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Preços firmes e superávit: O que esperar do mercado global de açúcar em 2022/23

Durante a Conferência NovaCana, Czarnikow, Platts, BTG Pactual, Sucden e StoneX trouxeram suas visões para a temporada global que está começando

NovaCana 24 min de leitura

Por conta de produções de açúcar mais firmes nos principais países, os analistas do setor projetam um superávit para o ciclo global 2022/23 (outubro a setembro). Conforme números de cinco companhias, a média expressa uma produção acima do consumo em 3,68 milhões de toneladas. As informações foram divulgadas durante a Conferência NovaCana.

O valor já é maior do que o obtido pelo portal em levantamento de junho. Naquela sondagem, as 15 empresas consultadas previam um superávit médio de 1,35 milhão de toneladas.

Dentre as empresas analisadas, a S&P Global Platts foi a que visualizou o maior superávit para a temporada 2022/23, estimando 4,34 milhões de toneladas. A produção crescente é puxada principalmente por Brasil, Tailândia e Rússia.

“Uma estimativa preliminar para 2023/24 – ainda é distante e muita coisa pode acontecer – é de um novo superávit de 3,3 milhões de toneladas. Mas não vemos todo esse excedente disponível para mercado”, destaca a analista de açúcar da Platts, Luciana Torrezan.

A StoneX apresentou o segundo maior número, com 3,88 milhões de toneladas. O analista de inteligência de mercado Filipe Cardoso corrobora com Torrezan e diz que a produção brasileira contribui para o saldo positivo. Com isso, a consultoria começa a visualizar uma folga para os estoques globais de açúcar.

Já a Sucden espera um superávit de 3,7 milhões de toneladas para a temporada global 2022/23. A trading também acredita que isso não é motivo de preocupação, seguindo positiva para o mercado.

“Até o final do primeiro semestre de 2023, o mercado continuará bastante apertado e, a partir do segundo semestre, talvez haja uma preocupação menor, caso se configure uma safra maior para o Brasil e em outras grandes origens”, destaca o gerente comercial da Sucden Brasil, Ulysses Carvalho.

Por sua vez, a expectativa mais baixa de superávit é da Czarnikow, com 3 milhões de toneladas para 2022/23. O diretor da empresa, Tiago Medeiros, explica que boa parte do superávit previsto é gerado por países em que o volume não é necessariamente disponibilizado ao mercado, como é o caso da Índia.

“Não significa oferta. Pode ser aumento de estoques em países em que o açúcar fica empoçado e acaba não sendo destinado ao mercado internacional. Acreditamos que, se tivéssemos previsões para 2024/25 e 2025/26, teríamos déficits”, destaca.

Enquanto isso, para o ciclo que se acaba, o 2021/22, a visão das cinco empresas oscila entre déficit e superávit. Com isso, na média, elas esperam que a produção sobressaia a demanda em somente 970 mil toneladas.

A visão mais superavitária é a da Czarnikow, com 6,1 milhões de toneladas, enquanto o banco BTG Pactual enxerga o maior déficit, com 1,9 milhão de toneladas.

“A gente vem de dois ciclos bastante prejudiciais, trabalhando em patamares negativos em 2019/20 e 2020/21, porém esse cenário se inverte em 2021/22 com um saldo positivo de 340 mil toneladas”, detalha Cardoso, da StoneX. A produção vem de ganhos na Índia, na Tailândia e no Paquistão, que acabaram favorecendo o saldo positivo.

Confira, na versão completa e exclusiva aos assinantes do NovaCana, detalhes das produções de açúcar nos principais produtores globais, além de mecânicas de consumo, projeções de estoque e perspectivas para o cenário de preços.

Por conta de produções de açúcar mais firmes nos principais países, os analistas do setor projetam um superávit para o ciclo global 2022/23 (outubro a setembro). Conforme números de cinco companhias, a média expressa uma produção acima do consumo em 3,68 milhões de toneladas. As informações foram divulgadas durante a Conferência NovaCana.

O valor já é maior do que o obtido pelo portal em levantamento de junho. Naquela sondagem, as 15 empresas consultadas previam um superávit médio de 1,35 milhão de toneladas.

Dentre as empresas analisadas, a S&P Global Platts foi a que visualizou o maior superávit para a temporada 2022/23, estimando 4,34 milhões de toneladas. A produção crescente é puxada principalmente por Brasil, Tailândia e Rússia.

“Uma estimativa preliminar para 2023/24 – ainda é distante e muita coisa pode acontecer – é de um novo superávit de 3,3 milhões de toneladas. Mas não vemos todo esse excedente disponível para mercado”, destaca a analista de açúcar da Platts, Luciana Torrezan.

A StoneX apresentou o segundo maior número, com 3,88 milhões de toneladas. O analista de inteligência de mercado Filipe Cardoso corrobora com Torrezan e diz que a produção brasileira contribui para o saldo positivo. Com isso, a consultoria começa a visualizar uma folga para os estoques globais de açúcar.

Já a Sucden espera um superávit de 3,7 milhões de toneladas para a temporada global 2022/23. A trading também acredita que isso não é motivo de preocupação, seguindo positiva para o mercado.

“Até o final do primeiro semestre de 2023, o mercado continuará bastante apertado e, a partir do segundo semestre, talvez haja uma preocupação menor, caso se configure uma safra maior para o Brasil e em outras grandes origens”, destaca o gerente comercial da Sucden Brasil, Ulysses Carvalho.

Por sua vez, a expectativa mais baixa de superávit é da Czarnikow, com 3 milhões de toneladas para 2022/23. O diretor da empresa, Tiago Medeiros, explica que boa parte do superávit previsto é gerado por países em que o volume não é necessariamente disponibilizado ao mercado, como é o caso da Índia.

“Não significa oferta. Pode ser aumento de estoques em países em que o açúcar fica empoçado e acaba não sendo destinado ao mercado internacional. Acreditamos que, se tivéssemos previsões para 2024/25 e 2025/26, teríamos déficits”, destaca.

saldo global 041022

Enquanto isso, para o ciclo que se acaba, o 2021/22, a visão das cinco empresas oscila entre déficit e superávit. Com isso, na média, elas esperam que a produção sobressaia a demanda em somente 970 mil toneladas.

A visão mais superavitária é a da Czarnikow, com 6,1 milhões de toneladas, enquanto o banco BTG Pactual enxerga o maior déficit, com 1,9 milhão de toneladas.

“A gente vem de dois ciclos bastante prejudiciais, trabalhando em patamares negativos em 2019/20 e 2020/21, porém esse cenário se inverte em 2021/22 com um saldo positivo de 340 mil toneladas”, detalha Cardoso, da StoneX. A produção vem de ganhos na Índia, na Tailândia e no Paquistão, que acabaram favorecendo o saldo positivo.

Preços firmes

Torrezan destaca que os contratos futuros de açúcar bruto negociados em Nova York oscilam de 17,80 a 20,50 centavos de dólar por libra-peso desde o meio do ano passado. De acordo com ela, eles estão “sem muita força” para romper qualquer um dos lados.

A analista observa que o valor chegou a passar do nível de baixa em junho, mas depois se recuperou e, nos últimos dois meses, tem ficado em uma faixa ainda mais estreita. “Diferentemente de outras commodities agrícolas, que representaram mais volatilidade, o açúcar foi até resiliente”, afirma.

Ela ainda completa: “Como o nosso trade flow [fluxo comercial, em tradução livre] está praticamente balanceado, com pequeno superávit até o primeiro trimestre do ano que vem, achamos que o preço de Nova York ficará próximo dos 18 centavos de dólar, o que deve viabilizar exportações da Índia”.

Ela também diz que o mundo vai precisar das 7 milhões de toneladas do país asiático no primeiro trimestre do ano que vem. Depois disso, com um fluxo global crescente, os preços do etanol no Brasil talvez voltem a se tornar um direcionador dos preços de Nova York. “Até lá, vemos o preço de Nova York deslocado do valor do etanol”, projeta.

Enquanto isso, para o açúcar branco, o fluxo comercial considerado pela Platts é mais apertado. Mesmo que ele fique superavitário no segundo trimestre do ano vem, deve voltar a ficar balanceado até o final de 2023. “É necessário incentivar as refinarias do Oriente Médio, do norte da África e até da Índia a operarem; para isso, elas precisam ser remuneradas”, diz Torrezan.

Já Medeiros, da Czarnikow, tem visões altistas para os preços a médio prazo: “A projeção que temos é que deva variar na maior parte do tempo entre 19 e 23 centavos de dólar por libra-peso. É um preço bastante remunerador”.

Ele complementa que o açúcar vem sendo negociado em torno de 18,50 centavos de dólar por libra-peso, o que representa um prêmio de cerca de 400 a 500 pontos sobre o etanol. “É muito alto. A sensação de quem está no mercado físico é que a demanda segue muito forte, independentemente dos preços elevados”, acredita o diretor da Czarnikow.

Ele ainda pontua que o prêmio para embarque imediato de açúcar bruto chegou a 40 pontos. Assim, somando o preço do mercado em Nova York ao prêmio, o resultado é uma rentabilidade de quase 19 centavos de dólar.

“Olhando o açúcar branco em relação ao bruto atingimos uma arbitragem recorde de dez anos, com prêmio de US$ 200 por tonelada. Mesmo o Brasil tendo maximizado a produção de açúcar e conseguido entregar mais 1,5 milhão de toneladas além do que estava previsto para esse ano, o mercado continua muito forte”, esclarece.

“O açúcar foi bastante resiliente em relação a todo o complexo de energia. A boa sustentação dos preços vai ajudar nos resultados das usinas dada a queda abrupta no valor do etanol”, Ulysses Carvalho (Sucden)

Mas a capacidade de carrego de açúcar brasileiro, de acordo com o diretor da Czarnikow, deve ser muito baixa. Ele aponta que o preço atual é o mais elevado em relação ao valor futuro, demostrando que o mercado está “invertido”.

“No primeiro trimestre do ano que vem, vamos para uma entressafra em que o mundo vai contar muito pouco com a disponibilidade de açúcar brasileiro”, afirma e completa: “Vamos encontrar açúcar na Índia, onde há uma paridade de exportação que requer um preço de açúcar de, pelo menos, 19 centavos de dólar para ter retorno”.

Com isso, a visão da Czarnikow é de que o preço do açúcar continuará relativamente pressionado pelos próximos seis a sete meses.

O sócio da FG/A, Willian Hernandes, destaca que o período atual é “estranho”. De acordo com ele, pela primeira vez, o valor do açúcar ultrapassou – ou pelo menos chegou próximo a – R$ 2 mil por tonelada e não houve aumento na capacidade de produção.

“É bom ter preços elevados sem aumento de capacidade. O que inibiu os preços do açúcar em momentos de 2017, quando houve um aumento de quase 7 milhões de toneladas, ou em 2010 e 2011, foi que o setor respondeu muito rápido a estes preços com aumento de capacidade, mas não vemos isso agora e não tenderemos a ver”, completa.

Influência indiana nos preços

Para Carvalho, da Sucden, os preços do açúcar em Nova York entre 18 a 19,50 centavos de dólar correspondem à faixa entre a paridade de margem de importação chinesa e a paridade de exportação indiana.

“Muito provavelmente teremos algum tipo de pressão daqui para frente”, prevê e explica: “Vimos que o mercado caiu e a margem de importação chinesa está em um nível mais baixo; precisamos buscar um pouco mais dessa demanda. Mas acredito que 17,50 [centavos de dólar] já é um piso interessante e, adiante, a paridade de exportação indiana deva ficar na casa de 19 a 19,50 [centavos de dólar]”.

Carvalho enxerga que as incertezas políticas indianas e os estoques internos são os principais fatores que podem trazer um pouco mais de força para a commodity. “Creio que podemos ver o mercado romper os 20 centavos de dólar caso o governo indiano, por uma questão de segurança, decida liberar de 5 a 6 milhões de toneladas [para exportação] e não 8 milhões de toneladas, como boa parte do mercado prevê”, destaca.

Ele incrementa que, diferentemente da China, a Índia só possui três meses de estoques reguladores. “É uma diferença bastante grande e um ponto de atenção dada a preocupação que ainda temos quanto ao clima indiano, afinal, as monções não estão totalmente definidas”, completa.

Do lado dos elementos baixistas, ele cita questões macroeconômicas de risco de recessão, aumento de taxa de juros nos Estados Unidos, fatores relacionados a uma política de preços de combustíveis e um preço de etanol hidratado inferior a 15 centavos de dólar por libra-peso.

Brasil “max sugar”

Mesmo com a quebra na safra do Centro-Sul e uma consequente redução bastante significativa da produção de açúcar, já existe uma recuperação projetada para o ciclo global 2022/23, de acordo com Cardoso, analista da StoneX.

Segundo ele, as condições climáticas nas duas regiões produtoras brasileiras estão favoráveis, com o direcionamento de cana para o açúcar projetado para aumentar para a próxima safra. Com isso, são esperadas 35,11 milhões de toneladas no Centro-Sul e 3,13 milhões de toneladas do Norte-Nordeste, somando 38,24 milhões de toneladas em 2022/23.

Ainda de acordo com Cardoso, analisando o continente americano, é possível considerar uma queda de produção na safra 2021/22 seguida de crescimento para 2022/23, um resultado influenciado principalmente pelo Brasil.

Além disso, entre as projeções de mix de produção para a safra brasileira divulgadas na Conferência NovaCana também está a da Czarnikow. “Para 2022/23, prevemos um mix de 45%, com uma produção de açúcar de 33,2 milhões de toneladas e, para 2023/24, mantendo a maximização do açúcar com 47%, atingindo a produção de 34,9 milhões de toneladas”, aponta Medeiros.

“Não existe nenhum país tão competitivo como o Brasil na produção de açúcar e, mesmo que houvesse, têm culturas que podem remunerar melhor que o açúcar tanto na Tailândia quanto na Índia”, Tiago Medeiros (Czarnikow)

Torrezan, da Platts, também aponta para uma perspectiva de maximização da produção de açúcar por parte das usinas, tanto na safra atual quanto na próxima. “O açúcar tem um prêmio de 400 pontos em relação ao etanol e estimamos que ele deve ficar entre 200 e 300 pontos para a próxima safra. Tomamos como referência a curva futura de Nova York e a nossa projeção de preço de hidratado”, explica a analista.

Com isso, a estimativa da Platts para a moagem de cana na safra nacional 2022/23 é de 550 milhões de toneladas, com uma produção de açúcar de 33,3 milhões de toneladas. Para a próxima temporada, a empresa espera uma recuperação da produção para 585 milhões de toneladas e uma fabricação de açúcar de 36,1 milhões de toneladas.

“Todas as incertezas se refletem nas estimativas de mercado. Fizemos um levantamento com 15 casas em relação a produção de açúcar para a próxima safra e vemos uma variação enorme, de 4 milhões de toneladas, entre 33 e 37 milhões de toneladas”, relata e completa: “Quando aplicamos isso no cenário global de açúcar dá uma diferença enorme em termos de balanço e de preços”.

“O nosso trade flow começa a ficar mais pesado a partir do segundo ou terceiro trimestre da safra que vem, que é quando o Brasil tem mais flexibilidade de produção. A função do mercado seria limpar esse excedente – o Brasil, com a elasticidade do mix, poderia fazer isso”, Luciana Torrezan (Platts)

Índia: açúcar versus etanol

No caso da Índia, Cardoso, da StoneX, pontua que os canaviais do país sofreram bastante em 2020/21 devido a questões climáticas, mas que ocorreu uma reviravolta com aumento significativo de chuvas, favorecendo o ganho de produtividade. Além disso, houve incentivos do governo para a produção do adoçante.

“O país acabou batendo o recorde na safra 2021/22, alcançando 36 milhões de toneladas. Para 2022/23, os três estados principais já anunciaram expansão de área e a condição climática segue favorável”, destaca Cardoso.

Com isso, ele projeta 36,5 milhões de toneladas para o ciclo que se inicia. “O único limitante é a meta de etanol, de 20% de mistura na gasolina até a safra 2025/26. As usinas precisam aumentar gradualmente esta porcentagem”, destaca. Ele relembra que, a cada ano, uma parte maior do açúcar será destinada à produção do biocombustível, limitando o crescimento do adoçante.

O diretor da Czarnikow ainda acrescenta que a meta motivou investimentos massivos na construção de destilarias. “Entrando na safra 2022/23, 4 milhões de toneladas serão transformadas em etanol. A Índia produz 36 milhões, consome 27 milhões e ainda sobram 9 milhões – dessas, 4 milhões de toneladas serão transformadas”, explica.

Em quase dois anos, esse valor deve subir para 8 milhões de toneladas, segundo ele. “Acreditamos que a Índia deixará de produzir excedentes anuais, mesmo eles não podendo ser disponibilizados a mercado, à medida que o país se aproxima da neutralidade entre produção e consumo”, complementa.

Já a visão da Platts é que sejam fabricadas 34,7 milhões de toneladas em 2022/23, volume inferior à visão da Czarnikow e da StoneX. “Achamos que não haverá recuperação de moagem devido à seca e ao aumento do uso do açúcar para produção de etanol”, afirma Torrezan.

Ela acredita que o volume a ser destinado ao renovável será de 4,5 milhões de toneladas e que ele pode aumentar, limitando a disponibilidade do adoçante para exportação em 7 a 7,5 milhões de toneladas.

“Depende de como o governo vai controlar essa exportação, provavelmente liberando 5 milhões e, depois, aumentando mais 2 ou 3 milhões, a depender de como evoluirá o preço doméstico. De qualquer forma, tentarão manter um estoque de pelo menos três meses e isso limitaria a exportação em 7,5 milhões em nosso cenário”, projeta.

Outro fator de atenção é que o país tem uma crise hídrica recorrente. “Estamos há muito tempo sem ver e é provável que aconteça; quando isso ocorre, gera uma quebra de produção de açúcar de 10 milhões de toneladas”, relata Medeiros. Ele crê que, no horizonte de cinco anos, a Índia deverá se tornar importadora de açúcar em um ou dois deles.

Já Carvalho, da Sucden, visualiza que há chances de crescimento de área na Índia, especialmente no estado de Maharashtra, o mais susceptível a intempéries climáticas. “Logicamente, quando tivermos um revés climático, isso trará um impacto”, completa.

Além disso, a previsão da Sucden é que a safra do país deva continuar na faixa dos 36 milhões de toneladas.

“Há um empenho muito grande de todos os agentes governamentais em fazer a questão dos biocombustíveis andarem”, detalha Carvalho, que complementa: “A notícia mais altista é uma discussão do governo com as empresas de petróleo da Índia no sentido de aumentar a remuneração do etanol em 2 a 3 rúpias por litro, o que é um incremento bastante significativo e que, certamente, vai dar um apoio para que a produção possa se expandir”.

Ele ainda declara que há notícias que suportam a busca da meta de 20% em 2025. Entretanto, considera o patamar “desafiador”, pois seria preciso considerar o preço do petróleo, uma vez que valores mais altos farão com que as empresas busquem as alternativas.

“A produção de etanol na Índia não é apenas de cana – eles têm outros cereais e produtos que são considerados para a produção e isso entra um pouco na discussão food versus field [alimento versus campo, em tradução livre]. Acho que é uma preocupação que o país tem, dado o banimento das exportações de arroz”, explica o diretor.

Ele ainda reitera que os indianos também precisam entender questões técnicas da produção, apesar de fabricarem equipamentos. “Há um dever de casa, mas tem um esforço político e institucional para acontecer”, completa.

China segue importando

No caso da China, o país sofreu bastante com o clima em 2021/22. Áreas de beterraba sacarina tiveram dificuldades com a seca e regiões canavieiras vivenciaram chuvas excessivas que causaram alagamentos e perdas.

“Em 2021/22, a beterraba perdeu 42% da área de produção, uma queda acentuada. Na safra 2022/23, a China continua sofrendo com o clima em suas regiões de produção, mas o aumento na produção vem justamente na recuperação da área de beterraba e de algumas de canavial”, complementa Cardoso, da StoneX.

A visão da consultoria é que o país seja responsável por 10 milhões de toneladas de açúcar em 2022/23. “A China tem estoques reguladores que objetivam garantir um fornecimento do produto de quase um ano”, completa o gerente.

De acordo com ele, o país deve importar cerca de 4,3 milhões de toneladas de açúcar, o que também é importante para o Brasil.

Apesar da redução dos fretes internacionais – durante a pandemia, o envio para a China chegou na casa de quase US$ 80 dólares por tonelada contra US$ 30/t a US$ 35/t antes da pandemia –, ainda há margens de importação negativas. “Temos uma parte das importações que vem de cota, com 15% do imposto de importação, e nesse caso a margem é positiva”, destaca.

Segundo o analista, a China continua sendo bastante importante para o Brasil, assim como a Indonésia, chegando a demandar de 4,5 a 5 milhões de toneladas. “O país foi predominantemente fornecido pela Índia no início do ano e, depois, passou a receber do Brasil”, complementa.

Tailândia vê recuperação

Já na Tailândia, de acordo com a StoneX, a produção sofreu bastante em 2020/21, porém apresenta uma melhora climática crescente em 2021/22, prometendo incremento na produção.

“O país tem espaço para crescer ainda mais, mas o que limita é o custo de produção. Quando comparado com a mandioca, que compete por área, a cana tem um custo superior de 40% nessa produção”, observa o analista. O país deve chegar a 11,5 milhões de toneladas em 2022/23, vendo a retomada da produção.

Para a Platts, a perspectiva é levemente maior, com projeção de 11,6 milhões de toneladas. Conforme Torrezan, há maior intenção de produzir o açúcar branco dado o aumento do preço do refinado e o incremento do prêmio.

Conforme Carvalho, da Sucden, a produção tailandesa também tem um viés um pouco mais otimista em detrimento dos preços relativos, especialmente da mão de obra. “Vemos um incremento de cana para 109 milhões de toneladas, o que vai fazer com que haja um aumento na produção de açúcar em 2 milhões de toneladas”, revela Carvalho.

Europa com produção em baixa

Por outro lado, a Europa não está tendo bons resultados. O continente sofreu em 2021/22 por conta do vírus amarelo, mas se recuperou por conta do clima favorável no início da safra. Porém, agora está enfrentando uma seca em que ondas de calor prejudicam a produção de beterraba sacarina. Com isso, a visão da StoneX é que sejam produzidas 16 milhões de toneladas de açúcar pelo continente.

Outro fator de baixa é o custo de produção. Na Europa, ele tem agido como um fator limitante para as indústrias, uma vez que o gás natural, principal fonte energética, está batendo recordes de cotação.

Com argumentos semelhantes relacionados à seca, Medeiros, da Czarnikow, diz que a produção de açúcar deve cair de 17,6 milhões para 16,1 milhões de toneladas. “A longo prazo, a Europa não tem grande potencial de crescimento”, completa.

Carvalho, da Sucden, reitera a questão de energia, e complementa que o continente vive um momento complexo do ponto de vista de gestão dos seus ativos de gás natural. Ele ainda especifica uma queda na produtividade agrícola francesa bastante relevante por conta da estiagem, gerando perdas de 10%.

“Isso acontece nos outros países da União Europeia e faz com que tenhamos uma safra relativamente baixa e muito parecida com a de 2020/21, na faixa de 15,2 milhões de toneladas”, destaca Carvalho, com valores ainda mais baixos que os estimados pela Czarnikow.

Conforme Torrezan, da Platts, os produtores europeus estão se desviando para outras culturas mais remuneradoras – com isso, a estimativa da consultoria é de uma redução de 1,3 milhões de toneladas na produção da commodity. A analista ainda acrescenta que a União Europeia continua como importadora, exportando somente cerca de 600 mil de toneladas.

De onde virá o açúcar?

Em sua palestra, Medeiros falou sobre os receios da trading quanto à origem do açúcar necessário para atender à demanda mundial. “A gente realmente vê com bastante preocupação o abastecimento do açúcar no médio e no longo prazos”, afirma e segue: “Precisamos que o mix de produção continue maximizado pelos próximos 3 a 5 anos, até que tenhamos tempo para que Tailândia e países da África e da América Central decidam iniciar programas de expansão”.

“Vamos precisar de preços mais altos para atrair investimento em greenfields no Brasil”, Tiago Medeiros (Czarnikow)

Ele acrescenta que, por mais que o momento seja pessimista para o preço do etanol, a visão da Czarnikow é de que esse cenário pode mudar a partir do ano que vem, quando o ambiente eleitoral não estiver tão carregado. Segundo o analista, isso deixará mais claro quais são os desafios de investimentos que o país terá que enfrentar a fim de continuar atendendo o crescimento do consumo global.

Medeiros ainda pontua que, analisando o cenário para os próximos quatro anos e considerando que o consumo continue crescendo 2,5 milhões ao ano, o mundo demandaria 10 milhões de toneladas a mais. “De onde viria esse volume? O Brasil é o mais bem posicionado para entregar esse crescimento. Acreditamos que atenda a pelo menos metade, 5 milhões de toneladas, chegando a 40 milhões de toneladas no horizonte de quatro anos”, visualiza.

Ele completa que a grande incógnita é de onde virão as outras 5 milhões de toneladas. “Tenho dificuldade de ser assertivo, mas precisamos que a Índia cresça sua produção de açúcar de forma substancial. Achamos que, entre quatro a cinco anos, os excedentes de açúcar serão de 1 a 2 milhões de toneladas apenas”, destaca.

Outra fonte é a Tailândia quem, segundo Medeiros, obteve um dos melhores retornos por hectare para produção de açúcar. Por lá, seria preciso uma recuperação da produção para 14 milhões de toneladas. “Se isso acontecer, são mais 3 milhões de toneladas. Se tudo ocorrer muito bem, talvez a gente consiga atingir os 10 milhões”, complementa Medeiros.

O que pode não sair tão bem considerando estas contas é o aumento do preço do petróleo. Com uma elevação, a produção brasileira de açúcar cai abruptamente por conta da vantagem para o etanol. Outro ponto é o período inflacionário, que faz as pessoas substituírem hábitos de consumo e que também justifica a maior demanda por açúcar.

“Tem as questões climáticas das ofertas concentradas em poucos países. Outro fator muito importante não é a produção, mas como fazer o excedente chegar ao destino”, explica o diretor da Czarnikow.

No curto prazo, ele visualiza que o Brasil não tem mais capacidade de exportação. “Já exportamos o máximo de 2,5 milhões de toneladas por mês e, com qualquer aumento da produção de açúcar, teremos um carrego da oferta para o final do período de safra”, enxerga.

Para o chefe trading de açúcar da Cofco International Brasil, Maurício Sacramento, as exportações talvez tenham uma capacidade um pouco acima do que a visualizada por Medeiros. Ainda assim, ele também considera que o país está chegando ao limite. “Esse mês [de setembro] vai decepcionar por conta da chuva, não por falta de produto. Mas em agosto vimos um número bem expressivo, que chegou a 3 milhões de toneladas”, diz.

Demanda inelástica

O preço do açúcar é determinado por oferta, uma vez que a demanda é bastante inelástica, crescendo cerca de 1,5% ao ano, conforme Medeiros. “Durante a pandemia, a Czarnikow imaginou que o consumo de açúcar seria fortemente afetado, em partes por uma substituição de hábitos considerados mais saudáveis e em partes por uma queda de renda. Mas, à medida que a pandemia passou, a gente se surpreendeu com a volta da demanda”, relata

Com isso, o crescimento de consumo na comparação anual foi de 2,5 milhões de toneladas, relata o diretor. Segundo ele, a equipe da Czarnikow tem observado que a demanda pode continuar crescendo nesta faixa; por outro lado, a produção já contém desafios maiores.

“O estoque global em 2021/22 cresce, mesmo que sutilmente, em 300 mil toneladas; para a safra 2022/23, vemos o crescimento também, mas de quase 4 milhões de toneladas. A relação estoque-uso vai de 40% para 43% no final de 2022/23”, complementa Cardoso, da StoneX.

Gabrielle Rumor Koster – NovaCana

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