Documento visto pela revista Piauí traz suspeitas sobre a relação entre o ministro Dias Toffoli com o banqueiro Daniel Vorcaro
Atualização (11/09, às 17h48): O texto abaixo foi alterado para incluir nota enviada pela usina Alcídia, na qual a companhia enfatiza que os acontecimentos relatados se deram antes da aquisição da unidade pelo grupo Atvos.
Os escândalos que rondam o Banco Master e os precatórios de usinas sucroenergéticas estão interligados. Em fevereiro, por exemplo, uma reportagem do jornal O Estado de São Paulo apontou que a instituição financeira de Daniel Vorcaro se beneficiou de uma negociação fraudulenta envolvendo uma usina do grupo João Santos.
Já em maio, as investigações apontavam que o banco comprou fatias milionárias de precatórios expedidos pela Justiça antes do fim dos processos, o que caracteriza uma prática irregular. Dentre os 30 processos envolvendo usinas que foram analisados, nove tiveram a expedição adiantada – ainda que o pagamento não tenha sido realizado por uma decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1).
Os processos em questão pedem que a União pague indenização por alegados prejuízos causados pela fixação de preços realizadas na década de 1980 pelo extinto Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA).
Agora, o interesse de Vorcaro pelos precatórios foi evidenciado em um relatório da Polícia Federal elaborado a partir de conteúdo do celular do banqueiro apreendido em 18 de novembro de 2025, que denuncia a sua relação com o ministro Dias Toffoli.
O documento, que está há sete meses sob análise do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), foi visto pelo repórter Breno Pires, da revista Piauí. Como ministros da Suprema Corte não podem ser investigados sem o aval do tribunal, a PF precisa de um retorno para avançar nas investigações.
Entre as suspeitas levantadas está a de que Vorcaro possa ter influenciado o voto de Toffoli em um processo envolvendo a usina Alcídia, atualmente controlada pelo grupo Atvos. A unidade está inativa desde 2015.
Em nota enviada ao NovaCana, a usina Alcídia afirma que o caso mencionado se refere a fatos ocorridos em período anterior à aquisição da unidade pela atual controladora e que a ação judicial está sob responsabilidade dos então acionistas à época. “A atual administração não possui qualquer vínculo com o tema”, reforça.
Segundo a reportagem, a decisão teria impacto direto sobre a carteira de precatórios sucroenergéticos do Banco Master, que somava mais de R$ 10 bilhões – uma vitória para a usina também seria vantajosa para o banco.
“É importante! Serve de paradigma para nossos casos”, disse o diretor jurídico do Master, André Kruschewsky, em uma mensagem para Vorcaro, conforme citado no relatório.
A princípio, Toffoli tinha um posicionamento favorável às usinas, em detrimento à União. Contudo, um voto contrário em um processo envolvendo a Raízen teria chamado a atenção do banqueiro e de sua equipe.
O ex-ministro das Comunicações Fábio Faria, que trabalhava como ajudante de ordens e lobista de Vorcaro, enviou mensagens após a votação com expressões como “matou a gente” e “comecei a suar”.
Em uma tentativa de evitar que o mesmo acontecesse no processo envolvendo a Alcídia, André Kruschewsky propôs uma “movimentação”. O retorno de Vorcaro indicou que isso já estava acontecendo: “Tô tratando aqui”. Posteriormente, o diretor jurídico completou: “Se precisar de ajuda para tirar de pauta, avisa!”.
Embora não faça uma afirmação categórica, o relatório da PF indica que as ações de Vorcaro e Kruschewsky podem ter surtido efeito. Na data da votação, o ministro Kassio Nunes Marques pediu vista do processo, enquanto Toffoli registrou ausência.
Assim, o julgamento foi adiado e só ocorreu em 1º de outubro de 2024. Além disso, o parecer final foi favorável à usina, como desejavam os executivos do Master, com um placar de 3 votos contra 2 – ou seja, a posição de Toffoli foi essencial para a vitória.
De acordo com o relatório citado pela Piauí, a situação “demanda aprofundamento analítico, não sendo no presente momento suficientes para conclusões definitivas”. Entretanto, as mensagens possuem “especial relevância, por ocorrerem em momento imediatamente anterior à data designada para julgamento, e por estarem inseridas em diálogo no qual se discute a necessidade de ‘se movimentar’ e de ‘acompanhar’ o caso”.
Em nota enviada à revista, o gabinete do ministro nega que tenha ocorrido uma “alteração de voto”. Ele ainda afirma que o relatório da PF teria sido arquivado e completa: “Conforme nota oficial do STF, do dia 12 de fevereiro de 2026, os dez ministros tiveram ciência de todo o seu conteúdo e das devidas informações preparadas pelo ministro tanto no formato escrito quanto presencialmente, deliberando não ser o caso de suspeição. Previamente o presidente Edson Fachin já havia rejeitado o pedido de distribuição como inquérito. Decisões estas, repita-se, transitadas em julgado.”
A reportagem, entretanto, ressalta que a arguição de suspeição contra Toffoli foi arquivada, mas não o relatório em si. Por conta disso, o documento ainda poderia motivar novas diligências. O relator, André Mendonça, por sua vez, disse à Piauí que os autos não foram remetidos para ele e que, por isso, “não há providências a serem adotadas”.
NovaCana
Com informações da Piauí