Mesmo com o mercado de CBios já confirmado, governo praticamente mantém visão quanto ao crescimento do etanol no Brasil e até reduz a projeção de alguns indicadores
As projeções traçadas pela Empresa de Pesquisa e Energia (EPE) para o mercado de combustíveis são um bom termômetro de como o governo enxerga o setor de etanol – principalmente em um panorama que envolve um programa de incentivos.
Recentemente, o órgão, que é vinculado ao Ministério de Minas e Energia (MME), passou a considerar um ponto crucial: a aprovação do RenovaBio. Agora, cada um dos quatro cenários levantados pela EPE – pessimista e de baixo, médio e alto crescimentos – leva em consideração as diferentes possibilidades de valor dos CBios.
A EPE explica essa relação: “Com as metas de descarbonização definidas, haverá um estímulo para produção de biocombustíveis, o que aumentará a busca pelos CBios. Com tal sinalização econômica, espera-se que as usinas se sintam impulsionadas a produzir mais biocombustíveis e de forma mais eficiente, aumentando a oferta deste certificado e regulando seu preço no mercado, onde ele será comercializado”.
Confira, na versão completa, a perspectiva do governo para cada um destes cenários, levando em consideração 12 indicadores.
- Número de usinas
- Moagem de cana-de-açúcar
- Capacidade instalada
- Área plantada
- Produtividade agrícola
- Qualidade da cana
- ATR total
- Produção de açúcar
- Produção de etanol
- Exportação de etanol
- Demanda de combustíveis do Ciclo Otto
- Demanda de etanol
As projeções traçadas pela Empresa de Pesquisa e Energia (EPE) para o mercado de combustíveis são um bom termômetro de como o governo enxerga o setor de etanol – principalmente em um panorama que envolve um programa de incentivos.
Em 2017, a EPE, vinculada ao Ministério de Minas e Energia (MME), lançou um documento que delineia os fatores de oferta e demanda até 2030. Este ano, o relatório foi atualizado levando em consideração um ponto crucial: a aprovação do RenovaBio.
Durante o lançamento do estudo, no Rio de Janeiro, o consultor técnico de biocombustíveis Rafael Barros Araujo relacionou as mudanças nas projeções dos cenários com o mercado de créditos de descarbonização (CBios). Ele explica que cada um dos quatro cenários levantados pela EPE – pessimista e de baixo, médio e alto crescimentos – leva em consideração a efetividade do RenovaBio. Ou seja, diferentes possibilidades de valor dos CBios foram consideradas.
O documento, publicado em maio desse ano, explica essa relação: “Com as metas de descarbonização definidas, haverá um estímulo para produção de biocombustíveis, o que aumentará a busca pelos CBios. Com tal sinalização econômica, espera-se que as usinas se sintam impulsionadas a produzir mais biocombustíveis e de forma mais eficiente, aumentando a oferta deste certificado e regulando seu preço no mercado, onde ele será comercializado”.
Com isso, conforme o ‘mercado de papel’ começa a fazer parte da rotina do setor, ele influenciará em índices como área colhida, moagem, produtividade, oferta de etanol e geração de eletricidade. Além disso, o sucesso (ou fracasso) do RenovaBio também refletirá no número de usinas em operação: para o governo, em 2030, o Brasil terá entre 378 e 401 usinas, frente a uma estimativa anterior de 380 a 420 unidades.
Outros indicadores – como qualidade de cana, quantidade total de Açúcar Total Recuperável (ATR), produção de açúcar, demanda de etanol não-carburante e demanda do Ciclo Otto – também foram atualizados.

“O preço do CBio será um dos fatores distintivos dos cenários, contribuindo, em maior ou menor grau, para a expansão da produção do biocombustível”, afirma a EPE, que complementa: “Esse mecanismo deverá garantir a segurança necessária para investimentos em novas usinas, uma vez que os CBios irão oferecer maior receita para os produtores”.
Nem otimista nem pessimista
O documento expressa que a receita adicional com os CBios pode “criar um ambiente de negócios favorável à retomada de investimentos”. Entretanto, o governo se mostra conservador quanto ao crescimento dos indicadores relacionados à produção do etanol, apresentando números similares aos do estudo de 2017, quando o RenovaBio ainda representava uma incerteza.
Na ocasião, a EPE utilizou dados referentes a 2015 em sua base de cálculo. Agora, as premissas levam em conta os resultados de 2017.
De acordo com as projeções, a área plantada de cana-de-açúcar pode aumentar nos três principais cenários em relação ao panorama traçado anteriormente (em seu detalhamento, a EPE desconsidera a estimativa mais pessimista).
Por exemplo, em um cenário de médio crescimento, a estimativa subiu de 9,6 para 10,1 milhões de hectares. Por outro lado, a estimativa de produtividade agrícola diminuiu de 92,1 para 87,2 toneladas de cana por hectare, no mesmo cenário.
O mesmo ocorre com o ATR, que caiu de 129 para 122 milhões de toneladas. Já a perspectiva de moagem teve leve redução para os cenários baixo e alto, mas manteve-se a mesma no cenário médio (880 milhões de toneladas). Com isso, estima-se que a área plantada poderá até aumentar, mas não a qualidade dos canaviais, o que corrobora com o problema atual do setor de envelhecimento da cana plantada e dificuldade de renovação.

Outro fator que chama a atenção na perspectiva governamental é que ela considera um cenário único para a produção de açúcar, inclusive com uma estimativa menor para 2030 em relação à última projeção. A perspectiva de produção anual diminuiu de 50 milhões para 46 milhões de toneladas.
Já a oferta e demanda de etanol sofreram poucas variações nas projeções. Em abril deste ano, o governo já havia reduzido as expectativas para 49 bilhões de litros para ambos os indicadores, em números apresentados durante uma palestra. Os dados mais atualizados traçam, para um cenário médio, uma produção de 49,8 bilhões de litros e um consumo de 45,3 bilhões de litros. Mas, em 2016, o governo já chegou a projetar 54 bilhões de litros em 2030.
CBios e cenários de crescimento
Segundo o documento – que não apresenta valores concretos para o CBio nos cenários analisados, nem suas premissas para o caso pessimista –, o RenovaBio resultará em um cenário de baixo crescimento para o setor de etanol se o êxito do programa for “modesto”. Conforme a EPE, isso ampliaria pouco a atratividade econômica da produção de etanol, bem como a eficiência energética-ambiental da produção.
Já o cenário de crescimento médio acontecerá quando houver valores que passem a representar “atratividade econômica”, desde que acompanhados por preços favoráveis para o etanol, em decorrência de um patamar mais elevado para o petróleo internacionalmente. “Desta forma, o setor sucroenergético passa a ter uma receita adicional, gerando a progressiva recomposição de suas margens e criando um ambiente de negócios favorável à retomada de investimentos”, aponta o documento.
Por fim, o cenário mais otimista considera um “êxito vigoroso” para o RenovaBio, com preços de CBios mais altos e capazes de ampliar “substancialmente” a atratividade econômica da produção de etanol e a eficiência energética-ambiental das usinas. “Essa receita
financeira adicional mais elevada induziria um incremento maior na produção de etanol”, explicita a EPE.
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Gabrielle Rumor Koster – NovaCana