Tratar das nuances que influenciam o mercado de açúcar e etanol não é tarefa fácil. Dinâmicas de mercado, o preço do petróleo e o balanço global de açúcar, além do contexto político-econômico, são apenas alguns fatores considerados pelas usinas na hora de tomar decisões

novaCana.com 26 jun 2019 - 11:03 - Última atualização em: 24 jul 2019 - 08:08

Os estrategistas do setor sucroenergético precisam olham para inúmeros elementos na hora de direcionar o mix das usinas, tomar as decisões de venda e definir os investimentos das companhias. Apesar de algumas noções do mercado serem de amplo conhecimento, ainda há aspectos que fogem do alcance de parte dos analistas – principalmente levando em consideração perspectivas de médio e longo prazo.

O diretor de estratégia da Copersucar, Tomas Manzano, é um profissional que entende destas questões. Administrador com especialização pela Universidade de Stanford, ele tem sete anos de experiência no setor e vê a temporada atual com otimismo – apesar da baixa produtividade dos canaviais e da manutenção dos resultados da colheita.

Durante o evento Expedição Custos Cana, em Piracicaba (SP), ele apresentou a moagem estimada pela Copersucar, que ficaria entre 575 e 585 milhões de toneladas de cana. O número representa um leve crescimento ante as 573 milhões de toneladas vistas na temporada 2018/19.

O valor é próximo à média do mais recente compilado de estimativas feito pelo novaCana, com dados de 24 empresas. De acordo com Manzano, o que pesa na produção brasileira é a baixa produtividade, derivada de canaviais envelhecidos e de “uma realidade econômica dura, deixada pelos governos passados”.

Com a safra 2019/20 já em andamento, Manzano poderá fazer previsões ainda mais assertivas. Em setembro, ele será moderador do painel “Inteligência de mercado em ação”, que ocorre no primeiro dia da NovaCana Ethanol Conference 2019. Entre os palestrantes confirmados para o painel estão a gerente de pesquisa da Bunge, Luciana Torrezan, e o gerente do departamento de pesquisas do Rabobank, Andy Duff.

A programação completa está disponível no site do evento e as inscrições já estão abertas. A Nova Cana Ethanol Conference será realizada em São Paulo, nos dias 16 e 17 de setembro.

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Produtividade baixa: um problema brasileiro

A princípio, Manzano prevê uma pequena recuperação na produtividade dos canaviais em 2019/20, que ficará entre 74 e 76 toneladas de cana por hectare, dependendo das condições climáticas. “Tivemos uma taxa de renovação um pouco maior – mas ainda não ideal – nos últimos dois anos, o que fez com que a idade média do canavial parasse de envelhecer, pelo menos”, explica.

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Ele observa que, em comparação com a beterraba na Europa e o milho nos Estados Unidos, a cana-de-açúcar brasileira teve uma redução expressiva neste quesito. De 2005 para cá, houve um decréscimo de produtividade devido à falta de planejamento na mecanização, à realidade econômica e ao envelhecimento do canavial, conforme expôs o diretor. Assim, eventuais crescimentos na moagem se deram apenas devido à expansão na área.

Ele reforça, porém, que a produtividade é um fator importante para elevar a competitividade. Segundo ele, outro ponto que prejudica a rentabilidade brasileira é o fato do mercado global de açúcar ser mais protegido do que no Brasil, com diversos incentivos, subsídios e barreiras internacionais “atrapalhando bastante” a competitividade da commodity brasileira.

Mas ainda há uma luz no fim do túnel. “Temos fatos promissores que nos levam a estar otimistas sobre a recuperação de produtividade: novas variedades, formas de manejo, tipos de tratos culturais”, explica Manzano, que completa: “Somos otimistas olhando para o futuro, mas isso vai estar baseado em uma lógica econômica, para que os investimentos sejam feitos e essa realidade se materialize”.

Etanol segue no radar

Em relação à produção, Manzano espera que o direcionamento de matéria-prima das usinas siga a estratégia da safra 2018/19. Segundo ele, “a flexibilidade fantástica” do setor em relação ao mix de produção retirou 10 milhões de toneladas de açúcar do balanço global, movimento importante para a sustentação dos preços.

“A visão para a safra é incerta porque o mix ainda vai mudar bastante dependendo da paridade de preços do etanol e do açúcar”, explica o diretor da Copersucar, que arrisca um mix para a commodity entre 35% e 36%, a depender das arbitragens de preços nos próximos meses.

O valor é levemente superior ao registrado na safra 2019/18. Isso ocorre porque a empresa enxerga que os preços devem atrair um pequeno aumento na produção, sem deixar de manter a safra fortemente alcooleira, em um patamar parecido ao da temporada passada. A projeção é que a produção nacional de etanol fique entre 30 e 31 bilhões de litros.

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No ano passado, conforme Manzano, a crise econômica, os preços altos do petróleo e, consequentemente, a gasolina acima dos R$ 4 nos postos geraram uma redução no consumo do combustível fóssil, beneficiando o etanol. “Este ano, a gente vê uma recuperação, mas não é nada muito relevante nesse cenário", pondera.

A “boa notícia”, conforme o diretor, é justamente a troca que o consumidor fez do fóssil para o renovável. “Quando a gasolina perdeu 9% do consumo no ano passado, o etanol preencheu esse espaço”, relembra. Com isso, o peso do biocombustível no consumo da matriz energética aumentou, uma tendência que ele espera que se mantenha neste ano.

“Isso vem muito do atrelamento da política de preços da Petrobras ao mercado internacional, a partir do momento em que a gente deixou de ter aqueles preços artificiais controlados por políticas públicas”, justifica Manzano.

Como a Petrobras vem mantendo a política atrelada ao mercado global de petróleo, ele acredita que isso deve sustentar a relação de preços entre etanol e gasolina abaixo de 70%, incentivando o consumo do renovável.

Preços da commodity

Não há como olhar o mercado global de açúcar sem analisar safras anteriores, que ditam os preços e possibilidades de déficit ou superávit.

Tomas Manzano conta que, entre 2012 e 2015, houve um estímulo aos aumentos de produção na Índia, na Europa, na China e também no Brasil, que chegou a fabricar 35 milhões de toneladas de açúcar. “Tivemos preços excelentes na safra 2016/17, chegando a bater os 25 centavos de dólar”, relembra o diretor.

Porém, este estímulo gerou uma posterior redução nos preços. Entre 2015/16 e 2016/17, aconteceu o que Manzano chama de “choque na oferta”, causado por condições climáticas na Índia e na China, além de mudanças no Brasil. A situação trouxe o mercado para próximo dos 10 centavos de dólar por libra-peso.

Atualmente, conforme o diretor, a produção foi desestimulada em boa parte do mundo e é esperado um equilíbrio entre oferta e demanda na atual temporada, que encerra em setembro deste ano, e um déficit para 2019/20. “O Brasil teve um papel importante de enxugar os estoques mundiais e, por isso, estamos otimistas”, afirma e completa: “O mundo deve precisar do açúcar brasileiro agora ou na próxima safra”.

E é este possível “momento de inflexão no preço do açúcar” que faz com que a Copersurcar não acredite em uma maximização total da produção de etanol em detrimento do adoçante. “Nossa visão é construtiva. O preço do açúcar talvez se recupere nos próximos meses, no segundo semestre da safra atual”, pondera.

Além disso, de acordo com ele, existem estoques elevados de açúcar branco em geografias que não afetam as exportações.

De olho no mercado global

Conforme Manzano, nas últimas duas safras, a produção da Índia exerceu um papel “bastante influente”, com condições climáticas favoráveis que, inclusive, fizeram aumentar a área plantada. Porém, ele afirma que o que se espera para o ciclo global 2019/20 é uma redução nesta produção: a Copersucar projeta uma diminuição de 9% na área de cana indiana em 2019, com oferta menor do que no anterior.

Movimento semelhante foi visto na produção da Tailândia, que cresceu de 10 milhões para 15 milhões de toneladas entre 2016/17 e 2017/18. Para a atual safra, que se encerra em outubro, são esperadas 14,4 milhões de toneladas. Já para a 2019/20, a Copersucar prevê uma redução em função da retração de áreas de plantio em 8% por conta da troca por outras culturas, como a mandioca, que está remunerando melhor do que o açúcar.

Na Europa, o destaque é a produtividade, que fez a produção atingir 20 milhões de toneladas na temporada 2017/18. Para 2018/19, é esperado um equilíbrio ou leve queda de produção, em função da realidade de preços e da redução da área de beterraba. “É uma cultura anual, que pode flutuar bastante dependendo do plantio”, explica Manzano. A tendência para 2019/20 é de uma área 5% menor.

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