Mesmo com os “sinais positivos” do RenovaBio, novas estimativas de oferta e demanda do biocombustível são menores que há dois anos
Apesar do que chama de “sinais positivos” do RenovaBio, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) reduziu suas estimativas de oferta e demanda de etanol para 2030. As perspectivas atualizadas foram expostas pelo diretor de estudos do petróleo, gás e biocombustíveis, José Mauro Coelho.
A nova projeção espera que as usinas brasileiras produzirão 49 bilhões de litros em 2030. O valor está 5 bilhões de litros abaixo da projeção realizada em 2016, e reforçada em 2017, quando a EPE estimava uma oferta de 54 bilhões de litros de etanol em 2030.

O MME, na consulta pública sobre as metas do RenovaBio apresentadas na última sexta (04), projetou que o etanol alcançará uma produção de 47,1 bilhões de litros em 2028.
O destaque, no entanto, não é o volume, que, apesar de menor, está em linha com as expectativas, mas em como este volume será alcançado.
O NovaCana fez um compilado das estimativas da EPE envolvendo os pontos que interessam mais ao mercado:
- Evolução da oferta e da demanda
- Comparativo com estimativas anteriores
- Expectativas para o etanol de milho
- Números do etanol celulósico
- Perspectivas de importação e de exportação de etanol
Apesar do que chama de “sinais positivos” do RenovaBio, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) reduziu suas estimativas de oferta e demanda de etanol para 2030. As perspectivas atualizadas foram expostas durante palestra realizada pelo diretor de estudos do petróleo, gás e biocombustíveis, José Mauro Coelho, no mês passado, no Rio de Janeiro.
A princípio, a expectativa do mercado era de que o consumo de renováveis aumentasse até 2030, atingindo a marca de 50 bilhões de litros – considerada ideal para que o país cumpra o compromisso assumido na COP-21. Segundo a nova projeção, contudo, tanto a oferta quanto a demanda anual de etanol devem ficar levemente abaixo dessa meta, com 49 bilhões de litros em 2030.

O valor está 5 bilhões de litros abaixo da projeção realizada em 2016, quando a EPE estimava uma oferta de 54 bilhões de litros de etanol em 2030.
O mesmo número havia sido reforçado em novo estudo, divulgado em 2017. Na ocasião, a entidade estabeleceu parâmetros de projeção em quatro cenários: pessimista, baixo, médio e alto crescimento – neste último a produção atingiria os mesmos 54 bilhões de litros para 2030.
Assim, mesmo com o RenovaBio – que entrará em vigor em 2020 –, os novos números estão mais próximos do cenário de crescimento médio projetado para o setor sucroenergético. Isso inclui até mesmo a perspectiva para a moagem de cana-de-açúcar, de 880 milhões de toneladas, ante as 953 milhões de toneladas do cenário de alto crescimento e às 1,07 bilhão de toneladas estimadas um ano antes.

Esta não é a primeira redução do etanol nas projeções da EPE sobre as perspectivas para a próxima década. No Plano Decenal de Energia 2024 (PDE 2024), a EPE estimou uma oferta de 44 bilhões para o final do período. Dois anos depois, no PDE 2026, o valor para 2024 foi reduzido para 41 bilhões de litros.
Etanol de milho
O destaque, no entanto, não é o volume, que, apesar de menor, está em linha com as expectativas, mas em como este volume será alcançado. A EPE agora considerou uma presença maior de outras fontes de etanol, especialmente a partir do milho e o etanol de segunda geração.
Inclusive, essa é a primeira vez que o etanol de milho é contabilizado na projeção governamental. A perspectiva é que a produção anual passe de 500 milhões de litros em 2017 para 2 bilhões de litros em 2030.

Essa estimativa, contudo, está abaixo da esperada pelo mercado. Segundo dados da Datagro, a produção nacional do etanol de milho será de 3 bilhões de litros até 2021, um bilhão a mais do que o esperado pela EPE para 2030.
Além disso, há diversos projetos em andamento. A FS Bioenergia anunciou que deve ampliar sua usina em Lucas do Rio Verde (MT), construir uma nova unidade e, sozinha, produzir até 1,2 bilhões de litros de etanol de milho por ano. Outras empresas com investimentos na área incluem: Cerradinho, Alcooad Indústria de Etanol e Industria Paraguaya Alcoholes (Inpasa).
Etanol celulósico
A instituição tende sempre a ser bastante comedida em suas projeções, normalmente optando pela perspectiva mais segura. Porém, em relação ao etanol celulósico, a tradicional cautela deu lugar a uma perspectiva altamente otimista.
Segundo os novos números da EPE, o etanol de segunda geração (E2G) deve alcançar 2,4 bilhões de litros em 2030 frente aos 20 milhões de litros ofertados em 2017. Este volume é quase 10% de tudo que o Brasil produziu de etanol na safra 2017/18.
Em uma projeção de 2016, a expectativa para o etanol celulósico em 2030 era levemente superior: 2,5 bilhões de litros. Segundo a EPE, o biocombustível só atingiria volumes de produção consideráveis a partir de 2023. Um ano depois, no PDE 2026, a perspectiva de produção anual ao final do período caiu para 634 milhões de litros.
No entanto, para chegar nesse montante, ainda há um longo caminho a ser percorrido. Hoje, apenas Raízen e GranBio têm usinas que produzem etanol celulósico em escala comercial, mas nenhuma delas atingiu produção plena.
Ademais, juntas, as duas unidades têm capacidade de produção de 123,3 milhões de litros por ano. Assim, se considerarmos que as usinas avançarão para alcançar uma capacidade média de 100 milhões de litros por ano, isso significa que a EPE projeta que teremos algo em torno de 24 usinas de E2G no Brasil.
Demanda de etanol
Além de alterar a perspectiva de oferta de etanol, a EPE também fez mudanças em seu cenário de demanda para o biocombustível. De acordo com os dados divulgados, o consumo do renovável no país em 2030 atingirá o mesmo valor da oferta: 49 bilhões de litros. Destes, 33 bilhões serão de etanol hidratado e 13 bilhões de etanol anidro.

Nessa visão, o peso do hidratado no mercado de etanol em 2030 passa de 72,7% no cenário médio calculado em 2017 (quando a demanda total prevista era de 44 bilhões de litros) para 67,3% segundo a nova previsão. Com isso, o anidro salta de 27,3% para 32,6%.
Na ocasião, a EPE não divulgou suas perspectivas para a demanda de etanol hidratado no cenário de alto crescimento.
Importação e exportação
Dentro do novo cenário desenhado pela EPE, o etanol importado, que correspondeu a 6% da oferta em 2017, passará a representar 1% em 2030, com 500 milhões de litros. Apesar da considerável queda das importações, é preciso considerar que, em estimativas anteriores, os números de importação de etanol eram considerados irrelevantes pelo órgão.
Por sua vez, os novos números não projetam qualquer exportação de etanol – afinal, a oferta e a demanda coincidem. Nas projeções realizadas no ano passado, o excedente era de 5 bilhões de litros no cenário de crescimento médio e de 4 bilhões de litros no de alto crescimento.
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana