Resultados operacionais e financeiros mostram como os três grupos sucroenergéticos com ação em bolsa de valores estão reagindo à temporada
A safra 2019/20 começou cautelosa e repleta de incertezas. Faltando pouco para o início da temporada, um levantamento do NovaCana com consultorias especializadas, empresas do setor e instituições financeiras apontava para uma perspectiva de moagem praticamente estável em relação à temporada anterior e um mix de produção levemente mais açucareiro.
Com o andamento da safra, o clima começou a delinear o real desempenho das companhias, enquanto o aquecido mercado doméstico de combustíveis e a constante pressão sobre os preços internacionais do açúcar afetavam as estratégias adotadas.
Para Biosev, Raízen e São Martinho – os três grupos sucroenergéticos com ações negociadas em bolsa –, o primeiro trimestre da safra teve uma leve queda na moagem em relação ao mesmo período de 2018/19. Como a estrutura operacional e financeira de cada companhia é diferente, assim como as estratégias de comercialização adotadas, o impacto também foi diverso.
Para compreender melhor o desempenho destes grupos sucroenergéticos em contexto, o NovaCana trouxe 14 indicadores operacionais e financeiros das companhias. Eles relacionam aspectos como a moagem do período, a receita líquida, os custos – de vendas, administrativos e financeiros –, o Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização), os ativos e os passivos das companhias.
Além disso, também foram computados o desempenho no primeiro trimestre de 2018/19 e o seu resultado total.
Na reportagem completa, veja gráficos dos 14 indicadores e uma análise com o desempenho comparado das companhias sobre cada um deles:
- Ebtida ajustado em relação à moagem
- Margem Ebitda ajustado
- Liquidez corrente
- Grau de endividamento
- Cobertura de juros
- Relação entre custos e receita
- Custos de produção em relação à moagem
- Custos de produção em relação ao Ebitda ajustado
- Receita líquida em relação à moagem
- Receita líquida em relação ao Ebitda ajustado
- Resultado líquido em relação à moagem
- Resultado financeiro em relação à moagem
- Despesas financeiras em relação à moagem
- Despesas administrativas em relação à moagem
A safra 2019/20 começou cautelosa e repleta de incertezas. Faltando pouco para o início da temporada, um levantamento do NovaCana com consultorias especializadas, empresas do setor e instituições financeiras apontava para uma perspectiva de moagem praticamente estável em relação à temporada anterior e um mix de produção levemente mais açucareiro.
Com o andamento da safra, o clima começou a delinear o real desempenho das companhias, enquanto o aquecido mercado doméstico de combustíveis e a constante pressão sobre os preços internacionais do açúcar afetavam as estratégias adotadas.
Para Biosev, Raízen e São Martinho – os três grupos sucroenergéticos com ações negociadas em bolsa –, o primeiro trimestre da safra teve uma leve queda na moagem em relação ao mesmo período de 2018/19. Como a estrutura operacional e financeira de cada companhia é diferente, assim como as estratégias de comercialização adotadas, o impacto também foi diverso.
Para compreender melhor o desempenho destes grupos sucroenergéticos em contexto, o NovaCana trouxe 14 indicadores operacionais e financeiros das companhias. Eles relacionam aspectos como a moagem do período, a receita líquida, os custos – de vendas, administrativos e financeiros –, o Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização), os ativos e os passivos das companhias.
Além disso, também foram computados o desempenho no primeiro trimestre de 2018/19 e o seu resultado total.
A capacidade de lucrar
Uma das formas de analisar o desempenho das companhias é comparar diferentes resultados financeiros e operacionais ao Ebitda ajustado. Este dado é similar ao Ebitda, porém, dele são deduzidos alguns itens, com base no que cada empresa julga inadequado para medir seu desempenho operacional.
No caso do setor sucroenergético, uma das métricas mais tradicionais é justamente a relação entre o Ebitda e a moagem. A partir deste número é possível saber o quanto as empresas podem lucrar em um determinado período em relação à quantidade de cana colhida.
Para Biosev, Raízen e São Martinho, o primeiro trimestre da safra tende a apresentar um indicador mais baixo em relação ao desempenho total da temporada. Isso ocorre por se tratar de um período iniciado com armazenagem mais baixa, que depende de forma quase exclusiva da venda do que está sendo produzido e que, por conseguinte, também está sujeito à necessidade de recomposição dos estoques das companhias.
Entretanto, neste momento já fica claro que a São Martinho possui um índice superior ao de suas concorrentes. No primeiro trimestre de 2019/20, a companhia registrou uma média de R$ 38,53/t, ante os R$ 19,41/t da Raízen e os R$ 26,82/t da Biosev. Em números relativos, o resultado da São Martinho é superior em 49,6% e 30,4% ao das outras empresas, respectivamente.

Considerando o resultado líquido do período, a São Martinho foi a única a apresentar lucro, com R$ 91,46 milhões. Enquanto isso, a Raízen teve um prejuízo de R$ 99,37 milhões e a Biosev perdeu R$ 168,89 milhões.
Para a primeira, apesar do valor ser positivo, ele foi 12% menor na comparação com o mesmo período da safra anterior. No caso da Raízen, o impacto foi maior, já que a companhia teve lucro na abertura de 2018/19. Ao mesmo tempo, a Biosev encontrou motivos para comemorar, uma vez que a companhia diminuiu seu prejuízo em 67% no comparativo anual.
Quando colocado em relação à moagem, este resultado denota o desempenho final das companhias no período, com a São Martinho tendo lucrado R$ 10,12 a cada tonelada de cana moída, enquanto a Raízen perdeu R$ 4,80/t e a Biosev, R$ 15,52/t.
Ainda assim, no comparativo com a safra 2018/19, a Biosev foi a única a obter uma melhora no indicador, ressaltando a diminuição no prejuízo, que foi de R$ 41,12/t, ou R$ 1,2 bilhão, em 2018/19.

Esse desempenho se repete na análise do Ebitda ajustado em relação à receita líquida, um indicador também conhecido como Margem Ebitda ajustado. Neste caso, enquanto o Ebitda ajustado da São Martinho representou 46,34% da receita trimestral da companhia, a Biosev obteve uma margem de 16,99% e a Raízen Energia registrou 6,61%.
Apesar do montante superior ao dos concorrentes, a São Martinho apresentou uma redução do índice no comparativo anual. Em sua divulgação de resultados, a companhia justificou que a queda reflete o aumento sazonal do custo unitário e o menor volume de açúcar total recuperável (ATR) na cana, além do aumento do valor pago aos produtores da matéria-prima (Consecana).

Além disso, em um setor que sofre com o alto endividamento, como é o caso do sucroenergético, é relevante analisar a cobertura de juros de uma empresa. Para este cálculo, o NovaCana considerou o Ebitda ajustado das companhias e seus gastos com despesas financeiras.
Para a Raízen, esse índice foi de 0,91 ponto no primeiro trimestre da safra 2019/20, enquanto a São Martinho obteve 3,68 pontos. Isso significa que a São Martinho teria quatro vezes mais capacidade de arcar com suas despesas financeiras no trimestre em comparação com a Raízen.

O resultado do maior grupo sucroenergético do Brasil, no entanto, ficou abaixo de seu padrão. No primeiro trimestre de 2018/19, a companhia obteve uma cobertura de juros de 1,99 ponto; na média da temporada passada, o indicador tinha subido para 3,10 pontos.
O impacto dos custos de produção
Outra maneira de analisar o desempenho das empresas é por meio do impacto dos custos com os produtos vendidos. No setor sucroenergético, conforme levantamentos do Programa de Educação Continuada em Economia e Gestão de Empresas (Pecege), a maior parte dos custos estão no campo e, dentre eles, muitos são fixos, ou seja, independem da quantidade de açúcar e etanol a ser efetivamente produzida.
Desta forma, é importante que as companhias do setor consigam diluir esses custos. No primeiro trimestre de 2019/20, entre as empresas analisadas, a diferença foi significativa. Enquanto os custos da Raízen representaram R$ 273,51 a cada tonelada de cana moída, os da São Martinho somaram R$ 61,16/t, um valor 77,6% inferior.

Uma relação similar pode ser vista no comparativo dos custos com o Ebitda ajustado das companhias. Neste caso, os custos da Raízen foram equivalentes a 14,09 vezes o seu resultado financeiro, enquanto a São Martinho registrou um indicador de 1,59 vez.
De acordo com a Raízen, o valor – que também é mais elevado na comparação com o mesmo trimestre do ano anterior – foi afetado pelas operações de trading de energia elétrica e derivados da companhia. A companhia ainda alega que houve inflação e uma elevação nos valores pagos aos produtores de cana. Por fim, o resultado também teria sido prejudicado por um atraso no início do período de moagem, que acarretou uma menor diluição de custos.
A São Martinho, por sua vez, acredita que a companhia tem capacidade de reduzir ainda mais os custos. “Nos próximos trimestres, devemos reduzir gradualmente o custo de produção de açúcar e etanol, devido à normalização da safra após o forte período de chuvas em abril”, afirma em seu relatório de divulgação de resultados.
O documento ainda segue: “Acreditamos que o custo caixa de açúcar e etanol – excluindo o efeito do Consecana – na safra 2019/20 será em linha com o custo apresentado na safra anterior, ou seja, a melhora de produtividade irá compensar a inflação”.

Ainda que a diferença dos resultados de Raízen e São Martinho fique menos evidente na comparação entre os custos e a receita líquida, ela deixa claro que a margem operacional das companhias é bastante diferente.
No trimestre, os custos de produção da São Martinho foram equivalentes a 73,58% da receita obtida pela empresa no período. No caso da Raízen, esse índice foi de 93,09%. Para as duas empresas, houve uma piora no indicador em comparação com o mesmo período da safra 2018/19.
A Biosev, contudo, apresentou uma melhora: o indicador foi de 96,71% para 86,57% no comparativo anual. De acordo com a companhia, houve uma redução nos custos operacionais como resultado de um processo contínuo de otimização de custos e estruturas da empresa.

Na comparação com o resultado da safra 2018/19, o primeiro trimestre trouxe uma melhora no indicador para Biosev e São Martinho, mas uma piora para a Raízen.
As receitas e os bons negócios
Seguindo a tendência geral do período, com o açúcar a preços baixos e a necessidade de recompor os estoques de etanol, tanto São Martinho quanto Biosev apresentaram uma queda na receita líquida do período em comparação com o ano anterior.
Para a Raízen, entretanto, o valor contabilizado subiu de R$ 4,09 bilhões para R$ 6,08 bilhões. Segundo a companhia, o motivo é – novamente – o maior volume de trading de energia elétrica e de derivados de petróleo. Desde o começo da temporada 2018/19, a Raízen passou a incluir em seus números a consolidação dos resultados da comercializadora de energia elétrica WX e as operações de trading de derivados.
Assim, o aumento de quase R$ 2 bilhões não pode ser totalmente creditado ao comércio de açúcar e etanol, ainda que ambos os produtos tenham registrado um crescimento. Conforme a companhia, a receita líquida com o açúcar foi de R$ 751 milhões no trimestre – uma elevação anual de 4%. Já as vendas de etanol totalizaram R$ 1,9 bilhão, um aumento de 18%.
Desta forma, em relação à moagem de cana, o resultado da Raízen é superior ao de suas concorrentes, com uma receita líquida trimestral de R$ 293,81/t. Biosev e São Martinho, por sua vez, contabilizaram R$ 157,89/t e R$ 83,14/t, respectivamente.

Na análise entre a receita e o Ebitda ajustado, a comparação entre as empresas é semelhante. Enquanto os valores recebidos pela Raízen foram equivalentes a 15,13 vezes seu Ebitda, essa relação foi de 5,89 vezes para a Biosev e de 2,16 vezes para a São Martinho.
Entre Biosev e São Martinho, vale observar que a primeira registrou vendas a preços médios superiores: R$ 1.389 por tonelada de açúcar e R$ 1.873 a cada metro cúbico de etanol. Já a São Martinho comercializou seus produtos, em média, por R$ 1.104,5/t e R$ 1.842,6/m³, respectivamente.
A São Martinho ainda aponta que houve uma queda na receita do trimestre por conta do menor volume de vendas de açúcar e pela redução da energia vendida – reflexo da menor disponibilidade de bagaço derivada da queda na moagem.

Juros, impostos, câmbio e gastos administrativos
O desempenho das companhias vai além da produção e comercialização de açúcar, etanol e energia elétrica. O resultado financeiro, por exemplo, considera juros pagos e recebidos, restituições de impostos, correções monetárias, impacto cambial, desempenho de derivativos e outros aspectos.
Neste quesito, chama atenção o resultado da Biosev, que diminuiu seu prejuízo: de R$ 538,34 milhões no primeiro trimestre de 2018/19 para R$ 51 milhões no mesmo período de 2019/20, o equivalente a uma queda de 90,5%. Segundo a companhia, um dos principais motivos para esta redução foi o câmbio.
“A variação cambial impactou o resultado financeiro de forma positiva principalmente em função da valorização de 1,7% do real frente ao dólar norte-americano entre os meses do primeiro trimestre de 2019/10”, aponta o relatório de resultados. No ano anterior, o real se desvalorizou em 16%, conforme o mesmo documento.
Já a Raízen e a São Martinho perderam dinheiro no comparativo anual. Para a primeira, foram R$ 241,94 milhões, um aumento de 112%; já a segunda teve um prejuízo de R$ 63,52 milhões, ou 64% a mais que o visto um ano antes.
Em relação à moagem, a Biosev diminuiu o prejuízo em seu resultado financeiro, indo de R$ 47,78/t para R$ 4,69/t. Esse valor é o menor entre as três companhias analisadas: a Raízen registrou perdas de R$ 11,68/t e a São Martinho computou R$ 7,02/t.

Estes resultados, no entanto, levam em consideração tanto os valores pagos quanto os recebidos. Quando são consideradas apenas as despesas financeiras por moagem, é a São Martinho que apresenta o melhor indicador, com gastos de R$ 10,47/t. A Biosev fica um pouco acima, com R$ 13,74/t, enquanto a Raízen teve despesas equivalentes a R$ 21,34/t.
Ainda assim, a Biosev continua sendo a única a apresentar uma redução no comparativo com o o mesmo período do ano anterior. Em números absolutos, as despesas financeiras da companhia caíram 10,1%, de R$ 166,34 milhões para R$ 149,53 milhões. Já São Martinho e Raízen tiveram aumentos de 20,5% e 80,5%, atingindo R$ 94,7 milhões e R$ 441,94 milhões, respectivamente.

Em contrapartida, foi a Biosev que registrou os maiores gastos com despesas administrativas e gerais, com R$ 10,04/t. O valor representa uma redução de 13% em comparação com o visto um ano antes e de 37% em relação ao total da safra 2018/19 – ainda assim, ele está 75% acima dos R$ 5,74/t que foram contabilizados pela São Martinho.
Em seu relatório, a Biosev ressalta que um estorno de provisão de bônus havia beneficiado os números do primeiro trimestre da safra passada e que a diferença poderia ter sido ainda maior sem os efeitos do processo de otimização das estruturas operacionais e organizacionais que está em curso na companhia.
Já a São Martinho comenta o aumento no comparativo com o ano anterior. De acordo com o relatório da companhia, isso pode ser atribuído ao efeito contábil (ou seja, que não afeta o caixa) do aumento da provisão com o programa de opções virtuais e, também, ao aumento sazonal da provisão para contingências, decorrente da alteração na classificação de riscos de alguns processos.

A saúde financeira das empresas
Os resultados trimestrais das empresas também trazem uma atualização da posição de seus ativos e passivos – ou seja, a soma dos valores de todos os bens da companhia e a soma de todas as suas obrigações, incluindo dívidas e outras contas a pagar.
A comparação do passivo total com o ativo total gera um indicador comumente chamado de grau de endividamento. Em resumo, ele mede o quanto as dívidas pesam sobre o patrimônio. E, para as três companhias analisadas, ele apresentou um crescimento.
O maior resultado é o da Biosev, que registrou um grau de endividamento de 96,4% em 30 de junho deste ano – um ano antes, esse valor era de 90,87%. Já a São Martinho apresentou 71,6% ante os 65,99% vistos em 30 de junho de 2018.

Seguindo o mesmo caminho, houve uma queda no indicador de liquidez corrente, medido pela comparação entre o ativo e o passivo circulantes. Os ativos circulantes são as disponibilidades da empresa a curto prazo, que criam um fluxo nas suas atividades. Já os passivos circulantes são as obrigações que devem ser pagas em menos de 12 meses.
Neste caso, o menor indicador é o da Raízen, cujos ativos circulantes são equivalentes a 1,06 vez os passivos circulantes. Já o indicador da São Martinho é de 2,02 vezes. No encerramento da safra 2018/19, esses valores eram de 1,31 e 2,59 vezes, respectivamente.

Ainda assim, as três empresas possuem um resultado considerado saudável, já que estão acima de 1 vez – resultados abaixo deste valor demonstrariam que as companhias não teriam condições imediatas de arcar com suas obrigações de curto prazo.
Renata Bossle – NovaCana