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Fitch Ratings traça panorama do setor sucroenergético a partir de quatro grupos

Biosev, Jalles Machado, USJ e Coazucar são analisadas em relatório voltado à América Latina; perfis são considerados fracos pela agência de classificação de risco

NovaCana 11 min de leitura

Não é novidade que o perfil das empresas do setor sucroenergético é amplamente heterogêneo, com diversas variáveis influenciando os resultados das mais de 300 indústrias de açúcar e etanol do país. Ainda assim, mensurar as distâncias entre as companhias e compreender os principais indicadores a serem analisados é essencial para situar as sucroenergéticas em um contexto amplo e identificar tanto possibilidades quanto problemas.

Em relatório lançado em maio deste ano, a agência de classificação de risco Fitch Ratings traçou um panorama do setor na América Latina. Segundo o documento, apesar do Brasil ter vantagens competitivas que o tornam o produtor de açúcar de menor custo e maior exportação no mundo, existem políticas globais protecionistas que podem manter os preços da commodity abaixo do custo marginal das usinas brasileiras.

Para analisar este cenário, foram observados os dados de três grupos brasileiros e um peruano: Biosev, Jalles Machado, USJ Açúcar e Álcool e Corporacion Azucarera del Peru.

O documento expressa alguns nichos em que as companhias se distanciam, como escala de produção, desempenho agrícola, origem da matéria-prima e flexibilidade do mix.

“As classificações no setor normalmente estão na categoria B, com apenas um caso na categoria abaixo de BB, já que a maioria das empresas tem perfis financeiros fracos devido à natureza intensiva de capital do setor e às características da commodity”, expressa o relatório.

Conforme a Fitch, empresas com nota BBB possuem boa qualidade de crédito, com uma capacidade adequada para arcar com seus compromissos financeiros. Porém, elas enfrentam condições adversas em seus negócios ou estão sujeitas a condições econômicas que as prejudicam de alguma forma.

Já as notas BB e inferiores expressam diferentes graus de vulnerabilidade, com a companhia nessa situação estando mais exposta a condições econômicas e de negócios que fogem de seu alcance.

Confira, na versão completa, detalhes de análise de Fitch em relação às características do setor e das quatro empresas analisadas.

Não é novidade que o perfil das empresas do setor sucroenergético é amplamente heterogêneo, com diversas variáveis influenciando os resultados das mais de 300 indústrias de açúcar e etanol do país. Ainda assim, mensurar as distâncias entre as companhias e compreender os principais indicadores a serem analisados é essencial para situar as sucroenergéticas em um contexto amplo e identificar tanto possibilidades quanto problemas.

Em relatório lançado em maio deste ano, a agência de classificação de risco Fitch Ratings traçou um panorama do setor na América Latina. Segundo o documento, apesar do Brasil ter vantagens competitivas que o tornam o produtor de açúcar de menor custo e maior exportação no mundo, existem políticas globais protecionistas que podem manter os preços da commodity abaixo do custo marginal das usinas brasileiras.

Para analisar esse cenário, foram observados os dados de três grupos brasileiros e um peruano: Biosev, Jalles Machado, USJ Açúcar e Álcool e Corporacion Azucarera del Peru.

O documento expressa alguns nichos em que as companhias se distanciam, como escala de produção, desempenho agrícola, origem da matéria-prima e flexibilidade do mix.

“As classificações no setor normalmente estão na categoria B, com apenas um caso na categoria abaixo de BB, já que a maioria das empresas tem perfis financeiros fracos devido à natureza intensiva de capital do setor e às características da commodity”, expressa o relatório.

Conforme a Fitch, empresas com nota BBB possuem boa qualidade de crédito, com uma capacidade adequada para arcar com seus compromissos financeiros. Porém, elas enfrentam condições adversas em seus negócios ou estão sujeitas a condições econômicas que as prejudicam de alguma forma.

Já as notas BB e inferiores expressam diferentes graus de vulnerabilidade, com a companhia nessa situação estando mais exposta a condições econômicas e de negócios que fogem de seu alcance.

rating Fitch global maio19

Perspectivas futuras

Segundo a Fitch, as perspectivas para o açúcar seguem fracas, com preços baixos e a expectativa de superávit produtivo global no ciclo 2018/19 (outubro a setembro). Para a temporada seguinte, apesar do déficit esperado, a agência não projeta melhoras significativas no preço.

Desta forma, os fundamentos de mercado no país são mais positivos para o etanol. De acordo com o documento, os preços internacionais do petróleo estão relativamente altos e o real está fraco, o que deve manter os preços da gasolina relativamente elevados. Como eles são considerados um fator limitante para o etanol, este cenário deve abrir caminho para uma demanda constante do renovável.

Assim, a Fitch espera um mix de produção de 63% para o biocombustível brasileiro em 2019. Além disso, a expectativa é que o RenovaBio impulsione a demanda por etanol em 2020.

A partir deste panorama, a expectativa é que o fluxo de caixa livre seja de neutro a positivo. Isso, porém, é válido apenas para as empresas que possuem boa administração na cogeração de energia elétrica e boa flexibilidade para produzir etanol, além de uma estrutura de custos competitiva.

Também conforme a Fitch, a alavancagem das sucroenergéticas deve ser maior que no ano anterior, por conta da redução da cana moída, dos preços baixos do açúcar e do real mais fraco sobre a dívida expressa em dólar. “A maioria das empresas de açúcar e etanol latino-americanas, com classificação Fitch, possui liquidez fraca e acesso limitado a mercados de dívida e de capital”, pontua o documento.

No caso específico do Brasil, o real mais fraco pode beneficiar o fluxo de caixa das sucroenergéticas. Afinal, o valor da gasolina nas refinarias são calculados pela Petrobras pela combinação entre o preço internacional do petróleo e a taxa de câmbio brasileira. Além disso, a receita com a exportação de açúcar será beneficiada, ainda que a correlação dos preços do adoçante e da taxa de câmbio brasileira tenda a ser negativa no longo prazo.

Em contrapartida, quem fica vulnerável com a moeda nacional mais fraca são as empresas brasileiras com muitas dívidas fixadas em dólares, o que traz um efeito negativo sobre a alavancagem.

Biosev: Um grande grupo, mas com dificuldades

Ao longo do relatório, assinado pelos analistas Claudio Miori, Alexandre Garcia e Johnny DaSilva, a Fitch fez análises pontuais de quatro companhias do setor na América Latina que possuem ratings de crédito emitidos pela agência, sendo três brasileiras e uma peruana. A Raízen, que possui classificação BBB, ficou de fora do relatório, pois a classificação se refere tanto à Raízen Energia quanto à Raízen Combustíveis.

Uma das analisadas é a Biosev, terceira maior produtora do Brasil, com capacidade de moagem de 33 milhões de toneladas. Segundo o documento, a companhia tem uma boa flexibilidade em seu mix de produção, apesar de ter um portfólio de produtos mais padronizado na comparação as demais analisadas.

A Biosev recebeu da Fitch a nota B+, justificada pelos desafios enfrentados pela empresa para avançar em indicadores operacionais e melhorar a geração de caixa.

Mesmo com investimentos agrícolas pesados e capacidade de produção máxima, a Fitch acredita que o fluxo de caixa da Biosev deve permanecer negativo por conta dos baixos preços das commodities em 2020 e 2021. Na safra 2018/19, a companhia reportou um prejuízo líquido de R$ 1,2 bilhão.

“A afiliação da Biosev ao Louis Dreyfus Group é percebida como altamente positiva para os ratings e a Fitch espera que o apoio continue nos próximos anos”, expressa o documento. Em 2018, a holding fez um aporte de US$ 1 bilhão no grupo como parte de um acordo de reestruturação de dívidas.

De acordo com a Fitch, este investimento foi crucial para proporcionar uma queda na alavancagem do grupo, de 4,9 vezes para 2,9 vezes no comparativo anual. “No entanto, a continuação do processo de desalavancagem dependerá da capacidade da Biosev de melhorar o desempenho operacional”, expressa o relatório.

Para a Fitch, o ritmo de recuperação está sendo mais lento do que o previsto, mesmo com melhoria nos resultados operacionais nos últimos três anos. Além disso, ao longo de 2018, a Biosev vendeu duas unidades. A Usina Estivas, em Arês (RN), foi negociada por R$ 203,6 milhões, enquanto a Usina Giasa, em Pedras de Fogo (PB), foi vendida por R$ 70 milhões.

Jalles Machado: Perfil mais “robusto”

Já o grupo Jalles Machado, que possui rating BB- pela Fitch, detém um modelo de negócio considerado “robusto”. A companhia realiza a venda de açúcar orgânico e cristal, com participação considerável do segundo no mercado das regiões Norte e Nordeste, além de comercializar etanol anidro, hidratado e energia elétrica.

Conforme o documento, a estrutura de baixo custo e o amplo portfólio de produtos proporcionam um Fluxo de Caixa das Atividades Operacionais (CFFO) resiliente, além de margens operacionais acima da média. “Embora o acesso à liquidez no setor seja tipicamente escasso, a Jalles Machado se diferencia por meio de um histórico comprovado da capacidade de acessar diferentes fontes de financiamento”, determina o documento.

Segundo a Fitch, a Jalles possui uma liquidez confortável desde 2017, com bons acessos a financiamentos a longo prazo tanto no mercado bancário quanto no capital doméstico. No ano passado, inclusive, a companhia subiu na classificação da agência após a conclusão de investimentos para a fabricação de açúcar.

Além disso, a tendência para as próximas três safras é de uma queda na alavancagem, considerando condições climáticas normais e rendimentos agrícolas próximos da média histórica, resultando em índices de 1,9 vez em 2019 e 1,7 vez em 2020.

Outro ponto importante e que reflete amplamente nos indicadores financeiros da companhia é a origem da cana. Quando ela é própria, investimentos no canavial são contabilizados como capex; já quando vem de terceiros, entra como custo das mercadorias vendidas. A Jalles Machado possui altas margens Ebitdar por ser autossuficiente em cana-de-açúcar.

Também estão a favor da empresa os incentivos fiscais fornecidos pelo estado de Goiás e os custos de arrendamento de terras abaixo da média. Enquanto a margem Ebitdar da Jalles é de 75%, a da Biosev é de 31%.

USJ Açúcar e Álcool: Dificuldades à vista

Empresas como a Jalles Machado e a USJ Açúcar e Álcool são consideradas pequenas concorrentes no setor brasileiro, com capacidades de moagem abaixo das 5 milhões de toneladas de cana-de-açúcar ao ano. Só que, ao contrário do grupo goiano, a USJ possui uma situação financeira bastante delicada.

Ao final de maio, a USJ foi rebaixada pela Fitch Ratings, indo de C para RD, ou default restrito. O termo implica que a empresa não deve ter condições de realizar o pagamento de uma obrigação financeira, mas continua operando e não deu entrada em um pedido de falência ou similar.

Segundo o novo relatório, a companhia possui uma estrutura de capital e liquidez “muito mais fraca” do que a da Jalles Machado, por exemplo. Com liquidez pressionada, a USJ possui pouca disponibilidade de crédito a longo prazo para empresas do setor em dificuldade financeira. 

Além disso, o grupo tem um portfólio de produtos considerado “padrão” pela agência e possui menos flexibilidade no mix em relação às demais companhias analisadas.

Outra desvantagem é a alta exposição ao risco cambial, uma vez que 75% das dívidas ajustadas estão fixadas em dólar – ao mesmo tempo, a empresa tem foco no mercado doméstico, ou seja, receitas estabelecidas em real. Conforme a Fitch, a alavancagem da USJ deve ser de 4,8 vezes nos próximos três anos, justamente devido à exposição ao risco cambial.

Na ala operacional, a Fitch também aponta que a USJ possui menor flexibilidade no mix de produtos do que a Jalles Machado. “O alto foco da USJ no açúcar é uma desvantagem em tempos de preços deprimidos das commodities. A empresa também não possui escala e presença de acionistas apoiadores, como a Biosev e Coazucar”, expressa o relatório.

Coazucar: O mercado peruano em perspectiva

A Corporacion Azucarera del Peru (Coazucar) também é analisada no relatório e tem rating B+. A empresa detém uma cota de 50% do mercado peruano e é a maior produtora de açúcar do país, comercializando os tipos branco e marrom, além de etanol e outros subprodutos. Ao mesmo tempo, ela possui uma liquidez considerada fraca, devido a uma queda em seu desempenho operacional.

Com baixa dependência de cana de terceiros, a Coazucar consegue precificar o adoçante no mercado interno com um prêmio elevado se comparado com os valores internacionais, diferente do que ocorre com os pares brasileiros. Ao mesmo tempo, a companhia tem a maior alavancagem dentre todas as empresas analisadas – em 2018, a métrica foi de 9 vezes, com tendência de baixar para 4,5 vezes em 2019.

“O rating é atenuado pela volatilidade do desempenho da empresa e por indicadores de crédito fracos em comparação com outras empresas classificadas no setor, como a Jalles Machado”, explica o relatório da Fitch.

Devido a essas características, a Coazucar concentra 90% da produção no mercado interno. Enquanto isso, Jalles Machado, Biosev e USJ exportaram 28%, 30% e 14% do volume produzido, respectivamente, nos nove meses até 31 de dezembro de 2018. Por conta dos baixos preços do açúcar no mercado internacional e da maximização da produção de etanol, os números estão baixos frente à média histórica.

Gabrielle Rumor Koster – NovaCana

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