uma dispersão entre os dados, com usinas apresentando gastos de até R$ 2,2 mil.
“Temos que questionar se ‘reais por hectare’ é uma boa unidade para avaliar os custos. O produtor que investe R$ 2,5 mil por hectare, como o pessoal de Rio Verde (GO), é um mau produtor? Não. Porque tudo depende de quanto isso vai trazer de resultado”, expressa Rosa, referindo-se ao ganho de produtividade que pode fazer o investimento valer a pena.
O quarto custo mais elevado das usinas no setor agrícola é com arrendamento, que representou 13,77% do total, equivalente a R$ 1.155,68/ha ou R$ 15,33/t. O valor, entretanto, é bastante heterogêneo entre a amostra analisada e depende da localização das unidades. As com maior custo estão em áreas em torno de Ribeirão Preto (SP) e São José do Rio Preto (SP), bem como nas usinas paranaenses.
Isso acontece pela grande quantidade de unidades em São Paulo, o que aumenta a competição por terra e o custo de arrendamento. O mesmo não ocorre em Goiás e Minas Gerais, onde há menor competição e preços inferiores pelas terras.
Conforme o Pecege, isso significa que os gastos médios com arrendamento comprometeram, em média, 21,6% da produtividade agrícola dos canaviais das usinas – ou seja, o equivalente a um “pagamento” de 16,26 t/ha.
Por fim, a depreciação dos canaviais também foi contabilizada no custo total, impactando com R$ 2.105,65/ha ou R$ 27,93/t.
“Segredo” está na diluição de custos
Os custos agroindustriais equivalem a R$ 140,68/t, sendo que os gastos com matéria-prima correspondem a 70,8% do total, ou R$ 105,22/t. O processamento agroindustrial, por sua vez, correspondeu a 16,99% do total, ou R$ 23,91/t. Já as despesas gerais, administrativas e com vendas somaram R$ 11,55/t ou 8,21%.
De acordo com o Pecege, esses dados comprovam que a estrutura de custos do setor sucroenergético no Brasil é predominantemente agrícola. Neste caso, os custos são predominantemente fixos, o que é um elemento complicador quando somado ao fato de que as usinas vêm gerando menos produto por área, ampliando o custo fixo médio. Para o Pecege, isso explica parte da deterioração dos resultados das unidades em 2018/19.

Além disso, apesar do custo com cana de terceiros ser menor – de R$ 81,52/t, já com bonificações – em comparação com o gasto de R$ 105,22/t com cana própria, 74,4% da matéria-prima processada em 2018/19 foi produzida pelas próprias usinas.
Em relação à operação industrial, o gasto mais elevado é com mão-de-obra (R$ 5,45/t), seguido pela remuneração de capital fixo (R$ 5,07/t). Outro ponto de impacto em relação às despesas gerais, administrativas e com vendas é o valor mais elevado para logística do açúcar VHP, incluindo custos portuários, de embarque e frete.
O relatório aponta que, assim como a alavancagem operacional é crucial na área agrícola, o mesmo vale para a operação industrial. Ou seja, quanto mais alavancada, mais os custos fixos são distribuídos por um volume maior de produção. Assim, quanto maior o nível de uso da capacidade instalada da sucroenergética, menor o custo, por conta da economia de escala.
“Na safra 2018/19, o nível de utilização da capacidade instalada atingiu o patamar de 87%, trazendo ociosidade e aumento dos riscos operacionais no processamento de cana-de-açúcar”, completa.
Detalhes da pesquisa
Ao todo, 69 indústrias da região Centro-Sul participaram da pesquisa. Elas são responsáveis pelo processamento de 160 milhões de toneladas de cana na safra, ou 28% da cana moída na região. Destas, 30 usinas estão em São Paulo, 17 em Minas Gerais, 11 no Paraná, sete em Goiás e quatro no Mato Grosso do Sul.
O processo de coleta de dados foi feito a distância por pesquisadores do Pecege. Eles estabeleceram contato com os grupos analisados e guiaram o cronograma de atividades com eles. Depois, as informações foram compiladas em um banco de dados específico para traçar as médias regionais.
Dentre os indicadores agrícolas usados nos cálculos estão: a área média estimada de cana própria de 24,94 mil hectares; a produtividade agrícola de 75,39 toneladas por hectare; e a concentração de ATR de 132,15 quilogramas por tonelada.
Dentre os indicadores de produção industrial está o downtime (período de inatividade da planta por conta de chuva, problemas industriais ou outros fatores), que correspondeu a 20,77% do período de safra, que totalizou 247 dias.
Conforme o relatório, a participação do plantio mecanizado sobre a área total plantada no Centro-Sul caiu para 50,6%, ante os valores entre 57% e 73% observados em 2017/18. O fato se deve ao maior uso da meiosi. Com isso, houve um aumento do plantio convencional, ou semi-mecanizado, no qual o cuidado com as mudas é maior, prevenindo falhas no plantio.
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana