Governo brasileiro diminui suas projeções para a produção brasileira de etanol nos próximos dez anos. Apesar do crescimento do mercado, os volumes previstos continuam em queda
O governo brasileiro segue diminuindo suas projeções para a produção brasileira de etanol nos próximos dez anos. Apesar do crescimento do mercado – que inevitavelmente ocorrerá –, os volumes previstos tiveram queda.
O mais recente Plano Decenal de Energia (PDE), lançado anualmente pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), entrou em consulta pública no dia 26 de outubro e detalha como o governo espera que o país produza e consuma energia nos próximos dez anos. Apesar das projeções terem mudanças sutis em relação à edição passada, houve uma redução nos volumes estimados de produção do renovável.
As retrações nas previsões governamentais não são de hoje. Desde a versão do documento que projetava o mercado para 2024, a EPE diminuiu suas estimativas nas duas edições subsequentes.
Mesmo assim, o volume projetado para 2027 é de 45 bilhões de litros, um aumento de 50% frente a oferta de 2017, que foi de 30 bilhões de litros. O crescimento ocorrerá, mas não será tão intenso como se imaginava e se distancia da expectativa de 49 bilhões em 2030, estimada com o RenovaBio em vista.
Além disso, as perspectivas de moagem de cana e produtividade dos canaviais se ampliam na nova projeção, enquanto a demanda por etanol e sua produção possuem crescimento estável na comparação entre 2026 e 2027.
Confira, na versão completa, gráficos e análises sobre as projeções do governo, em um comparativo com o PDE 2026:
- Projeção de oferta de etanol anidro, hidratado e total
- Perspectiva de demanda de etanol
- Comparativo de projeções para o mercado de etanol até 2030
- Estimativa para a produção brasileira de açúcar
- Projeções da produtividade dos canaviais e da quantidade de cana colhida
- Perspectiva de destino da cana e mix de produção das usinas
- Variação no número de usinas em operação entre 2017 e 2027
- Tabela comparativa entre os dados dos dois últimos PDEs
O governo brasileiro segue diminuindo suas projeções para a produção brasileira de etanol nos próximos dez anos. Apesar do crescimento do mercado – que inevitavelmente ocorrerá –, os volumes previstos tiveram queda.
O mais recente Plano Decenal de Energia (PDE), lançado anualmente pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), entrou em consulta pública no dia 26 de outubro e detalha como o governo espera que o país produza e consuma energia nos próximos dez anos. Apesar das projeções terem mudanças sutis em relação ao ano passado, houve uma redução nos volumes estimados de produção do renovável.
As retrações nas previsões governamentais não são de hoje. Na versão do documento que projetava o mercado para 2024, a EPE delineava 44 bilhões de litros de etanol até o final do período – já o PDE 2025 não foi publicado, pois a EPE ficou insatisfeita com os dados finalizados, que poderiam estar defasados.
Em seguida, o PDE 2026 reduziu a projeção para 41 bilhões de litros em 2024. Agora, a mesma equipe que produziu o documento dá continuidade ao trabalho com o PDE 2027 e calcula uma nova retração, projetando, desta vez, 40 bilhões de litros em 2024.
Com isso, em 2027, o volume estimado é de 45 bilhões de litros, um aumento de 50% frente a oferta de 2017, que foi de 30 bilhões de litros.
Já em relação ao RenovaBio, o NovaCana calcula que, para atingir o volume previsto de 49 bilhões em 2030, a produção terá que crescer 1,34 bilhão, em média, nos anos seguintes.

Conforme o documento da EPE, entre 2017 e 2027, a produção de etanol anidro passará de 11 bilhões para 12 bilhões de litros e a de hidratado, de 30 bilhões para 45 bilhões de litros. Entretanto, é interessante observar o que aconteceu neste e no ano passado: o consumo de etanol hidratado teve uma queda no comparativo entre os dois PDEs, evidenciada por uma oferta menor em 2017, com recuperação considerável em 2018 – aspecto já presente no documento mais recente.
No último ano, a demanda e a valorização aquecida do biocombustível fizeram com que sua participação de mercado crescesse, fato que terá efeito sobre os próximos dois anos, segundo a EPE. Daí em diante, a curva tem crescimento estável para atingir a oferta de 45 bilhões de litros, entre etanol anidro e hidratado, em 2027.

O panorama de consumo de etanol reflete este cenário, também apresentando uma retração em 2017 e uma recuperação no ano posterior. Com o crescimento esperado para os anos seguintes, o governo estima que o país atinja um consumo de 44 bilhões de litros em 2027, um bilhão a menos do que a oferta.

Vale lembrar que a projeção de 49 bilhões de litros para 2030 foi revisada em maio deste ano e detalhada por outro estudo da EPE, que apresentou os cenários de crescimento possíveis e específicos para o setor de etanol, tanto de oferta quanto de demanda do Ciclo Otto, entre 2018 e 2030. Anteriormente, esse valor era de 50 bilhões de litros.
Projeção de crescimento cautelosa
As mudanças na previsão afetam principalmente os cenários a curto prazo, sinalizando o impacto do momento atual do setor. O relatório detalha os problemas atualmente enfrentados pelas usinas, como: endividamento elevado, dificuldade em renovação de canaviais, inserção de novas variedades, queda na captação de recursos e até um descompasso no processo de mecanização e outras operações ligadas ao cultivo e à colheita de cana.
“Observa-se que o setor está passando por um período de ajustes, no qual busca o equacionamento da sua situação financeira. Neste contexto, estão inseridas ações para melhoria dos fatores de produção, as quais propiciam redução dos custos e aumento de margem, elevando sua sustentabilidade financeira”, detalha o documento.
Além disso, a redução na produção de açúcar observada nesse ano, por conta da baixa remuneração do adoçante e da valorização do etanol, terá uma recuperação lenta a curto prazo. Ainda assim, o resultado para o final do período teve pouca variação entre o PDE 2026 e o estudo atual.
A produção de açúcar foi projetada para 44 milhões de toneladas em 2027, o mesmo montante que em 2026. No PDE 2026, o volume projetado para o final do período era um pouco menor, 43,8 milhões de toneladas.

No estudo, a EPE também considerou fatores climáticos que influenciaram positivamente a cultura de cana-de-açúcar, como o aumento do ATR por conta do inverno mais seco no Centro-Sul, além da maior incidência de chuvas no Nordeste. Com isso, o indicadores de moagem e de área colhida tiveram aumentos percentuais mais elevados entre os dois planos decenais.
Quanto à produtividade, os valores projetados tiveram uma redução no médio prazo, seguida da recuperação para o final da década. No PDE 2026, o índice a ser atingido em 2020 era de 78,3 toneladas de cana por hectare, número que foi reduzido no documento mais recente – agora, a perspectiva para 2021 é de 77,4 t/ha. Já o índice projetado para o fim da década era de 82,9 t/ha no PDE 2026, sofrendo uma recuperação no relatório mais recente, em que foi projetado 84,9 t/ha para 2027.
O volume de cana colhida, prevista pelo PDE 2026, era de 820 milhões de toneladas para o final do período – a versão mais recente do documento aumentou a quantia para 837 milhões de toneladas em 2027. Nela, a estimativa para 2026 também foi superior, de 825 milhões de toneladas.

Por sua vez, a destinação de cana para etanol, que era de 500 milhões de toneladas para 2026, foi retraída para 495 milhões de toneladas – para 2027, a projeção é de 506 milhões de toneladas. “O mix de cana destinada ao etanol varia de 55% em 2017 para 60% em 2027, aumento que se deve à maior demanda pelo biocombustível”, aponta o documento.

Quanto ao número de usinas em atividade entre 2016 e 2017, a EPE registrou uma redução de em nove unidades – de 378 para 367 – o que, consequentemente, reduziu a projeção no comparativo entre 2026 e 2027, que passou de 396 para 387 usinas. O panorama é o mesmo que o divulgado em maio deste ano.

Etanol celulósico e etanol de milho
Em relação à produção de etanol de segunda geração, o PDE expõe que ainda existem dificuldades com filtragem de lignina nas duas plantas existentes no Brasil, da GranBio e da Raízen. Conforme o documento, a expectativa é de uma fabricação de cerca de 800 milhões de litros de etanol de segunda geração em 2027. Na perspectiva passada, a EPE enxergava que para 2026 o volume seria de 634 milhões de litros – uma ampliação de 166 bilhões de litros entre um ano e outro.
Por outro lado, o presidente do conselho de administração da Cosan, Rubens Ometto, prevê aumentos anuais na produção do E2G na planta da Raízen. A estimativa é de 20 milhões de litros na safra 2018/19 e 40 milhões de litros na temporada seguinte. A expectativa foi exposta durante a 18ª Conferência Internacional Datagro sobre Açúcar e Etanol. “A planta, sob os aspectos operacional e técnico, está funcionando perfeitamente”, garante.
Já o etanol de milho estará na casa dos dois bilhões de litros na projeção mais atual do governo. No documento anterior, a EPE não estimou qualquer volume para o biocombustível, que foi considerado em outros estudo publicados pela empresa nesse ínterim.
A primeira vez em que o governo incluiu o etanol feito com o grão de milho nas suas projeções, havia a expectativa de produção dos mesmos dois bilhões de litros, mas apenas para 2030. Em documento mais recente, a EPE afirmou que, em um cenário de alto crescimento do setor de etanol, o volume pode chegar a até 3,4 bilhões de litros no mesmo ano.
O mercado, por sua vez, é mais otimista em relação ao biocombustível de milho. Em maio deste ano, o banco holandês Rabobank publicou um relatório sobre a produção do grão no Mato Grosso com volumes ainda mais robustos – a marca de dois bilhões de litros poderia ser atingida já nos próximos três anos. Além disso, para o presidente da União Nacional de Etanol de Milho (Unem), Ricardo Tomczyk, a quantia saltaria de entre 600 e 700 milhões de litros para algo entre 3 e 3,5 bilhões de litros ao ano até 2023.
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana