Processamento de cana deve ficar acima das 600 milhões de toneladas, com matéria-prima sendo majoritariamente direcionada ao açúcar
A safra de cana-de-açúcar 2023/24 veio com grandes expectativas para os produtores da região Centro-Sul. Depois de uma quebra significativa em 2021/22 e do início de uma recuperação na temporada seguinte, o setor sucroenergético esperava manter a tendência de retomada. E, agora, está a poucos passos de voltar a superar um processamento acima das 600 milhões de toneladas, de acordo com o mais recente levantamento realizado pelo NovaCana com 14 empresas especializadas.
Em maio deste ano, as consultorias ouvidas pelo portal apontavam para um aumento mais discreto na moagem da região, com uma perspectiva média de 591,24 milhões de toneladas. Esta expectativa mais baixa era justificada pela confirmação do El Niño, que prometia muitas chuvas para a temporada.
Ainda que as precipitações tenham atrapalhado a colheita em alguns momentos, também houve benefícios para o desenvolvimento da cana-de-açúcar na região. Neste momento, com a temporada já encerrada em algumas unidades, as visões são mais otimistas.
De acordo com a União da Indústria de Cana-de-açúcar e Bioenergia (Unica) até o dia 16 de novembro a moagem do Centro-Sul chegou a 595,4 milhões de toneladas, alta anual de 15%.
Segundo a entidade, 238 unidades estavam em operação até o encerramento da quinzena e 50 finalizaram seus processamentos. No ciclo anterior, 121 usinas já haviam terminado suas moagens, o que indica que esta safra poderá se alongar.
Para a analista de açúcar e etanol da hEDGEpoint, Lívea Coda, a disponibilidade de cana nesta temporada está próxima de 655 milhões de toneladas. Entretanto, devido a problemas de velocidade de moagem e chuvas acima do histórico recente, o volume não deve ser atingido em sua totalidade. Coda aponta que cerca de 10 milhões de toneladas de cana bisada devem permanecer no campo.
Na média das empresas consultadas, a moagem do Centro-Sul deve alcançar 623,1 milhões de toneladas. Caso o resultado se confirme, ele representaria um aumento anual de 13,6% em relação às 548,28 milhões de toneladas vistas na temporada anterior.
Entre as 14 empresas que divulgaram dados para a produção de cana nesta compilação, a perspectiva para 2023/24 variou entre 580 milhões e 645,3 milhões de toneladas. A diferença de 65,3 milhões de toneladas representa uma maior disparidade entre as empresas; em maio, por exemplo, a discrepância entre números era de apenas 27 milhões de toneladas.
Na versão completa desta reportagem, restrita aos assinantes do NovaCana, confira gráficos e análises com as expectativas das consultorias a respeito do andamento da safra 2023/24 e seus possíveis resultados.
Empresas participantes:
- StoneX
- Agroconsult
- BP Bunge
- Conab
- CovrigAnalytics
- Datagro
- FG/A
- hEDGEpoint
- Itaú BBA
- Pecege
- Rabobank
- S&P Global Commodity Insights
- Safras & Mercado
- USDA
Atualização (13/12, às 12h): A projeção da BP Bunge para o etanol de milho foi substituída para trazer números mais precisos. O texto abaixo e os gráficos foram alterados.
A safra de cana-de-açúcar 2023/24 veio com grandes expectativas para os produtores da região Centro-Sul. Depois de uma quebra significativa em 2021/22 e do início de uma recuperação na temporada seguinte, o setor sucroenergético esperava manter a tendência de retomada. E, agora, está a poucos passos de voltar a superar um processamento acima das 600 milhões de toneladas, de acordo com o mais recente levantamento realizado pelo NovaCana com 14 empresas especializadas.
Em maio deste ano, as consultorias ouvidas pelo portal apontavam para um aumento mais discreto na moagem da região, com uma perspectiva média de 591,24 milhões de toneladas. Esta expectativa mais baixa era justificada pela confirmação do El Niño, que prometia muitas chuvas para a temporada.
Ainda que as precipitações tenham atrapalhado a colheita em alguns momentos, também houve benefícios para o desenvolvimento da cana-de-açúcar na região. Neste momento, com a temporada já encerrada em algumas unidades, as visões são mais otimistas.
De acordo com a União da Indústria de Cana-de-açúcar e Bioenergia (Unica) até o dia 16 de novembro a moagem do Centro-Sul chegou a 595,4 milhões de toneladas, alta anual de 15%.
Segundo a entidade, 238 unidades estavam em operação até o encerramento da quinzena e 50 finalizaram seus processamentos. No ciclo anterior, 121 usinas já haviam terminado suas moagens, o que indica que esta safra poderá se alongar.
Para a analista de açúcar e etanol da hEDGEpoint, Lívea Coda, a disponibilidade de cana nesta temporada está próxima de 655 milhões de toneladas. Entretanto, devido a problemas de velocidade de moagem e chuvas acima do histórico recente, o volume não deve ser atingido em sua totalidade. Coda aponta que cerca de 10 milhões de toneladas de cana bisada devem permanecer no campo.
Na média das empresas consultadas, a moagem do Centro-Sul deve alcançar 623,1 milhões de toneladas. Caso o resultado se confirme, ele representaria um aumento anual de 13,6% em relação às 548,28 milhões de toneladas vistas na temporada anterior.

Os levantamentos realizados pelo NovaCana ao longo do ano demonstram que o otimismo foi um sentimento crescente no decorrer da safra. Em fevereiro, 22 companhias apontavam para um processamento de até 581,93 milhões de toneladas. Em maio, a média registrada entre 19 empresas do setor subiu para 591,24 milhões de toneladas. Na pesquisa mais recente, por sua vez, houve um acréscimo de 5,4%.
Na Conferência NovaCana, realizada em setembro, três consultorias já elevaram a média de moagem da região para 623,5 milhões de toneladas. O valor, resultado de uma amostragem menor, está um pouco acima do visto na atual sondagem.

Com o mercado de açúcar em alta durante todo o ano, as expectativas para a produção do adoçante foram subindo a cada consulta. A média saiu de 37,05 milhões de toneladas em maio para 40,74 milhões de toneladas no levantamento mais recente. Da mesma forma, o mix de produção subiu 1,4 ponto percentual para o açúcar, alcançando 48,8%.
Ainda assim – por conta da maior disponibilidade de matéria-prima –, a perspectiva média para a produção de etanol de cana teve um crescimento sutil, para 26,15 bilhões de litros, divergindo levemente da média vista em setembro, de 26,27 bilhões de litros. Na análise mais recente, 11,07 bilhões de litros são de anidro e 15,39 bilhões de litros de hidratado.
Entre as 14 empresas que divulgaram dados para a produção de cana nesta compilação, a perspectiva para 2023/24 variou entre 580 milhões e 645,3 milhões de toneladas. A diferença de 65,3 milhões de toneladas representa a maior divergência entre as empresas; em maio, a discrepância entre números foi de apenas 27 milhões de toneladas.

Em outubro do ano passado, no levantamento feito a respeito da temporada 2022/23, a distância entre os números era de 12,5 milhões de toneladas.
A divergência atual também é uma das maiores da série histórica de levantamentos realizados pelo NovaCana neste período do ano. Ela foi seguida pela discrepância de 51 milhões de toneladas vista em junho de 2015, para o ciclo 2015/16.
Grandes números para moagem
Entre as consultorias, a maior expectativa para a moagem é da hEDGEpoint, com 645,3 milhões de toneladas. Caso o número atual se concretize, ele representaria um aumento de 17,7% em relação às 548,28 milhões de toneladas da temporada anterior.
No levantamento realizado em maio, a FG/A se destacou com a maior aposta para o resultado, com 600 milhões de toneladas. Agora a consultoria aparece com o segundo maior valor da lista, com 645 milhões de toneladas.
Em seguida, a StoneX aponta 642,6 milhões de toneladas, o que também seria um recorde para a região. A consultoria considera que o alto volume de chuvas deste ano colaborou para aumentar a produtividade dos canaviais.

Já a menor aposta veio da Safras & Mercado, com 580 milhões de toneladas. Ainda assim, o volume representaria um aumento de 5,8% em relação ao ciclo passado. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês) manteve sua indicação de 590 milhões de toneladas.
Estas foram as duas únicas empresas que indicaram um processamento abaixo de 600 milhões de toneladas para o ciclo corrente.
Mix de produção
O cenário de alta no preço do adoçante resultou em um mix de produção predominantemente açucareiro, como já apontavam os levantamentos anteriores. A StoneX afirma que a dinâmica entre os produtos da cana e os dados da safra atual já indicam um crescimento no volume de cana-de-açúcar destinada à fabricação da commodity.
A consultoria aponta para um mix produtivo em 49% para o adoçante, o que acredita estar em linha com os atuais investimentos em aumento de capacidade de cristalização do setor.
Outras quatro empresas têm a mesma visão para o mix do Centro-Sul até o final da safra: Itaú BBA, Pecege, Safras & Mercado e USDA. Desde maio, o adido norte-americano aumentou em 1,3 ponto percentual sua perspectiva para o índice.
De maneira geral, as companhias ficaram alinhadas entre 48,3% e 49% de mix voltado para o açúcar.

A visão mais baixista veio da FG/A, com 48,3%. Ela foi seguida pela Safras & Mercado, com 48,5%; pelo Rabobank, com 48,5%; e pela Datagro, com 48,6%. Agroconsult, BP Bunge, hEDGEpoint e CovrigAnalytics acreditam que 48,7% da matéria-prima será voltada para a fabricação do adoçante.
Na temporada anterior, o mix foi de 45,9% para o açúcar. Isso significa que todas as empresas apostam em um aumento de, pelo menos, 2,4 pontos percentuais até o final da temporada 2023/24.
Alta produção de açúcar
Com os números apontando para um direcionamento ainda maior de matéria-prima para o açúcar, o volume produzido deve se manter em alta. O chefe da área de pesquisa setorial do Rabobank Brasil, Andy Duff, aponta que o mercado do adoçante continua oferecendo preços interessantes aos produtores, com incógnitas ainda rondando as próximas safras da Índia e da Tailândia, incentivando uma maximização da produção no Brasil.
Na média das 14 companhias que forneceram o dado ao NovaCana, a produção do adoçante deverá alcançar 40,74 milhões de toneladas até o fim da safra, caracterizando uma alta de 20,8% ante as 33,73 milhões de toneladas vistas em 2022/23.
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) explica que o aumento de direcionamento para produção de açúcar é sustentado pela redução de competitividade de etanol em alguns estados. Além disso, o mercado externo que se mantém aquecido devido a uma menor oferta por parte de alguns dos principais países produtores.
A entidade aponta para uma produção de 43,22 milhões de toneladas do adoçante no Centro-Sul, maior valor entre todas as empresas ouvidas pelo NovaCana. Se alcançado, o volume resultaria em uma alta anual de 28,1%.

A segunda maior projeção veio pela StoneX, com 41,9 milhões de toneladas.
Na outra ponta, o USDA traz a menor visão para a produção do açúcar, com 38 milhões de toneladas. Ainda assim, o volume representa um aumento de 4,27 milhões de toneladas ante a safra 2022/23.
Pouco crescimento para o etanol
Em seu relatório, o USDA afirma que a produção de etanol irá aumentar devido à maior disponibilidade de matéria-prima na temporada. O etanol de milho, que segue em expansão, também deverá contribuir para este crescimento.
O departamento norte-americano, ainda assim, destaca que o consumo do biocombustível ainda não recuperou os volumes vistos antes da pandemia de covid-19. Desta forma, acredita que os produtores devem manter a preferência pela fabricação de açúcar.
Andy Duff, do Rabobank, explica que, para o próximo ano, há uma incerteza em volta do mercado de etanol: “Estamos vivendo um momento de grande volatilidade tanto no preço do petróleo, e por isso da gasolina, quanto no câmbio”.
Na média, as empresas consultadas esperam que a cana-de-açúcar fabrique 26,15 bilhões de litros de etanol até o final da safra 2023/24. O volume representaria uma alta de 8,5% em relação aos 24,48 bilhões de litros observados no ciclo 2022/23.
Entre as consultorias, a FG/A indica o maior volume de biocombustível a ser fabricado a partir da cana, com 27,4 bilhões de litros. Em seguida, a hEDGEpoint espera uma produção de 27 bilhões de litros.

Na outra ponta, as menores apostas vieram do USDA (23,3 bilhões de litros), da Safras & Mercado (25,5 bi L) e da Conab (25,7 bi L).
Para o etanol de milho, a média chegou a 6,02 bilhões de litros, alta anual de 35,9%. Duff aponta que, apesar de ainda ser relativamente novo, o setor de etanol de milho tem se mostrado robusto e com tendência de crescimento – vide os projetos que estão sendo anunciados, como a unidade da Brasbio no Piauí, além das recentes expansões da Inpasa em Dourados (MS) e da FS em Primavera do Leste (MT).
Todas as empresas ouvidas pelo NovaCana apontam para um aumento na produção do etanol feito a partir do grão. A Agroconsult tem a mais alta expectativa, com 6,3 bilhões de litros, o que representaria um aumento anual de 42,2%. Mesmo a menor perspectiva, de 5,5 bilhões de litros, vinda do Itaú BBA, seria uma alta de 24,2% ante os 4,43 bilhões de litros vistos na temporada 2022/23.
Levando em conta o tipo de etanol produzido a partir da cana-de-açúcar, a média das estimativas indica a fabricação de 15,39 bilhões de litros de hidratado, o que representaria uma alta anual de 10,2%. No ciclo anterior foram produzidos 13,96 bilhões de litros do biocombustível utilizado para abastecer diretamente os veículos.

Da mesma forma, na média, o anidro de cana passaria por uma elevação de 8,1%. Na média das consultorias, seriam fabricados até o fim da safra atual 11,07 bilhões de litros, enquanto na anterior foram produzidos 10,24 bilhões de litros do renovável a ser misturado à gasolina.
A previsão para cada tipo de etanol de milho, por sua vez, é de 3,57 bilhões de litros de hidratado (+34,2%) e de 2,44 bilhões de litros de anidro (+37,8%).
Melhora para o ATR
Segundo a Unica, a concentração de açúcares totais recuperáveis (ATR) foi de 140,8 quilos por tonelada de cana em 2022/23, uma queda anual de 0,2%. A entidade também afirma que, até a primeira quinzena de novembro, o índice da atual temporada chegou a 140,59 kg/t, com uma variação negativa de 0,4% em relação ao mesmo período do ciclo anterior.
Entre as empresas consultadas, a média ficou em 140,73 kg/t, um pouco acima do resultado parcial apresentado pela Unica. Se confirmado, o valor representaria uma baixa de 0,05%.
Neste caso, a visão mais altista veio da Safras & Mercado, com 148 kg/t, que seria um acréscimo anual de 5,1%. Em seguida, o USDA espera uma concentração de 143,73 kg/t.

Entre as 13 consultorias que forneceram o dado ao NovaCana, sete delas acreditam que, na safra 2023/24, a concentração de ATR não ultrapassará a marca de 140 kg/t: hEDGEpoint; Datagro; S&P Global Commodity Insights; BP Bunge; StoneX; Pecege; e FG/A.
A menor estimativa foi da hEDGEpoint, com 139,2 kg/t, o que representaria uma queda de 1% em relação à temporada anterior. A Datagro e a S&P Global Commodity Insights têm visões semelhantes, de 139,4kg/t e 139,44 kg/t, respectivamente.
Em relação a quantidade total de ATR, seis empresas contabilizaram o índice; além disso, o NovaCana calculou os dados de outras sete com base em seus números para a moagem e para o índice de ATR por tonelada de cana. Neste caso, as consultorias divergiram em suas expectativas para o próximo ano, mas, ainda assim, todas indicaram um aumento em comparação com as 77,2 milhões de toneladas vistas na temporada 2022/23.
Inclusive, a Unica já relata um acréscimo de 14,5% no acumulado da safra até a primeira quinzena de novembro, totalizando 83,71 milhões de toneladas.
No levantamento atual, a FG/A indicou o mais alto valor, com 90,26 milhões de toneladas, um crescimento anual de 16,9%.

O segundo maior índice foi da hEDGEpoint, com 89,8 milhões de toneladas. Na sequência, a StoneX aponta para 89,7 milhões de toneladas. A consultoria explica que, em 2022/23, o Centro-Sul registrou um alto volume de chuvas, o que atrapalhou a colheita, mas também representou um aumento significativo na produtividade da região.
O menor valor, por outro lado, foi estimado pelo USDA, com 84,8 milhões de toneladas; ainda assim, ele representaria um aumento anual de 9,8%. Em seguida, a Safras & Mercado projetou 85,84 milhões de toneladas.
Giully Regina – NovaCana