As biorrefinarias são o futuro:

Reinvenção das sucroenergéticas terá mais matérias-primas e novos produtos

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As biorrefinarias são o futuro:

Reinvenção das sucroenergéticas terá mais matérias-primas e novos produtos

Ainda que repletos de desafios, os próximos anos trazem inúmeras oportunidades para as usinas. Sob o ponto de vista industrial e tecnológico, especialistas acreditam que é chegada a hora de tirar os planos do papel e começar uma nova fase


NovaCana - Publicado: 17 Jul 2026 - 09:54

Entre 2000 e 2014, a área colhida de cana-de-açúcar no Brasil passou de 4,8 milhões para 10,42 milhões de hectares, um aumento de 116,9%, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Neste período, o interesse das companhias do setor pelo etanol cresceu graças à popularização do carro flex. Desde então, o espaço ocupado ficou relativamente estável, com as sucroenergéticas buscando por maior produtividade.

Para a presidente da Sociedade dos Técnicos Açucareiros e Alcooleiros do Brasil (Stab), Raffaella Rossetto, isso é um indicativo de que o setor sucroenergético está em constante mudança – e sempre disposto a buscar novos espaços.

“O mundo mudou, a sociedade está mais exigente, o ambiente clama por maior atenção e a descarbonização da economia é urgente”, enumera e segue: “O setor sucroenergético acompanha esta mudança transformando uma agroindústria em uma biorefinaria que produz toda a energia necessária para seu funcionamento e, também, está atenta à economia circular”.

O presidente da União Nacional da Bioenergia (Udop), Hugo Cagno Filho, segue a mesma linha. “O mercado não demanda apenas açúcar e etanol. Exige descarbonização, segurança energética, rastreabilidade e novos produtos de base renovável”, afirma ele, que também é o presidente de honra da Fenasucro & Agrocana 2026.

“As usinas deixaram de ser apenas produtoras de commodities para se tornarem plataformas de bioenergia e de biomateriais. Essa transformação já está em curso. A reinvenção, portanto, não é uma ruptura com o passado, mas uma evolução natural de um setor que sempre soube transformar desafios em oportunidades”, acrescenta.

Por sua vez, o diretor da Fenasucro & Agrocana, Paulo Montabone, acredita que o setor sucroenergético é “um exemplo de mudança”. Para ele, toda a história das usinas de cana-de-açúcar é acompanhada por transformações, sempre em busca de melhores resultados, mais qualidade e novos produtos.

Essa característica, segundo o executivo, é derivada da própria pluralidade da cana – o que torna esta planta tão desafiadora quanto recompensadora. “A cana-de-açúcar é uma das espécies mais complexas do nosso planeta”, garante.

Realizada em Sertãozinho (SP), a Fenasucro & Agrocana é considerada a maior feira do mundo totalmente voltada à cadeia de bioenergia. Em 2026, o evento acontece de 11 a 14 de agosto, marcado pelo lançamento do Fenabio, um espaço de 1,2 mil m² dedicado a expositores e a uma conferência com dois palcos simultâneos, os quais devem somar mais de 100 horas de conteúdos ao longo de dois dias.

Próximo passo: transformação em biorrefinarias

Olhando para o presente, Montabone defende que as companhias abracem uma maior variedade de matérias-primas e expandam seus nichos de mercado. “Com a competição de outros biocombustíveis, faz-se necessário a atualização na produção de subprodutos, seja açúcar, biogás, hidrogênio verde... Temos muitas possibilidades, tanto na cana-de-açúcar quanto no milho e, também, em outras matérias-primas”, aposta.

Nesse contexto, ele argumenta que a busca por crescimento deve levar em conta eficiência, qualidade e custo-benefício. Além disso, o executivo enfatiza o aspecto ambiental, uma vez que a transição energética deve abrir espaços no mercado, inclusive com foco em exportação.

“Pensando em um futuro com os nossos biocombustíveis – biodiesel, etanol, hexanol, butanol e outras possibilidades –, o setor vai proporcionar a eficiência que o mercado precisa, justamente em um momento de desafio, em que a produtividade tem que ser cada vez maior e a qualidade também deve ser levada em conta”, garante.

Para completar, ele defende a realização de uma transição dentro das indústrias, que devem deixar de ser usinas para se tornarem biorrefinarias. O conceito envolve tanto a multiplicidade de produtos quanto o uso de diversas matérias-primas, como cana-de-açúcar, milho, sorgo, trigo, macaúba, triticale e capim elefante.

Segundo Rossetto, que também é pesquisadora do Instituto Agronômico (IAC), da secretaria de agricultura e abastecimento do estado de São Paulo, essa transformação já começou e é irreversível. “Os dez maiores grupos do setor sucroenergético já caminham para as biorefinarias. A usina do futuro próximo é uma biorefinaria”, declara.


“A tendência das sucroenergéticas é ampliar ainda mais o portfólio, aproveitando integralmente a biomassa e diversificando receitas. Isso aumenta a competitividade das empresas, reduz a exposição às oscilações de mercado e fortalece a sustentabilidade econômica”, Hugo Cagno Filho (Udop)


Cagno Filho concorda, observando que muitas empresas já ampliaram sua gama de produtos, visando um maior valor agregado: “Esse movimento já começou. O conceito de biorrefinaria representa uma evolução natural das usinas, cuja consolidação exige investimentos, aprendizado tecnológico e uma implementação gradual”.

Rossetto cita que, além de açúcar, etanol e bioeletricidade, essas unidades irão produzir biogás, biometano, combustível sustentável de aviação (SAF), fertilizante orgânico, levedura para alimentação animal, bioprodutos provenientes da fermentação de resíduos, CO2 para uso industrial, entre outros.

“Utilizado como matéria-prima, o açúcar abre uma cadeia de produtos chamada de sucroquímica; e o etanol abre para a alcooquimica”, afirma e segue: “As possibilidades são inúmeras e imensas. À medida que uma tecnologia se torna economicamente viável, ela vai sendo incorporada, aumentando a gama de produtos ofertados e, portanto, o rendimento da usina”.


“A cana-de-açúcar é uma plataforma capaz de fornecer alimento, energia, fibras, combustíveis, moléculas para indústria química e materiais de origem renovável. Essa versatilidade fará da biorrefinaria o modelo de negócio predominante nos próximos anos”, Raffaella Rossetto (Stab)


Combustíveis do futuro, políticas do presente

Entre as possibilidades para o futuro do setor sucroenergético, o biometano e o SAF possuem mandatos de descarbonização criados pela lei do Combustível do Futuro. No primeiro caso, a meta de redução de 0,5% nas emissões será cumprida por produtores e importadores de gás natural, o que deve representar um consumo de 480 mil metros cúbicos diários de biometano, conforme cálculos do Instituto Totum.

Já em relação ao combustível sustentável de aviação, as regras devem ser publicadas em breve, conforme promessa da atual diretora do departamento de biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia (MME), Lorena Mendes de Souza. A princípio, a lei determina que as companhias aéreas reduzam as emissões de gases do efeito estufa em 1% a partir de 2027, chegando a 10% em 2037.

Para Cagno Filho, isso significa que esse é o momento de “acelerar investimentos, ampliar linhas de financiamento, dar previsibilidade regulatória e consolidar um ambiente que incentive projetos de longo prazo”. Ou seja, usinas, governos e o mercado de crédito precisam agir em conjunto.

“A lei do Combustível do Futuro representa um marco importante justamente porque sinaliza segurança para que o capital privado avance com confiança. Mas ainda há um longo caminho até que tenhamos um mercado suficientemente estruturado para atender à crescente demanda mundial por combustíveis sustentáveis de aviação”, aponta.

