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Tiago Santovito (Abiogás): “Até 2030, as sucroenergéticas deverão ser a grande potência na produção de biometano”

Diretor executivo da Abiogás fala sobre o papel da associação no fomento de políticas públicas para o biometano e sobre a perspectiva de evolução da oferta

NovaCana 10 min de leitura

Se a economia circular é cada vez mais mandatória e relevante, considerando metas de descarbonização e a necessidade de incremento na receita por parte das empresas, as sucroenergéticas que investem em biogás e biometano parecem estar um passo adiante.

Aproveitando o que seriam rejeitos da indústria de açúcar e etanol – a vinhaça e a torta de filtro –, é possível produzir biogás e purificá-lo para biometano. No último dia 13, as empresas São Martinho e Atvos destacaram seus planos em relação ao bicombustível durante um evento promovido pelo banco BTG Pactual.

O CEO da Atvos, Bruno Serapião, disse que a empresa está investindo em três unidades de biometano, com capacidade para produzir 28 milhões de metros cúbicos ao ano cada. Já o diretor financeiro e de relações com investidores da São Martinho, Felipe Vicchiato, contou que a primeira usina de biometano da empresa será inaugurada ainda em setembro.

Além disso, o novo investimento da Jalles também será em biometano. A empresa já possui uma planta de biogás feito com a vinhaça produzida na unidade Otávio Lage; com isso, segundo o diretor-presidente da empresa, Otávio Lage Filho, agora só é necessário fazer o investimento na purificação para o biocombustível.

A Companhia Mineira de Açúcar e Álcool (CMAA) é outro exemplo neste caminho, tendo assinado um memorando com a Goemit para desenvolver projetos de biogás e biometano em escala comercial a partir de resíduos da cana-de-açúcar.

Considerando o interesse das usinas no tema, a Conferência NovaCana incluiu as oportunidades de investimento nestes ativos no painel “Inovações no setor sucroenergético: biocombustíveis do futuro e soluções sustentáveis”. Um dos palestrantes confirmados é o diretor da Associação Brasileira do Biogás (Abiogás), Tiago Santovito.

Acompanharão o profissional, o estrategista global de açúcar do Rabobank, Andy Duff; o diretor de estratégias de novos negócios da Copersucar, Daniel Valle; e o vice-presidente de açúcar etanol e energia da Adecoagro, Renato Junqueira Santos Pereira.

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Santovito possui graduação em ciências contábeis pelo Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas e especialização em gestão estratégica de petróleo, gás e energias renováveis pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Já atuou como especialista em regulação na Brasken e como gerente de regulação de transporte e distribuição de gás natural no Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás. Atualmente, é diretor executivo da Abiogás.

A seguir, confira a entrevista completa.

O biogás despontou como um novo produto e fonte de receita para as usinas, especialmente considerando que usa um resíduo da produção do açúcar e do etanol. Como a Abiogás tem auxiliado as empresas que possuem este interesse a expandirem?
Aquilo que era considerado um resíduo, um passivo, pode virar um produto, sendo o biogás ou, se purificado, o biometano. Dentre outras características (ou funções, ou qualidades) tem aquela da economia circular, que é pegar um passivo ambiental e transformá-lo em um ativo para esses produtores. Esse passivo se torna energia. Sobre como a Abiogás auxilia na geração de valor para esse substrato, trabalhamos com políticas públicas, algo que de certa forma facilita com que esse energético seja disponibilizado, visando criar demanda para ele através de descarbonização. O Brasil hoje é importador de diversos energéticos que têm uma pegada de carbono muito alta, como, por exemplo, o GLP e o diesel. Então, trabalhamos em frentes de políticas públicas para substituir por biogás e biometano.

Um dos desafios apontados pela presidente da Abiogás, Renata Isfer, na entrevista que fizemos para a Conferência NovaCana de 2024 foi o desenvolvimento da regulação, por ser um mercado novo. De lá para cá, vocês viram avanços neste sentido?
É um momento bem diferente daquele do final ou do meio do ano passado. A aprovação da lei do Combustível do Futuro muda muito na construção do marco regulatório do nosso setor. A lei estabelece que os produtores e importadores de gás natural precisam adquirir biometano com certificado de garantia de origem (CGOB). Fazendo um panorama regulatório do ano passado para esse, temos que regulamentar toda a lei do Combustível do Futuro, determinar qual vai ser o percentual de descarbonização do setor de gás natural; precisamos regulamentar a questão do certificado; o CNPE [Conselho Nacional de Política Energética] precisa determinar as metas de descarbonização; e tem toda a parte do decreto regulamentador. Tem muita coisa que foi incorporada na parte regulatória, mas temos uma vantagem em relação a outros combustíveis ou a outros setores. O biometano é equiparado ao gás natural, então, uma boa parte da regulamentação do gás natural serve para o mercado de biometano. Fora isso, atualmente temos uma consulta pública da ANP para a classificação de dutos, que tem uma determinação para o produtor de biometano.

“Estamos trabalhando para que tenhamos bastante flexibilidade de conexão do biometano, seja via transporte, seja distribuição, para que isso ocorra de forma célere e visando as metas de descarbonização que temos a cumprir no país”, Tiago Santovito (Abiogás)

Outro fator que a Renata Isfer citou seria a infraestrutura. Você falou que estão trabalhando para isso. Acha que este item já melhorou, também comparativamente de um ano para cá, tanto em projetos como em ações práticas para escoamento desse biometano?
Eu diria que, em ações práticas, sim. Acompanhamos neste ano muitas revisões tarifárias das distribuidoras estaduais de gás canalizado e vimos investimentos importantes sendo feitos pelas distribuidoras para conectar o biometano – até porque a rede de distribuição é muito mais capilarizada. Ela é muito mais interiorizada do que o duto de transporte por vários motivos. A distribuidora precisa atender o mercado consumidor, então, muitas vezes essa rede de distribuição está perto da planta. Existe, sim, uma evolução dos investimentos feitos nos planos de expansão das distribuidoras, que é o que eu comentei. Mas queremos ter flexibilidade. Se para uma planta o transporte é mais econômico do que a distribuição, queremos ter a liberdade em conectar em um ou em outro.

Você também comentou sobre as metas do Combustível do Futuro, que começam a valer a partir do ano que vem. O setor está preparado e tem capacidade para o cumprimento desses objetivos? Considerando que eles crescem gradualmente, como está a perspectiva para a década?
Podemos separar em dois momentos: 2026 e o pós 2020. Para 2026, o que temos enxergado com base nas informações públicas, inclusive até da Petrobras (que fez a chamada pública para contratar biometano a partir do ano que vem), é que a empresa ficou bem surpreendida com a qualidade e com a quantidade das propostas que ela recebeu frente ao parâmetro que ela colocou; isso já gera um corte do mercado, pois precisa atender aos requisitos. Mesmo assim, a empresa ficou surpresa com a quantidade, a qualidade e a consistência das propostas. Vemos para 2026 um momento inicial desta engrenagem funcionando, com a Petrobras encabeçando muito esse setor, até porque ela é a principal agente. Para além de 2026, vemos uma crescente com novas plantas que vão entrar em 2027 e 2028 e esse volume tende a crescer. Lógico que isso vai ter que ser calculado ano a ano, mas temos boas perspectivas de aumento de volume perante os nossos estudos e aquilo que temos visto no mercado.

E falando dessa perspectiva de aumento de volume. No setor sucroenergético, existem quatro plantas já liberadas para produção de biometano. Uma projeção da Abiogás para 2032 aponta que mais da metade do potencial viria de resíduos sucroenergéticos. Essa projeção ainda é válida? Como vocês têm enxergado esta expansão?
Na Abiogás, trabalhamos em três momentos. O momento atual, que são as 12 plantas autorizadas pela ANP, que tem capacidade de produzir quase 1 milhão de metros cúbicos por dia; um segundo momento, de bem curto prazo, que são as 38 plantas que estão em processo de autorização na ANP e que vão começar a produzir. Isso vai levar o número para 2,2 milhões de m³/dia; e temos a perspectiva que você comentou para 2030. Seriam 127 plantas mapeadas, que aumentariam o volume para até 8 milhões de m³/dia. Dessas 127 plantas mapeadas, 58% são do setor sucroenergético. Vemos um salto muito grande para esse substrato. Hoje, a maioria do volume vem de resíduos sólidos urbanos e, a partir dessa data, vemos uma crescente muito forte do setor sucroenergético, passando inclusive a capacidade de resíduos urbanos e se tornando a grande potência de produção de biometano.

Quais são os mercados mais quentes no momento para o biogás? Seria a própria exportação de energia elétrica, a produção de biometano ou até mesmo o uso do produto para produção de SAF?
A aplicação é bem ampla. Podemos falar de geração de energia, hidrogênio, SAF e mesmo a produção de biometano, que vai servir para várias funções, como transporte, para uso na indústria e, inclusive, para a produção de biofertilizantes. No momento inicial, as plantas estavam muito focadas em produzir biogás, mas o biometano tem um valor agregado muito importante. Então, o que vemos agora são plantas muito mais focadas em biometano do que em biogás, que foi aquele movimento inicial de se gerar energia ou mesmo comprimir esse biogás e usar para algum fim específico. Porque o biogás não tem a regulamentação da especificidade, como tem o biometano, que precisa ser purificado e seguir uma regra da ANP. Seguindo essa regra da agência, o produtor vai ter outras aplicações que podem ter mais valor agregado do que simplesmente o biogás. Além disso, há discussões relevantes sobre produção, inclusive de combustível marítimo. Então, uma parte da frota mundial de navio já usa o GNL como combustível e podemos fazer o bioGNL para usar também como combustível marítimo. É uma outra aplicação que está sendo bem discutida.

“O biometano já é uma realidade. Ele deixou de ser uma perspectiva ou um mercado que não iria deslanchar. Acho que, hoje, com a quantidade de projetos que vemos dia após dia sendo aprovada, temos uma segurança de que nosso setor está caminhando no sentido certo”, Tiago Santovito (Abiogás)

Um dos usos do biometano é na substituição do diesel na própria frota das usinas. Como vocês veem este cenário hoje, considerando a necessidade de eventual substituição das frotas?
Eu acredito fortemente que é uma tendência e vai continuar. Não faz sentido nenhum pegar o diesel, que é importado, produzido em uma refinaria, e levar para um lugar distante para ele ser consumido. É muito mais fácil gerar o seu energético localmente e substituir, tendo em vista a pegada de descarbonização que ele tem. Lógico que precisa de políticas públicas, incentivo e destinação de verba para que esse caminhão seja trocado sem onerar tanto as operações das empresas. Para isso, existem vários programas do governo que disponibilizam verba para essa troca de caminhão, de diesel para biometano.


Estas e outras discussões a respeito inovações, tecnologias e nichos de mercado acontecerão na Conferência NovaCana 2025. Confira a programação completa no site do evento.


Gabrielle Rumor Koster – NovaCana

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