Levantamento realizado pelo NovaCana com nove empresas de consultoria mostra que a aposta agora é de um excedente da produção global de açúcar na safra 2017/18
Nem a perspectiva de um novo El Niño, nem as dificuldades que a cultura de cana-de-açúcar tem enfrentado na Ásia e nem as incertezas sobre a safra brasileira foram capazes de abalar a confiança de diversas consultorias especializadas a respeito de uma recuperação da produção mundial de açúcar. Ainda que a safra global 2017/18 comece apenas em outubro, já existe quase um consenso de excedente, após dois anos consecutivos de déficit na produção e uma consequente diminuição dos estoques mundiais do adoçante.
O resultado é percebido em um levantamento realizado pelo NovaCana com nove companhias especializadas que já informaram suas estimativas para o período.
Leia mais:
- Levantamento com nove consultorias sobre balanço das safras 2016/17 e 2017/18
- A atual média das estimativas
- Novos paradigmas para a evolução do consumo de açúcar
- Previsões de avanço na produção mundial de açúcar
- Posição dos estoques mundiais
- Possibilidade de um terceiro ano consecutivo de déficit
Nem a perspectiva de um novo El Niño, nem as dificuldades que a cultura de cana-de-açúcar tem enfrentado na Ásia e nem as incertezas sobre a safra brasileira foram capazes de abalar a confiança de diversas consultorias especializadas a respeito de uma recuperação da produção mundial de açúcar. Ainda que a safra global 2017/18 comece apenas em outubro, já existe quase um consenso de excedente, após dois anos consecutivos de déficit na produção e uma consequente diminuição dos estoques mundiais do adoçante.
O resultado é percebido em um levantamento realizado pelo NovaCana com nove companhias que já divulgaram suas estimativas iniciais para o período. A atual média das estimativas é de um excedente de 1,9 milhão de toneladas de açúcar.

Como consequência desse sentimento, os futuros de açúcar – que chegaram a ser negociados a 23,81 centavos de dólar por libra-peso em outubro de 2016 – viram seus preços caírem vertiginosamente. No começo de maio deste ano, o açúcar foi negociado a cUS$ 15,31/lb-peso, um valor que o mercado não via há mais de um ano, desde abril de 2016.

Novos paradigmas de consumo
Com a maior expectativa de superávit produtivo até o momento, a Green Pool Commodities acredita que a produção na safra 2017/18 excederá o consumo em 4,72 milhão de toneladas. O número é inferior a uma previsão anterior, de 4,79 milhões de toneladas.

Mais do que destacar flutuações na produção, contudo, a consultoria aborda uma desaceleração no crescimento do consumo. De acordo com os números apresentados, o consumo global deve avançar para 182,39 milhão de toneladas na safra 2017/18, ante 179,62 milhões de toneladas em 2016/17.
Essa alta de 1,54% está no menor patamar do índice normalmente utilizado para o crescimento do consumo mundial de açúcar, que costuma variar entre 1,5% e 2%. Conforme a consultoria, tem sido observado crescimento em países em desenvolvimento, mas as nações desenvolvidas apresentaram um recuo.
“Consumo é a maior questão para o mercado de açúcar" (Green Pool)
Já para a consultoria especializada em agronegócio Platts Kingsman, o consumo de açúcar deve avançar apenas 1% no próximo ano, o menor índice dos últimos sete anos. Com isso, a empresa estabeleceu sua projeção de excedente para a safra global 2017/18 de açúcar em 3,14 milhões de toneladas.
Esse número é um dos mais altos previstos – perdendo apenas para a perspectiva da Green Pool – porque a Platts Kingsman também projeta uma produção robusta no Brasil e na Tailândia, o que elevaria a produção global para 187,7 (+6,6%) em 2017/18. Segundo o analista sênior do setor de açúcar, Claudiu Covrig, o Brasil é o único produtor que consegue se manter competitivo nesse contexto, que resultaria em preços mais baixos. Todos os demais países demandarão preços maiores para cobrir seus custos, ponderou o especialista.
Quem também está de olho no consumo é a agência oficial de commodities da Austrália, a Abares. A agência aposta que o consumo permanecerá quase inalterado em 2017/18 na comparação com 2016/17, subindo apenas 200 mil toneladas e totalizando 184,2 milhões de toneladas. Considerando que a produção de açúcar deve aumentar 4% em 2017/18, chegando a 183,1 milhões de toneladas, surge um excedente de açúcar de 1,1 milhão de toneladas.
“O crescimento do consumo mundial deve se contrair pela previsão de preços elevados do açúcar em comparação com outras alternativas, como os adoçantes de alta intensidade e o xarope de milho” (Abares)
No médio prazo, contudo, o quadro é um pouco diferente. A Abares trabalha com um crescimento anual de 2,3% até 2021/22. Nesse cenário, a expansão no consumo se daria em países com população e urbanização crescentes, com destaque para Brasil, China, Índia, Indonésia e Rússia. Em contrapartida, a União Europeia e os Estados Unidos veriam um declínio no consumo de açúcar.
Além disso, quem também destaca a importância do consumo no médio prazo é o BTG Pactual. A estimativa do banco traz um crescimento no consumo em torno de 2 milhões de toneladas para 2017/18, sendo que a instituição acredita que esse avanço deve se manter constante nos próximos anos. Ou seja, em vez de trabalhar com um crescimento em percentual, a instituição espera por um potencial volumétrico relativamente constante.
Como classifica a capacidade de crescimento da produção brasileira como ‘limitada’, o BTG Pactual acredita que os preços devem se manter atrativos, uma vez que a safra 2017/18 deve apresentar um excedente pequeno, de apenas 740 mil toneladas.
Aumento na produção
Ecoando a perspectiva de que o consumo global de açúcar deve crescer em um ritmo desacelerado, em 1,21%, o Serviço Tropical de Pesquisa (TRS, na sigla em inglês) projeta que esse índice chegue a 184,5 milhões de toneladas em 2016/17.
O TRS, que estima um déficit de 7,95 milhões de toneladas para a safra 2016/17, prevê um superávit de 2,85 milhões de toneladas para 2017/18. A principal justificativa dada para a mudança, entretanto, seria uma acentuada alta na produção.
A instituição espera que a produção suba para 187,4 milhões de toneladas na próxima temporada – 13 milhões a mais do que o volume produzido na safra 2016/17.
"Os principais motivos de nossa estimativa de uma recuperação na produção global de açúcar na safra 2017/18 são aumentos na produção de açúcar da Índia, União Europeia, Tailândia, no centro-sul do Brasil e África do Sul" (TRS)
Quem também aposta em uma alta na produção é a F.O. Licht, que espera por um excedente de 2 milhões de toneladas, motivado principalmente pela produção de açúcar de União Europeia, Tailândia e Índia. “Isso está sendo ajudado por melhoras nas condições climáticas e especialmente chuvas melhores na Ásia nos últimos meses”, afirmou a companhia, acrescentando que uma alta significativa na produção da União Europeia já era certa após a abolição de cotas de produção.
Possibilidade de mais um déficit
Ainda assim, há quem aposte em um terceiro déficit consecutivo no mercado global de açúcar. A Datagro, por exemplo, recentemente divulgou que espera um déficit de 200 mil toneladas no período de outubro a setembro.
Com um número bastante similar, a consultoria INTL FCStone acredita que a safra 2017/18 deve ter uma demanda superior à produção de açúcar em 271 mil toneladas. Mas, por mais que mantenha a perspectiva de déficit, a companhia apresenta um número mais positivo (para os compradores de açúcar) que o de sua última previsão, quando estimava um déficit de 462 mil toneladas.
A consultoria espera um crescimento pequeno na demanda, de 1,1%, chegando a 185,6 milhões de toneladas, além de uma maior produção na União Europeia, na Índia e em outros países asiáticos. “Grande parte da alta na produção deve vir da safra tailandesa e chinesa, com perspectivas de produzir 11,3 milhões de toneladas de açúcar (alta de 10,7% no comparativo anual) e 10,5 milhões de toneladas (alta de 9% no comparativo anual), respectivamente”, complementa.
Estoques em baixa
Embora ainda não tenha dado uma estimativa fechada para a temporada 2017/18, a Organização Internacional do Açúcar (ISO, na sigla em inglês) acredita que o déficit ‘provavelmente acabará’. Ainda assim, a organização afirma que os preços seriam sustentados pelos baixos estoques globais, que deverão cair em 11,1 milhões de toneladas.
"O equilíbrio comercial está extremamente apertado e pode apertar mais ainda se houver redução inesperada na produção", afirma o relatório. Para a safra que termina este ano, 2016/17, a ISO projeta um déficit global de açúcar de 5,869 milhões de toneladas.
Em sua estimativa mais recente, em novembro de 2016, o USDA projetava uma queda de 7,16 milhões de toneladas nos estoques, que finalizariam a safra com 30,8 milhões de toneladas.

Trabalhando com números diferentes, a australiana Abares também acredita que os estoques de 2017/18 devem atingir uma baixa. Entretanto, a agência estima que as reservar mundiais sejam mais elevadas e, dessa forma, ficariam em 65 milhões de toneladas.
Safra em andamento
O NovaCana também atualizou seu levantamento com relação à safra global 2016/17, que se encerra em setembro. Neste caso, todas as nove empresas consultadas apresentam uma projeção de déficit. A maior expectativa de déficit é da FCStone, com 8,10 milhões de toneladas. Já a menor é da Green Pool, com 4,3 milhões de toneladas.

Segundo a Green Pool, a previsão de um déficit menor é justificada pelo consumo abaixo do esperado na Índia. Em relação ao levantamento anterior, realizado em janeiro de 2017, F.O. Litch e ISO também diminuíram suas expectativas de déficit.
Por sua vez, a FCStone aumentou sua estimativa. Em dezembro, a consultoria esperava um déficit de 7,5 milhões de toneladas. Esse número foi posteriormente revisado para 8,5 milhões devido ao impacto da produção em queda na Índia. Contudo, a empresa reconsiderou esse resultado e, em maio, passou a esperar por um déficit de 8,1 milhões de toneladas de açúcar.
Nesse período, Abares, Datagro e Rabobank também ampliaram suas estimativas de déficit.

NovaCana DATA
Renata Bossle – NovaCana