Rossetto, da Stab, também destaca que a legislação incentiva o uso de biocombustíveis e cria previsibilidade de mercado. “Esse ponto é importante para investidores. Os projetos de SAF ou de biometano exigem investimentos elevados tanto em desenvolvimento como em infraestrutura”, enfatiza.

De acordo com a pesquisadora, a sinalização de que haverá mercado e de que os investimentos ocorrerão em ambiente regulatório estável é essencial para o futuro do programa.

No caso do SAF, ela aponta que as metas criam um mercado “que tende a crescer de forma consistente” e completa: “Isto estimulará o desenvolvimento de novas rotas tecnológicas, atraindo mais investimentos e posicionando o Brasil como potencial fornecedor para o mercado global”.

Também segundo ela, a redação da lei demonstra que o Brasil pretende ser uma economia de baixo carbono e que valoriza as biomassas, como cana, soja, milho, sorgo, eucalipto, entre outras. “De quebra, o país incentiva e impulsiona a própria agricultura”, observa.

Exportação de políticas públicas e de conhecimento

Já Montabone pontua que a legislação tem metas arrojadas e que o Brasil estaria apto a começar a cumprir esses objetivos: “O que falta mesmo é ganhar escalabilidade. Quando esses produtos se transformarem em commodities, nós seremos o exemplo”.

O executivo acredita que a Índia será uma “vitrine mundial”, mostrando que a solução proposta pelo Brasil pode ser levada a outros países. “O céu de Mumbai é cinza, mas vai ficar azul daqui a quatro ou cinco anos pelo emprego do biocombustível, com a mistura de 20% na gasolina”, projeta.

Ainda de acordo com ele, o Brasil pode passar a “exportar políticas públicas” que “beneficiam o futuro da próxima geração”. Ele acrescenta: “O RenovaBio e o Combustível do Futuro ajudaram o Brasil a chegar onde está e a ser uma das economias verdes mais libertadoras do planeta”.

O RenovaBio, aliás, é encarado por Rossetto como uma proteção ao setor por comprovar os benefícios ambientais dos biocombustíveis por meio de uma certificação vinculada à intensidade de carbono, com análise do ciclo de vida dos produtos.

“O programa é fortemente apoiado em dados internacionais e bem conservadores, justamente para prevenir possíveis desvios de informações que poderiam levar ao greenwashing”, destaca e segue: “A rastreabilidade é essencial e, ao obterem certificações, os produtores aumentam a credibilidade do ecossistema”.

Ela complementa que, à medida que mercados como SAF, biometano e biobunker se consolidarem, o mercado internacional exigirá evidências cada vez mais rigorosas do real benefício ambiental.

“A ciência, com metodologia reconhecida, indicará os números reais, evitando especulações. O diferencial competitivo deixará de ser apenas produzir um combustível renovável e passará a ser demonstrar, com dados auditáveis, sua sustentabilidade ao longo de toda a cadeia”, projeta.


“A principal defesa do setor será a combinação de ciência, rastreabilidade e transparência. Isso irá manter a confiança de investidores, consumidores e governos e garantir que os biocombustíveis sejam reconhecidos como uma solução efetiva para a descarbonização”, Raffaella Rossetto (Stab)


A pesquisadora participa da organização do 13º Congresso da Associação de Técnicos de Açúcar da América Latina e Caribe (Atalac), realizado pela Stab e pelo Centro Nacional das Indústrias do Setor Sucroenergético e Biocombustíveis (Ceise BR). Neste ano, o evento acontecerá em Ribeirão Preto (SP) entre os dias 11 e 14 de agosto, paralelamente à Fenasucro & Agrocana.

“O congresso será uma oportunidade única para apresentar ao mundo a ciência, a tecnologia e a capacidade de inovação desenvolvidas pelo Brasil nas áreas de bioenergia, biocombustíveis, agricultura e indústria sucroenergética”, celebra.

Ao reunir pesquisadores, empresas, produtores, lideranças e representantes governamentais dos principais países produtores de cana-de-açúcar da América Latina e do Caribe, ela busca criar um ambiente que vá além da realização de um evento científico.

“Queremos consolidar uma verdadeira cúpula latino-americana e caribenha da bioeconomia da cana, fortalecendo a cooperação regional para ampliar a competitividade dos nossos países e posicionar nossas soluções renováveis como commodities globais, reconhecidas pela sua qualidade, rastreabilidade, credibilidade e sustentabilidade”, afirma.

A pesquisadora completa: “Mais do que exportar açúcar, etanol ou bioenergia, queremos exportar conhecimento, inovação e confiança. O futuro da transição energética será construído com ciência, cooperação e sustentabilidade, e a América Latina tem todas as condições para liderar esse movimento”.

Rumo aos veículos pesados

Montabone, da Fenasucro, enfatiza que a experiência brasileira comprovou que o etanol é eficaz na mobilidade de baixo carbono de veículos leves. “A frota nacional já adotou os veículos flex. Tanto carros importados quanto nacionais utilizam essa ferramenta como uma mobilidade de baixo carbono”, afirma.

Por conta disso, ele acredita que o setor deveria direcionar seus esforços para os veículos pesados. “Estamos falando de caminhões, tratores, navios e aviões”, enumera.

De acordo com o executivo, esses mercados devem permitir que o país “quintuplique” o número de biorrefinarias. Ainda segundo ele, isso deve acontecer gradualmente, com o avanço nas misturas de biocombustíveis aos fósseis e chegando à adoção de opções totalmente renováveis.

O movimento também demanda uma adoção mais ampla do etanol pelo mundo e, considerando as preocupações nacionais de segurança energética, isso pediria por uma maior produção. Por conta desse cenário, Montabone defende que o etanol se torne uma commodity global – um conceito que não é novo para o setor, mas que traz seus próprios desafios.

Em artigo publicado em maio deste ano, o sócio-diretor do Pecege Consultoria e Projetos, João Rosa, cita que, além de ter uma produção ainda muito concentrada em Brasil e Estados Unidos, o biocombustível ainda é pouco consumido no mundo.

“Apenas 15 países utilizam etanol misturado à gasolina. E, mesmo assim, normalmente em percentuais tímidos, entre 5% e 10%”, afirma Rosa, que alerta: “Enquanto o etanol continuar tendo seu preço definido mais por decisões políticas locais do que por um mercado internacional robusto, continuaremos discutindo governos quando deveríamos estar discutindo demanda”.


“A fabricação de biocombustíveis é marca registrada do Brasil e não podemos perder essa vantagem de vender para o mundo uma tecnologia nacional, capaz de reduzir as emissões de CO2 em todo o planeta e com uma convivência muito inteligente entre o fóssil e o renovável”, Paulo Montabone (Fenasucro)


Biometano em franca expansão

A estratégia de ampliar o alcance do setor para os veículos pesados e outros mercados já está em andamento. Em junho, a Companhia de Gás de Minas Gerais (Gasmig) e o consórcio GeoMit assinaram um contrato que marca o início de um projeto de produção e distribuição de biometano no Triângulo Mineiro, com investimento previsto em R$ 1 bilhão.

O anúncio aconteceu pouco mais de um mês após a Copersucar anunciar o projeto logístico BioRota, que utiliza biometano em caminhões que transportam açúcar. Segundo a companhia, a iniciativa deverá ser escalável para todas as 42 usinas associadas da empresa nos próximos anos.

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“Iniciativas como o BioRota demonstram que o desenvolvimento do mercado de biometano depende de uma visão integrada da cadeia logística, da produção ao consumo”, aponta Rossetto, da Stab. “Não basta produzir biometano: é preciso criar condições para que ele chegue ao usuário final de forma competitiva, confiável e em escala”, acrescenta.

Ainda de acordo com ela, ações como essa podem transformar um produto emergente em um mercado estruturado e com credibilidade, pois criam demanda e conectam produtores e consumidores.

“Para que o biometano passe de solução local e ganhe escala, é preciso enfrentar diversos desafios, como ampliar a infraestrutura de distribuição e facilitar acesso à rede de gás, além de oferecer maior previsibilidade regulatória na comercialização para incentivar investidores”, argumenta.

Assim, apesar de não ignorar os obstáculos, Rossetto crê na expansão do biocombustível. “Projetos para produção de biometano já estão sendo implementados em diversas usinas”, declara, pontuando que a velocidade do crescimento talvez não alcance os anseios: “Existem alguns desafios a serem vencidos, como o investimento inicial em uma época em que a economia mundial caminha lentamente, a interligação com a infraestrutura de distribuição de gás e a regulação do mercado”.

Dessa forma, ela projeta que o setor deve ver um aumento significativo no número de plantas nos próximos anos. Com isso, a pesquisadora presume que haverá um ganho de escala e uma redução de custos.

Hugo Cagno Filho, da Udop, observa que as empresas pioneiras já mostram que o biometano é técnica e economicamente viável. “Os projetos têm permitido substituir o diesel em frotas, reduzir custos operacionais em determinadas aplicações e agregar valor a resíduos que antes tinham menor aproveitamento”, elenca.

Ainda de acordo com ele, o desafio da expansão está mais relacionado à infraestrutura, à logística de distribuição e à maturação dos modelos de negócio. “Como toda inovação de grande escala, é preciso tempo para que investimentos, regulação e demanda caminhem juntos”, comenta.

Deixar de investir é um “pecado” para o caixa

“Eu acredito que a biorrefinaria que não produzir biometano vai cometer um grande pecado para o próprio caixa”, afirma Paulo Montabone, da Fenasucro. “É um ganho fantástico porque 30% do custo do produto final das usinas é combustível fóssil. Ao produzir o seu próprio combustível, a usina ganha uma margem que vai garantir a sustentabilidade do seu negócio”, completa.

Ele se refere a iniciativas como a BioRota, mas também a projetos de uso do etanol pela frota agrícola, a exemplo dos já anunciados por empresas como Jalles e Atvos. Além disso, o executivo enfatiza a aposta na economia circular – com aproveitamento de resíduos para a produção – e a redução na emissão de gases do efeito estufa, o que amplia a sustentabilidade da indústria sucroenergética.

Montabe ainda traça um paralelo entre os investimentos em biometano e os em cogeração. “Lá atrás, quem não cogerava energia passou aperto. Agora, quem não fizer biogás vai passar aperto também. Hoje, as empresas que estão cogerando energia estão muito melhores do que aquelas que não estão”, avalia.

De acordo com ele, a redução de custos e a possibilidade de venda do biometano serão essenciais em momentos de preços baixos de açúcar ou etanol. “A eficiência tecnológica também ajuda na eficiência financeira da usina”, garante.


“Produzir o próprio combustível para utilizar nas máquinas, no campo, nas rodovias ou mesmo nos navios e nos aviões que farão a exportação do seu produto: isso vai mostrar para o mundo que a solução tecnológica do Brasil é limpa, renovável e apta para ganhar outros países”, Paulo Montabone (Fenasucro)


Para completar, o executivo aponta que quase 80% da indústria de base para o biogás já está no Brasil, garantindo acesso à tecnologia. “Quanto mais países estiverem produzindo biogás, biometano, etanol, butanol e hexanol, melhor vai ser, pois podemos transferir tecnologia para esses locais também”, acrescenta.

Já Raffaella Rossetto pensa que é necessário explicar o valor ambiental do biometano para a sociedade. “Trata-se de um combustível renovável que reduz significativamente as emissões de gases de efeito estufa, obtido utilizando resíduos da própria usina sucroenergética e, ainda, recicla os nutrientes em um novo resíduo, chamado de digestato, que segue para o campo, economizando fertilizantes minerais utilizado para o cultivo da cana-de-açúcar”, resume.

“Biobunker já é uma realidade”

Outro caminho que, segundo os especialistas, apresenta-se de forma concreta é o uso de etanol como biocombustível para navios. “O biobunker já é uma realidade”, afirma Montabone, que segue: “Há todo um trabalho sendo feito em Pernambuco, com o desenvolvimento dessa tecnologia através do etanol”.

Em maio, a Organização Marítima Internacional (OMI) definiu o valor padrão da pegada de carbono do etanol de milho brasileiro em 20,8 gramas de dióxido de carbono equivalente (CO2e) por megajoule. O valor se refere ao biocombustível produzido a partir do milho de segunda safra – e a possibilidade de fornecer para diversos mercados globais já chamou atenção de companhias como FS e Inpasa.

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“O primeiro passo já está sendo dado: construir as bases técnicas, regulatórias e comerciais para esses novos mercados. Certificações internacionais, padronização da rastreabilidade e comprovação da redução das emissões são elementos fundamentais”, afirma Cagno, da Udop.

Raffaella Rossetto complementa que, especificamente no transporte marítimo, o etanol pode ser utilizado diretamente com motores adaptados ou em misturas, o que possibilita um aumento considerável de demanda.

“O Brasil tem condições únicas para atender esse imenso mercado”, afirma a pesquisadora, que pondera: “Mas é claro que existem alguns desafios para esse crescimento, como aumentar a produção e a produtividade; reduzir custos; garantir a sustentabilidade do sistema como um todo; melhorar a logística e a infraestrutura de portos; criar marcos regulatórios; entre outros”.

Etanol é “a rota mais promissora” para SAF

Montabone ainda observa que, no caso do combustível sustentável de aviação (SAF), há várias rotas de produção possíveis. Uma delas é a chamada alcohol-to-jet (AtJ) que, segundo o executivo, é “a mais promissora de todas”; nela, o etanol se torna a matéria-prima para a produção de SAF.

Essa expectativa, segundo ele, realiza-se em projetos como o anunciado pela JetBio. A companhia do Summit Agricultural Group – um dos principais acionistas da FS – pretende construir a maior planta de SAF a partir da rota AtJ do mundo em Paulínia (SP).

De acordo com a empresa, o município foi escolhido por ser um polo industrial com acesso a rodovias, ferrovias, dutovias e portos. Além disso, a fábrica deve receber etanol produzido a partir de resíduos, de milho de segunda safra e de cana-de-açúcar. A produção, porém, só deve começar em 2030.

Além disso, o diretor da Fenasucro cita a Rebound, joint venture criada pela francesa Tereos – que controla seis usinas no Brasil – com a Technip Energies, a Airbus e a Safran. Nesse caso, a ideia é produzir SAF de etanol no Porto de Dunquerque, no norte da França.

“Isso mostra a capacidade que temos nesse momento. São grandes empresas se posicionando e buscando opções e soluções, já pensando no futuro da matriz energética global”, exalta Montabone.

Hugo Cagno Filho acrescenta que, no caso do SAF, o Brasil possui uma vantagem competitiva por contar com grande disponibilidade de etanol de baixa intensidade de carbono. Ele também acredita que a rota baseada em etanol é “extremamente promissora” porque aproveita uma cadeia produtiva já consolidada no Brasil.

“Naturalmente, diferentes rotas tecnológicas continuarão coexistindo. Não existe uma solução única para atender à demanda global de SAF”, afirma e segue: “Agora, é preciso ampliar projetos industriais, consolidar parcerias internacionais e criar escala para que o combustível sustentável se torne economicamente competitivo”.

Mas ele pondera que o compromisso de avançar com esses mercados deve ser compartilhado com outras nações. “É fundamental que países com economias mais desenvolvidas também assumam sua responsabilidade, ampliando investimentos e estimulando a demanda, pois, sem esse engajamento efetivo, muitos projetos poderão ter sua viabilidade comprometida”, argumenta.

Captura e armazenamento de carbono

Outro mercado a ser explorado pelas companhias do setor está relacionado aos créditos de carbono capturados e armazenados. No momento, uma das iniciativas mais avançadas no país é a da FS, que já anunciou a venda de 10 mil créditos para a Freepoint Commodities. Já a São Martinho está envolvida em um projeto do estado de São Paulo que prevê R$ 30 milhões em investimentos.

Para Hugo Cagno Filho, os créditos de carbono representam “uma das oportunidades mais estratégicas para o setor sucroenergético brasileiro”. Segundo ele, tecnologias de captura e armazenamento de carbono (BECCS) podem ampliar de forma significativa a contribuição das sucroenergéticas para a redução das emissões de gases do efeito estufa.

“Diversas empresas já estudam esse mercado porque enxergam uma nova fonte de receita e uma forma de monetizar atributos ambientais que o setor construiu ao longo de décadas”, garante e segue: “Para que esse mercado alcance todo o seu potencial, será fundamental avançar na regulamentação, nas metodologias de certificação, na segurança jurídica e na criação de um ambiente que valorize adequadamente os ativos de carbono produzidos no Brasil”.


“Tenho convicção de que o Brasil será protagonista na transição energética global. E esse protagonismo será construído pela capacidade que nosso setor sempre demonstrou de inovar, investir, produzir de forma sustentável e, principalmente, trabalhar de maneira colaborativa”, Hugo Cagno Filho (Udop)


Montabone concorda, enfatizando que a tecnologia ainda pode ganhar escala, gerando receita e minimizando os custos das companhias. “Tem muita coisa para ser desbravada dentro do setor, que está só esperando o momento certo para tirar vários projetos do papel”, afirma.

Por sua vez, Raffaella Rossetto é ainda mais enfática ao dizer que o mercado de créditos de carbono derivado de BECCS é “extremamente interessante e pode representar uma das próximas fronteiras da bioeconomia”.

Ela ainda completa: “Como o carbono retirado da atmosfera é armazenado de forma permanente, em grandes profundidades no solo, estamos falando de emissões negativas, algo que será muito valorizado por empresas e países que assumiram compromissos com metas de redução de emissões e buscam reduzir efeitos nas mudanças climáticas”.

Entretanto, ela observa que, por se tratar de uma nova tecnologia, os desafios são grandes. Entre eles, a pesquisadora cita: reduzir custos de implantação; ampliar infraestrutura para transporte e armazenamento de CO2; desenvolver metodologias para certificação; e, principalmente, consolidar um mercado de carbono com alta credibilidade e aderência ambiental.

“No futuro, as biorrefinarias poderão gerar valor não apenas pela comercialização dos produtos, mas também pelo carbono que conseguem deixar de emitir. O Brasil tem posição privilegiada para liderar também esse novo mercado”, enfatiza.

A própria Fenasucro está de olho nas emissões de gases do efeito estufa. Na edição de 2026, o evento promete aprimorar o rastreamento das emissões associadas às etapas de montagem e desmontagem dos estandes. Além disso, deve ser implementado um sistema integrado de gestão de resíduos, abrangendo todas as fases do evento.

Trata-se do programa Canaoeste Green, desenvolvido em parceria com a Associação dos Plantadores de Cana do Oeste do Estado de São Paulo (Canaoeste). Conforme a organização do evento, o projeto segue as diretrizes do GHG Protocol, referência internacional para contabilização e reporte de emissões de gases de efeito estufa.

Por sua vez, a compensação das emissões será realizada por meio de áreas de vegetação nativa preservadas por associados da Canaoeste que possuem produção de cana-de-açúcar certificada pelo padrão internacional Bonsucro. Já em relação a resíduos, uma parceria com a Copercana BioCoop prevê a instalação de pontos de coleta seletiva.

Etanol de segunda geração e outras possibilidades

Enfatizando o conceito de economia circular, Montabone acredita que o etanol de segunda geração (E2G) deve ser mais explorado pela indústria sucroenergética no futuro. Atualmente, apenas a Raízen produz o biocombustível, tendo somado 120,2 milhões de litros na safra 2025/26, alta anual de 104,4%.

“Grandes testes já foram feitos e, dentro da indústria sucroenergética, há muitas possibilidades para o etanol de segunda geração, que reutiliza tanto palha quanto bagaço, um resíduo da fabricação de açúcar e etanol de primeira geração, para a produção de um etanol mais verde ainda”, detalha.

Segundo ele, o avanço no uso de etanol por veículos pesados deve abrir caminhos para o E2G. O biocombustível representa, neste contexto, uma possibilidade de ampliar a produção sem a necessidade de aumentar a área de canavial, além de possuir uma pegada de carbono muito baixa.

O executivo ainda completa que o avanço acelerado do etanol de milho permite que as usinas de cana-de-açúcar encarem as próprias possibilidades. Além do E2G, ele menciona a comercialização de bagaço de cana para a alimentação de gado e a produção de leveduras.

“Todas as tecnologias que estavam engavetadas por falta de viabilidade técnico-comercial, agora, passam a ter viabilidade comercial. Afinal, a técnica já está dominada”, garante.

Aliás, enquanto o setor de etanol de milho se preocupa com a oferta e a origem da biomassa a ser utilizada em suas caldeiras, as companhias que usam a cana-de-açúcar podem encontrar oportunidades. Para Montabone, além da venda de bagaço, também é possível investir nas caldeiras para ampliar a própria cogeração de energia – o que deve beneficiar a adoção de novas matérias-primas.

“Tem muita coisa para acontecer: etanol de segunda geração, sequestro de carbono, plástico verde, etanol de lignina”, enumera e conclui: “A onda verde que está se formando mundialmente é muito importante para que o Brasil continue sendo líder na produção de tecnologia”.

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Rossetto, da Stab, complementa que já existem muitas tecnologias para a obtenção de produtos diversos, incluindo bioplásticos, químicos, solventes, ingredientes para cosméticos, papel, hidrogênio renovável e outras opções de alto valor agregado. “Mas nem todas essas alternativas terão o mesmo ritmo de desenvolvimento”, pondera.

De acordo com a pesquisadora, algumas destas possibilidades já são competitivas, enquanto outras ainda necessitam de avanços tecnológicos, redução de custos ou demanda imediata. “O direcionamento está claro. A biomassa deixará de abastecer apenas o mercado de açúcar e combustíveis para atender também a indústria química e outras áreas que necessitam de materiais biológicos e renováveis”, projeta.

Ela exemplifica o cenário com os grãos secos de destilaria (DDGs), produzidos pelas usinas de etanol de milho. Segundo a pesquisadora, ele foi inicialmente pensado como um coproduto secundário, mas se tornou uma importante fonte de receita. “A cana oferece diversas oportunidades semelhantes e talvez até maiores porque a biomassa – tanto da cana como de seus resíduos – é extremamente diversificada”, acrescenta.

Dessa forma, Rossetto acredita que o desafio passa a ser escolher onde investir e onde diversificar. “Soluções regionais podem ocorrer, valorizando oportunidades mais compatíveis com sua infraestrutura, mercado e estratégia de negócios”, observa.

Indo por um caminho semelhante, Hugo Cagno Filho argumenta que, quanto maior for o aproveitamento da biomassa, maior será a geração de valor por hectare cultivado.

“A questão não é escolher apenas uma alternativa, mas construir modelos de negócios que aproveitem integralmente cada componente da biomassa, aumentando a geração de valor”, diz. Para ele, essa é uma das grandes discussões que estarão presentes na Fenasucro deste ano.

Conteúdo patrocinado pela Fenasucro & Agrocana

Texto: Renata Bossle
Edição: Gabrielle Rumor Koster